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quinta-feira, 29 de junho de 2017

O RESPEITO DEVIDO AOS SACERDOTES –------ SANTA CATARINA DE SENA -------

"Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue de Jesus Cristo"
"Filha querida, ao manifestar-te a grande virtude daqueles pastores, quero colocar em evidência a dignidade dos meus ministros. Pelo pecado de Adão, as portas da eternidade fecharam-se, mas o meu Filho abriu-as com a chave do seu sangue. Ao sofrer a paixão e morte, ele destruiu vossa morte e vos lavou no sangue. Sim, foram seu sangue e sua morte que, em virtude da união da natureza divina com a humana, deram acesso ao céu. E a quem deixou Cristo tal chave? Ao apóstolo Pedro e a seus sucessores, os que vieram e que virão depois dele até o dia do juízo final. Todos possuem a mesma autoridade de Pedro; nenhum pecado a diminui, do mesmo modo que não destrói a santidade do sangue de Cristo e dos Sacramentos. Já disse que o sol eucarístico não tem manchas e que o mal cometido por quem o administra ou recebe não apaga sua luz. Não, o pecado não danifica os sacramentos da santa Igreja, não lhes diminui a força; prejudica a graça e aumenta a culpa somente em quem os ministra ou recebe indignamente.

Na terra, quem possui a chave do sangue é o Cristo-na-terra. Certa vez eu te manifestei essa verdade numa visão, para indicar o grande respeito que os leigos devem ter pelos ministros, bons ou maus que eles sejam, e quanto me desagrada que alguém os ofenda. Pus diante de ti a jerarquia da Igreja sob a figura de uma dispensa contendo o sangue de meu Filho. No sangue estava a virtude de todos os sacramentos e a vida dos fiéis. À porta daquela despensa, vias o Cristo-na-terra, encarregado de distribuir o sangue e fazer-se ajudar por outros no serviço de toda a santa Igreja. Quem ele escolhia e ungia, logo se tornava ministro. Dele procedia toda a ordem clerical; ele dava a cada um sua função no ministério do glorioso sangue. E como dispunha dos seus auxiliares, possuía a força de corrigi-los nos seus defeitos.

De fato, é assim que eu quero que aconteça. Pela dignidade e autoridade confiada a meus ministros, retirei-os de qualquer sujeição aos poderes civis. A lei civil não tem poder legal para puni-los; somente o possui aquele que foi posto como senhor e ministro da lei divina.

Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: “Não toqueis nos meus cristos” (Sl 105, 15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros; não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a mim e a meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: “Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos”!

O valor do sacerdócio provém do
 próprio Nosso Senhor Jesus Cristo
Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: “Eu não ofendo a santa Igreja, nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores”! Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência. Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa neles vê somente muitos defeitos e pecados. De tais defeitos falarei em outro lugar. Mas quando o respeito se fundamenta em mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; como disse, a grandeza da eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.



Santa Catarina de Sena, “O Diálogo” Cap. 28. Paulus, 9ª edição, SP, 2005 p. 237-240













MARIA SEMPRE!

segunda-feira, 14 de março de 2016

PAPA PAULO VI: O DIREITO CANÔNICO


“O Direito canônico, como tudo o que existe na Igreja, 
ordena-se totalmente para o bem das almas”

“A caridade ocupa, sem dúvida, o lugar mais importante. 
Mas a caridade não pode subsistir sem a justiça, expressa nas leis.”

Prof. Pedro Maria da Cruz

Papa Paulo VI
“Não ignoramos, igualmente, os numerosos e funestos preconceitos que surgem contra o Direito Canônico. São muitos aqueles que exaltando a liberdade, a caridade, os direitos da pessoa humana e a índole carismática da Igreja, criticam com hostilidade as instituições canônicas, procurando diminuir a importância das mesmas, depreciando-as e até pretendendo a sua eliminação, como se fossem ‘estruturas’ impostas extrinsecamente, que diminuem o caráter espiritual da mensagem evangélica e obrigam a liberdade de que os filhos de Deus devem gozar. Daqui nasce uma forma peculiar de comportamento em oposição a qualquer autoridade legítima, e que alguns pretendem sancionar com a autoridade do Concilio Vaticano II.

Confessamos que as leis canônicas em que o chamado ‘juridicismo’ predomina de tal forma que enfraqueça o aspecto espiritual da igreja – as leis que não se fundarem no dogma católico; que não salvaguardem suficientemente a perfeição humana; que impedirem o progresso da vida religiosa – não correspondem absolutamente ao espírito e às normas diretivas que o Concilio deu para a renovação da vida cristã.

Mas o Concilio não só não rejeita o Direito Canônico, isto é, as normas pelas quais são definidos os deveres e com as quais são salvaguardados os direitos dos membros da Igreja, mas também postula energicamente este direito como consequência lógica, necessariamente derivada do poder que Jesus Cristo confiou à sua Igreja, e como um elemento que pertence à mesma natureza da Igreja. Daqui, a exortação do mesmo Concílio: ‘no ensinamento do Direito canônico [...] tenha-se em conta o mistério da Igreja’.

Esta união do Direito canônico com o mistério da Igreja é explicitada pelo próprio Concílio [...]. Desta forma, manifesta-se claramente a natureza própria da lei eclesiástica, que é espiritual: ‘o Direito canônico, como tudo o que existe na Igreja, ordena-se totalmente para o bem das almas [...]. Tanto o administrador dos assuntos eclesiásticos, como o juiz, o ministro das coisas sagradas e o conselheiro dos fiéis devem pensar constantemente que têm de dar contas da salvação das almas.’ (AAS,45,1973,688).

‘no ensinamento do Direito canônico [...]
 tenha-se em conta o mistério da Igreja’.
De tudo o que foi dito até agora, deduz-se que a legislação canônica não deve ser considerada como um elemento estranho na Igreja, ou como um impedimento que retarda a expansão da vida cristã. Pelo contrário, a sua função própria na Igreja consiste em sancionar e proteger tudo o que se julga conveniente para viver com maior fidelidade e constância uma existência cristã. Por isso, não pode realizar-se uma ação pastoral verdadeiramente eficaz, se esta não tiver, ao mesmo tempo, uma firme tutela na sábia ordenação de alguns estatutos jurídicos.

A caridade ocupa, sem dúvida, o lugar mais importante. Mas a caridade não pode subsistir sem a justiça, expressa nas leis. As duas caminham juntas e devem completar-se mutuamente, porque derivam de uma fonte, que é Deus.”

(S.S. Paulo VI na audiência de 14 de dezembro de 1973 aos participantes no terceiro curso de atualização em Direito Canônico in Sedoc, 6, 1974, col. 1153-1155).

FONTE: GONÇALVES, Pe. Mário L. Menezes. Introdução ao Direito Canônico. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004; p. 215-217.


MARIA SEMPRE!


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O PAPA PODE ERRAR QUANDO ENSINA?

Papa Pio IX proclama Dogma da Infalibilidade papal - 1870


Prof. Pedro Maria da Cruz


“A opinião que então o Papa expunha não era conforme à verdade. A discussão entre Franciscanos e Dominicanos mais se acendeu.” (Pe. Bujanda -1953)

 Nós somos felizes por termos sido fundados em um homem de “Pedra” (São Pedro - Kephas). Ele é a base firme e visível que dá solidez ao edifício da verdade cuja causa primeira é o próprio Deus. Foi o que escrevera no século XVII, Padre Antônio Vieira: “Arruinou-se-lhe o primeiro edifício, porque o fundou em um homem de barro; para que se lhe não arruíne o segundo, funda-o em um homem de pedra”[1]

São tão grandes em dignidade e importância os sucessores de São Pedro que, em virtude de seu oficio, eles gozam, inclusive, de infalibilidade no magistério quando, em seu ensino universal, como Pastores e Doutores supremo de todos os fiéis, proclamam, por ato definitivo, que se deve aceitar uma doutrina sobre a fé e os costumes[2]

Porém, surge uma questão incômoda: “Mas, e em seu ensino privado, os papas podem errar?” Disponibilizamos a seguir aos leitores de nosso blog um interessante fato histórico que ajudará a responder essa demanda. Ademais, o próprio padre Bujanda, autor do texto, já nos esclarece a dúvida em seus comentários...


O PAPA PODE ERRAR EM SEU ENSINO PRIVADO...

O papa João XXII errou no ensino privado
 “No século XIV discutiu-se com ardor entre Franciscanos e Dominicanos se os prêmios dos bem-aventurados e os castigos dos prescritos começavam já em toda a sua plenitude após a morte ou depois do juízo final, em sendo pronunciada a sentença pelo supremo Juiz de vivos e mortos.
Houve, nessa altura, um Papa, João XXII, que se inclinava ao parecer dos Menores, os quais afirmavam que só depois do Juízo final começariam os bem-aventurados a gozar da visão de Deus no céu, e os réprobos a sofrer as penas do inferno.


Num sermão que esse Pontífice pregou no dia de Todos os Santos, em 1331, em Avinhão (França), onde então residia, expôs as seguintes ideias:

O prêmio dos santos, antes da vinda de Cristo, era o seio de Abraão. Depois da vinda de Cristo e da sua ascensão aos céus, tal prêmio até ao dia de Juízo será estar sob o altar (Alusão a certas palavras do Apocalipse, VI, 9), isto é, protegidos e consolados pela humanidade de Cristo. Depois do dia do Juízo será, pelo contrário, estar sobre o altar, porque depois desse dia verão não só a humanidade mas também a divindade, tal como é em si.

Noutro sermão expressou-se deste modo:
 
‘Dizemos que as almas separadas dos corpos não possuem a vista da divindade, na qual consiste o prêmio total dos santos, segundo S. Agostinho, nem terão antes da ressureição (final). Possui-la-ão quando ressuscitarem com os corpos porque tal prêmio se atribuirá ao composto de alma e corpo, quando o homem inteiro for feliz com essa visão. E digo com S. Agostinho: ‘Se estou em erro quem souber mais do que eu, corrija-me’.

A 5 de Janeiro do ano seguinte, disse novamente num sermão:

‘Da visão de Deus dissemos já o suficiente em dias anteriores. Como Deus não é mais pronto para castigar do que para premiar, não dará o castigo ao maus antes de dar o premio aos bons. Mas já dissemos que os bons não entram na vida eterna antes do dia de Juízo. Logo nem sequer os maus irão, antes desse dia, para os tormentos eternos do inferno onde há pranto e ranger de dentes.’ (Veja-se Dictionnaire de théologie, de Vacant Mangenot, Benoit XII, colunas 658 e segs.) 

Assim o Papa, fora do exercício das funções de Pastor e Mestre universal, defendia apenas como pregador, que a recompensa dos predestinados e o castigo dos réprobos não começariam na sua plenitude antes do dia de Juízo.

Como se vê, não se tratava de saber se com a morte ficava irrevogavelmente definido o nosso destino para toda a eternidade, mas unicamente quando começariam com toda a sua força os prêmios ou os castigos.


O papa não é infalível quando fala como
 orador particular e expõe a sua opinião
 num ponto doutrinal ainda indefinido.

Além disso, qualquer pessoa, medianamente instruída em Teologia, sabe perfeitamente que isto nada tem que ver com a infalibilidade pontifícia. O Papa é infalível quando define que uma verdade é de fé, por exemplo, a Imaculada Conceição, ou a Assunção de N. Senhora ao Céu e em outras ocasiões menos solenes. Mas já não o é quando, como no caso presente, fala como orador particular e expõe a sua opinião num ponto doutrinal que não está definitivamente resolvido ou não se sabe com certeza que o esteja

 

A opinião que então o Papa expunha não era conforme à verdade. A discussão entre Franciscanos e Dominicanos mais se acendeu. O Rei de França interveio para que se declarasse qual era a verdadeira doutrina. A morte, porém, impediu aquele Pontífice de decidir a questão. Ao morrer acreditava no contrário do que pregara. Acreditava, portanto, que prémios e castigos começavam a seguir à morte.

Bento XII, seu sucessor, logo desde o principio do seu pontificado quis pôr termo à controvérsia. Ordenou a ambos os partidos contendores que estudassem a questão. E quando tudo estava preparado, a 29 de Janeiro de 1336 durante a solene celebração da Missa, promulgou a sua celebérrima constituição Benedictus Deus da qual extraímos as seguintes passagens. 

 ‘Por esta Constituição, que há de valer para sempre, definimos com autoridade apostólica, que segundo a disposição geral de Deus, depois da ascensão aos céus do Salvador e Senhor nosso Jesus Cristo, as almas de todos os que receberam o batismo e nada tinham que expiar e também todas as que deviam dar uma satisfação, uma vez que a deram, imediatamente depois da morte, e antes de serem de novo unidas a seus corpos, antes do Juízo universal, estiveram, estão e estarão, no Céu com Cristo, no reino e paraíso celestial, agregadas à sociedade dos santos anjos; que vêem a essência divina face a face com visão intuitiva e que tal com tal visão e gozo são verdadeiramente felizes e possuem a vida e o descanso eternos. Definimos, mais, que as almas dos que morreram em pecado mortal, imediatamente depois da sua morte descem ao inferno onde são atormentadas com suplícios infernais... ’”

Fonte: BUJANDA, P. Teologia do Além. Trad. Joaquim A. de Souza. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1953; p. 14-18 (o negrito é nosso) 



MARIA SEMPRE!


BIBLIOGRAFIA:

- VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Vol. VIII (De São Pedro). Erechim: ELDEBRA, 1998; p.237
- Código de Direito Canônico (CDC) - Cân. 749 - §1 e §2.
- BUJANDA, P. Teologia do Além. Trad. Joaquim A. de Souza. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1953; p. 14-18.
[1] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Vol. VIII (São Pedro). Erechim: ELDEBRA, 1998; p.237 [2] Código de Direito Canônico (CDC) - Cân. 749 - §1. Conferir o §2. (Também o colégio dos bispos goza de infalibilidade no magistério; porém a seu modo...)

terça-feira, 1 de julho de 2014

MEUS PROFESSORES MENTIRAM...


S. Domingos  de Gusmão defendendo a fé católica
contra o catarismo.


Prof. Rafael Maria da Cruz

Prezados leitores, segue abaixo uma breve exposição referente à heresia cátara que tanto mal fez à Igreja e à sociedade civil. Chamamos a atenção dos senhores sobre o fato lastimável de vários professores mal formados ou maliciosos haverem nos privado das terríveis características desta seita gnóstica e apresentado a Igreja Católica como a "vilã da história", cruel e manchada de sangue inocente. 

Os parágrafos seguintes, cremos, bastarão para termos o mínimo de noção da periculosidade desta seita atacada primeiro pela sociedade civil e depois, a pedido desta, pela mão zelosa da Igreja. Os mais lúcidos saberão criticar com prudência os excessos daqueles que agiram em nome da Igreja mas que muitas vezes não se deixaram conduzir pela sabedoria milenar desta mesma instituição. Boa leitura.



†††


OS ALBIGENSES 

“Do antigo fermento do gnosticismo que tinha envenenado por tanto tempo os primeiros séculos da Igreja, havia germinado uma seita perigosa. Habilmente explorada por espíritos inquietos e ambiciosos aos quais irritavam a riqueza e o poder da Igreja, havia ela invadido pouco a pouco o norte da Itália, a Provença, o Delfinado e o Languedoc, e aí tomou o nome sob que é mais conhecida: o Albigeísmo, da cidade de Albi, capital de seus sectários. Era a heresia cátara, ramificada sob os nomes diversos de seitas irmãs: Publicanos, Búlgaros, Valdezes, Pobres de Lyon, Patarins e Albigenses. 

No Languedoc sob o céu enervante do sul, onde tudo falava de vida fácil e voluptuosa, ela fez em breve grandes progressos. Suas doutrinas eram um perigo para sociedade não só pelos princípios que enunciavam como pelas desordens e sedições que suscitavam. Proibiam todo contato com a matéria, emanada do princípio mal, e condenavam o casamento, fonte da sociedade, permitindo embora, a seus sectários, a prática das mais vergonhosas orgias. 

Negadores da base de toda ordem, atacavam tanto a autoridade do poder secular como a da Igreja. Os sectários que tinham recebido o consolamentum, espécie de batismo espiritual, para evitar recaírem no pecado, condenavam-se ao suicídio, deixando-se morrer de fome, tomando veneno ou vidro moído, ou abrindo as veias. E se um consolado recusava suicidar-se, era proibido à sua família nutri-lo; viu-se assim filhos deixarem morrer de fome seus pais e pais deixarem perecer de inanição seus filhos. 

Ao passo que para o cristão toda prova, toda tentação mesmo, é um meio de santificação, e a vida tem um preço infinito porque ela permite ganhar o céu – para o maniqueu ou albigense, a vida espiritual não pode existir nesta terra, porque alma é prisioneira num corpo que é obra de Satanás. O suicídio é a conseqüência lógica de tal sistema: já que o corpo é uma prisão, é preciso sair dela; já que a vida é um mal, é necessário destruí-la. 

Usando de todos os meios para espalhar seus erros, acharam amigos e partidários não só entre os leigos como até entre o clero, mas foram sobretudo os representantes da alta aristocracia feudal que se tornaram seus defensores. 

Batalha de Muret 1213, realizada contra as barbáries
 praticadas pelos Albigenses.
Muitos dos príncipes os mais poderosos, como os Condes Raimundo VI e VII de Tolosa, os Viscondes de Béziers, os Condes de Bearn, d’Armagnac, de Foix e de Comminges, os tomaram abertamente debaixo de sua proteção. Era raro mesmo encontrar entre eles um homem do povo, operário ou camponês. A seita recrutava-se entre a aristocracia e a burguesia. (...) Bem disse Bossuet: ‘A heresia cátara ameaçava a terra de uma conflagração geral’(...) Foi certamente pensando em todos esses excessos e nas doutrinas fanáticas que os haviam inspirado que num momento de sinceridade, um dos inimigos da inquisição, Lea, fez a seguinte interessante confissão: 'Por mais horror que nos possa inspirar os meios empregados para combatê-los, por mais compaixão que devamos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecemos sem hesitação que A CAUSA DA ORTODOXIA NÃO ERA SENÃO A MESMA QUE A DA CIVILIZAÇÃO E DO PROGRESSO. Se o catarismo houvesse dominado, ou mesmo emparelhado com, o catolicismo, não é duvidosos que a sua influência teria sido simplesmente desastrosa’. [i]

Compreende-se agora porque os príncipes do século XI e XII foram mais enérgicos do que os bispos e os papas na repressão da heresia e porque eles não cessaram de atiçar nesse ponto o zelo da hierarquia eclesiástica (...). ”


†††


FONTE: OTTONI, Pio Benedito. A Inquisição.7ª edição, Gráfica Jacyra: Niterói, 1964, p.18-24


MARIA SEMPRE! 


[i] Lea, Histoire da l’Inquisition I, p. 120. (Nb.: O itálico e o negrito são nossos.) 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

APONTAMENTOS SOBRE O PAPADO - Final

Cristo confere autoridade à São Pedro


Prof. Pedro Maria da Cruz

Chegamos, por fim, à última parte do nosso estudo; abordemos pois uma outra questão levantada por críticos do catolicismo: ver Pedro como fundamento da Igreja contradiria a Bíblia, pois segundo esta só haveria um fundamento: Jesus Cristo. Baseiam-se em textos de São Paulo, por exemplo um que afirma: “Ninguém pode por outro fundamento senão o que já foi posto, Jesus Cristo” (1 Cor. 3, 11). 

Ora, não é preciso muita inteligência para descobrir que tal versículo encontra-se em outro contexto, portanto não se contradiz com aquele em que Nosso Senhor, falando da Instituição de Sua Igreja, coloca São Pedro como fundamento. Dizer que um texto contradiz ao outro seria afirmar que Jesus disse uma coisa e o Espírito Santo outra, o que é um absurdo de se supor, pois Deus não entra em contradição.

Além do mais, é comum na Bíblia haver afirmações “majestáticas”- digamos assim - que em outras partes do mesmo texto sagrado permitem variantes de compreensão. Por exemplo, em certo momento afirma Jesus Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo. 8,12); entretanto, em outra parte ele garante: “Vós sois a luz do mundo” (Mt. 5, 14). Haveria aqui alguma contradição? Claro que não. Basta entendermos que são expressões pedagógicas ditas em um contexto que exigia certo modo de expressão para melhor significar a mensagem que se pretendia transmitir.

Vejamos outro exemplo. Afirma Nosso Senhor: “Ninguém é bom, só Deus é bom” (Mc. 17,10); todavia, em outra oportunidade Ele mesmo faz o seguinte comentário: “O homem bom, do bom tesouro traz boas coisas” (Mt. 12, 35). De igual modo (mesmo se não levarmos em conta que os textos apresentados pelos críticos do papado estejam em contextos diferentes), podemos entender que afirmar Jesus como o único fundamento não invalida entendermos São Pedro como partícipe no “ser fundamento” do Filho de Deus. 

Por exemplo, os santos participam da santidade de Cristo

É ciente da ideia de “participação” que São Paulo mesmo conhecendo a frase de Cristo: “Ninguém chameis de pai sobre a terra” (Mt. 23,9), não deixa de escrever aos Coríntios: “Ainda que tenhais dez mil irmãos em Cristo, não tereis todavia muitos pais, pois eu sou o que vos gerou em Jesus Cristo” (1 Cor. 4, 15). E, finalmente, em outra parte, mesmo havendo afirmado: “Só a Deus seja a honra e a glória pelos séculos” (1Tm. 1,17), São Paulo não se contradiz ao proclamar o que se segue: “A honra e a glória serão dadas a quem pratica o bem.” (Rm. 2,10). 

Poderíamos perguntar ao Apóstolo: “Ora, é só a Deus a honra e a glória ou é também a todos os que fizerem o bem?” Então, com certeza nos responderia: “A honra e a glória são devidas tão somente a Deus, porém dela participam os que se tornam “um” com Ele; do mesmo modo que é Cristo o fundamento de todas as coisas, mas fez de Pedro o fundamento de sua Igreja tornando-o partícipe de seu poder.” E quando o fez? Simples. Quando afirmou solenemente (e Deus não mente!): “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt. 16, 18).

Finalmente, evitemos tocar aqui na questão se de fato o túmulo de Pedro estaria ou não em Roma. Este é um ponto por demais colocado em nosso favor. Escritores antigos como Clemente Romano; Inácio de Antioquia; Clemente de Alexandria; Orígenes; Cipriano, etc.; são testemunhos que só validam a certeza histórica da Igreja. Houve mesmo quem se viu na obrigação de concluir: “Que São Pedro esteve em Roma é tão claro, que um protestante se sente vexado ao ter que confessar que houve protestante que o negou” (DELLEGRAVE, pg. 79).

Papa venera as relíquias de São Pedro no Vaticano.

Prezados leitores, este artigo já se encontra por demais alongado. Esperamos haver auxiliado ao menos um pouco no esclarecimento quanto a este assunto tão doce e combativo da fé cristã: a Instituição Divina do Papado. Suplicamos a Nossa Senhora que proteja Santo Padre e encha nossos corações de ardor na defesa de seus direitos e deveres. Maria Santíssima! Rogai por nós!


MARIA SEMPRE!



Referência Bibliográfica:


DELLEGRAVE, Geraldo E. O papado é instituição divina. São Paulo: Loyola, 1986. 

CRUZ, Prof. Pedro M. A verdadeira Igreja de Cristo. SSVM.

terça-feira, 20 de maio de 2014

APONTAMENTOS SOBRE O PAPADO - Parte III

S.S. Pio XII em sua sedia gestatória.
“Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (São Mateus)



Prof. Pedro Maria da Cruz

Abordemos rapidamente algumas questões levantadas por críticos do papado. Acreditamos que será de grande utilidade para todos nós que pugnamos na defesa das coisas de Deus. Sabemos das muitas barreiras que são colocadas perante os olhos de católicos sinceros tantas vezes mal formados por certa catequese superficial e desnorteada. 

Uma questão levantada refere-se à antiguidade do exercício da autoridade do Bispo de Roma (o papa) sobre a Igreja universal. Afirmam os desinformados que o papado seria uma instituição medieval inventada pela Igreja Católica (ou mesmo pelo Império Romano) como forma de centralização do poder. 

...ora, jamais poderiam ser verdadeiras tais afirmações. 

Há provas cabais de que o exercício de poder dos Bispos de Roma - os papas – remonta inclusive ao primeiro século da era cristã; o que prova sua irrefutável continuidade em relação à autoridade de São Pedro. 

Tiara papal
O pensador G. E. Dellegrave, em sua interessante obra por nós já citada, apresenta uma série de interferências papais nos cinco primeiros séculos da era cristã, o que comprova nossa assertiva. De acordo com ele, já no primeiro século da era cristã o papa Clemente Romano, terceiro sucessor de São Pedro, escreve aos Corintos resolvendo desavenças locais. Segundo consta, quem não obedecesse à sua carta incorreria em falta e se envolveria em grande perigo (DELLEGRAVE, pg. 100). Que bispo poderia interferir em outras comunidades cristãs senão o sucessor de Pedro? Afinal, só ele possuía autoridade sobre toda a Igreja e não simplesmente sobre seu rebanho local.

No século segundo o papa São Vitor ordenou aos bispos de todo o mundo cristão que se reunissem em Concilio para estabelecer definitivamente o dia da celebração pascal; e mais, ameaça de excomunhão aqueles que ousarem não obedecer a suas determinações como sucessor de São Pedro. Vemos aqui a clara manifestação do poder de jurisdição do papa sobre todas as Igrejas, independente do lugar onde estejam.

O papa São Calixto no século terceiro condena heresias (Patripassianos) e manifesta sua autoridade universal fazendo determinações para a África, depondo, inclusive bispos. Quem poderia fazer isso e ser respeitado como passível de fazê-lo senão o sucessor do próprio São Pedro, chefe de todas as Igrejas cristãs? 

No século quarto com o papa Júlio I, percebemos a consciência tanto do ocidente quanto do oriente no que tange à autoridade papal, pois é explicitado com clareza que é de Roma que se deve decretar o que é ideal para a Igreja como um todo (DELLEGRAVE, pg. 102). 

As duas chaves: símbolo do poder
temporal e espiritual
Finalmente, no século quinto, o papa Bonifácio I afirma numa carta com ousadia aos bispos da Tessália:“É certa por palavra divina que a Igreja romana é a cabeça de todas as Igrejas disseminadas no mundo; quem dela se aparta desmembra-se da religião cristã [...]” (DELLEGRAVE, pg. 103). Poderíamos citar muitos outros exemplos, como aqueles que estão apresentados em nosso livro “A verdadeira Igreja de Cristo”, composto pela Sociedade da Santíssima Virgem Maria - SSVM, porém cremos que esses bastam para demonstrar aos nossos leitores o quanto é infundada a opinião de que o papado teria surgido na Idade Média ou que teria sido criado pelo Império Romano como forma de dominação universal. Temos assim mais uma prova de como são infundados certos ataques dos inimigos da Igreja Católica. 

Cremos que esta primeira questão está por demais esclarecida. Deixamos para uma quarta e última parte a conclusão desta nossa série de artigos referentes ao papado. Nossa Sra. De Las Lajes! Rogai por nós!

MARIA SEMPRE!


Referência Bibliográfica

DELLEGRAVE, Geraldo E. O papado é instituição divina. São Paulo: Loyola, 1986. 

CRUZ, Prof. Pedro M. A verdadeira Igreja de Cristo. SSVM.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

APONTAMENTOS SOBRE O PAPADO - Parte II

  
“Dentre todos os homens do mundo, Pedro foi o único escolhido para estar à frente de todos os povos chamados à fé.” (São Leão Magno, Séc.V)

Prof. Pedro Maria da Cruz

São Pedro recebe as chaves do Reino dos Céus
A fim de compreendermos a importância do papado, olhemos para as Escrituras e, na figura de São Pedro - primeiro papa - aprendamos a grandeza e a centralidade dessa obra do Espírito Santo. O papado é, com efeito, o ponto central que (em Cristo e por Sua virtude), atrai a si todas as coisas mantendo-as suspensas em sua luz, para, com influxo sobrenatural, estabelecer de fato a ordem predestinada por Deus desde toda a eternidade.

O “Trono de Pedro” é, deste modo, a mão visível do divino Salvador atuando sobre o mundo. O perpétuo fundamento da unidade (Lumen Gentium, 18) é finalmente, o meio supremo utilizado por Deus para fazer cumprir Sua vontade sobre a terra.

Olhemos para São Pedro! Nele podemos admirar o protótipo de todos os Vigários de Cristo. Mas, será que esse humilde pescador possuía mesmo toda a grandeza que professamos? Foi ele, de fato, o primeiro líder da Igreja universal?

Sim, por graça de Deus...

Quem negará a primazia conferida a Pedro no grupo dos doze? Ele aparece sempre em primeiro lugar, o primaz, por ser o príncipe dos apóstolos (Mt. 10,2-4; Mc. 3,16-19; Lc.6,13-16; At.1,13). O termo grego PRÓTOS, traduzido na Bíblia por “primeiro”, refere-se também à posição de honra, excelência e dignidade; para além da mera designação numérica.

Ademais, é Simão Pedro - o superior - quem fala em nome de todos os Apóstolos como o chefe inconteste (Jo. 6, 69-70; Mt. 15, 16; 19, 27).Isso é tão verdade que ao citar o seu nome alguns autores bíblicos chegam a omitir o nome dos restantes (Mc. 16,7; At. 2,14; 5,29 etc.). É por sua prevalência sobre os apóstolos que Cristo lhe dedica uma atenção especial, por exemplo, ao mudar-lhe o nome para Cefas (Pedra, sobre a qual edificaria a Igreja) ou dirigir-se-lhe com destaque frente aos outros (Mt. 17,27; Mt. 26,37). É a ele, e somente a ele, que Cristo determina a obrigação de confirmar os irmãos na fé (Luc. 22, 31-32), mesmo sabendo que o negaria por três vezes.

É Pedro quem opera o primeiro milagre em confirmação do que se deve crer (At. 3, 7 ss); é ele – e não poderia ser outro - quem determina a eleição de um sucessor para Judas, o traidor (At.1, 15 ss); além do mais “indo por toda parte”  (At.9, 31-32) qual general que passa em revista às suas tropas ,demonstra sua posição de mando em todas as comunidades cristãs. Por sua superioridade no grupo apostólico é que, no Concílio de Jerusalém, após suas palavras, “toda assembleia se calou” (At. 15,12); e, se Tiago falou por último não foi senão para confirmar a decisão que ele manifestara.

É Pedro quem, como chefe da Igreja, por primeiro anuncia a boa nova aos gentios; assim como, anuncia o Evangelho aos judeus na festa de Pentecostes. A ele é dado de modo singular o “poder das chaves” (Mt. 16,19), e só em outro momento Nosso Senhor dirige-se aos demais para falar-lhes sobre o assunto - mas sempre em união com Pedro. “Ninguém, absolutamente ninguém, nenhum ser humano recebeu de Deus tamanha autoridade.” (DELLEGRAVE, pg.34). Sua primazia era, como se pode perceber, evidente para todos “(...) até ao ponto de trazerem para as ruas os enfermos e colocá-los nos leitos para que chegando Pedro, ao menos sua sombra os cobrisse” (At. 5,15). Sim, sua autoridade era de fato evidente. Por exemplo, é ante as palavras de Pedro que Ananias e Safira caem mortos, pois haviam desobedecido ao mandamento de Deus (At. 5, 1-15); assim como, é ele, o grande líder, quem condena Simão, o pérfido  Mago, decidindo quem merece ou não participar do apostolado (At. 8,20-22).

Caríssimo leitor, perante tanta evidência bíblica podemos entender o motivo de todos os sucessores de Pedro na Diocese de Roma (onde morreu assassinado devido a sua fidelidade ao Evangelho), terem sido vistos como os legítimos superiores da Igreja cristã.
Tanto se respeitou os sucessores de Pedro em Roma que até o dia de hoje é guardada como um tesouro a lista de todos os que vieram a ocupar seu lugar naquela Diocese. Vejamos: depois de São Pedro veio Lino; morrendo este, sucedeu-lhe Anacleto; depois Clemente I, Evaristo e Alexandre I; substituindo-os na cátedra de Pedro temos Sisto I, Telésforo, Higino e Pio I; depois, Aniceto, Sotero, Eleutério e Vitor etc., etc., etc., até chegarmos aos dias atuais onde quem está como Bispo de Roma e líder de toda Igreja é S.S. Francisco, que sucede S.S. Bento XVI, após o longo pontificado do Beato João Paulo II.

São Pedro fala como Chefe da Igreja
Quem afirma que o papado não é uma Instituição divina fundada pelo próprio Jesus Cristo ainda nos primórdios do catolicismo, e quem nega que ele teve em Pedro seu primeiro representante, “(...) nunca leu um simples resumo de História Eclesiástica, nunca manuseou os documentos dos primeiros séculos do cristianismo, nunca computou as Atas dos Concílios, nunca examinou as obras dos antigos padres.” (DELLEGRAVE pg. 99). Para citarmos apenas um, vejamos Agostinho de Hipona, respeitado pelo próprio Martinho Lutero um dos fundadores do protestantismo: “Pedro, diz ele, recebeu o primado entre os discípulos: sua sede, Roma, é a mais alta autoridade; quando Roma fala está terminada a causa.” (DELLEGRAVE, pg. 95).

A força dessa frase de Santo Agostinho a ninguém deve assustar, pois os cristãos - já nos séculos segundo e terceiro - afirmavam sem medo, por exemplo, que “Roma preside a comunhão dos fieis” (Séc. II, Bispo Mártir S. Inácio de Antioquia) ou que, “Com esta Igreja (a romana, onde Pedro governava) em razão de sua primazia de poder, todas as outras Igrejas, isto é, os fiéis de todo o universo têm obrigação de se conformar” (Séc. III S. Irineu de Liâo); além do mais, desde o primeiro grande Concilio geral do Cristianismo, ocorrido após o fim das perseguições romanas, até o Vaticano II, são os sucessores de Pedro em Roma quem os convoca e confirma para serem válidos.

Ora, tudo isso não deve causar estranhamento algum, pois o próprio Cristo afirmara a Simão, o humilde pescador: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt. 16, 18). Aqui a origem de toda autoridade desse papa e seus sucessores: o próprio Filho de Deus. Que o mundo respeite ao menos as palavras de Jesus Cristo!
Maria, Mãe da Igreja! Rogai por nós!

Referência Bibliográfica
  • DELLEGRAVE, Geraldo E. O papado é instituição divina. São Paulo: Loyola, 1986.
  • LUTERO, M. Do cativeiro babilônico da Igreja. São Paulo: Martins Fontes.
  • Liturgia das Horas. Vol. III. Festa da Cátedra de São Pedro Apóstolo.
  • Documentos do Concilio Vaticano II. LG.         



sábado, 29 de março de 2014

APONTAMENTOS SOBRE O PAPADO Parte I

Mosaico retratando Jesus entregando a Chave da Igreja para  São Pedro
 junto Cúpula da Basílica São Pedro na Cidade do Vaticano - Roma - Itália
“O poder é dado a Pedro de modo singular, porque a sua dignidade é superior à de todos os que governam a Igreja.” (São leão Magno, Sec. V)

Prof. Pedro Maria da Cruz

É urgente a defesa do papado; sublime instituição formada por Nosso Senhor Jesus Cristo! Com efeito, o mundo hodierno (sempre mais relativista, secularizado e materialista) tende a desacreditar todo e qualquer arauto da realidade sobrenatural; quanto mais ao “Trono de São Pedro” em cujo campo gravitacional foi gerada uma verdadeira e gloriosa civilização de memória indelével e profética.
A sociedade contemporânea, fixada como está no extremo oposto da cristandade medieval, deseja, com a opulência faraônica do seu edifício, sufocar o que resta do teocentrismo católico. Qual o último bastião dos poucos “prédios góticos” que resistem entre escombros? A quem ainda voltam-se esperançosos aqueles que insistem em manter a Fé? Ninguém ignora ser à linhagem dos romanos pontífices; ela em cuja cátedra reina a verdade revelada.

São os sucessores de Pedro quem sustentam o essencial de tudo o que se deve crer; e assim o fazem por ordem de Nosso Senhor, no Pai, e conduzidos pelo Espírito. Ora, sendo deste modo, que louco ousaria colocar-se contra eles? Entretanto, há sempre quem o faça. Reconheçamos a confusão do mundo em que habitamos.

Todavia, mesmo em meio às oposições, muitas vezes cruéis, são os papas quem confirmam nossa fé. São eles quem, apesar de todas as adversidades, repetem com autoridade o que jamais deveria ser esquecido. São eles a rocha firme contra a qual todas as ondas se quebram e grandes navios se arrebentam.
Ali, à sombra de Pedro, encontramos abrigo seguro... Que tremam os inimigos da Igreja!
Taxamos de louco o tempo em que vivemos. Louco o bastante para desferir golpes de ódio contra a coluna e o sustentáculo da verdade. Mas, como não o chamaríamos assim? Afinal, o próprio Deus, quando não Lhe negam a existência, fica relegado a um plano inacessível e termina figurado como uma difusa energia impessoal, esotérica, ou mesmo, um mero antropomorfismo pedagógico-cultural.
Não é verdade que nosso tempo descarta a doutrina da mediação? O homem está entregue a si mesmo; ciência e tecnologia tornaram-se panacéia universal; e, por fim, um humanismo super-otimista acaba por convencer o mundo de que a técnica erguerá na terra um verdadeiro paraíso; onde todas as pessoas poderão viver, quiçá, para sempre...
Qual o papel da religião nesta atmosfera anti-católica? Ela é vista como mais um fenômeno de caráter puramente sociológico. É importante – dizem - desde que libertada de convicções ultrapassadas, obscurantistas, medievais e imperialistas. É preciso que arranquem de si as algemas do Dogma; pois, doutrinas imutáveis impedem a evolução das ideias à luz da ciência. Ela deve aceitar que é um instrumento a mais nas mãos do Estado, e que o Estado é a soma das vontades individuais ou pelo menos da vontade de uma maioria privilegiada.
Perceba o leitor que estamos perante uma visão totalmente intramundana da realidade; nesse contexto nada há de sobrenatural. Tudo se reduz ao cientificamente mensurável e aquilo que parece avançar para além da perspectiva imanente seria fruto de certa ignorância que o futuro – acredita-se –conseguirá inscrever nas dimensões do natural por hora desconhecida em suas fibras mais remotas.
Ou seja, dia virá em que todas as coisas serão explicadas plenamente por nossa inteligência; inclusive Deus...
Ora, o dia em que Deus se limitar às dimensões da racionalidade humana deixará de ser infinito; portanto, Deus... Então, não haverá mais um ser divino? Eis a questão!
É nessa altura do campeonato que a modernidade mostrará seu incrível caráter gnóstico-panteísta com magistral habilidade: Sim, há “deus”; porém, ele não está para além desse mundo, mas, de algum modo se confunde com a matéria; semelhante, digamos assim, à criança em gestação no útero materno.
A matéria, em certo momento, odiada, é trampolim inconsciente para a descoberta de si por parte do indivíduo; depois, essa mesma matéria, agora supervalorizada, é o laboratório de um espírito divinizado que transforma em ouro tudo o que toca. Ambos os processos - um pessimista, outro otimista - não se dão necessariamente na mesma ordem nem se privam de voltar e “re-voltar”, o quando seja possível ou conveniente, a julgar pelo desenrolar dos fatos.
É esse o esquema geral dos inimigos de Pedro: negam-lhe a origem divina por defender uma diferença essencial entre criador e criatura; para, finalmente, declararem-se a si mesmos “deuses” e senhores do trono de toda verdade. Dizendo de outro modo: armam-se contra Pedro; entretanto, seu objetivo não é destruir sua Cátedra, mas sentar-se orgulhosamente sobre ela.
Perguntemo-nos: o que é tudo isso que descrevemos de modo geral e incipiente com referência ao nosso tempo? É o Agnosticismo que avança impetuosa e inconfessadamente em meio aos homens arrastando-os a mais triste solidão, angústia e infelicidade. A negação do papado em sua realidade querida por Cristo só manifesta a ponta das garras de certo ateísmo prático escondido na maciez enganadora da pseudo-intelectualidade e ilustração que hoje é ovacionada. A negação do Trono de Pedro é semelhante à grande ferida, podre e fétida, que surge em um corpo doente desde muito, mas que infelizmente não foi tratado.
Após essa breve introdução, convidamos nossos leitores a estudar conosco os traços do papado presente na figura de Simão Pedro. As informações que tiraremos da Sagrada Escritura muito nos ajudarão a vislumbrar um pouco mais a grandeza vocacional dos papas, assim como o respeito e veneração a que nos convida. Que Nossa Senhora do Bom Conselho, infunda em nossos corações por sua intercessão o devido amor pela Cátedra de São Pedro, assim como por todos os seus sucessores.
Santíssima Virgem Maria, rogai por nós!

Referência Bibliográfica
DELLEGRAVE, Geraldo E. O papado é instituição divina. São Paulo: Loyola, 1986.
CRUZ, Prof. Pedro M. A verdadeira Igreja de Cristo. SSVM.