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terça-feira, 1 de julho de 2014

MEUS PROFESSORES MENTIRAM...


S. Domingos  de Gusmão defendendo a fé católica
contra o catarismo.


Prof. Rafael Maria da Cruz

Prezados leitores, segue abaixo uma breve exposição referente à heresia cátara que tanto mal fez à Igreja e à sociedade civil. Chamamos a atenção dos senhores sobre o fato lastimável de vários professores mal formados ou maliciosos haverem nos privado das terríveis características desta seita gnóstica e apresentado a Igreja Católica como a "vilã da história", cruel e manchada de sangue inocente. 

Os parágrafos seguintes, cremos, bastarão para termos o mínimo de noção da periculosidade desta seita atacada primeiro pela sociedade civil e depois, a pedido desta, pela mão zelosa da Igreja. Os mais lúcidos saberão criticar com prudência os excessos daqueles que agiram em nome da Igreja mas que muitas vezes não se deixaram conduzir pela sabedoria milenar desta mesma instituição. Boa leitura.



†††


OS ALBIGENSES 

“Do antigo fermento do gnosticismo que tinha envenenado por tanto tempo os primeiros séculos da Igreja, havia germinado uma seita perigosa. Habilmente explorada por espíritos inquietos e ambiciosos aos quais irritavam a riqueza e o poder da Igreja, havia ela invadido pouco a pouco o norte da Itália, a Provença, o Delfinado e o Languedoc, e aí tomou o nome sob que é mais conhecida: o Albigeísmo, da cidade de Albi, capital de seus sectários. Era a heresia cátara, ramificada sob os nomes diversos de seitas irmãs: Publicanos, Búlgaros, Valdezes, Pobres de Lyon, Patarins e Albigenses. 

No Languedoc sob o céu enervante do sul, onde tudo falava de vida fácil e voluptuosa, ela fez em breve grandes progressos. Suas doutrinas eram um perigo para sociedade não só pelos princípios que enunciavam como pelas desordens e sedições que suscitavam. Proibiam todo contato com a matéria, emanada do princípio mal, e condenavam o casamento, fonte da sociedade, permitindo embora, a seus sectários, a prática das mais vergonhosas orgias. 

Negadores da base de toda ordem, atacavam tanto a autoridade do poder secular como a da Igreja. Os sectários que tinham recebido o consolamentum, espécie de batismo espiritual, para evitar recaírem no pecado, condenavam-se ao suicídio, deixando-se morrer de fome, tomando veneno ou vidro moído, ou abrindo as veias. E se um consolado recusava suicidar-se, era proibido à sua família nutri-lo; viu-se assim filhos deixarem morrer de fome seus pais e pais deixarem perecer de inanição seus filhos. 

Ao passo que para o cristão toda prova, toda tentação mesmo, é um meio de santificação, e a vida tem um preço infinito porque ela permite ganhar o céu – para o maniqueu ou albigense, a vida espiritual não pode existir nesta terra, porque alma é prisioneira num corpo que é obra de Satanás. O suicídio é a conseqüência lógica de tal sistema: já que o corpo é uma prisão, é preciso sair dela; já que a vida é um mal, é necessário destruí-la. 

Usando de todos os meios para espalhar seus erros, acharam amigos e partidários não só entre os leigos como até entre o clero, mas foram sobretudo os representantes da alta aristocracia feudal que se tornaram seus defensores. 

Batalha de Muret 1213, realizada contra as barbáries
 praticadas pelos Albigenses.
Muitos dos príncipes os mais poderosos, como os Condes Raimundo VI e VII de Tolosa, os Viscondes de Béziers, os Condes de Bearn, d’Armagnac, de Foix e de Comminges, os tomaram abertamente debaixo de sua proteção. Era raro mesmo encontrar entre eles um homem do povo, operário ou camponês. A seita recrutava-se entre a aristocracia e a burguesia. (...) Bem disse Bossuet: ‘A heresia cátara ameaçava a terra de uma conflagração geral’(...) Foi certamente pensando em todos esses excessos e nas doutrinas fanáticas que os haviam inspirado que num momento de sinceridade, um dos inimigos da inquisição, Lea, fez a seguinte interessante confissão: 'Por mais horror que nos possa inspirar os meios empregados para combatê-los, por mais compaixão que devamos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecemos sem hesitação que A CAUSA DA ORTODOXIA NÃO ERA SENÃO A MESMA QUE A DA CIVILIZAÇÃO E DO PROGRESSO. Se o catarismo houvesse dominado, ou mesmo emparelhado com, o catolicismo, não é duvidosos que a sua influência teria sido simplesmente desastrosa’. [i]

Compreende-se agora porque os príncipes do século XI e XII foram mais enérgicos do que os bispos e os papas na repressão da heresia e porque eles não cessaram de atiçar nesse ponto o zelo da hierarquia eclesiástica (...). ”


†††


FONTE: OTTONI, Pio Benedito. A Inquisição.7ª edição, Gráfica Jacyra: Niterói, 1964, p.18-24


MARIA SEMPRE! 


[i] Lea, Histoire da l’Inquisition I, p. 120. (Nb.: O itálico e o negrito são nossos.) 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

OLAVO: CATÓLICOS E A INQUISIÇÃO


Segue algumas respostas via facebook do filósofo Olavo de Carvalho em referência ao ativista protestante e pró-família Júlio Severo. Este último, polemizou contra católicos conservadores nas redes sociais ao ataca-los sob pretexto dos velhos chavões quanto a Inquisição na Idade média. Vale lembrar que tanto o Júlio Severo como o Olavo de Carvalho são conservadores, publicam no Mídia Sem Mascara, moram fora do Brasil e batalham contra a revolução cultural (aborto, gayzismo, esquerdismo, feminismo, etc.). Contudo, diferentemente do filósofo, aquele é protestante, como consequência, trás consigo velhos preconceitos contra a fé católica e volta e meia faz o "fogo amigo".

São respostas informais postadas na rede social no dia 23 e 24 deste mês de Outubro de 2013, trazemos aqui porque analogamente servem para qualquer católico voltá-las aos colegas protestantes, ateus (ou até mesmo católicos) que vez ou outra objetam na lenda negra da Inquisição para justificar sua oposição a Igreja. Recordamos, nada como conhecer os bons livros e historiadores para fazer frente às superficiais e batidas acusações contra a Inquisição católica.



"É pura hipocrisia do Julio alegar que não está contra os católicos, só contra os que "defendem a Inquisição". O que está aí subentendido é que a Inquisição matou MILHÕES DE PESSOAS INOCENTES; que isso é uma realidade histórica comprovada; que negá-lo é "defender a Inquisição" e defender portanto a prática do genocídio. É uma lógica perversa que bloqueia a discussão, a averiguação dos fatos, condenando-a previamente como crime. É o mesmo raciocínio gayzista: quando acusado de homofóbico, defender-se é prova de homofobia. No entender do Julio, bons católicos são só os que aceitam condenar a Igreja como genocida por conta da Inquisição, Se você nega que houve genocídio, isto faz de você um apologista do genocídio. Quem quer que use esse truque verbal é um canalha, um vigarista em toda a linha." 

" O Julio nunca foi um homem inteligente, nem intelectualmente sério. Disse algumas verdades sobre gayzismo e aborto, mas nunca o vi fazer qualquer esforço cognitivo além do estritamente necessário para repetir argumentos de domínio público. Ser cristão, estar do lado certo, não basta para tornar você uma pessoa intelectualmente responsável, muito menos alguém digno de admiração. Se há algo de admirável no Julio é a sua coragem e persistência, mas isso não basta para fazer dele um opinador confiável e honesto. A qualidade de um ser humano não se mede pela causa que defende, mas pelos valores pessoais com que ele enriquece ou empobrece a causa. O Julio enriqueceu a causa cristã com a sua tenacidade pessoal e resistência à perseguição, mas a emporcalhou com a mentira, com a difamação de inocentes, com a ingratidão aos católicos e com a presunção de opinar sobre assuntos que desconhece." 

" Henry Kamen, historiador judeu, diz que não descobriu nenhum processo onde os inquisidores mostrassem má-fé ou sanha em condenar. A Inquisição é culpada de injustiças, como por exemplo a condenação de Joana d'Arc por crimes que não cometera, ou de João Huss por doutrinas que não eram dele. Mas em geral era muito mais prudente e criteriosa, ao lançar acusações de heresia do que qualquer desses garotos da Monfort. E decerto mais idônea na busca da verdade do que o Julio Severo. Grandes santos da Igreja foram inquisidores, como S. Bernardo de Clairvaux, S. Pedro Mártir e S. Roberto Belarmino. Se "a Igreja Católica", uma instituição universal, não tem autoridade para falar contra o aborto, que autoridade terá o Julio para falar desses homens?" 

" Até mesmo na imagem popular das fogueiras da Inquisição a falsidade domina. Todo mundo acredita que os condenados "morriam queimados", entre dores horríveis. As fogueiras eram altas, mais de cinco metros de altura, para que isso jamais acontecesse. Os condenados (menos de dez por ano em duas dúzias de países) morriam sufocados em poucos minutos, antes que as chamas os atingissem." 

" Outro fato fundamental é que, na imaginação popular, a Inquisição julgava civis inermes, por "delito de opinião". As heresias, ao contrário, eram geralmente movimentos de rebelião armada e, no total, mataram muito mais gente do que todas as inquisições somadas. Só a rebelião dos taboritas, na Checoslováquia, ganha longe." 

" Já avisei que, em vista da situação do Julio Severo, exilado e perseguido, não me sinto animado a polemizar com ele. Apenas coloquei aqui umas notas breves para dar ciência de que o ataque dele aos católicos não passou despercebido. Mas não proíbo ninguém de entrar na briga em defesa da Igreja Católica. Só peço encarecidamente aos eventuais defensores do Julio que não insistam nessa conversa boba de que ele não atacou os católicos, mas só os "defensores da Inquisição". Desde logo, os termos "ataque" e "defesa" são impróprios quando se fala de uma entidade extinta, tão impossibilitada de argumentar em causa própria quanto de agir de qualquer outra maneira, para o mal ou para o bem. Em segundo lugar, não faz sentido um católico submeter-se ao julgamento de um protestante que se acha habilitado a separar pontificalmente os "maus" e os "bons" católicos, admitindo entre estes últimos somente aqueles que consintam em fazer-lhe coro acusando a Igreja dos mesmos crimes que ele lhe imputa. Presunção tanto mais insultuosa e demencial porque, no mesmo ato, já condena como "defensores da Inquisição", portanto como cúmplices "ex post facto" dos crimes imputados a essa entidade, todos aqueles que tenham o desplante de levar em conta o estado atual da pesquisa historiográfica que impugnou a quase totalidade dessas acusações; e porque, num paroxismo de fanatismo acusatório, proíbe antecipadamente, como "defesa da Inquisição" toda tentativa de comparar a violência dos inquisidores com a dos heréticos que eles combatiam, os quais ficam assim admitidos implicitamente como vítimas inermes, quando na verdade mataram mais gente em poucos anos (só na Alemanha e na Tchecoslováquia, por exemplo) do que todas as inquisições somadas mataram em quatro séculos numa dúzia de países. O ataque empreendido por Julio Severo não se volta assim contra uma entidade extinta, mas contra os católicos atuais que ousem, na esteira da melhor historiografia contemporânea, tentar desfazer uma "lenda negra" que, esta sim, tem servido de instrumento mortífero nas mãos de tiranos e genocidas desde há mais de dois séculos, e serve ainda. Julio Severo não tem perdão enquanto não pedir perdão." 


" O problema do Julio é simples: ele não tem consciência clara das suas limitações intelectuais, não faz um esforço para transcendê-las e por isso acaba emitindo julgamentos sobre coisas que estão acima do seu alcance. Ele não é mais errado, nisso, do que a maioria dos opinadores brasileiros. Sua fé e sua coragem indiscutíveis falam em favor dele, mas não o elevam acima do grau 3 da escala Kohlberg."

quinta-feira, 7 de julho de 2011

SÃO DOMINGOS E A INQUISIÇÃO II




São Domingos teria sido inquisidor? 

Não são raros os historiadores dominicanos que sustentam a opinião de que o fundador de sua Ordem teria sido o primeiro inquisidor. O próprio Papa Sixto V se fez eco dessa opinião na bula de canonização de São Pedro de Verona (1588).

Segundo o "Dizionario di Erudizione Storico-Ecclesiastico", "o Pontífice Gregório IX, a pedido de São Raimundo de Penaforte, dominicano, confirmou em Tolosa o primeiro tribunal da Inquisição, já erigido por Inocêncio III, nomeando para inquisidores os religiosos dominicanos, cujo Santo Fundador havia trabalhado com feliz sucesso na conversão dos albigenses, razão pela qual o Pe. João do Gabaston escreveu numa apologia que São Domingos foi o primeiro inquisidor".

Note-se que São Raimundo de Penaforte, que exerceu o cargo de inquisidor, entrara para a Ordem dos Dominicanos em 1222, oito meses após a morte de São Domingos. Em tão breve prazo, já teria a Ordem perdido o espírito que lhe inculcara o Santo Fundador?

Também Oldoino diz que Inocêncio III fez de São Domingos o primeiro inquisidor.

Outros historiadores, como Guiraud mais modernamente, por exemplo, acham que na realidade as funções de inquisidor já vinham sendo exercidas desde o fim do século XII por legados cistercienses, e quando São Domingos desempenhou esse cargo, foi em virtude de poderes que recebeu da legação cisterciense dirigida por Arnaldo de Citeaux e Pedro de Castelnau.

Quando, no curso de suas pregações, impôs uma penitência e concedeu cartas de absolvição ao herege Ponx Roger, declarou agir "auctoritate domini Abbatis Cisterciensis, Apostolicae Sedis legati, qui hoc nobis injunxit officium" — pela autoridade do abade cisterciense, legado da Santa Sé, que nos cometeu este ofício.

Em outro ato do mesmo gênero, São Domingos se cobre sempre da autoridade do legado, o que parece provar que não era inquisidor ele próprio, mas delegado dos cistercienses, que haviam sido encarregados pela Santa Sé da Inquisição nas terras da França meridional (Bolandistas, Acta Sanctorum Augusti, I, pp. 410-411).

Não resta dúvida, portanto, quanto ao fato de São Domingos ter tomado parte na Inquisição, seja diretamente nomeado por Inocêncio III, como afirmam alguns, seja como delegado dos inquisidores cistercienses, como pensam outros.
Um nefasto preconceito liberal 
Outra balela inventada pela escola liberal é a de que não se pode conceber um santo como São Domingos, que se mostre partidário dos métodos enérgicos de repressão da heresia. Não é então legítima a reação à mão armada contra as agressões nazistas e comunistas? A própria liberal América do Norte não reage contra as tendências anárquicas dos sectários que se apelidam "testemunhas de Jeová"? Outra não era a sanha dos hereges daqueles tempos.
A Igreja não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. A Inquisição somente condenava os hereges relapsos e contumazes. Assim, por exemplo, o inquisidor geral em França no ano de 1235, Frei Roberto, denominado o búlgaro, antes de entrar para a Ordem de São Domingos havia sido um dos hereges cátaros, que o povo chamava de búlgaros.
Para se conhecer com que rigor São Domingos encarava a heresia, basta ver como tratava esses convertidos. Para dar absolvição ao ex-herege Ponx Roger, São Domingos lhe impôs, entre outras penitências: a flagelação; a abstinência perpétua, salvo nas festas de Páscoa, Pentecostes e Natal, em que devia comer carne para mostrar que havia deixado a heresia (os cátaros se abstinham de carne); o jejum durante três quarentenas por ano; a obrigação de levar duas cruzes costuradas às suas vestes, devendo estas ser da forma e cor das usadas pelos religiosos, etc.

Diz Todesco em seu "Corso de Storia della Chiesa", depois de apresentar o retrato que de São Domingos fez Lacordaire, segundo o qual o fundador da Ordem dos Pregadores "abria a boca somente para abençoar, o coração somente para pregar, a mão somente para um ofício de amor": "Mas os autores mais recentes não excluem que naquele grave perigo para a sociedade religiosa, e também para a civil, Domingos haja reconhecido ser justo o extremo suplício, aplicado aos hereges convictos e obstinados" (vol. III, p. 474).

Os santos a serviço da Inquisição
 

É notório o absoluto concurso dado à Inquisição por São Luís IX, rei de França.

Em 1226, o rei Jaime de Aragão, "a conselho de seu confessor, o dominicano Raimundo de Penaforte, pediu a Gregório IX enviar-lhe inquisidores, e pela bula de 26 de maio de 1232 o Papa encarregou o Arcebispo de Tarragona de fazer, com a ajuda dos Pregadores, uma inquisição geral em Aragão e na Catalunha". E o mesmo São Raimundo de Penaforte, dominicano, tornando-se penitenciário e canonista da Santa Sé, escreveu um tratado do processo inquisitorial.

Ao mesmo tempo, o piedoso rei São Fernando III de Castela, primo de São Luís IX, organizava a Inquisição em seus Estados. De São Fernando III faz a Santa Igreja o seguinte elogio no dia de sua festa litúrgica: "Nele, ao lado das preocupações com as coisas do reino, brilharam virtudes régias: a magnanimidade, a clemência, a justiça, e, acima de todas, o zelo pela Fé católica, um ardoroso empenho no sentido de defender e propagar o culto religioso desta Fé católica. Isto ele realizava principalmente perseguindo os hereges, não suportando que eles se estabelecessem em parte alguma de seus domínios, carregando com suas próprias mãos a lenha para a fogueira que deveria queimar os condenados" (Breviário Romano, suppl. XXX maii).
A posição dos inquisidores tornou-se muitas vezes crítica, e os Pregadores pagaram freqüentemente bem caro pela missão que haviam especialmente recebido, de perseguir a heresia: "inquisitores haereticae pravitatis" — inquisidores da herética pravidade, conforme o título que lhes deu o Santo Padre Gregório IX. Um deles, Pedro de Verona, morreu assassinado, como também aconteceu, na mesma ocasião, nas terras do Conde de Tolosa aos inquisidores de Avignonet. Foi canonizado, e a Igreja o venera sob o nome de São Pedro Mártir.

São Pio V, antes de eleito Papa, exerceu o cargo de Inquisidor Geral na Lombardia, não mais na Idade Média, mas em plena Renascença, e empregou as mais rigorosas medidas para reprimir a heresia protestante naquela região. Escolhido para sucessor de Pio IV, manteve com grande zelo a Inquisição. Dos mais notáveis acontecimentos de todo o seu pontificado, foi sem dúvida a expedição a mão armada, que organizou contra os turcos que ameaçavam o mundo cristão.

A santidade da Igreja e a malícia dos homens
Não desconhecemos o fato de que houve abusos no exercício da Inquisição. Qual a instituição no mundo que não se acha sujeita a abusos? Alguns inquisidores foram destituídos, e até excomungados pela Santa Sé por haverem exorbitado de suas funções e se prestado a servir de instrumento do poder civil. Não foi esse, porém, um mal da Inquisição em si, mas do regalismo, do divórcio entre a Igreja e o Estado, do abuso do poder político. Sobretudo em sua fase final, vemos a Inquisição infiltrada pela maçonaria na Espanha.

Em Portugal, chegamos ao cúmulo de ver a Inquisição como instrumento nas mãos de um Pombal, outro emissário das Lojas, para perseguir a Companhia de Jesus. Devemos nos lembrar, porém, de que até os sacramentos estão sujeitos a abusos. Para dar outro exemplo, o Santo Padre Pio XII se referia aos abusos que se introduziram nas práticas litúrgicas. Vamos, por esta razão, condenar os sacramentos e a Sagrada Liturgia?

Estamos vivendo em uma época em que o espírito liberal minou praticamente toda a resistência dos católicos, deixando-os indefesos nas mãos de seus piores inimigos. Não mais existe nos países cristãos esse espírito de vigilância e de combate aos germes de dissolução religiosa e social, que deu origem à Inquisição. No entanto, conforme nos mostra Rohrbacher, no governo geral do mundo o próprio Deus tem sua Inquisição. Ele tem por toda parte agentes invisíveis, que são instrumentos de Sua Providência. Daí essas misteriosas advertências, essas coerções inesperadas ao culpado. Se este não as aproveita, se se endurece na impenitência final, é entregue aos ministros da justiça eterna, nas prisões e chamas do inferno (Rohrbacher, Histoire de l’Église, vol. 9, livro 83).

Continuemos, portanto, a ver nas instituições da Santa Igreja amorosas manifestações de sua sabedoria e da assistência que lhe é prestada pelo Divino Espírito Santo. E nas diversas Ordens Religiosas, que constituem as milícias encarregadas de pôr em prática as medidas ditadas pela Santa Sé Apostólica para realizar a obra de salvação do gênero humano, vejamos outros tantos instrumentos da Providência, dignos de nosso reconhecimento e veneração.

(Autor: José de Azeredo Santos, "Catolicismo" nº 8, agosto de 1951)


quinta-feira, 23 de junho de 2011

SÃO DOMINGOS E A INQUISIÇÃO I


Um conhecido escritor agnóstico dizia que as cruzadas contra os albigenses e o extermínio dos focos heréticos no sul da França atrasaram de alguns séculos o advento do humanismo renascentista e da nova ordem de coisas que seria instaurada no mundo.

Maior elogio não poderia ser feito àqueles que, como São Domingos, contribuíram para livrar a Cristandade daquele flagelo.
É oportuno lembrar um aspecto freqüentemente deformado da personalidade do fundador da Ordem dos Pregadores, em cujos membros, ao aprovar a nova regra, o Papa Honório III, em palavras proféticas, entreviu "futuros atletas da fé e verdadeiros luzeiros do mundo".
Queremos nos referir ao aspecto combativo da vida desse insigne santo e ao apoio dado por ele e por seus filhos à Santa Sé na repressão das heresias, pois se acha neste concurso prestado pelo piedoso apóstolo do Rosário à defesa da Verdade a principal origem das incompreensões e das injustiças que sofre por parte de muitos de seus inimigos.

A apregoada "intolerância medieval"

Com efeito, não são poucos os adversários da Igreja que, movidos pela paixão e pelo sectarismo, fazem convergir em São Domingos toda a "intolerância medieval", nele vendo a figura sinistra do primeiro inquisidor, a mandar para a fogueira as "pobres vítimas da superstição", e que não lhe perdoam o fato de se colocar solidário com a cruzada organizada a pedido do Papa Inocêncio III contra os albigenses.

Mostrando assim os hereges como vítimas inocentes da violência dos católicos, e classificando como um crime os métodos inquisitoriais, esses detratores de São Domingos não somente deformam a personalidade do grande santo espanhol, mas sobretudo cobrem de injúrias a Igreja e a Ordem Dominicana, a primeira por ter sido a principal responsável pela criação desses tribunais, e a segunda pelo apoio decidido que deu a essa instituição no correr dos séculos.
Tão grande e generalizada tem sido esta campanha contra o Bem-aventurado fundador da Ordem dos Pregadores, que alguns autores católicos como o Pe. Lacordaire, impressionados com ela, procuraram defender São Domingos mediante o argumento de que ele nada teve que ver com a Inquisição.

Este método apologético, mesmo no caso de conseguir isentar São Domingos de qualquer compromisso com a Inquisição, tem a seu desfavor o fato de deixar pairando no ar as acusações que, paralelamente e no mesmo sentido, são feitas à Santa Igreja e à Ordem Dominicana, mas que constituíram os tesouros mais caros ao coração do grande patriarca.

Com efeito, três foram os elementos que cooperaram na obra da Inquisição: os Soberanos Pontífices, através dos inquisidores que eles tinham o hábito de nomear entre as Ordens que formam a milícia da Santa Sé na Idade Média — os dominicanos ou frades pregadores e os franciscanos ou frades menores; os bispos ou os ordinários dos lugares, diretamente ou por seus delegados; enfim, o poder civil, que punha à disposição da Igreja o braço secular, punindo a heresia como uma ameaça à segurança do Estado.

Vivendo em plena época do advento da Inquisição, tomando parte ativa e saliente no drama da heresia albigense, teria São Domingos se mostrado alheio às medidas tomadas pela Igreja para debelar aquele terrível incêndio? E será a santidade incompatível com o mister de inquisidor?

Defesa da civilização

Foi no Concílio de Latrão, de 1179, que Alexandre III promulgou o primeiro sistema completo de repressão que a Igreja haja imaginado contra a heresia. Ora, as medidas então adotadas visavam antes de tudo os hereges que, não contentes de professar opiniões heterodoxas, subvertiam a sociedade por suas violências e propagação de falsos princípios.

Nenhuma pessoa honesta e sensata pode deixar de aplaudir o Cânon 27 do Concílio Geral de Latrão, que consagrou a legítima defesa da civilização naquela época: "Estando os brabanções, aragoneses, navarros, bascos, coteraux e triaverdinos exercendo tão grandes crueldades sobre os cristãos, não respeitando nem igrejas nem mosteiros e não poupando viúvas, órfãos, velhos e crianças, não tendo consideração nem para a idade nem para o sexo, mas derrubando e devastando tudo como pagãos, ordenamos a todos os fiéis, pela remissão de seus pecados, que se oponham corajosamente a essas selvagerias e defendam os cristãos contra esses infelizes". São esses hereges acusados de exercer devastações nas regiões que ocupam, e se Alexandre III ordena contra eles uma cruzada, é para remediar grandes desastres, ut tantis claudibus re viribiliter opponant (Decreto de Gregório IX, v. VII, 8).

Doutrinas anti-sociais

Segundo Guiraud, que é um dos mais abalizados historiadores da Inquisição, o exame das doutrinas heterodoxas dos séculos XI e XII e a enumeração das perturbações que elas provocaram demonstra:
1) Que depois do ano mil a heresia deixa de ser uma opinião puramente teológica, destinada a ser discutida no recinto das escolas, mas se transforma cada vez mais em doutrinas anti-sociais e anárquicas, em oposição não somente com a ordem social da Idade Média, mas ainda com a ordem social de todos os tempos.
2) Que essas doutrinas anarquistas provocaram movimentos subversivos e perturbações profundas no seio do povo, e que assim a heresia que as informava se transformou num perigo público.
3) Que, desde então, a autoridade temporal teve tanto interesse quanto a autoridade espiritual em combater e em destruir a heresia.

4) Que essas duas autoridades, depois de haver agido separadamente durante muito tempo — o Estado pelas condenações de seus tribunais à forca e à fogueira, e a Igreja pela excomunhão e pelas censuras eclesiásticas — acabaram por unir seus esforços em uma ação comum contra a heresia.

5) Que essa ação conjunta inspirou as decisões do Concílio de Latrão em 1179 e do Concílio de Verona em 1184.

Eis, portanto, bem delineado o caráter da Inquisição, tal como foi estabelecido pelas Decretais de Alexandre III no Concílio de Latrão e de Lúcio III no Concílio de Verona. Podemos defini-la como um sistema de medidas repressivas, umas de caráter espiritual, outras de caráter temporal, promovidas simultaneamente pelo poder eclesiástico e pelo poder civil para a defesa da ortodoxia religiosa e da ordem social, ameaçadas igualmente pelas doutrinas teológicas e sociais da heresia (Jean Guiraud, "La Inquisition Médievale").

A Inquisição é de todos os tempos


Além das conjunturas históricas que deram origem à Inquisição, devemos pôr em relevo que essa instituição existe de modo natural e necessário, embora com nomes diferentes, em toda sociedade que deseja sua própria conservação. Como acentua Rohrbacher, toda sociedade, a menos que espose um liberalismo suicida, vigia e persegue aqueles que conspiram ou trabalham pela subversão de sua estrutura. As próprias constituições dos Estados modernos cominam penas para quem tentar derrubar a forma de governo existente, em geral a republicana.

Ora, a constituição da humanidade cristã se baseia nos princípios de que é guardiã e alma a Igreja Católica. Os povos vitalmente cristãos, impérios, reinos, repúblicas, são membros vivos dessa Igreja e vivem de sua vida. Lei fundamental da sociedade cristã — disso a que se dá o nome de Cristandade — tanto para a sua existência quanto para a sua conservação e aperfeiçoamento, é a lei católica. E se não há verdadeira civilização sem a verdadeira Religião, como diz Pio X, é claro que, defendendo a verdadeira Religião, os cristãos estão defendendo a própria causa da verdadeira civilização.

Estas verdades estavam arraigadas no espírito da sociedade medieval, sincera e coerentemente católica. Não passam, portanto, de pura declamação as acusações violentas que são freqüentemente dirigidas à Igreja a este propósito. Provam apenas a ignorância e a paixão de seus autores, que transformam em mártires da liberdade de pensamento os hereges que, por seu fanatismo, desencadearam as piores desordens na sociedade de seu tempo.

(Autor: José de Azeredo Santos, "Catolicismo" nº 8, agosto de 1951)



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

INQUISIÇÃO: Mito e realidade histórica

     A verdade é bem diferente da ficção que se divulga sobre a Inquisição. Há necessidade de analisá-la com serenidade, com base na ciência histórica e dentro do contexto da época de sua existência.               
Prof. Dr. Roman Konik, da Polônia
O Prof. Dr. Roman Konik, nascido em 1968, além de publicista e comentarista de fatos quotidianos de seu país, é doutor em filosofia, professor adjunto da cátedra de estética na Faculdade de Filosofia da Universidade de Wroclaw (Polônia). É autor do livro Em Defesa da Santa Inquisição. A obra suscitou muita polêmica, e apesar do boicote sofrido por parte de livrarias — devido à legenda negra que se criou em torno do tema, apontando os inquisidores como “carniceiros”, torturadores, etc. –– despertou bastante interesse, já tendo sido vendidos mais de 35 mil exemplares. Com a polêmica, o jovem professor vem sendo convidado para conferências em diversas cidades de seu país, a fim de expor sua visão objetiva e bem documentada sobre o assunto, oposta aos mitos criados por certa literatura liberal contra o Tribunal do Santo Ofício.
Na entrevista concedida ao Sr. Leonardo Przybysz, nosso correspondente em Cracóvia (Polônia), comprova-se como os fatos — alicerçados na realidade histórica, e que se tornaram patentes mediante rigorosas pesquisas — diferem inteiramente das fantasias criadas e das detrações anti-Inquisição, embora não se negue que tenha havido certos abusos cometidos por alguns poucos inquisidores.
* * *
Catolicismo — Em seu livro Em defesa da Santa Inquisição, o Sr. explica que a Inquisição não era a responsável pela execução das penas de morte, mas sim os tribunais leigos. Não será esse ponto de vista semelhante às opiniões de alguns historiadores judeus, que dizem não ter sido o Sinédrio o responsável pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o Tribunal Romano?

São Pio V antevendo a batalha de Lepanto. 
Antes de ser Papa ele foi inquisidor-mor na Itália.
   
Prof. Konik — Sempre que tocamos no assunto do funcionamento da Inquisição, precisamos considerá-la sob o prisma da época em que ela atuou. Na Idade Média, a Religião constituía a garantia e o fator de coesão do Estado. Sempre que tentamos delimitar o Direito civil e o eclesiástico, encontramos dificuldades. Os leitores das crônicas de Gall Anonim (monge beneditino que escreveu a história da Polônia desde o início até o século XII; não se conhece seu nome; alguns dizem que vinha da Gália, daí o nome Gall Anônimo) muitas vezes fazem a pergunta: quebrar os dentes publicamente com um pedaço de pau, devido à quebra ostensiva do jejum, constituía uma pena civil ou eclesiástica? Na verdade, era uma pena civil à qual a Igreja se opunha.
Na Idade Média, os problemas criminais, civis e religiosos se interpenetravam. Lendo os autos dos processos inquisitoriais, mais de uma vez encontramos bandidos comuns que, surpreendidos pela polícia no ato de violação, de roubo, de assalto à mão armada, rapidamente inventavam uma motivação religiosa para explicar o seu procedimento. Por quê? Simplesmente para cair na esfera da justiça da Inquisição e não da justiça civil ou temporal. Pois a justiça inquisitorial garantia pelo menos uma investigação, em vez da pena de fogueira imediata, a qual — como a pena de morte ou o decepamento da mão — não foi absolutamente invenção dos inquisidores.
Lembremo-nos de que nesse período histórico aplicava-se a pena de morte até pela falsificação de dinheiro ou pela ofensa à majestade real. Analogamente aceitava-se o fato de que a ofensa dirigida a alguém superior ao rei, ou seja, a Deus, só poderia ser punida da mesma forma. Os hereges pertinazes, mais freqüentemente os heresiarcas (isto é, os autores de heresias) e que se recusavam a abandonar o erro eram tratados como rebelados comuns. Isso se compreende, considerando-se que a atuação de herejes como os cátaros destruía a ordem social. Eles não aceitavam o funcionamento da sociedade civil e eclesiástica, incitavam à renúncia da medicina e à completa abstinência sexual, inclusive no casamento, ou ao ritual chamado endura (morte voluntária pela extenuação do organismo, ou morte pela fome). Promoviam o aborto, acreditando ser melhor uma criança não nascer neste "vale de lagrimas", e ir assim diretamente para o Céu. Grupos de hereges revoltosos atraíam os pobres para suas fileiras, sob a promessa de que, roubando aos ricos, contribuíam para criar uma igreja nova, na qual as chances seriam iguais para todos. Isso não era uma contravenção estritamente religiosa, razão pela qual muitas vezes, após o julgamento e definição do grau de heresia, os rebeldes eram entregues ao braço civil para que se procedesse ao devido processo penal que dizia respeito a questões criminais: roubo ou violação. Freqüentemente acabava em pena de morte, mas a responsabilidade dos inquisidores em relação ao direito era igual à de cada cidadão. Uma situação equivalente, hoje em dia, consistiria em a Igreja concluir de acordo com o Direito Canônico um processo de sacerdote por crime de pedofilia, e em seguida entregar o caso à Procuradoria para que concluísse a investigação e aplicasse a devida pena.
A maior parte das heresias nascidas na Idade Média atingia sobretudo a justiça civil. Vale a pena lembrar que o tribunal inquisitorial, entregando o herege à autoridade civil, incluía uma carta recomendando prudência na decisão.

Catolicismo — Também em seu livro o Sr. aponta a criação de um quadro negativo da Inquisição através de livros (sobretudo O Nome da Rosa, de Umberto Eco), pinturas, filmes ou exposições. Realmente, muitos artistas que retrataram a Inquisição (por exemplo, Goya) não viveram na época de sua existência. Pode-se pois perguntar se é fidedigno o que apresentaram. O Sr. conhece artistas que viveram no tempo da Inquisição atuante, que a mostraram de modo fiel?
 
São Pedro de Verona, inquisidor-mártir 
morto por ódio à fé por hereges
Prof. Konik — Na mente do homem de hoje, há uma idéia comum que considera o inquisidor como um velho monge encapuzado com inclinações sádicas, inflamado do desejo de autoridade. O melhor exemplo disso é a figura de Bernard Gui, inquisidor de Toledo, descrito pelo conhecido medievalista italiano Umberto Eco em seu livro O Nome da Rosa. Pior ainda é a imagem apresentada no filme realizado com base em tal obra. Bernard Gui, como figura histórica real, foi inquisidor de Toledo e durante 16 anos exerceu esse cargo. Julgou 913 pessoas, das quais apenas 42 ele entregou ao tribunal civil como perigosos rebeldes (reincidentes, pedófilos, criminosos), o que não significava absolutamente pena de morte para eles. Em muitos casos Gui indicava tratar-se de doença psíquica, suspeição de heresia, desistindo de interrogatórios. Segundo a visão preconceituosa dos protestantes, é certo que essas pessoas iriam para a fogueira, ao contrário da verdade histórica.
É importante registrar que escritores protestantes, pouco simpáticos à Inquisição, começaram a escrever a história dela de maneira desfavorável, apresentando-a deformada. Também nas expressões artísticas das épocas posteriores à medieval verificou-se um reflexo dessa visão caricatural. Mas basta analisar o mundo artístico medieval para observar quadros que apresentam São Domingos convertendo os hereges, São Bernardo de Claraval discutindo com eles, ou então pinturas de inquisidores-mártires morrendo nas mãos de hereges — por exemplo, o martírio de São Pedro de Verona; ou de São Pedro de Arbués, assassinado na catedral de Saragoça (Vide seção Vidas de Santos).
Exemplo de ódio radical contra a Igreja e da manipulação a que me referi é um quadro no Museu Nacional de Budapeste, apresentando uma sala de torturas, intitulado no catálogo “Inquisição”. Só depois de muitos protestos de historiadores, mostrando que o quadro apresentava cena de tortura num tribunal civil, é que o título foi mudado para “Sala de torturas”.
Lembremo-nos de que foram as descrições caricaturais de Diderot, Voltaire e até Dostoiewski que formaram na mente do homem de hoje a visão da Inquisição como um espectro. Os historiadores poloneses também não ficaram atrás dos historiadores “progressistas”. Deparando diariamente com essa visão distorcida da Inquisição, o homem comum é inclinado a aceitá-la como verdadeira.

Catolicismo — O Sr. diz que os inquisidores eram pessoas simpáticas, esclarecidas. Mas tanto ouvimos falar deturpadamente sobre as inimagináveis e sádicas torturas...
 
São Domingos manda queimar
 livros de hereges albigenses
 
Prof. Konik — Se isso fosse verdade, então por que tantos malfeitores esforçavam-se em demonstrar que suas infrações eram de natureza religiosa, para que dependessem de juízes-inquisidores? Certamente não era porque gostassem de ser torturados... Lembremo-nos de que nesse tempo os tribunais civis em geral aplicavam torturas como forma, por exemplo, de um acréscimo de castigo, que precedia a morte. Já nos tribunais inquisitoriais as torturas, quando aplicadas, o eram somente com o objetivo de obter informações muito importantes. Na legislação medieval a aplicação de torturas era geral, mas os tribunais inquisitoriais as adotaram de forma muito abrandada. Proibiam torturar mulheres grávidas, crianças ou pessoas idosas. Para aquela época, isso era considerado inovador, pois nos tribunais civis tais pessoas não eram excluídas da possibilidade de serem torturadas. Era proibido também torturar duas vezes a mesma pessoa. A aplicação de torturas devia ser decidida por aclamação de todos os juízes — como também do defensor do réu — e com a aprovação do bispo local e de um consultor independente. Ressalto que as torturas aplicadas pela Inquisição eram raras. Na França, onde se efetuava a luta contra a seita dos albigenses, durante 200 anos só três vezes decidiu-se aplicá-la. A tortura mais freqüente era privar o condenado de alimentação, ficando ele totalmente isolado. Os tribunais da Inquisição foram os primeiros a garantir a defesa ex-ofício e o que hoje é praticado: a prisão domiciliar e a liberdade mediante caução. As informações obtidas através de torturas não podiam ser consideradas como prova e deviam ser confirmadas num período posterior de 24 horas.
Os inquisidores eram recrutados sobretudo entre os melhores religiosos, de alta formação e de fama ilibada. A idade mínima era 40 anos, devido à experiência de vida, e tendo em vista precaver-se contra decisões apressadas, próprias da juventude. Os inquisidores não podiam usar arma. Eram pessoas normais do povo, freqüentemente viajantes, intelectuais curiosos de conhecer o mundo. A autoridade do inquisidor era geral na sociedade. Após o assassinato de Pedro de Verona, um dos mais conhecidos inquisidores, a multidão bradou: santo súbito. Este fato está em clara contradição com a idéia que as pessoas hoje fazem sobre os representantes dessa “profissão”.
Também a carta dos bispos do Sínodo de Toledo causa surpresa, pedindo aos inquisidores que sejam moderados nos jogos e não fiquem até tardias horas nas praças.

Catolicismo — Será que a comparação que o Sr. faz em seu livro, das seitas heréticas com grupos comunistas, não constitui analogia um tanto exagerada?
Dr. Roman Konik autografando seu livro Em Defesa da Santa Inquisição

Prof. Konik — Mas, de fato, não foi isso (ou seja, medidas de caráter comunista) que fizeram os irmãos dulcianianos (seita medieval, muito esquerdista, liderada por Dulcian, que atuou sobretudo na Itália), os quais lutaram para introduzir a comunidade de bens, e assim privar a todos da propriedade privada? Lembremo-nos de que a atuação dos hereges não era apenas na linha da persuasão, mas freqüentemente obrigavam as pessoas ricas a “distribuírem aos necessitados” seus bens; os quais, como sempre acontece nessas situações, eram imediatamente defraudados. A semelhança também existe na esfera da propaganda: tanto a esquerda moderna como os hereges de outrora empenhavam-se em introduzir a “justiça social”, utilizando chefes carismáticos para enganar a população. É digno de nota que os movimentos heréticos nunca tentaram arregimentar membros da classe intelectual, procurando sempre apoio nas classes mais baixas, de pouca instrução. A semelhança entre os hereges medievais e a esquerda moderna é notória também pelo fato de que ambos os movimentos dirigem-se às pessoas numa linguagem que elas querem ouvir. Nas homilias dos hereges cátaros, nunca aparece o elemento de responsabilidade pessoal. Não está presente o Juízo Final, o Purgatório não existe, mas somente o Céu, e este é destinado a todos. Como no socialismo: a visão da vida na Terra sem que se assumam responsabilidades foi, é e será sempre algo que atrai.

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Fonte: Revista Catolicismo, Setembro de 2006