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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SOBRE A VISÃO ROMÂNTICA - PARTE II

 Leia a primeira parte aqui

Romantismo é a tendência a acentuar
a primazia do sentimento sobre o pensamento
Prof. Pedro Maria da Cruz

A partir de então, o homem passou a ser encarado em sua vida total. Mais que o entendimento e a vontade se impuseram o sentimento e a fantasia. Com isso, o Romantismo instalou sua pátria, predominantemente, na região artística, de maneira especial na região da poesia. Daí ter se encaminhado para uma direção irracional, em busca de um ‘viver-com-tudo’ que, ao mesmo tempo, aparece também como intuição intelectual que repele todo conceito definitivamente perfilado e acompanha a vida em seu devir que segue para o Infinito e desfaz, reiteradamente, toda forma. Excluindo e incluindo o irracional e o racional, isto é, espontaneidade, a novidade imprevisível e a força coordenadora e unificadora que tende a fazer de um caos um cosmos, o Romantismo deixa de ser um fato principalmente literário – e filosófico só por acessão – para se transformar num fato principalmente filosófico, onde não só a Literatura, mas também a Ciência, a Religião, a História se encontram conjugadas por um mesmo esforço para conquistar uma visão total da vida.”

“(...) As imagens fazem bem à alma, já se havia dito nos primórdios do Romantismo; a poesia é a realidade absoluta, se acrescentará depois. Ao irromper em seu mistério, os poetas buscavam a total harmonia com a natureza, impulsionados com intensidade pelas representações do inconsciente. Para isso aniquilaram as aparências temporais, apreenderam a existência imediata como uma vida para âmbitos noturnos e oníricos, aplicaram novos significados à revelação das sensações, e assim a poesia se converteu numa forma de conhecimento ‘mágico’ que relacionava estreitamente o circundante com a vida obscura do poeta. (...) A concepção ‘analógica’ entre universo e alma se fez a tal grau consciente que, em geral, precedia à aventura lírica. E isto ensejou uma impetuosa corrente universal que confiava sua inspiração ao sonho e à noite e que ajudou a criar o conceito moderno de arte. Nesse sentido, a poesia passou a ser a interpretação dos fenômenos e dos mistérios do universo, por que é uma série de gestos mágicos realizados pelo poeta que não conhece claramente sua significação, mas que acredita firmemente que esses ritos são os elementos de uma magia soberana. E precisamente nessa humanização do divino, nesse pressentimento do Infinito nas intuições – como queria Uhland – está a essência do romântico. 

Wonder - Zena contemplando a lua.
Pintura Moderna de Alex Grey
Era o Romantismo a vitória do indivíduo sobre a disciplina moral e intelectual do Classicismo, que transformara a cultura humana, desde o século XVI, num jogo de princípios invariáveis e regras inflexíveis dentro dos quais o espírito se movia com dificuldade, e quase sem autonomia. Uma vitória, porém, imersa num halo mórbido, pois as linhas nítidas do Classicismo são substituídas pelos entretons românticos; uma indecisa religiosidade, a atração pelos aspectos indolentes da natureza, pelos crepúsculos silenciosos e pelas ruínas verdejantes, e tranquilas, uma vaga piedade por todas as matérias da terra e, ao mesmo tempo, um descontentamento permanente de tudo quanto existe, assim como uma constante exaltação pelo desconhecido e pelos grandes sacrifícios e heroísmos. Dos nevoentos fiordes nórdicos emerge a enigmática máscara de Odin: é o mal do século... 

E o Brasil foi colhido em cheio pelo Romantismo, fazendo do garoento planalto paulista seu reduto (...).” 


Fonte: VITA, Luís Washington. Panorama da Filosofia no Brasil. COLEÇÃO CATAVENTO: Série Universitária. Porto Alegre: Editora Globo, 1969; págs. 48-60

MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SOBRE A VISÃO ROMÂNTICA - PARTE I


"O Romantismo não se define: sente-se"

Prof. Pedro Maria da Cruz


Livro aqui indicado
Luís Washington Vita (1921-1968) é conhecido no meio acadêmico como historiador culturalista da Filosofia no Brasil. Seu livro “Panorama da Filosofia no Brasil” (do qual apresentamos alguns parágrafos abaixo referentes ao Romantismo), apresenta em várias partes uma crítica superficial e infundada à posição filosófica da Igreja Católica, assim como, ao papel que exerceu a Idade Média na história mundial. De facto, nesse livro específico, o autor parece reduzir o todo medieval ao período de decadência da escolástica, a qual, excluída em muito de sua rota por vários autores, acabou propiciando o surgimento de erros modernos.

Para Luís W. Vita, o termo Renascença é apropriado “(...) para sugerir a sensação que o homem de Quinhentos teve de renascer com alentos e modos de vida espiritual que, de certo modo, se haviam interrompido ou atrofiado durante séculos.” (p.10) Ainda segundo o mesmo autor, de modo um tanto reducionista, a Contra- Reforma católica teria levado Portugal a um “obscurantismo propositado” (p.12), ou, usando outra frase do livro, o Concilio de Trento “(...) se limitara a tão-somente a reforçar a cinta de ferro com que a Igreja, em nome da religião, comprimiu o cérebro da catolicidade.” (p.12) Reconhece, devemos dizê-lo, o papel da Igreja na formação intelectual do Brasil, porém, todo o tempo, demonstra clara aversão à visão católica (chamada “tirania do Homo credulus”, p.11) o que está alinhado, cremos, às suas estranhas referências à maçonaria. 

_____________________________________________

“O movimento de cultura, e por isso mesmo também filosófico, que nasce como uma reação ao iluminismo, é o Romantismo. No Brasil foi a primeira afirmativa de nossos valores mais caros, atuando como centros irradiadores as duas faculdades de Direito existentes na primeira metade do século XIX: a de São Paulo e a do Recife. Ao lado desses dois institutos de estudos superiores também atuam as lojas maçônicas.”

Símbolo da maçonaria. Condenada pela Igreja
“(...) É o momento em que viceja a maçonaria, não apenas multiplicando lojas propriamente ditas, a partir de 1800, como inspirando a formação de grupos interessados na difusão do saber e no culto da liberdade. 

‘Nesse tempo – informa Antônio Cândido – tais associações desempenharam não apenas funções hoje atribuídas aos agrupamentos partidários, mas algumas das que se atribuem ao jornalismo, às sociedades profissionais, à universidade: congregaram e poliram aos patriotas, serviram de público às produções intelectuais, contribuíram para laicizar as atividades do espírito, formularam os problemas do país, tentando analisá-los à luz das referências teóricas da Ilustração. Foi um toque de reunir para os homens interessados na cultura e na política, corroborando o ponto de vista de Hipólito da Costa num dos seus melhores ensaios, onde analisa a necessidade e função das ‘sociedades particulares’: elas correspondem a uma necessidade de organização social – pois a marcha da civilização está ligada à diferenciação da sociedade – e condicionam o próprio funcionamento do Estado, ao se interporem entre ele e os indivíduos cujas atividades definem e coordenam. ’

E tudo fluía – acadêmicos e maçons – numa atmosfera romântica.

Schelling (1775–1854)
Problema prévio apaixonante, e por isso mesmo controvertido, é o da definição do Romantismo. Já na sua origem, em 1801, afirmava Sébastien Mercier que ‘o romantismo não se define: sente-se’. Para alguns o Romantismo é uma constante espiritual do homem, contraposta ao Classicismo: é a tendência a acentuar a primazia do sentimento sobre o pensamento, da intuição sobre o conceito, do dinâmico sobre o estático, do orgânico sobre o mecânico, do alusivo sobre o presente, do expressivo sobre o plástico. Assim, romântico seria o dionisíaco enquanto que o clássico seria o apolíneo, e acompanha a humanidade desde sua gênese. A esta concepção se opõe a teoria historicista, que afirma ser o Romantismo uma forma de vida humana e, por isso, constitui uma etapa da História, isto é, um dos modos de ser do homem num dado instante de sua evolução. (...) admite Roger Picard, ainda que com algumas restrições, que o Romantismo ‘foi uma época histórica’, daí explicar-se sua integração com o movimento das ideias, das reivindicações e das lutas sociais. Quer isto dizer que mais que um momento da Filosofia ou da Arte, foi o Romantismo um momento da cultura europeia, que vai precisamente dos fins do século XVIII até a metade do século XIX, e que explica seus motivos mais característicos na sua reação ao Iluminismo, que o precede. Ao império da razão e das regras opõe a exaltação da genialidade e espontaneidade do espírito nos seus aspectos a-racionais, intuitivos, sentimentais, fideístas. E à Filosofia coube interpretar esse momento espiritual nos grandes sistemas de Fichte, Schelling e Hegel, nos quais é feita a tentativa grandiosa de mostrar a fecundidade de um princípio espiritual (respectivamente, Eu, Absoluto e Ideia), no qual se integra numa unidade todo o sistema do universo. Identificando os contrários, fundindo todos os aspectos da realidade e da cultura num princípio único, e defendendo a tese da igualdade essencial da Filosofia, da Ciência, da Arte e da Religião, encontrou o Romantismo seu filósofo máximo em Schelling, que lhe imprimiu o tom peculiar de sua forma mentis.


Continua aqui.


Fonte: VITA, Luís Washington. Panorama da Filosofia no Brasil. COLEÇÃO CATAVENTO: Série Universitária. Porto Alegre: Editora Globo, 1969; págs. 48-60


MARIA SEMPRE!

segunda-feira, 14 de março de 2016

PAPA PAULO VI: O DIREITO CANÔNICO


“O Direito canônico, como tudo o que existe na Igreja, 
ordena-se totalmente para o bem das almas”

“A caridade ocupa, sem dúvida, o lugar mais importante. 
Mas a caridade não pode subsistir sem a justiça, expressa nas leis.”

Prof. Pedro Maria da Cruz

Papa Paulo VI
“Não ignoramos, igualmente, os numerosos e funestos preconceitos que surgem contra o Direito Canônico. São muitos aqueles que exaltando a liberdade, a caridade, os direitos da pessoa humana e a índole carismática da Igreja, criticam com hostilidade as instituições canônicas, procurando diminuir a importância das mesmas, depreciando-as e até pretendendo a sua eliminação, como se fossem ‘estruturas’ impostas extrinsecamente, que diminuem o caráter espiritual da mensagem evangélica e obrigam a liberdade de que os filhos de Deus devem gozar. Daqui nasce uma forma peculiar de comportamento em oposição a qualquer autoridade legítima, e que alguns pretendem sancionar com a autoridade do Concilio Vaticano II.

Confessamos que as leis canônicas em que o chamado ‘juridicismo’ predomina de tal forma que enfraqueça o aspecto espiritual da igreja – as leis que não se fundarem no dogma católico; que não salvaguardem suficientemente a perfeição humana; que impedirem o progresso da vida religiosa – não correspondem absolutamente ao espírito e às normas diretivas que o Concilio deu para a renovação da vida cristã.

Mas o Concilio não só não rejeita o Direito Canônico, isto é, as normas pelas quais são definidos os deveres e com as quais são salvaguardados os direitos dos membros da Igreja, mas também postula energicamente este direito como consequência lógica, necessariamente derivada do poder que Jesus Cristo confiou à sua Igreja, e como um elemento que pertence à mesma natureza da Igreja. Daqui, a exortação do mesmo Concílio: ‘no ensinamento do Direito canônico [...] tenha-se em conta o mistério da Igreja’.

Esta união do Direito canônico com o mistério da Igreja é explicitada pelo próprio Concílio [...]. Desta forma, manifesta-se claramente a natureza própria da lei eclesiástica, que é espiritual: ‘o Direito canônico, como tudo o que existe na Igreja, ordena-se totalmente para o bem das almas [...]. Tanto o administrador dos assuntos eclesiásticos, como o juiz, o ministro das coisas sagradas e o conselheiro dos fiéis devem pensar constantemente que têm de dar contas da salvação das almas.’ (AAS,45,1973,688).

‘no ensinamento do Direito canônico [...]
 tenha-se em conta o mistério da Igreja’.
De tudo o que foi dito até agora, deduz-se que a legislação canônica não deve ser considerada como um elemento estranho na Igreja, ou como um impedimento que retarda a expansão da vida cristã. Pelo contrário, a sua função própria na Igreja consiste em sancionar e proteger tudo o que se julga conveniente para viver com maior fidelidade e constância uma existência cristã. Por isso, não pode realizar-se uma ação pastoral verdadeiramente eficaz, se esta não tiver, ao mesmo tempo, uma firme tutela na sábia ordenação de alguns estatutos jurídicos.

A caridade ocupa, sem dúvida, o lugar mais importante. Mas a caridade não pode subsistir sem a justiça, expressa nas leis. As duas caminham juntas e devem completar-se mutuamente, porque derivam de uma fonte, que é Deus.”

(S.S. Paulo VI na audiência de 14 de dezembro de 1973 aos participantes no terceiro curso de atualização em Direito Canônico in Sedoc, 6, 1974, col. 1153-1155).

FONTE: GONÇALVES, Pe. Mário L. Menezes. Introdução ao Direito Canônico. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004; p. 215-217.


MARIA SEMPRE!


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

PARA DESTRUIR EM NÓS O PECADO


A penitência é a virtude pela qual destruímos em nós o pecado
 e satisfazemos por ele a Deus.
“Se não fizermos penitência cairemos nas mãos do Senhor.”[1]

“Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.”[2]

“Convertei-vos e fazei penitência.”[3]

Por Prof. Pedro M. da Cruz.

Academias lotadas.
Crianças, jovens, adultos e anciãos exercitam-se por praças e avenidas. Uns correm, outros andam... Dietas, cirurgias, e massagens compõem o resto do cenário.
Como vemos, o corpo está bem servido.
Mas, e a alma?
Dada a superioridade desta em relação ao corpo, entende-se que, se alguns dão tanto pela vida material, muito mais devem estar fazendo pela Vida Espiritual. Afinal, é de justiça tributar a cada um a parte que lhe cabe.
Assim, ao físico a atenção que lhe é devida![4] Sem mais nem menos...
E, de igual maneira, à alma, o cuidado que lhe é de direito.
Pensando nesta necessidade cristã, transcrevemos abaixo interessante reflexão do Pe. Alexandrino Monteiro. Baseado nos “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio de Loyola, o autor nos apresenta uma profunda reflexão sobre a penitência.
Que nossos esforços pela santidade sejam sempre auxiliados pela maternal intercessão da Santíssima Virgem Maria. Amém.

DA PENITÊNCIA

A penitência permanecerá sempre
 obrigatória para quem naufragou na inocência.
“1. Natureza. - A penitência é a virtude pela qual destruímos em nós o pecado e satisfazemos por ele a Deus. Ora, o pecado apresenta um duplo caráter: um interior, enquanto nos afasta de Deus; e outro exterior, enquanto nos inclina à criatura. Portanto, a penitência apresenta um duplo efeito; converte-nos a Deus, e afasta-nos da criatura. A conversão a Deus constitui a penitência interna. Por outras palavras: a penitência interior consiste nos atos de contrição e propósito; a penitência exterior consiste na punição dos abusos das nossas faculdades exteriores e das criaturas, e caracteriza-se pelo sofrimento que exerce nos sentidos do corpo.

A penitência interior é a principal, e, por assim dizer, a alma da penitência, visto o pecado residir propriamente na vontade. Sem penitência interior, a exterior de nada vale. A penitência exterior é o fruto da interior, porque é o castigo dos pecados cometidos.

Segue-se daqui que a penitência exterior é tão necessária, que, sem ela, se pode duvidar da interior, da qual a exterior é parte integrante e natural complemento. Pelos frutos se conhece a árvore. Assim como pelos frutos se conhece a boa qualidade da árvore, assim pelos frutos da penitência exterior se conhece a boa qualidade da penitência interior, donde eles procedem. Uma alma revela-se verdadeiramente penitente pelas lágrimas, suspiros, golpes no peito, jejuns e disciplinas. Pelo contrários, um pecador que não manifesta em algum ato a sua compunção, dá, por isso mesmo, um indício de impenitência interior.

Desta doutrina se deduz que a penitência exterior é uma virtude universal, de todas as pessoas e de todos os tempos, não só dos monges e anacoretas, mas também das rainhas e dos reis, dos servos e dos senhores: não só da idade média, mas também da moderna; porque em todas as classes e em todas as idades há pecadores.

A penitência nunca passará de moda. As leis, os costumes, as praxes sociais mudam-se com os tempos: a penitência permanecerá sempre obrigatória para quem naufragou na inocência. O eco da pregação do Batista : - Fazei penitência! - continuará a ressoas desde as margens do Jordão até aos mais longínquos âmbitos da terra, a até a consumação dos séculos.”[5]

“Penitência exterior. – O homem não peca só com a alma, mas também com o corpo: os dois são cúmplices no ato do pecado. É justo, por conseguinte, que não só se doa a alma, mas também o corpo; e que o corpo e a alma conspirem, a uma, no exercício da penitência.

Motivos da penitência externa. – Os motivos que nos induzem a esta penitência, podem ser quatro:
1. Conserva melhor a sensibilidade na submissão ao espírito e no cumprimento de tudo o que nos impõem os deveres do nosso estado. Se damos ao corpo tudo o que ele reclama, se afastamos dele tudo o que mortifica, tornamo-lo indolente, inapto para o trabalho, revoltoso e indomável. Mas, à força de penitência, o corpo se torna dócil, submisso, não se revolta tão facilmente contra o espírito e se torna mais apto para a virtude.

2. Ajuda-nos a obter certas graças: como luzes na meditação, solução de certas dificuldades, socorro nas tentações, diminuição nos ataques da impureza, fervor na oração e união com Deus. Para todas estas graças é excelente a prática da penitência. S. Inácio derramou muitas lágrimas e fez muitos jejuns para obter a luz celeste na redação de suas Regras e Constituições.S. Tomás de Aquino se dispôs com sangrentas disciplinas para a interpretação das passagens difíceis da Sagrada Escritura.

No Prefácio da Missa no tempo quaresmal diz-se: ‘Com o jejum corporal reprimis os vícios, elevais a mente, concedeis virtudes e prêmios.’ É por isso que no tempo da Quaresma nos sentimos mais inclinados à virtude, santos e consoladores pensamentos nos iluminam a mente e nos movem o coração...

Em Fátima, Nossa Senhora nos exortou
a fazermos penitência incessantemente.
3. Satisfaz pelos pecados passados e pela pena temporal que lhes é devida. Desta maneira a penitência é uma réplica do espírito à rebelião da carne, e torna-se um ato de justiça, restabelecendo a ordem. Por este motivo, a prática da penitência nos é, todos os dias, necessária, pois, todos os dias pecamos. Somos como um barco, que mete água, e que todo o dia deve ser esvaziado. É, pois, uma loucura deixar a solução desta dívida para a eternidade, onde a expiação será mais longa e penosa. Agora tudo o que fazemos pela satisfação dos nossos pecados é fácil, proveitoso e meritório. É bom que nos exercitemos, cada dia, em algum ato de penitência para satisfazer a Deus pelos nossos pecados.

4. O exemplo dos Santos nos deve também mover à penitência, e , em primeiro lugar, o de Nosso Senhor Jesus Cristo, que passou quarenta dias de rigoroso jejum. E dos Santos, qual é o que não fez penitência? Todos se deram a ela com ardor, e só a obediência e a consideração de um bem maior lhes punha limites a suas rigorosas austeridades. O espírito de penitência é, pois, próprio de todo o cristão.[6]

(O negrito é nosso)



MARIA SEMPRE!


Referência Bibliográfica:
MONTEIRO, Pe. Alexandrino. Exercícios de Santo Inácio de Loiola. II Edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1959. 422 pg.

[1] Conf. Eclo. 2,22
[2] Conf. Lc. 13,5
[3] Conf. Mt. 3,2
[4] Claro, uma é a atenção devida na penitência, outra na ordinariedade da vida; porém, em ambos os casos o corpo tem sua parcela de cuidado. (Comentário do autor)
[5] Conf. Pg. 346-347. Obra citada.
[6] Conf. pag. 349-350. Obra citada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O PAPA PODE ERRAR QUANDO ENSINA?

Papa Pio IX proclama Dogma da Infalibilidade papal - 1870


Prof. Pedro Maria da Cruz


“A opinião que então o Papa expunha não era conforme à verdade. A discussão entre Franciscanos e Dominicanos mais se acendeu.” (Pe. Bujanda -1953)

 Nós somos felizes por termos sido fundados em um homem de “Pedra” (São Pedro - Kephas). Ele é a base firme e visível que dá solidez ao edifício da verdade cuja causa primeira é o próprio Deus. Foi o que escrevera no século XVII, Padre Antônio Vieira: “Arruinou-se-lhe o primeiro edifício, porque o fundou em um homem de barro; para que se lhe não arruíne o segundo, funda-o em um homem de pedra”[1]

São tão grandes em dignidade e importância os sucessores de São Pedro que, em virtude de seu oficio, eles gozam, inclusive, de infalibilidade no magistério quando, em seu ensino universal, como Pastores e Doutores supremo de todos os fiéis, proclamam, por ato definitivo, que se deve aceitar uma doutrina sobre a fé e os costumes[2]

Porém, surge uma questão incômoda: “Mas, e em seu ensino privado, os papas podem errar?” Disponibilizamos a seguir aos leitores de nosso blog um interessante fato histórico que ajudará a responder essa demanda. Ademais, o próprio padre Bujanda, autor do texto, já nos esclarece a dúvida em seus comentários...


O PAPA PODE ERRAR EM SEU ENSINO PRIVADO...

O papa João XXII errou no ensino privado
 “No século XIV discutiu-se com ardor entre Franciscanos e Dominicanos se os prêmios dos bem-aventurados e os castigos dos prescritos começavam já em toda a sua plenitude após a morte ou depois do juízo final, em sendo pronunciada a sentença pelo supremo Juiz de vivos e mortos.
Houve, nessa altura, um Papa, João XXII, que se inclinava ao parecer dos Menores, os quais afirmavam que só depois do Juízo final começariam os bem-aventurados a gozar da visão de Deus no céu, e os réprobos a sofrer as penas do inferno.


Num sermão que esse Pontífice pregou no dia de Todos os Santos, em 1331, em Avinhão (França), onde então residia, expôs as seguintes ideias:

O prêmio dos santos, antes da vinda de Cristo, era o seio de Abraão. Depois da vinda de Cristo e da sua ascensão aos céus, tal prêmio até ao dia de Juízo será estar sob o altar (Alusão a certas palavras do Apocalipse, VI, 9), isto é, protegidos e consolados pela humanidade de Cristo. Depois do dia do Juízo será, pelo contrário, estar sobre o altar, porque depois desse dia verão não só a humanidade mas também a divindade, tal como é em si.

Noutro sermão expressou-se deste modo:
 
‘Dizemos que as almas separadas dos corpos não possuem a vista da divindade, na qual consiste o prêmio total dos santos, segundo S. Agostinho, nem terão antes da ressureição (final). Possui-la-ão quando ressuscitarem com os corpos porque tal prêmio se atribuirá ao composto de alma e corpo, quando o homem inteiro for feliz com essa visão. E digo com S. Agostinho: ‘Se estou em erro quem souber mais do que eu, corrija-me’.

A 5 de Janeiro do ano seguinte, disse novamente num sermão:

‘Da visão de Deus dissemos já o suficiente em dias anteriores. Como Deus não é mais pronto para castigar do que para premiar, não dará o castigo ao maus antes de dar o premio aos bons. Mas já dissemos que os bons não entram na vida eterna antes do dia de Juízo. Logo nem sequer os maus irão, antes desse dia, para os tormentos eternos do inferno onde há pranto e ranger de dentes.’ (Veja-se Dictionnaire de théologie, de Vacant Mangenot, Benoit XII, colunas 658 e segs.) 

Assim o Papa, fora do exercício das funções de Pastor e Mestre universal, defendia apenas como pregador, que a recompensa dos predestinados e o castigo dos réprobos não começariam na sua plenitude antes do dia de Juízo.

Como se vê, não se tratava de saber se com a morte ficava irrevogavelmente definido o nosso destino para toda a eternidade, mas unicamente quando começariam com toda a sua força os prêmios ou os castigos.


O papa não é infalível quando fala como
 orador particular e expõe a sua opinião
 num ponto doutrinal ainda indefinido.

Além disso, qualquer pessoa, medianamente instruída em Teologia, sabe perfeitamente que isto nada tem que ver com a infalibilidade pontifícia. O Papa é infalível quando define que uma verdade é de fé, por exemplo, a Imaculada Conceição, ou a Assunção de N. Senhora ao Céu e em outras ocasiões menos solenes. Mas já não o é quando, como no caso presente, fala como orador particular e expõe a sua opinião num ponto doutrinal que não está definitivamente resolvido ou não se sabe com certeza que o esteja

 

A opinião que então o Papa expunha não era conforme à verdade. A discussão entre Franciscanos e Dominicanos mais se acendeu. O Rei de França interveio para que se declarasse qual era a verdadeira doutrina. A morte, porém, impediu aquele Pontífice de decidir a questão. Ao morrer acreditava no contrário do que pregara. Acreditava, portanto, que prémios e castigos começavam a seguir à morte.

Bento XII, seu sucessor, logo desde o principio do seu pontificado quis pôr termo à controvérsia. Ordenou a ambos os partidos contendores que estudassem a questão. E quando tudo estava preparado, a 29 de Janeiro de 1336 durante a solene celebração da Missa, promulgou a sua celebérrima constituição Benedictus Deus da qual extraímos as seguintes passagens. 

 ‘Por esta Constituição, que há de valer para sempre, definimos com autoridade apostólica, que segundo a disposição geral de Deus, depois da ascensão aos céus do Salvador e Senhor nosso Jesus Cristo, as almas de todos os que receberam o batismo e nada tinham que expiar e também todas as que deviam dar uma satisfação, uma vez que a deram, imediatamente depois da morte, e antes de serem de novo unidas a seus corpos, antes do Juízo universal, estiveram, estão e estarão, no Céu com Cristo, no reino e paraíso celestial, agregadas à sociedade dos santos anjos; que vêem a essência divina face a face com visão intuitiva e que tal com tal visão e gozo são verdadeiramente felizes e possuem a vida e o descanso eternos. Definimos, mais, que as almas dos que morreram em pecado mortal, imediatamente depois da sua morte descem ao inferno onde são atormentadas com suplícios infernais... ’”

Fonte: BUJANDA, P. Teologia do Além. Trad. Joaquim A. de Souza. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1953; p. 14-18 (o negrito é nosso) 



MARIA SEMPRE!


BIBLIOGRAFIA:

- VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Vol. VIII (De São Pedro). Erechim: ELDEBRA, 1998; p.237
- Código de Direito Canônico (CDC) - Cân. 749 - §1 e §2.
- BUJANDA, P. Teologia do Além. Trad. Joaquim A. de Souza. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1953; p. 14-18.
[1] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Vol. VIII (São Pedro). Erechim: ELDEBRA, 1998; p.237 [2] Código de Direito Canônico (CDC) - Cân. 749 - §1. Conferir o §2. (Também o colégio dos bispos goza de infalibilidade no magistério; porém a seu modo...)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

"O DESAFIO": O QUE HÁ POR DEBAIXO?


"...para que o tempo não nos perturbe, ele, esse terrível
 arauto de compromissos e responsabilidades."

* Oferecemos a seguir interessante artigo lançado por um membro da SSVM no Informativo Mensal Salvatoriano (Junho de 2012). Esperamos que todos gostem da reflexão. Maria Sempre!



Vivemos no tempo das fugacidades. Tudo é por demais passageiro, descartável. As coisas se esvaem rapidamente como fumaça pelo ar. Mas, onde há fumaça há fogo; ou, pelo menos possibilidade de incêndio, o que nos faz recordar algumas palavras do Cristo que dissera: “Eu vim lançar fogo sobre a Terra, e como gostaria que ele já estivesse aceso!” (Luc. 12,49)

Detalhe Catedral de Nottinghan
Lembremo-nos das antigas catedrais góticas, até hoje tão sólidas e robustas. Dão-nos a suave impressão de eternidade. Parecem impossíveis de ser destruídas. O homem que ousasse modificá-las seria taxado imediatamente como louco e insensato. Ora, o mesmo não se diz daqueles que reformam nossas modernas catedrais. Alias cada novo sacerdote ao deixar sua marca nos edifícios de culto da atualidade é saudado por sua eficiência e criatividade. Sim, para hoje “competente” é quem transforma e não mais aquele que mantém.

É o mundo da técnica. Tudo deve ser renovado a cada dia. O celular de ontem já não nos serve mais. E aquela televisão?Muito pequena. Talvez aquele computador? De forma alguma, pois todos têm comprado outro modelo. Já pensou em Strauss-Kahn? Não, não, prefiro Nicolas Sarkozy! Por fim – quem diria!- escolhem François Hollande. Socialista? Ah, não importa o partido; para que servem as ideologias? Só queremos alguém diferente; como diferente é o celular, a televisão, enfim as tecnologias de hoje que substituíram as fumarentas de ontem. Elas já não servem mais à nossa ânsia suprema por novidades...

Queremos tudo novo! Mesmo que o novo seja sombrio, como o “Amanhecer Dourado” de extrema-direita na Grécia crepuscular. Não mais nos assusta seu símbolo tão próximo à suástica nazista. Mera coincidência... Todavia, alguém poderia citar Vladimir Putin de volta ao Kremlin para o terceiro mandato. Entretanto, esse exemplo só valida nossa exposição, uma vez que “manter-se”, não esvair-se, “permanecer” exige a “fraude” e o “uso indevido da força”. Precisamos citar nossa querida Venezuela? Ou, a mídia brasileira?

 
"...cujos corredores levam
    ao altar dos sacrifícios..."
Jesus, Igreja, casamento... Ai! Essas coisas são muito estáticas, rígidas, e, além do mais, exigentes. A nostalgia pelo eterno já está devidamente satisfeita pelo tombamento histórico. Mas, tudo bem! Se não podemos desaparecer com o Cristo, por exemplo, que pelo menos Ele seja agradável: vamos retirá-lo da Cruz e apresentá-lo, tão somente, ressuscitado, vitorioso, bem sucedido; da forma como nós queremos ser! Afinal, após dura semana de trabalho ninguém merece diante de si a imagem de um derrotado, pobre, crucificado e judeu. Não! Caso contrário, preferimos o Shopping...

   
Onze milhões de pessoas frequentam
 shopping por dia [1]
Ah, o Shopping! Lá sim, ao contrário da Igreja, tudo está aggiornado, atualizado, à altura do homem moderno. Verdade! Pense bem: no Shopping não colocam relógios nem janelas em sua descente “via sacra” para que o tempo não nos perturbe, ele, esse terrível arauto de compromissos e responsabilidades. Seu piso é liso, sem atritos, para que andemos lentamente; assim há mais chance de percebermos as vitrines, essas, graças a Deus, mais agradáveis que cristos crucificados. Espelhos? Têm aos montes! Para que vejamos o quanto estamos ultrapassados, necessitados e fora do padrão. Já observaram como seus corredores mais parecem labirintos? É o golpe de misericórdia! Quem ao sair de um shopping nunca teve a grata impressão de que deixou um daqueles corredores sem visitação, mesmo havendo passado mil vezes por cada um deles? Entretanto, nós os preferimos à Nave Central de nossas Igrejas, cujos corredores levam ao altar dos sacrifícios... 

Antes de encerrarmos, dada a limitação do espaço, vale apena perguntar: haveria algo que “permanece” em toda essa febre pelo diferente? Talvez ali, escondido por debaixo do frenesi moderno, como brasa, disfarçada pelas cinzas, acusada pela fumaça, esteja a busca do homem por felicidade. Entre erros e acertos aprenderá com o passado a grandeza do Imutável, e, com o presente, o valor das coisas supérfluas; importantes, se bem que perecíveis. Sim, dar o valor devido às coisas que passam, sem olvidar as que não passam... Como fez Maria, Nossa Mãe, nas bodas de Caná.

[1] http://vitrinedefranquias.com.br/2012/08/10/shoppings-brasileiros-recebem-11-milhoes-de-pessoas-por-dia/

MARIA SEMPRE!

Fonte:http://www.salvatorianos.org.br/wp-content/uploads/2012/06/O-Desafio-n%C2%BA-227-junho-de-2012-l-PDF-img.pdf

terça-feira, 29 de julho de 2014

SOBRE O PRECIOSÍSSIMO SANGUE...


 “Dar-te-ei o meu sangue gota a gota...”
 Cristo à 
Beata Alexandrina de Balasar (1904-1955)

“Meu sangue é verdadeira bebida.” [1]


Prof. Pedro Maria da Cruz


A Igreja Católica exulta no Espírito! Veste-se de festa, transborda de alegria! Ela guarda em seu coração o maior de todos os tesouros; a pérola mais valiosa do universo; a causa de toda satisfação e contentamento; a verdadeira fonte da felicidade: O Santíssimo Sacramento! 


Na Eucaristia possuímos qual presente de amor, o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; Sua alma e divindade verdadeiramente presentes nos altares do mundo inteiro. 

Sim; cada Sacrário, desde o mais suntuoso de alguma magnífica Catedral, até o mais humilde, cada um deles esconde a presença real e sacramentada do Deus único e verdadeiro, criador de todas as coisas; daquele que habita numa luz inacessível, cheio de glória e majestade. Ali, Ele se encontra realmente presente, se bem que velado por detrás das aparências do pão e do vinho transubstanciados, como afirma o Aquinate. 

Santo Tomás, o Aquinate (1225 -1274)
Precisaríamos de infinitas páginas para cantar as glórias da Eucaristia. Entretanto, nem mesmo o gênio de todos os poetas do mundo, bastaria para dizer um mínimo da grandeza desse mistério. Perante ele os anjos se calam... a exemplo da Virgem Maria, todas as criaturas celestes se põem a adorar. Maximum miraculum Christi, afirmara Santo Tomás, o maior milagre do Cristo que se dá como regalo nas Santas Missas do mundo inteiro. Divino banquete de amor! 

Tratamos até este momento do Santíssimo Sacramento em sua generalidade. Todavia, olhemos agora um ponto específico, cheio de luz e suavidade; uma parte do todo pouco apreciada pela maioria dos cristãos: o Divino Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por que teve Nosso Senhor o cuidado de deixar-nos seu Divino Sangue em especifico? Não bastava a presença gloriosa de sua Carne Sacrossanta? Vemos que aqui se esconde um mistério; e talvez possamos nos aventurar um mínimo que seja na luz desse fogo de amor que abrasa nossa inteligência. 

É claro que, sendo o Filho de Deus sapientíssimo e onipotente, poderia ter encontrado mil formas de estar conosco neste mundo; porém, entregando-nos não somente Sua Carne, mas também Seu Sangue Redentor deu-nos a Si mesmo por inteiro. Não negou coisa alguma em sua entrega de amor. Exemplo este a ser seguido por seus discípulos, como já fizera Nossa Senhora: entrega total no cumprimento da vontade divina. 

Ademais, quem negaria que os apaixonados amam a presença em sua fisicidade? Que é a saudade senão certa “permanência” fantasmagórica e lancinante na ausência? Cristo amava demais os homens para não estar fisicamente entre eles. Não bastava a ele ter se consumido na cruz. Ele desejou ser consumido todos os dias na Eucaristia. E ser consumido tão somente em sua carne não era ser consumido em sua totalidade. Portanto, entregou-se em Sua alma e divindade, em Sua carne e em Seu sangue. Loucura de amor! Não pense caro leitor que estamos sozinhos nessa afirmação. Segundo um dos maiores oradores do Brasil no século XVII, Padre Antônio Vieira, o Santíssimo Sacramento era, da parte de Cristo, exatamente o que asseveramos: um contínuo remédio trazido por Ele para curar a dor de Sua ausência.[2]

Grande orador, Pe. Vieira (1608-1697)
Miremos ainda outro aspecto... não é verdade que membros, de facto, de uma mesma família possuem o mesmo sangue? Ora, é vontade do Pai Celeste fazer-nos participes de Sua vida divina[3]; membros de Sua família[4]; por isso, afirma o mesmo Padre Vieira em outro sermão realizado em 1662: Cristo deu-nos Seu sangue para nos enobrecer; com efeito, “depois que comungamos somos sangue de Deus”.[5]

Aqui o motivo, dentre tantos - muitos desses escondidos em Deus - de Nosso Senhor haver deixado entre nós o Seu Divino Sangue. Observemos que é grande sua insistência para com a necessidade de termos acesso a ele. Basta-nos recordar a gravidade de Suas palavras no Evangelho: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no ultimo dia” [6].Ou seja, foi da vontade de Deus relacionar nossa eterna salvação ao Divino Sangue Redentor. É o que repetimos piedosamente na Ladainha do Preciosíssimo Sangue: Sanguis Christi, pignus vitae aeternae, Salva nos, “Sangue de Cristo, penhor de vida eterna, salvai-nos!.” [7]

Concluamos com a seguinte interrogação: Por que a possibilidade de nossa salvação está ligada à realidade do precioso sangue de Cristo? Esse é um ultimo aspecto que podemos abordar aqui com muitos frutos. 

A Bíblia Sagrada, toda ela fundada na inspiração divina, é clara e objetiva no que tange ao tema de nossa reflexão: “Se andamos na luz, assim como Deus mesmo está na luz [...] o sangue de Jesus, Seu filho, nos purifica de todo pecado.” [8] Sim, porque, como afirma a mesma Palavra de Deus: “A menos que se derrame sangue não há perdão.” [9] Palavras duras para nós, pouco afeitos ao ritualismo oriental; entretanto,carregadas de profunda significação poética e espiritual... Com efeito, no Primeiro Testamento, a prática ritual adotada pelos judeus exigia a oferta do sangue de animais, símbolo da vida, para, dessa forma, alcançar o perdão de Javé, ofendido pelo pecado, símbolo da morte. É na atmosfera do binômio “Morte-Vida” que encontramos a bela e profunda significação do “Sangue” no contexto bíblico. 

Para S. Paulo, o sangue no antigo testamento
 simbolizava o sangue de Cristo
Nesse sentido, relata o autor sagrado: “Tampouco o pacto anterior foi inaugurado sem sangue; pois, quando o mandamento foi anunciado por Moisés ao povo, ele tomou o sangue de novilhos e bodes [...] e aspergiu o próprio livro e todo o povo dizendo: ‘Este é o sangue do pacto que Deus preceituou para vós.’” [10] Ou seja, um pacto de “Vida” para vencer a escravidão da “Morte” e purificar os corações dos seres humanos, lavando-os da sujeira do pecado com o sangue... Aqui, é claro, não há somente uma mera poesia para agradar leitores sentimentalistas, mas sim uma realidade objetiva de salvação determinada por Deus em sua infinita sabedoria que prefigura a realidade neo-testamentária,[11] o que explica a radicalidade do Texto sagrado ao afirmar sem rodeios: “Mostrar-se-á severa a punição daqueles que tiverem pisado o Filho de Deus e considerado de pouco valor o Sangue do pacto com que foi purificado.” [12]

Peçamos a Nossa Senhora, ela que doou ao seu Divino Filho o sangue da Redenção, para que nos ensine a valorizar com as devidas disposições de espírito o tesouro depositado nos cálices do mundo inteiro. Quem sabe se não ouviremos também no recôndito de nossas almas, aquelas palavras ditas por Nosso Senhor à Beata Alexandrina de Balasar (1904-1955): “Dar-te-ei o meu sangue gota a gota...”. 





MARIA SEMPRE! 


Nota: texto lançado pelo autor em boletim mensal  - Ano 13- nº 140 - Julho 2014. Catedral  Basílica menor de Curitiba. 

REFERÊNCIAS:

[1] Cf. Jo. 6,55
[2] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Sermão do Mandato; 1650. Vol. VIII. Erechim: ELDELBRA, 1998
[3] Cf. Efe.1,5-6
[4] Cf. Efe. 2,19
[5] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Sermão do S.S. Sacramento. Vol. VIII. Erechim: ELDELBRA, 1998
[6] Cf. Jo. 6,54-56
[7] SSVM. Livro de Devoções. N. 28
[8] Cf. I Jo.1,7
[9] Cf. Heb. 9,22
[10] Cf.Heb. 9,19-20
[11] Cf. Efe.1,7
[12] Cf. Heb.10, 29

sexta-feira, 6 de junho de 2014

APONTAMENTOS SOBRE O PAPADO - Final

Cristo confere autoridade à São Pedro


Prof. Pedro Maria da Cruz

Chegamos, por fim, à última parte do nosso estudo; abordemos pois uma outra questão levantada por críticos do catolicismo: ver Pedro como fundamento da Igreja contradiria a Bíblia, pois segundo esta só haveria um fundamento: Jesus Cristo. Baseiam-se em textos de São Paulo, por exemplo um que afirma: “Ninguém pode por outro fundamento senão o que já foi posto, Jesus Cristo” (1 Cor. 3, 11). 

Ora, não é preciso muita inteligência para descobrir que tal versículo encontra-se em outro contexto, portanto não se contradiz com aquele em que Nosso Senhor, falando da Instituição de Sua Igreja, coloca São Pedro como fundamento. Dizer que um texto contradiz ao outro seria afirmar que Jesus disse uma coisa e o Espírito Santo outra, o que é um absurdo de se supor, pois Deus não entra em contradição.

Além do mais, é comum na Bíblia haver afirmações “majestáticas”- digamos assim - que em outras partes do mesmo texto sagrado permitem variantes de compreensão. Por exemplo, em certo momento afirma Jesus Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo. 8,12); entretanto, em outra parte ele garante: “Vós sois a luz do mundo” (Mt. 5, 14). Haveria aqui alguma contradição? Claro que não. Basta entendermos que são expressões pedagógicas ditas em um contexto que exigia certo modo de expressão para melhor significar a mensagem que se pretendia transmitir.

Vejamos outro exemplo. Afirma Nosso Senhor: “Ninguém é bom, só Deus é bom” (Mc. 17,10); todavia, em outra oportunidade Ele mesmo faz o seguinte comentário: “O homem bom, do bom tesouro traz boas coisas” (Mt. 12, 35). De igual modo (mesmo se não levarmos em conta que os textos apresentados pelos críticos do papado estejam em contextos diferentes), podemos entender que afirmar Jesus como o único fundamento não invalida entendermos São Pedro como partícipe no “ser fundamento” do Filho de Deus. 

Por exemplo, os santos participam da santidade de Cristo

É ciente da ideia de “participação” que São Paulo mesmo conhecendo a frase de Cristo: “Ninguém chameis de pai sobre a terra” (Mt. 23,9), não deixa de escrever aos Coríntios: “Ainda que tenhais dez mil irmãos em Cristo, não tereis todavia muitos pais, pois eu sou o que vos gerou em Jesus Cristo” (1 Cor. 4, 15). E, finalmente, em outra parte, mesmo havendo afirmado: “Só a Deus seja a honra e a glória pelos séculos” (1Tm. 1,17), São Paulo não se contradiz ao proclamar o que se segue: “A honra e a glória serão dadas a quem pratica o bem.” (Rm. 2,10). 

Poderíamos perguntar ao Apóstolo: “Ora, é só a Deus a honra e a glória ou é também a todos os que fizerem o bem?” Então, com certeza nos responderia: “A honra e a glória são devidas tão somente a Deus, porém dela participam os que se tornam “um” com Ele; do mesmo modo que é Cristo o fundamento de todas as coisas, mas fez de Pedro o fundamento de sua Igreja tornando-o partícipe de seu poder.” E quando o fez? Simples. Quando afirmou solenemente (e Deus não mente!): “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt. 16, 18).

Finalmente, evitemos tocar aqui na questão se de fato o túmulo de Pedro estaria ou não em Roma. Este é um ponto por demais colocado em nosso favor. Escritores antigos como Clemente Romano; Inácio de Antioquia; Clemente de Alexandria; Orígenes; Cipriano, etc.; são testemunhos que só validam a certeza histórica da Igreja. Houve mesmo quem se viu na obrigação de concluir: “Que São Pedro esteve em Roma é tão claro, que um protestante se sente vexado ao ter que confessar que houve protestante que o negou” (DELLEGRAVE, pg. 79).

Papa venera as relíquias de São Pedro no Vaticano.

Prezados leitores, este artigo já se encontra por demais alongado. Esperamos haver auxiliado ao menos um pouco no esclarecimento quanto a este assunto tão doce e combativo da fé cristã: a Instituição Divina do Papado. Suplicamos a Nossa Senhora que proteja Santo Padre e encha nossos corações de ardor na defesa de seus direitos e deveres. Maria Santíssima! Rogai por nós!


MARIA SEMPRE!



Referência Bibliográfica:


DELLEGRAVE, Geraldo E. O papado é instituição divina. São Paulo: Loyola, 1986. 

CRUZ, Prof. Pedro M. A verdadeira Igreja de Cristo. SSVM.