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terça-feira, 11 de abril de 2017

PAIXÃO: CRUZ, TRAIÇÃO, REDENÇÃO

O Beijo de Judas. Por Giotto di Bondone.
O Beijo de Judas. Por Giotto di Bondone.

Prof. Helmer Ézion

Semana Santa! Momento que requer de nós cristãos mais piedade e zelo para com a causa de Nosso Senhor Jesus Cristo, a nossa própria salvação. Momento em que a Cruz (em variadas denotações e conotações) se faz mais pungente!

No cenário atual do mundo, a exigência e o peso da cruz, talvez, sejam ainda maiores. A moral católica é devastada, denegrida e atacada por todos os lados. Inimigos da Cristandade avançam cada vez mais nos seus propósitos, impondo sobre nós leis absurdas baseadas em ideologias péssimas e contraditórias e forçando-nos a ceder a tudo isso. Deste cenário já nos alertava o então Cardeal Ratzinger: “Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio 'eu' e os seus apetites.” [1]

Ora, aquele que  sucumbe à ditadura do relativismo faz tal qual os Judeus tentando justificar porque queriam a crucificação de Cristo: “Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus”[2] Cientes de tudo isso, resta perguntarmo-nos qual a nossa posição: será que faremos tal qual a multidão que gritava "crucifica-o!"[3]e como Pilatos que lavou as suas mãos?[4] Ou carregaremos a cruz como fez Simão Cireneu[5] e subiremos ao Calvário com coragem como Nossa Senhora e o Apóstolo São João?[6]Enfim, muitas são as reflexões que podemos fazer acerca de nós mesmos em relação à paixão de Nosso Senhor. As respostas para estes questionamentos nos elucidarão a autenticidade da nossa vivência cristã.

Há algum tempo, o Papa nos apresentou a seguinte questão: "Sou como Judas, capaz de trair Jesus, ou como os discípulos que não entendem nada, que dormiam enquanto que o Senhor sofria? Minha vida está adormecida?”[7]Esta pergunta abre um leque de considerações a serem feitas, afinal, em que consiste exatamente a traição? Qual é a medida da ignorância? A figura de Judas Iscariotes ainda é bastante emblemática, meditar sob ela à luz da Tradição, em relação as nossas vidas, pode ser muito proveitoso para nossa santificação.

Bem, é importante lembrarmo-nos do que disse Nosso Senhor Jesus Cristo aos seus apóstolos, inclusive a Judas: "Se guardares os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor." Portanto, "já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer. Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça (...)."[8] Judas era escolhido e querido por Cristo, sendo assim, um privilegiado. Certamente, no princípio ele correspondeu a tão belo chamado e rendeu alguns frutos. Aliás, todo e qualquer autêntico cristão recebe alto privilégio, pois, existe dádiva maior do que a de ser reconhecido como filho de Deus a partir do batismo? Desta forma, somos todos chamados a dar testemunho do evangelho, cada um de acordo com sua condição. A potencialidade de Judas Iscariotes era imensurável, afinal ele era apóstolo e convivia diretamente com Nosso Senhor.

No entanto, alguns chegam a supor absurdamente que Judas foi escolhido para ser o traidor, afinal Jesus sabia a malícia que Judas carregava consigo.[9] Grande falácia! De fato, Jesus sabe de todas as coisas e sabia da traição que, em sua liberdade, Judas viria a cometer. Mas Judas, assim como todos os apóstolos fora tocado pela misericórdia de Cristo e demonstrava grande disposição em servir Nosso Senhor. Era, portanto, um verdadeiro amigo de Cristo e junto a ele também operou prodígios. Como, então, alguém que vive na companhia constante e real do Amor humanado, encontra razões e ocasiões para cometer tamanha perversidade de traí-lo? 

Judas cedeu às investidas demoníacas
Não é possível que tamanho ato de iniquidade tenha sido espontâneo. Ou seja, Judas não resolveu trair repentinamente, muito menos estando ele na companhia constante de Jesus. A situação de apóstolo não o dispensou da necessidade de vigilância e prudência, pois Jesus nos fornece todas as graças necessárias para vivermos em comunhão com Ele, mas é preciso uma disposição pessoal em conformidade com esta graça. Isto significa que Judas teria vacilado aqui e ali em momentos de prova. Estando ele em tão alta posição, era de se esperar também grandes provações e tentações.[10]

Por misericórdia, Deus nos prova a fim de nos santificar (nunca para além de nossas forças) e até mesmo permite que o demônio (alimentado pelo seu ódio) nos tente. Mas Deus não quer que pereçamos, e sim, que auxiliados por Sua graça, vençamos, com Ele, o pecado. Portanto, Judas distanciava-se de Cristo, mesmo estando na presença dEle, na medida em que ia permitindo a ação do demônio.[11] Claro que ele não permitia deliberadamente, mas ao passo em que voltava-se para o seu ego e suas vaidades, ia, por mais disparate que isso pareça, se esquecendo de Deus e tolerando uma "sugestão demoníaca", até cair em uma possessão.

 Judas, com seu beijo, traiu Aquele que lhe chamava de amigo! [12] – Cristo ainda o chamava assim porque ainda o amava e o queria com Ele, e era ainda possível o arrependimento – Obstinado em sua malícia, executou o seu perverso ato! É justo que reprovemos, rechacemos e repudiemos a traição de Judas. Mas é preciso que pensemos se não estamos sendo hipócritas... 

"Bom seria para tal homem
não haver nascido"
Quantas vezes deixamos de prestar culto a Deus por causa de nossa tibieza? Deixamos de rezar um dia, faltamos à missa em outro, questionamos a doutrina em um ponto, não nos esforçamos em evitar os pecados (ainda que veniais) ... As ocasiões mínimas que vão abrindo brechas para o demônio são incontáveis. Se não nos atentarmos no básico mais cedo ou mais tarde cairemos em coisas mais graves, a apostasia, por exemplo, que corresponde totalmente a uma traição. Ou seja, de certa perspectiva, somos traidores sempre que consentimos com a ditadura do relativismo e os pecados, tão presentes no mundo. Ao pensar isso, não devemos nos desesperar como fez Judas. Mas ter a consciência da nossa mazela (até mesmo da nossa vulnerabilidade diante das provações) já é um sinal da misericórdia de Deus. É o mesmo que Cristo nos chamando de amigo no momento de fraqueza.

Portanto, devemos nos lembrar que a Redenção de Jesus na cruz é extensiva a todos, por mais iníquos que possamos ser. Porque Cristo, ao derramar seu sangue quis salvar a todos. Porém cabe a nós reconhecermos e nos arrependermos de nossos pecados, suplicando a Deus que, por intercessão de Nossa Senhora, possamos integrar nossos sofrimentos à cruz de Cristo. Pois, quanto mais somos tocados pela misericórdia do Senhor, tanto mais entramos em solidariedade com o seu sofrimento – tornamo-nos disponíveis para completar na nossa carne o que falta à Paixão de Cristo.[13]


MARIA SEMPRE!

Referência bibliográfica:

HOPHAN, Otto. Judas Iscariote. tradução de Roberto Vidal da Silva Martins. Ed. Quadrante. São Paulo. 1996, 56 páginas.

NOTAS:

[1] Texto da homilia do então Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, pronunciada na Missa Pro Eligendo Pontífice, celebrada no dia 18 de abril de 2005.

[2] Jo 19,7.

[3] Jo19,6.

[4] Mt 27,24

[5] Mt 27:32

[6] Mt 27,25-27

[7] https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/papa-pede-que-catolicos-reflitam-se-sao-traidores-como-judas-ou-se-amam-deus-92bxf1yg9pbv3xs17j64459hq/

[8] Jo 15:10-16

[9] Jo 6, 70

[10] Lc 12:48

[11] Lc 22, 3 e Jo 13, 27

[12] Mt 26:50

[13] Col 1, 24

sábado, 3 de janeiro de 2015

RATZINGER E O CONCÍLIO VATICANO II

Concílio Vaticano II 1962 - 1965
 iniciado por São João XXIII e encerrado pelo Beato Paulo VI

Postado por editores do blog


Filósofo ateu Paolo d' Arcais (1944)
No ano 2000, o então cardeal Ratzinger (hoje papa emérito) participou de um debate acalorado com o filósofo ateu Paolo F. d´Arcais em torno do tema: Deus existe? - debate conduzido por Gad Lerner no Teatro Quirino de Roma perante uma multidão. A certa altura surge uma questão referente ao Vaticano II, evento do qual participou o próprio Ratzinger. Segue abaixo sua resposta que mostra já naquela época uma crescente preocupação a respeito das consequências surgidas devida vários fatores no período pós conciliar.

†††


"GAD LERNER: Antes de ser bispo, o jovem teólogo Ratzinger participou com entusiasmo dos trabalhos daquele Concilio, sendo até mesmo um elemento, digamos, fortemente favorável à inovação.

O Cardeal Ratzinger, quarenta anos depois, vê naquele evento um dos elementos da crise do cristianismo europeu? Ou seja, houve uma mudança no senhor?

O então pe.Ratzinger atuou no 
Concílio Vaticano II como perito.
 Ele foi eleito Papa em 2005.
JOSEPH RATZINGER: Uma mudança, não. Eu sempre penso que aquele esforço era necessário, que era o momento de abrir novos caminhos da linguagem e do pensamento teológicos e de buscar um novo encontro com o mundo e uma nova profundidade da fé, principalmente também no diálogo com nossos irmãos, as igrejas não católicas.

Nesse sentido, parece-me que foi um acontecimento providencial, necessário, mas com isso... com a comparação à intervenção cirúrgica também queria mostrar que um evento benéfico não necessariamente implica, de imediato, os efeitos positivos esperados. E nisso tenho um ilustre predecessor, o grande teólogo Gregório de Nacianceno, justamente definido como ‘o’ teólogo. Ele, tendo sido convidado pelo imperador ao Concílio de Constantinopla, após as experiências anteriores que tivera em outros concílios, disse: ‘Nunca mais irei a um Concílio, porque só cria confusão’; esse era seu desespero.

Eu não me expressaria assim, mas se ele disse... Um concilio é - como mensagem, como ação, digamos, como intervenção profunda na vida das Igrejas - necessário, mas, ao mesmo tempo, provoca novas complicações... e estamos em uma fase na qual temos de enfrentar essas complicações."

FONTE: RATZINGER, Joseph; D'ARCAIS, Paolo F. Deus existe? Trad. Sandra M. Dolinshy. São Paulo: Ed. Planeta do Brasil, 2009; p. 84-85. *O negrito é nosso
MARIA SEMPRE!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

APONTAMENTOS SOBRE O PAPADO - Final

Cristo confere autoridade à São Pedro


Prof. Pedro Maria da Cruz

Chegamos, por fim, à última parte do nosso estudo; abordemos pois uma outra questão levantada por críticos do catolicismo: ver Pedro como fundamento da Igreja contradiria a Bíblia, pois segundo esta só haveria um fundamento: Jesus Cristo. Baseiam-se em textos de São Paulo, por exemplo um que afirma: “Ninguém pode por outro fundamento senão o que já foi posto, Jesus Cristo” (1 Cor. 3, 11). 

Ora, não é preciso muita inteligência para descobrir que tal versículo encontra-se em outro contexto, portanto não se contradiz com aquele em que Nosso Senhor, falando da Instituição de Sua Igreja, coloca São Pedro como fundamento. Dizer que um texto contradiz ao outro seria afirmar que Jesus disse uma coisa e o Espírito Santo outra, o que é um absurdo de se supor, pois Deus não entra em contradição.

Além do mais, é comum na Bíblia haver afirmações “majestáticas”- digamos assim - que em outras partes do mesmo texto sagrado permitem variantes de compreensão. Por exemplo, em certo momento afirma Jesus Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo. 8,12); entretanto, em outra parte ele garante: “Vós sois a luz do mundo” (Mt. 5, 14). Haveria aqui alguma contradição? Claro que não. Basta entendermos que são expressões pedagógicas ditas em um contexto que exigia certo modo de expressão para melhor significar a mensagem que se pretendia transmitir.

Vejamos outro exemplo. Afirma Nosso Senhor: “Ninguém é bom, só Deus é bom” (Mc. 17,10); todavia, em outra oportunidade Ele mesmo faz o seguinte comentário: “O homem bom, do bom tesouro traz boas coisas” (Mt. 12, 35). De igual modo (mesmo se não levarmos em conta que os textos apresentados pelos críticos do papado estejam em contextos diferentes), podemos entender que afirmar Jesus como o único fundamento não invalida entendermos São Pedro como partícipe no “ser fundamento” do Filho de Deus. 

Por exemplo, os santos participam da santidade de Cristo

É ciente da ideia de “participação” que São Paulo mesmo conhecendo a frase de Cristo: “Ninguém chameis de pai sobre a terra” (Mt. 23,9), não deixa de escrever aos Coríntios: “Ainda que tenhais dez mil irmãos em Cristo, não tereis todavia muitos pais, pois eu sou o que vos gerou em Jesus Cristo” (1 Cor. 4, 15). E, finalmente, em outra parte, mesmo havendo afirmado: “Só a Deus seja a honra e a glória pelos séculos” (1Tm. 1,17), São Paulo não se contradiz ao proclamar o que se segue: “A honra e a glória serão dadas a quem pratica o bem.” (Rm. 2,10). 

Poderíamos perguntar ao Apóstolo: “Ora, é só a Deus a honra e a glória ou é também a todos os que fizerem o bem?” Então, com certeza nos responderia: “A honra e a glória são devidas tão somente a Deus, porém dela participam os que se tornam “um” com Ele; do mesmo modo que é Cristo o fundamento de todas as coisas, mas fez de Pedro o fundamento de sua Igreja tornando-o partícipe de seu poder.” E quando o fez? Simples. Quando afirmou solenemente (e Deus não mente!): “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt. 16, 18).

Finalmente, evitemos tocar aqui na questão se de fato o túmulo de Pedro estaria ou não em Roma. Este é um ponto por demais colocado em nosso favor. Escritores antigos como Clemente Romano; Inácio de Antioquia; Clemente de Alexandria; Orígenes; Cipriano, etc.; são testemunhos que só validam a certeza histórica da Igreja. Houve mesmo quem se viu na obrigação de concluir: “Que São Pedro esteve em Roma é tão claro, que um protestante se sente vexado ao ter que confessar que houve protestante que o negou” (DELLEGRAVE, pg. 79).

Papa venera as relíquias de São Pedro no Vaticano.

Prezados leitores, este artigo já se encontra por demais alongado. Esperamos haver auxiliado ao menos um pouco no esclarecimento quanto a este assunto tão doce e combativo da fé cristã: a Instituição Divina do Papado. Suplicamos a Nossa Senhora que proteja Santo Padre e encha nossos corações de ardor na defesa de seus direitos e deveres. Maria Santíssima! Rogai por nós!


MARIA SEMPRE!



Referência Bibliográfica:


DELLEGRAVE, Geraldo E. O papado é instituição divina. São Paulo: Loyola, 1986. 

CRUZ, Prof. Pedro M. A verdadeira Igreja de Cristo. SSVM.

sábado, 3 de dezembro de 2011

RATZINGER E O MISSAL DE PAULO VI


O então Cardeal Ratzinger



O segundo grande acontecimento no início de meus anos de Ratisbona foi a publicação do missal de Paulo VI, com a interdição quase completa do missal anterior, depois de uma fase de transição de cerca de seis meses. O fato de que, depois de um período de experiências que não raro haviam desfigurado profundamente a liturgia, se voltasse a ter um texto litúrgico obrigatório, devia ser saudado como algo de certamente positivo. Mas fiquei pasmo com a interdição do missal antigo, uma vez que nunca ocorrera algo parecido em toda a história da liturgia.

Deu-se a impressão de que isso fosse completamente normal. O missal anterior fora realizado por Pio V em 1570, dando seqüência ao Concílio de Trento; era, pois, normal que, depois de quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo missal. Mas a verdade histórica é outra. Pio V limitara-se a mandar reelaborar o missal romano então em uso, como no decurso vivo da história sempre ocorrera ao longo de todos os séculos. Não diferentemente dele, também muitos dos seus sucessores haviam novamente reelaborado esse missal, sem nunca contrapor um missal a outro. Sempre se tratou de um processo contínuo de crescimento e de purificação, em que, porém, a continuidade jamais era destruída. 



O então Cardeal Ratzinger celebrando o Rito Tridentino na FSSP 

Não existe um missal de Pio V que tenha sido criado por ele. Existe só a reelaboração por ele ordenada, como fase de um longo processo de crescimento histórico. O novo, depois do Concílio de Trento, tinha outra natureza: a irrupção da reforma protestante ocorrera sobretudo sob a forma de "reformas" litúrgicas. Não havia simplesmente uma Igreja católica e uma Igreja protestante uma ao lado da outra; a divisão da Igreja deu-se quase imperceptivelmente e teve a sua manifestação mais visível e historicamente mais incisiva na mudança da liturgia, que, por sua vez, foi muito diversificada no plano local, tanto que as fronteiras entre o que ainda era católico e o que  não mais o era, muitas vezes eram muito difíceis de definir. Nessa situação de confusão, possibilitada pela falta de uma norma litúrgica unitária e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, o Papa decidiu que o Missale Romanum, o texto litúrgico da cidade de Roma, uma vez que seguramente católico, devia ser introduzido em todos os lugares onde não se pudesse reivindicar uma liturgia que datasse de pelo menos duzentos anos antes. Onde isto ocorria, podia-se conservar a liturgia precedente, dado que o seu caráter católico podia ser considerado certo. Não se pode de fato, pois, falar de um interdito em relação aos missais anteriores e até aquele momento regularmente aprovados. Agora, ao contrário, a promulgação da interdição do missal que se desenvolvera ao longo dos séculos, desde o tempo dos sacramentais da antiga Igreja, implicou uma ruptura na história da liturgia, cujas conseqüências só podiam ser trágicas.

Como já ocorrera muitas vezes antes, era totalmente razoável e estava plenamente em linha com as disposições do Concílio que se chegasse a uma revisão do missal, sobretudo em consideração da introdução das línguas nacionais. Mas naquele momento ocorreu algo mais: fez-se em pedaços o edifício antigo e se costruiu um outro, ainda que com o material de que era feito o edifício antigo e utilizando também os projetos anteriores. Não há nenhuma dúvida de que esse novo missal continha em muitas das suas partes autênticas melhorias e um real enriquecimento, mas o fato de que ele tenha sido apresentado como um edifício novo, contraposto ao que se formara ao longo da história, que se proibisse este último e se fizesse de certo modo a liturgia aparecer não mais como um processo vital, mas como um produto de erudição especializada e de competência jurídica, trouxe-nos danos extremamente graves. 



A chamada "missa afro" 

 Foi assim, de fato, que se desenvolveu a impressão de que a liturgia seja "feita", que não seja algo que existe antes de nós, algo de " dado", mas que dependa das nossas decisões. Segue-se daí, por conseguinte, que não se reconheça esta capacidade decisional só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas, em definitivo, cada "comunidade" queira fazer sua própria liturgia. Mas quando a liturgia se torna algo que cada um faz por si mesmo, ela não nos dá mais aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida.


Virgo Mariae, ora pro nobis!

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Cardeal Ratzinger, A Minha Vida.