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terça-feira, 23 de outubro de 2018

A ALEGRIA PARTICULAR DE NADA SER


Detive-me hoje diante de um verme da terra, coberto de lama e arrastando-se aos meus pés na poeira... e senti meus olhos encherem-se de lágrimas. Se este animal, dizia a mim mesmo, possuísse a razão e compreendesse sua humilde condição em face da minha e se consentisse em ser um simples verme e em mover-se com dificuldade e em nutrir-se da terra, por consideração a mim... parece que eu me sentiria sensibilizado: o amor deste ser insignificante comoveria meu coração e eu o amaria por minha vez.

E se, dirigindo-se a mim do fundo de sua baixeza, me dissesse: “Nada mais desejo na minha miserável existência, livremente aceita, senão vos ser agradável. Quisera nunca fazer o menor movimento que vos pudesse desagradar ou causar desgosto”. Como estimaria este humilde animal e como ficaria sensibilizado com tanto devotamento!

E se continuasse dizendo que queria ficar sempre verme, para me proporcionar a felicidade de ser sempre dotado de inteligência, de liberdade e de nobreza, que seu único prazer consistira sempre em me ver rico e feliz; como eu me inclinaria com gratidão e respeito ante esse pequeno ser tão generoso e tão esquecido de si mesmo!

Se, enfim, acrescentasse que me consagrou todo o amor de que um verme da terra, coberto de lodo, pode ser capaz e quereria aumentar e elevar este amor, fazendo que todos os seus semelhantes a ele se associassem, como o esforço desta humilde criatura me lançaria na admiração e me forçaria a amá-la por minha vez.

Ó Jesus! Lembrai-vos que este pequeno verme da terra, arrastando-se aos vosso pés, sou eu.

(Pe. José Shrijvers, Almas Confiantes, cap. X – Os Frutos do Espírito Santo, Art. II)

MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O RESPEITO DEVIDO AOS SACERDOTES –------ SANTA CATARINA DE SENA -------

"Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue de Jesus Cristo"
"Filha querida, ao manifestar-te a grande virtude daqueles pastores, quero colocar em evidência a dignidade dos meus ministros. Pelo pecado de Adão, as portas da eternidade fecharam-se, mas o meu Filho abriu-as com a chave do seu sangue. Ao sofrer a paixão e morte, ele destruiu vossa morte e vos lavou no sangue. Sim, foram seu sangue e sua morte que, em virtude da união da natureza divina com a humana, deram acesso ao céu. E a quem deixou Cristo tal chave? Ao apóstolo Pedro e a seus sucessores, os que vieram e que virão depois dele até o dia do juízo final. Todos possuem a mesma autoridade de Pedro; nenhum pecado a diminui, do mesmo modo que não destrói a santidade do sangue de Cristo e dos Sacramentos. Já disse que o sol eucarístico não tem manchas e que o mal cometido por quem o administra ou recebe não apaga sua luz. Não, o pecado não danifica os sacramentos da santa Igreja, não lhes diminui a força; prejudica a graça e aumenta a culpa somente em quem os ministra ou recebe indignamente.

Na terra, quem possui a chave do sangue é o Cristo-na-terra. Certa vez eu te manifestei essa verdade numa visão, para indicar o grande respeito que os leigos devem ter pelos ministros, bons ou maus que eles sejam, e quanto me desagrada que alguém os ofenda. Pus diante de ti a jerarquia da Igreja sob a figura de uma dispensa contendo o sangue de meu Filho. No sangue estava a virtude de todos os sacramentos e a vida dos fiéis. À porta daquela despensa, vias o Cristo-na-terra, encarregado de distribuir o sangue e fazer-se ajudar por outros no serviço de toda a santa Igreja. Quem ele escolhia e ungia, logo se tornava ministro. Dele procedia toda a ordem clerical; ele dava a cada um sua função no ministério do glorioso sangue. E como dispunha dos seus auxiliares, possuía a força de corrigi-los nos seus defeitos.

De fato, é assim que eu quero que aconteça. Pela dignidade e autoridade confiada a meus ministros, retirei-os de qualquer sujeição aos poderes civis. A lei civil não tem poder legal para puni-los; somente o possui aquele que foi posto como senhor e ministro da lei divina.

Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: “Não toqueis nos meus cristos” (Sl 105, 15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros; não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a mim e a meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: “Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos”!

O valor do sacerdócio provém do
 próprio Nosso Senhor Jesus Cristo
Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: “Eu não ofendo a santa Igreja, nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores”! Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência. Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa neles vê somente muitos defeitos e pecados. De tais defeitos falarei em outro lugar. Mas quando o respeito se fundamenta em mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; como disse, a grandeza da eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.



Santa Catarina de Sena, “O Diálogo” Cap. 28. Paulus, 9ª edição, SP, 2005 p. 237-240













MARIA SEMPRE!

domingo, 23 de abril de 2017

PROVAÇÕES, TENTAÇÕES E O TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO

Por João S. de O. Jr

Uma das queixas mais comuns entre aqueles que se propõem a ler o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem e a se consagrarem a Ela pelo método de São Luís de Montfort seria quanto às provações e às tentações. Essas, "do nada" surgem para impedir os fiéis devotos de irem adiante no estudo e na vivência da Verdadeira Devoção. Entretanto, devemos estranhar essa realidade? Recordemos: "Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação." (Eclesiástico 2,1).

Já é bem conhecida a profecia presente no número 114 do Tratado:

São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716)
"Vejo, no futuro, animais frementes, que se precipitam furiosos para dilacerar com seus dentes diabólicos este pequeno manuscrito e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para escrevê-lo, ou ao menos para fazê-lo ficar envolto nas trevas e no silêncio de uma arca, a fim de que ele não apareça. (...)". [1]

Certeiro! Como sabido, o manuscrito só foi encontrado em 1842. Ou seja, mais de cem anos após a morte do santo.

Porém, atenção para o que nos é mais importante! Continua São Luís ainda no número 114 de seu livro:

"(...) Atacarão até, e perseguirão aqueles e aquelas que o lerem e o puserem em prática. Mas não importa! Tanto melhor! Esta visão me encoraja e me dá a esperança de um grande sucesso, isto é, um esquadrão de bravos e destemidos soldados de Jesus e de Maria, de ambos os sexos, para combater o mundo, o demônio e a natureza corrompida, nos tempos perigosos que virão, e como ainda não houve." [2]

São João Maria Vianney (1786-1859)
Podemos fazer disso uma relação com o que são João Maria Vianney exortava em um dos seus famosos sermões: "Cuidado se você não sofre tentações!" [3]. E ensinava que o Demônio não perde tempo com quem já estaria sob a vontade dele, e sim trabalha para desviar aqueles que estão no caminho de Deus. Continuando, São João Vianney narra que se deram terríveis tentações nas vidas de Santo Agostinho e São Jerônimo quando estes santos decidiram se entregar totalmente a Jesus Cristo, pois o Maligno, prevendo que muitos seriam influenciados por eles, encheu-se de fúria e desespero.

Por outro lado, o próprio Cura D'Ars diz também que: "As tentações são necessárias para que possamos perceber que não somos nada por nós mesmos" [4] e que Deus "permite que o Demônio se aproxime um pouquinho mais de nós". Por quê? Para "nos conhecermos", ou melhor, "para reconhecermos que não somos absolutamente nada".

Meus irmãos, vejamos a conexão com o que São Luís menciona sobre a Verdadeira Devoção: essa nos leva ao "aniquilamento do próprio eu" (T.V.D. n. 82); para bem vivê-la é necessário "despojarmos de nós mesmos" (T.V.D. n. 81). Afinal, nós nos confiaremos melhor à Medianeira de Todas as Graças quanto mais nos conhecermos e vermos o quão miseráveis somos. Isso justifica a semana para conhecimento de si nos exercícios preparatórios.

Distinguindo provações de tentações:

Não devemos desistir perante as provações, que são dificuldades tempestivas neste vale de lágrimas que é esta vida. Elas são permitidas pela providência divina, e, uma vez suportando-as, crescemos na Virtude e na Fé (CIC §1808; §2847). Muitas provações e sofrimentos são até necessários para aumentarmos o valor meritório de nossos bons atos, desde que esses sofrimentos sejam oferecidos por amor a Deus. A exemplo: no colóquio da primeira aparição da Virgem aos três pastorinhos em Fátima, Portugal, em 13 de maio de 1917, Ela os indagou:

Os três pastorinhos de Fátimas
passaram por grandes sofrimentos
por Nossa Senhora
“(...) Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” Tendo Lúcia respondido “sim”, Nossa Senhora continuou: “Ide, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.”[5].

Por tudo isso, aqueles que começarem devem persistir na leitura do Tratado, no conhecimento da Verdadeira Devoção e nos exercícios da Consagração, ainda que titubeantes sob as mais severas tribulações e sofrimentos.

Quanto às tentações: são comumente ciladas diretas do "Pai da Mentira" (CIC §538-540; §566) para perdermos a Vida da Graça ou muitas vezes são consequentes da debilidade de nossa natureza ferida pelo Pecado Original. Entretanto, também só acontecem pela permissão de Deus, que não nos deixa sermos tentados para além de nossas forças (1Coríntios 10,13), no desígnio de crescermos ou mesmo nos humilharmos. Para vencê-las, é necessário "fugir das ocasiões de pecado" - nos exorta Santo Afonso de Ligório [6] - como um dos mais graves deveres da vida espiritual. Uma questão é ter tentações, e todos nós sempre as teremos; outra é consentir nelas, e aí estaria o pecado (Catecismo de S. Pio X, 312-315). E se desgraçadamente viermos a cair, que nos prostremos em sincero arrependimento perante o Altíssimo, como o salmista [7]. Além disso, busquemos recuperar e nutrir a vida da graça com os sacramentos da Igreja.

Complementando e concluindo:

Detalhe da Catedral de Notre Dame
Nossa Senhora derrota Satanás
Em certa medida, não tenhamos medo do Demônio porque ele é que "teme a alma unida a Deus como ao próprio Deus" [8], já dizia São João da Cruz. E com isso compreenderemos melhor o número 52 do Tratado de São Luís: "(...) Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os santos; e uma só de suas ameaças que todos os outros tormentos."[9]. E esse santo, por sua vez, enxergou não apenas a fúria do Diabo contra quem lesse e pusesse em prática o Tratado da Verdadeira Devoção, mas sobretudo viu o quão benéficos seriam os ensinamentos sobre a Virgem Santíssima a formar grandes santos (T.V.D. n. 43 e 47).

Ademais, percebamos: nessas questões de tentações e provações, nada poderemos sem a Graça divina. Este é mais um motivo para fazermos uma entrega total (santa escravidão) à Virgem Santíssima, a mais agraciada e humilde das criaturas, cuja descendência esmagou a cabeça da Antiga Serpente infernal (Gên. 3,15).

MARIA SEMPRE!

Referências:

[1] - Montfort, São Luís Maria Grignion de. T.V.D.: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, 44ª edição, Rio de Janeiro: Vozes, 2014. Página 114;

[2] - Montfort, São Luís Maria Grignion de. T.V.D.: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, 44ª edição, Rio de Janeiro: Vozes, 2014. Páginas 114-115;

[3] - Vianney, São João Maria. Sermões do Cura Dars - parte I. Disponível em http://www.sendarium.com/2014/06/sermoes-do-cura-dars-i.html. Acesso em 10/04/2017.

[4] - Ibidem;

[5] Machado, Antônio Augusto Borelli. As aparições e a mensagem de FÁTIMA conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, 39ª edição. São Paulo: Artpress, 1995. Página 40.

[6] - Ligório, Santo Afonso Maria de. Escola da Perfeição Cristã, Compilação de textos do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, CSSR. 4ª edição. Rio de Janeiro: Vozes, 1955. Páginas 44-48. Disponível em:http://www.lepanto.com.br/catolicismo/leitura-espiritual/fuga-das-ocasioes-de-pecado-um-dos-mais-graves-deveres-da-vida-espiritual/. Acesso em 11/04/2017

[7] - BÍBLIA. A.T. Salmos (51/50). In: BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução de Paulo Bazaglia et al. 1ª edição. 12ª reimpressão. São Paulo: Paulus, 2015. Página 915;

[8] - Frases de Santos. Disponível em https://frasesdesantos.wordpress.com/category/sao-joao-da-cruz/. . Acesso em 13/04/2017;

[9] - Montfort, São Luís Maria Grignion de. T.V.D.: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, 44ª edição, Rio de Janeiro: Vozes, 2014. Página 57.

domingo, 25 de dezembro de 2016

ENTRE JARDINS E GRUTAS SOMBRIAS


Por Prof. Pedro M. da Cruz

Um rei extraordinário em seu trono de marfim revestido de ouro fino,[i]cercado por milhares de cavaleiros, servido em taças do mais nobre metal! Um dominador supremo resguardado em seu palácio de cedro e cipreste maravilhosamente combinado com o mais límpido cristal! Banquetes, festas, cânticos ... Assim imaginavam - iludidos em sua ignorância e orgulho - muitos daqueles que aguardavam o “Rei dos Judeus”[ii]


Entretanto, quão impenetráveis são os juízos do Altíssimo e inexploráveis os Seus caminhos. Quem pode compreender os pensamentos de Deus?![iii] Indo à procura do Salvador, chamado, mesmo por anjos, “Senhor”[iv], o que encontraram os pastores? Maria, José e um menino deitado num cocho onde serviam comida aos animais[v]

Que Mistério desconcertante! Uma criança pobre, envolta em faixas numa gruta escura e suja, rodeada por animais, velada pelo olhar virginal da mãe - mas, que mãe!- e protegida pela virtude do pai – e, que pai! - tão justo e casto! “O mistério por seu próprio segredo desperta veneração.”[vi]

O filho eterno descera dos céus e deste não sentira saudades, pois sua Mãe, com sublimes encantos, compensava esplendores celestiais[vii]. Em Maria, aquela virgindade, pureza e graça sobrenaturais propagavam uma luz tão radiosa e imponderável, que somente Nosso Senhor era capaz de abarcá-la em sua totalidade. Ela era aos seus olhos, e numa medida só a Ele perceptível, seu amor, como também, seu jardim de delícias toda bela e graciosa[viii].

Temos ante os olhos duas realidades tão verdadeiras quanto paradoxais: uma exterior e natural, ao alcance de todo e qualquer observador; outra, por sua vez, interior e mística, da qual são capazes somente os que têm um coração dilatado pela graça. O olhar superficial pararia nas chamadas injustiças, mesquinharias, loucuras e fracassos de Belém. Todavia, aos olhares profundos e místicos, descortina-se imenso oceano de infinitas torrentes da sabedoria divina. Ali se encontram esplendor, grandeza e glória: realidades espirituais secretamente veladas. 

Este é um dos caminhos da Providência! Esconder pérolas preciosas em campos desvalorizados, a fim de que somente os puros e mais ousados possam encontrá-las: oculta em fatos, à primeira vista ordinários, verdadeiros tesouros jamais concebíveis em toda sua riqueza. 

De fato, é exatamente assim que se dá nas coisas de Deus: entrando, pelas brechas da vida, nos mais recônditos cantos da alma humana, acende ali um lume de verdade! Talvez para aquecer-se em um lugar mórbido e sombrio, ausente da graça... E vai, pouco a pouco, fixando aqui e acolá pequenas tochas de virtudes nos corredores escuros, secretamente interiores, inacessíveis aos outros mortais. Objetiva fazer com que o deserto de infelicidade ceda lugar a um vergel estupendo, povoado de maravilhas. 

O homem, mesmo em pecado, é sempre “desejo”. Perante a realidade mística que atua em sua alma, torna-se lhe impossível a total indiferença. Ainda que ao final da vida opte pelo absurdo de negar o Deus que o buscava em sua alma, jamais poderá negar esta realidade não poucas vezes lancinante. Neste misterioso processo de buscas e encontros entre Deus e o homem a novidade está sempre presente: sim, o Pai Celeste a todo tempo surpreende a alma humana. Isso para não ocorrer que “saciado o apetite, calce aos pés o favo de mel.”[ix]Desejando e saciando-se ininterruptamente o homem é sempre busca e gozo num Deus imenso. Aqueles que se deixam seduzir pelos encantos divinos, muitas vezes, sem o perceber, alcançam a graça de uma oração constante, como referida por São Paulo em uma de suas cartas.[x] Esta verdade não poderia passar despercebida ao Santo Bispo de Hipona (354-430) que em sua vida de mortificações e penitências escrevera “O teu próprio desejo é a tua Oração: e o contínuo desejo é uma constante oração.”[xi]

Voltemos, entretanto, ao foco inicial de nossa reflexão. Após havermos rapidamente percebido a confusão dos que encontraram a sagrada família em Belém, a sublime realidade escondida por detrás da pobreza que envolveu a vinda do Messias, e cogitado, mesmo que modestamente, sobre o mistério da ação Divina, detenhamo-nos num ponto de particular luminosidade, antes de encerrarmos nossa singela meditação.

Por que quis o rei dos reis nascer exatamente num estábulo, numa gruta? Por quê? “Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”.[xii] Nos abismos da sabedoria divina, quanto mais se lançam os homens mais profundos eles ficam. Poderia o Pai Celestial haver preparado ao Seu filho unigênito ao menos uma casa minúscula, humilde? Sim! Poderia; mas, não o fez. À gruta sombria, marcada pela feiura, caberia prefigurar mui acertadamente as almas as quais o menino Deus fora enviado. A gruta suja, fétida, desconfortável, em meio à noite, povoada de animais... eis uma imagem gritante da alma humana decaída após o Pecado Original. Ei-la prefigurada aí, agravada por tantas faltas cotidianas e povoada por vícios, traumas, angústias e tantos outros sofrimentos. Ali quis encontrar abrigo o Salvador, porque, de fato, são os doentes que necessitam do médico.[xiii]

A Virgem Maria distinguia-se entre os seres humanos qual lírio de pureza entre os espinhos.[xiv] Por isso, torna-se compreensível que o Verbo Encarnado viesse primeiramente a ela em seu seio castíssimo. Cumpria-se assim de algum modo a justiça. [xv] Enterrava, deste modo, o antigo ato adâmico que colhera o fruto da desobediência daquela que era o extremo oposto da Virgem Mãe de Deus. Pudemos vislumbrar assim algo do que intentara o Divino Redentor antes mesmo de vir às grutas fétidas e infrutíferas das almas restantes.

Eis aqui, caro leitor, um dos motivos sublimes de o Bem-amado haver decido antes de tudo ao dulcíssimo jardim de sua alma virginal e imaculada; aos canteiros perfumados de suas virtudes elevadíssimas. Com este ato singular, exaltava, primeiramente, a nova Eva, já que a antiga mulher havia tido a primazia entre os seres humanos, porém no tocante ao castigo reparador. Além do que - reconheçamos - o novo Adão desejava colher os frutos das fidelidades marianas...

Não exageramos neste texto o triste estado das criaturas que jazem no pecado. Santa Teresa D’ávila (1515-1582) escrevera no mesmo sentido: “Não há trevas mais densas, nem coisa mais escura e negra: a tudo excede a sua escuridão[xvi]. A Mãe de Deus era toda de seu filho e Ele todo dela! Naquela alma, qual jardim, Ele apascentava entre lírios... Enquanto isso, nas grutas brumosas de nossas almas pecadoras Ele deve lutar contra os animais indômitos de nossos vícios e más inclinações. Portanto, repitamos sem receios: a gruta de Belém é, nesta perspectiva, a prefiguração das almas pecadoras que, apesar de suas limitações, abrem-se gradativamente ao Verbo Encarnado que nos vem pelas mãos maternais de Maria Santíssima.

Há nestas moradas interiores, graças ocultas; graças que germinam quase que imperceptivelmente, mas que ali estão, serpenteando, predispondo seu hospedeiro ao lance súbito do amor divino. É bem verdade, o Senhor abusa de nossa ingenuidade, seduzindo-nos. Usa de força para conosco, dominando-nos. É realmente uma luta desigual...[xvii]

Ao reler o que escrevemos acima, parece-nos ouvir uma oração silenciosa da rainha celeste após seu “Fiat”. Perante ela, absorto em profunda veneração, encontra-se o anjo Gabriel, humildemente ajoelhado a reconhecer a grandeza daquela cujo excelso esplendor arrebata os próprios seres angelicais. Então, no silêncio de sua alma, a Virgem dá-nos a sublime impressão de exalar estas palavras: “Entre em Seu jardim meu bem amado; prove-lhe os frutos deliciosos.”[xviii]

Finalmente, peçamos a Nosso Senhor que nos seja possível, ao menos neste Natal, à imagem de sua Mãe, apresentarmo-nos quais jardins lacrados, com frutos e flores de virtudes; a fim de que possa dizer-se de nós ao menos sob algum aspecto o que fora escrito pelo Divino Espírito nas Sagradas Escrituras:

“És um Jardim fechado (...) uma fonte selada. (...) És a fonte de meu jardim, uma fonte de água viva, um riacho que corre do Líbano. Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do sul. Sopra no meu Jardim para que se espalhem os meus perfumes. (...) Entro no meu jardim (...) colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o meu favo com o meu mel, e bebo o meu vinho com o meu leite. (...) O meu bem amado desceu aos canteiros perfumados, para apascentar em meu jardim e colher os lírios. (...) Ó tu que habitas nos jardins, faze-me ouvir a tua voz.” [xix]

Cremos haver nos estendido por demais nesta reflexão. No entanto, ao depararmos com o tema do Natal é quase impossível não nos encantarmos com tantos e tantos pontos de reflexão que pululam ante nossos olhos. Fixemo-nos portanto num último ponto final, o
mais importante: o divino infante deitado em sua manjedoura: Oh, Senhor! Meu céu, meu tudo! Tens sono? Sim, bem sei que tens... Estás cansado. Dorme em paz, dorme enquanto velo com a Virgem teu sono. Descansa de tantos crimes, tantas ofensas, que povoam o mundo. Tu que foste tão agravado, humilhado, esquecido, desprezado. Ninguém faz caso de tuas palavras, das tantas chagas que te cobrem o corpo crucificado. É com dor que reconheço: sois um Rei abandonado... Dorme meu Senhor, dorme meu menino, dorme. Ao menos neste natal, dorme! Mãe - digo-o baixinho, quase sussurrando - enquanto acaricias a fronte perfumada de teu Filho: peça por nós. Temos medo Senhora. Enquanto Ele dorme o mar está revolto. Seguramos dum lado, ferimo-nos de outro, as ondas avançam impiedosas sobre nós. Ai meu Deus! Oh, meu amor! Os homens nos abandonaram também. E quantos caem...quantos! Sorrindo enquanto afogam... É gritando, entre soluços e lágrimas, que suplico: Salva-nos!!! Salva-nos enquanto dormes ...

“...Jesús dormía, como de costumbre.(...) Tal vez no se despierte hasta mi gran retiro de la eternidad; pero esto, en lugar de entristecerme, me causa un contento grándísimo...”[xx] (Santa Teresinha de Lisieux).


MARIA SEMPRE!


[i] 1Reis 10,18
[ii] Mateus 2,2
[iii] Romanos 11,33-34
[iv] Lucas 2,11
[v] Lucas 2,16
[vi] GRACIAM,Baltasar.A arte da prudência.Trad. Davina Moscoso de Araujo.Coleção Auto- Estima. Rio de Janeiro, Sextante, 2006,93p
[vii] Afirmação em sentido poético utilizada por Michel Quoist para mostrar a grandeza da Virgem Maria: QUOIST, M. Poemas para rezar. trad. Lucas Moreira Alvez.25 Edição. São Paulo , Livraria Duas Cidades, 1970 206 p.
[viii] Cântico dos cânticos 7,7
[ix] Provérbios 27,7
[x] 1Tessalonicenses 5,17. “ Orai sem cessar.”
[xi] João Paulo II. Carta Apostólica sobre Santo Agostinho de Hipona. Documentos pontifícios. N.210.Petrópolis, Vozes, 1986.pg.37
[xii] Sabedoria 9,16
[xiii] Mateus 9,12
[xiv] Cântico dos cânticos 2,2
[xv] Cântico dos cânticos 6,2
[xvi] DE JESUS, Santa Teresa. Castelo interior ou Moradas. Trad. Carmelitas descalças do convento Santa Teresa. 3 Edição. Edições Paulinas, Rio de Janeiro,1984,pg.26
[xvii] Jeremias 20,7
[xviii] Cântico dos Cânticos 4,16
[xix] Trechos do livro Cânticos dos cânticos retirados dos capítulos IV – VIII. Santo Ambrósio de Milão, falando sobre este livro Bíblico escrevera: “Queres aplicar isso a Cristo? Nada mais agradável . Queres aplicar à tua alma? Nada mais doce.” ( Coleção Patrística. Número 5. Ambrósio de Milão. Tradução: Célia Mariana Franchi Fernandes da Silva. São Paulo, Paulus, 1996;pg .62 )
[xx] LISIEUX, Teresa de. Historia de un alma, manuscritos autobiográficos. Trad. Setién de Jesús María O.C.D. Colección Teresita. Segunda edição. Editorial Monte Carmelo, Burgos, 1978;pg.217

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

CARTA DE S. INÁCIO: A CULPA É SUA!



“Se não muda o seu homem interior, nunca agirá bem
 e em qualquer lugar será o mesmo.” 

“Ou você será bom aí, em Ferrara, ou não será bom em nenhum Colégio.” 

“Ocupe-se em ver e chorar as suas imperfeições e não as dos outros.”

O estudante jesuíta Bartolomeu Romano, morador do Colégio de Ferrara, atribuía aos outros e ao lugar onde se encontrava seu desgosto nas práticas espirituais e nos estudos, e sem dúvida desejava mudar de casa. Santo Inácio nesta carta lhe faz ver como não depende do lugar nem dos companheiros seu desgosto. Enquanto não mude seu interior, seja onde for, se encontrará descontente. Por isso o exorta a mudar de proceder, a abrir-se ao Superior e a lutar contra suas imperfeições.


CARTA AO ESTUDANTE BARTOLOMEU ROMANO
(Roma, 26 de janeiro de 1555)

Resultado de imagem para Santo Inácio de Loyola
“Caríssimo irmão Bartolomeu,
Pelas suas cartas e as dos outros, mas principalmente pelas suas, entendo o seu estado. E tanto mais me desagrada quanto mais desejo o seu bem espiritual e salvação eterna.

Está muito enganado se pensa que a causa de não conseguir aquietar-se nem dar fruto no caminho do Senhor está no lugar ou nos superiores ou nos irmãos. Isso vem de dentro de você e não de fora, isto é, da sua pouca humildade, pouca obediência, pouca oração e, enfim, pouca mortificação e pouco fervor para avançar no caminho da perfeição. Pode mudar de lugar, de superiores e de irmãos: mas se não muda o seu homem interior, nunca agirá bem e em qualquer lugar será o mesmo, até que chegue a ser humilde, obediente, devoto, mortificado no seu amor-próprio. De modo que procure esta mudança e não outra. Digo que procure mudar o homem interior e dominá-lo como servo de Deus, e não pense em nenhuma mudança externa, porque ou você será bom aí, em Ferrara, ou não será bom em nenhum Colégio. E tenho certeza disto, pois me consta em Ferrara poder ser mais ajudado que em qualquer outro lugar.
Dou-lhe um conselho: que se humilhe muito de coração ao seu Superior e lhe peça ajuda abrindo-lhe o seu coração em confissão ou como quiser e tome o remédio que lhe dará. Ocupe-se em ver e chorar as suas imperfeições e não as dos outros, procure em diante dar maior edificação e não encha, por favor, a paciência daqueles que o amam em Jesus Cristo nosso Senhor e gostariam de vê-lo bom e perfeito servo do mesmo. 

Cada mês escreva duas linhas para dizer como se encontra quanto à humildade, obediência, oração e desejo de sua perfeição; e também como vai nos estudos. Cristo nosso Senhor o guarde.”


FONTE: CARDOSO, Armando. Cartas de Santo Inácio de Loyola. Vol. II. São Paulo:                             Edições Loyola, 1990; p.135-136


MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Pensamentos de São Pedro Julião Eymard sobre O SANTÍSSIMO SACRAMENTO


Em alusão a uma das mais belas e importantes solenidades da Igreja Católica, o Corpus Christi, reproduzimos aqui pensamentos de um grande Santo que ficou conhecido como o Apóstolo da Eucarístia, São Pedro Julião Eymard. Tomemos como exemplos estas exortações, para que possamos dar cada vez mais glórias e louvores ao Santíssimo Sacramento que é verdadeiramente o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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“Ajoelhai-vos, aos avistardes Jesus na Hóstia adorável! Prosternai-vos, com profundo respeito, perante Ele, em sinal de dependência e de amor...”.




“Urge crer na simples palavra de Jesus. Resta-nos uma pergunta: ‘Quem está ali?’. ‘Eu!’, responde Jesus... Prostremo-nos e adoremos...”.



“Assistir cada dia a Santa Missa é chamar, sobre cada dia, as bênçãos do Céu!”.



“A oração, embora boa e necessária, sem a Comunhão que vos sustente, torna-se cansativa e acabareis por deixá-la”.

“É necessário se penetrar bem dos sacrifícios do amor de Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento... São tão surpreendentes que eu sentia o coração acelerar e os olhos cheios de lágrimas”.

“Jesus estabeleceu a Eucaristia para reabilitar o homem, que se degradara e aviltara pelo pecado original, que esquecera sua origem celeste, perdera sua dignidade de rei da criação; o homem que, senhor dos animais, a eles se assemelhou!”.

“Quando por enfermidade, por doença ou por impossibilidade, não puderdes fazer a adoração, deixai que vosso coração se entristeça um instante... E, depois, uni-vos em espírito àqueles que adoram”.

“Reparai num Santo, ao entrar numa Igreja. Alheio às pessoas, esquecido de tudo, só a Nosso Senhor vê. Quem, em presença do Papa, pensará nos bispos ou cardeais? Só a Deus, toda honra e toda glória”.

“A criatura tem tempo para tudo, menos para visitar o seu Deus, que no seu Tabernáculo a espera”.

“Que o ato de amor dê início a toda adoração e abrireis, então, de modo delicioso vossa alma à ação divina”.

“Ah! É esta a parte grandiosa que vos cabe, a vós adoradores: é chorar aos pés de Jesus, desprezado pelos seus, crucificado em tantos corações, abandonado em tantos lugares”.

“Jesus, portanto, está conosco e, enquanto houver um adorador sequer, Ele aí estará para protegê-lo. Eis aqui o segredo da longevidade da Igreja!”.

“O que inspira receio, hoje em dia, é ver Jesus-Eucaristia abandonado em todas as cidades, sozinho, absolutamente só”.

“No Santíssimo Sacramento está Ele, por toda parte e ao mesmo tempo. Sua Humanidade participa, de certo modo, da Imensidade Divina que tudo enche. Jesus está em sua inteireza em todos e cada um dos Templos”.

“Adorai, reparai com Ele. Sabei vos sacrificar com Ele, pela glória de Nosso Salvador!”.

“O culto e a honra tributados a Jesus Cristo são a medida da fé do povo, a expressão de sua virtude. Honra, pois, a Jesus Eucaristia que, merecendo-a, a ela tem direito”.

“A Eucaristia deve incendiar o mundo inteiro e os incendiários deste fogo Eucarístico são todos que amam Jesus”.

“Ah! Como Nosso Senhor ama os nossos corações e os deseja possuir... Mendiga-os! Roga, pede com insistência, suplica. Deveríamos morrer de vergonha ao pensar que Nosso Senhor mendiga desse modo e que ninguém atira a esmola implorada!”.

“Na impossibilidade de amar a Jesus Sacramentado como Ele merece, invocai o socorro do Anjo da Guarda, fiel companheiro de vossa vida. Ser-lhe-á tão agradável fazer, desde já, convosco, o que deverá fazer, eternamente, na glória”.

“Não se afastem os adoradores da presença do seu Divino Mestre, sem lhe patentear reconhecimento pela audiência de Amor; sem lhe oferecer em homenagem de fidelidade, uma flor de virtude, um ramalhete de pequenos sacrifícios...”.

“Amemo-Lo, portanto, por nós. Amemo-Lo por aqueles que não o amam, pelos nossos pais e amigos. Paguemos-Lhe a dívida da família, da pátria!”.

“Há caminhos fictícios, atalhos na vida espiritual, estradas que podemos seguir durante algum tempo para largá-la em seguida... Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento, é a via estável”.

“O estado velado de Jesus anima minha fraqueza. É-me dado me aproximar d’Ele, falar-lhe, contemplá-lo, sem receio algum...”.

“Nos exorcismos, quando, depois de recorrer inutilmente a todos os meios para vencer os Demônios, o exorcista lhes apresenta a Hóstia Santa, eles, soltando gritos de raiva recuam ante seu Deus presente”.

“É do Tabernáculo, sob o véu da Hóstia, que lança, sobretudo estas palavras: ‘Aprendei de mim, que sou manso e humilde de Coração’. Aprendei de mim a esconder as vossas boas obras, vossas virtudes, vossos sacrifícios... Descei! Vinde a mim!”.

“Só a posse de Deus - e na Eucaristia é Deus se dando, cabalmente a nós - nos pode dar felicidade!”.


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São Pedro Julião Eymard
Livro: Levanta-te de Joelhos! O Segredo da Adoração Eucarística
Prefácio de Dom Carmo João Rhoden, scj.
Autor: Pe. Márlon Múcio
Palavra e Prece Editora Ltda.










MARIA SEMPRE!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

REFLEXÃO: O QUE É MESMO PERDOAR?


"Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas,
também vosso Pai celeste vos perdoará!" Mt 6,14

Por editores do blog


À diferença do ressentimento produzido por certas ofensas, o perdão não é um sentimento. Perdoar não equivale a deixar de sentir. Há quem se considere incapaz de perdoar certos agravos porque não pode eliminar seus efeitos: não pode deixar de experimentar a ferida, nem o ódio, nem o desejo de vingança. Daqui podem derivar complicações no âmbito da consciência moral, especialmente se se tem em conta que Deus espera que perdoemos para que Ele nos perdoe (Mt 6,12).

Olhai por vós mesmos.E, se teu irmão pecar contra ti,repreende-o, 
e se ele se arrepender, perdoa-lhe. Lc 17,3
A incapacidade de deixar de sentir o ressentimento, no nível emocional, pode ser, efetivamente, insuperável, ao menos a curto prazo. No entanto, se se compreende que o perdão se situa num nível diferente do ressentimento, isto é, no nível da vontade, descobrir-se-á o caminho que leva à solução.

O empregado que foi despedido injustamente da empresa, o cônjuge que sofreu a infidelidade do seu consorte, os pais a quem sequestraram um filho podem decidir perdoar - apesar do sentimento adverso que experimentam necessariamente -, porque o perdão é um ato volitivo e não um ato emocional. Entender esta diferença, entre sentir uma emoção e tomar uma decisão, já é um passo importante para esclarecer o problema.

Deus que é benevolente para 
conosco e é a Sua clemência infinita
que nos dá tudo porque 
Ele tudo perdoa. São Pe. Pio
Muitas vezes na vida devemos agir no sentido inverso ao daquele que os nossos sentimentos nos marcam, e de fato o fazemos porque a nossa vontade se sobrepõe às nossas emoções (31). Por exemplo, quando sentimos desânimo por algum fracasso que tivemos na realização de uma tarefa e, ao invés de abandoná-la, nos sobrepomos e continuamos em frente até concluí-la; quando alguém implicou conosco e sentimos o impulso de agredi-lo, mas decidimos controlar-nos e ser pacientes; quando em certo momento do dia temos um acesso de preguiça e, no entanto, optamos por trabalhar. Em todos estes casos, manifesta-se a capacidade da vontade para dominar os sentimentos. O mesmo se passa quando perdoamos, apesar de emocionalmente nos sentirmos inclinados a não o fazer.

O perdão é um ato da vontade porque consiste em uma decisão. Qual é o conteúdo desta decisão? O que é decidido quando perdoo? Quando perdoo, opto por cancelar a dívida moral que o outro contraiu comigo ao ofender-me e, portanto, liberto-o enquanto devedor.

Não se trata, evidentemente, de suprimir a ofensa cometida, de eliminá-la e fazer que nunca tenha existido, porque não temos esse poder. Só Deus pode apagar a ação ofensiva e conseguir que o ofensor volte à situação em que se encontrava antes de cometê-la. Mas nós , quando perdoamos realmente, desejaríamos que o outro ficasse completamente eximido da má ação que cometeu. Por isso, “perdoar implica pedir a Deus que perdoe, pois só assim a ofensa é aniquilada” (32).


MARIA SEMPRE!


NOTAS:
(31) - “A vontade, que pode mover o entendimento no seu exercício, pode mover também despoticamente outras potências, especialmente as motrizes: pode dar ordens aos braços e às pernas, comandar a direção do olhar, o movimento da língua, as operações das mãos... Mas não lhe foi dado mover dessa maneira os apetites, sentimentos ou moções sensíveis, os quais gozam de uma certa autonomia. Cabe à vontade, com a ajuda do entendimento, exercer um governo político, persuasivo ou de convencimento sobre as tendências sensíveis do ser humano e a isso tem de circunscrever-se: quando não as pode orientar para o bem, deve transcendê-las, passar por cima delas” (Carlos Llano, Formación de la inteligencia, la voluntad e el carácter, Trillas,México,1983. pág. 142).

(32) - Leonardo Polo, Quién es el hombre?, Rialp, Madrid, 1983, pág. 140.

Fonte:
UGARTE, Francisco. Do ressentimento ao perdão. Trad.: Roberto Vidal da Silva Martins. Editora: Quadrante - 2002.Páginas: 36-38.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA E O DISSOLUTO-FUTURO MÁRTIR

Santo Antônio de Pádua (1191-1231)
Por editores do Blog

Os desígnios de Deus são misteriosos. Mas é fato que Ele nunca desiste de nenhum de nós por causa de Sua infinita misericórdia. Ao longo dos tempos, Deus suscita almas santas que "servem" para santificar as outras, gerando histórias que são verdadeiros tesouros da Cristandade. Segue abaixo uma destas magníficas histórias, protagonizada por Santo Antônio de Pádua.


Relicário que guarda a 
 "bendita" língua de Santo Antônio
Sempre que encontrava na rua um certo homem de vida dissoluta, Santo Antônio de Pádua tirava o chapéu, fazia uma genuflexão e o saudava respeitosamente.
Aborrecido com a cena que assim se repetia, o crápula um dia tirou da bainha a espada e gritou para o Santo:
— Pare com essa palhaçada, ou então vou lhe mostrar a força desta arma!
Com profundo respeito, Santo Antônio respondeu:
— Glorioso mártir do Senhor, lembre-se de mim quando estiver sendo atormentado.
A resposta foi uma gargalhada, pois o comentário parecia provir de um louco. Anos depois, em viagem comercial à Palestina, foi tocado pela graça divina, converteu-se e passou a pregar a fé cristã aos sarracenos, sendo então martirizado.

Fonte: Nair Larc. - Grandes Anedotas da História-Cultrix, SP, 1977, 301 p.




MARIA SEMPRE!