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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (II)

Bernardo replicou modestamente, mas com dignidade e energia


Segue abaixo a segunda parte do trecho do trabalho  «Em louvor da Nova Milícia», dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.

«Os templários compreendiam quatro classes de pessoas: os cavaleiros, que formavam a cavalaria pesada; os sargentos ou cavalaria ligeira; os lavradores, a cujo cargo se achavam as temporalidades e, os capelães que atendiam as necessidade espirituais dos seus irmãos. Constituía seu singular privilégio encontrarem-se directamente sujeitos à Santa Sé e totalmente independentes de qualquer outra autoridade eclesiástica ou civil. Semelhante favor e os bens que rapidamente se acumularam nas suas mãos, juntamente com as glórias adquiridas nos campos de batalha, provocaram considerável oposição. Não obstante, a Ordem continuou a desfrutar de exemplar prosperidade até ao começo do século catorze. Neste período, governava a França Filipe, o Belo. A cupidez era o seu pecado proeminente, e dirigiu um olhar voraz para a extensa propriedade que os templários haviam conquistado com a espada ou adquirido por doação. Necessitava de apoderar-se daquelas riquezas por meios pacíficos ou à força. Alguns membros degradados foram induzidos a acusar os seus irmãos de ofensas contra a fé e moralidade, e, apoiado nesta acusação, o monarca ordenou, no mesmo dia, 13 de Outubro de 1307, a prisão de todos os cavaleiros brancos no seu reino. Não existindo provas consistentes contra eles, foram torturados para forçá-los a confessar. Alguns pereceram sob o tormento e muitos outros proclamaram-se culpados como única forma de obterem lenitivo; mais tarde retrataram as suas confissões, o que lhes valeu serem queimados vivos, em número de cinquenta e quatro, a 12 de Maio de 1310. Tudo isto, não somente sem autorização do papa Clemente V, mas apesar da sua vigorosa oposição. Por fim, o Pontífice suspendeu os poderes dos inquisidores de Filipe e abriu um inquérito que se estendeu a todos os países cristãos. Em Portugal, Espanha, Alemanha, Itália e Chipre o carácter dos cavaleiros templários foi reabilitado triunfalmente. A parte o que se pudesse dizer aqui e ali de indivíduos isolados, a Ordem foi reconhecida inocente das acusações anteriores. Foi este o veredicto do concílio geral de Viena, em 16 de Outubro de 1311, no qual a maioria dos padres votaram pela manutenção da Ordem. No entanto, Clemente, considerando que, com tanta oposição e suspeita contra ela, a Ordem dos cavaleiros brancos, apesar de inocente, não poderia continuar a ser útil à Igreja, decretou a sua 'dissolução', não como castigo, mas como medida de prudência. 

O concílio de Troyes não foi o único nesta época ilustrado pela sabedoria de Bernardo. Assistiu também, bastante contra a sua vontade, aos de Arras, Châlons, Cambrai e Laon. As fortes medidas adoptadas por estas assembleias indicam claramente a sua influência. O concílio de Arras, efectuado em Maio de 1128, ordenou a dispersão de uma comunidade religiosa que se tornara incorrigivelmente descuidada; em Châlons, () bispo de Verdun, acusado de Simonia e má administração, foi forçado a abandonar a sua sé; em Cambrai, o abade Fulbert de_ Santo Sepulcro teve de demitir-se. O povo atribuiu estas severas determinações ao abade de Claraval como se fosse ele o único responsável. Claro que o facto excitou bastante a amargura e ressentimento daqueles que haviam sido punidos pelo
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
concílio. Foi denunciado a Roma como entremetido oficioso, homem de ideias ambiciosas, amigo de aparecer em público. Como o papa Honório se encontrava então no seu leito de morte (faleceu a 14 de Fevereiro de 1130), o Cardeal Haimeric, chanceler da Santa Sé, enviou-lhe em nome do Sagrado Colégio uma áspera censura. A carta do cardeal não chegou até nós; todavia, podemos formar uma ideia do seu conteúdo pela resposta de Bernardo. Afigura-se-nos que a comparação do abade santo com uma rã impudente (que salta do seu lodaçal para perturbar a paz do mundo com o seu rouco coaxar) não pertence, na realidade, a Haimeric, mas ao próprio Bernardo. O chanceler certamente nunca teria pensado em empregar linguagem tão violenta para se dirigir a quem tanto estimava. A prova de que estimava o abade de Claraval está bem patente nos termos utilizados para com ele numa carta a formular uma petição a favor dos monges beneditinos de São Benigno, Dijon, no ano de 1126. "Os meus amigos conhecem perfeitamente o muito que me amais, e principiarão a invejar-me a felicidade se eu tentar conservar somente para mim todo o benefício dela resultante (escreve o santo), Os monges de Dijon são-me muito queridos; agradar-me-ia lhes permitísseis ver que o amor não é vão, tanto o vosso por mim como o meu por eles, desde que, evidentemente, não brigue com os interesses da justiça, em cujo caso seria censurável pedir coisa alguma mesmo a um amigo". Fora igualmente ao chanceler que Bernardo dedicara a sua dissertação acerca do amor de Deus, de que mais adiante falaremos. Podemos, pois, inferir, pelo menos, que a carta de censura foi elaborada polidamente; a severidade do seu tom dificilmente pode ser negada, embora expressasse menos as ideias do próprio cardeal do que as dos seus irmãos. Bernardo replicou modestamente, é certo, mas com dignidade e energia __ pois não se tratava de uma defesa própria, mas de justificar os actos de concílios provincianos, alguns dos quais haviam sido presididos pelo Cardeal Legado Mateus. 

"O quê? (exclama). Até os pobres e desprotegidos deverão encontrar oposição para salvaguarda da verdade? Nem na própria miséria haverá refúgio da inveja? Deverei lamentar-me ou alegrar-me, visto eu próprio haver conseguido inimigos ao pronunciar a verdade? Deverei dizer: falo verdade ou procedo de acordo com a verdade? Isto por vós deverá ser decidido: quem contra a prescrição da lei amaldiçoara o surdo (Lav., 19, 14) e, apesar do conselho do profeta, chamará mal ao bem e bem ao mal (Is., 5, 20)".

A Ordem desfrutou de prosperidade
 até ao começo do século XIV.
A seguir expõe as faltas de que é acusado: a deposição do bispo de Verdun, a deposição do abade Fulbert e a supressão do convento de São João. Não considera que haja merecido censura por estes actos, e isto por dois motivos: em primeiro lugar, porque os actos em questão, longe de serem culpáveis, merecem antes louvor; em segundo, porque não eram de sua autoria. "Se são meus, mereci elogios; se não o são, não mereci censuras... A recriminação imerecida preocupa-me pouco, e os louvores que não me são devidos, recuso-me a aceita-los. Não produz em mim a menor diferença a forma como julgais essas medidas das quais não Sou o autor. Por uma delas (a deposição do bispo), o povo poderá louvar, se desejar, ou censurar, se se atrever, o cardeal legado; por outra (o afastamento de Fulbert), o bispo de Reims; e pela terceira (a supressão do convento), o arcebispo de Seus juntamente com o bispo de Laon e o rei, além de outras numerosas pessoas veneráveis, que não repudiarão a responsabilidade do que foi feito... A única acusação contra mim será haver estado presente, em vez de permanecer na obscuridade do meu lar onde eu podia ser juiz, acusador e árbitro apenas para mim próprio? Não nego haver presenciado esses concílios, mas compareci sob compulsão e não de livre vontade. Se o facto desagradou aos meus amigos, foi igualmente desagradável para mim. Deus não tivesse permitido que eu seguisse para lá! Deus não permita que eu volte lá novamente! Detesto intervir em assuntos que não me dizem directamente respeito. Mas, não obstante isto, sou arrastado para eles. Meu querido senhor cardeal, não existe outra pessoa da qual eu possa razoavelmente esperar libertação desta tirania além de vós. Tendes o poder, como eu sempre soube, e a boa vontade, como ultimamente descobri. Regozija_me saber que estais desgostado com a minha intervenção em assuntos que não pertencem a monges. Mostrais aqui a vossa prudência e, igualmente, amizade por mim. Providenciai, pois, para que tanto a vossa vontade como a minha fiquem satisfeitas. Proibi que, de futuro, estas ruidosas e incomodativas rãs saiam dos seus lodaçais. Que o seu coaxar jamais torne a ser escutado nas salas de concílios ou nos palácios de reis. Que nenhuma necessidade ou autoridade tenha poder para determinar a sua interferência em contendas ou assuntos públicos de qualquer natureza. Talvez assim o vosso amigo escape à acusação de presumido. No entanto, ignoro como me posso haver exposto a ela, pois sempre constituiu minha determinação nunca abandonar o convento, excepto por assuntos da Ordem ou por solicitação de um legado da Santa se ou do meu diocesano, a nenhum dos quais posso em consciência desobedecer, a não ser por privilégio de uma autoridade superior. Se vossa eminência se dignar obter para mim esse privilégio, então desfrutarei indubitavelmente, de paz e deixarei os outros tranquilos».


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Primeira parte aqui.



MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (I)


"Combinavam as funções do monge com as do guerreiro."


"O trabalho sob o título «Em louvor da Nova Milícia», é dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.


O capítulo de abertura expõe as vantagens desfrutadas pelos soldados da «nova milícia», que havia surgido na própria terra consagrada pela vida e sofrimentos do Redentor, com a missão de banir os filhos das trevas onde Ele outrora banira o seu soberano.

Aqueles cavaleiros de Cristo combinavam as funções do monge com as do guerreiro, eram igualmente peritos na utilização das armas materiais e espirituais, mantinham guerra permanente contra os inimigos visíveis e invisíveis, eram invulneráveis a todos excepto a si próprios, pois não receavam ferimento algum além do pecado, caminhavam para a batalha com a certeza infalível da vitória - vitória se vencessem o adversário, vitória mais gloriosa se tombassem na peleja.

São Bernardo pregando as cruzadas
«Providos de armas de toda a espécie, não receiam o homem nem o demônio. A própria morte, longe de ser temida, é o objectivo do seu desejo. Na verdade, o que poderá causar qualquer alarme àquele, quer na vida quer na morte, para quem 'viver é Cristo e morrer lucro' (FiL, 1, 21)? Fiel e gostosamente viverá por Cristo; no entanto, preferiria 'ser dissolvido e estar com Cristo, coisa bastante melhor' (ibid., 23). Avante, pois, soldados de Cristo, e com corações intrépidos, ponde em fuga os inimigos da sua cruz, confiantes em que 'nem a morte nem a vida vos poderão separar da caridade de Deus que existe em Jesus Cristo' (Rom., 8, 39). Em todos os perigos repeti para convosco as palavras de São Paulo: ‘Tanto se vivermos como se morrermos somos do Senhor' (Rom., 14, 8). Oh, como será glorioso o vosso regresso se vencerdes na luta! Quão abençoado o vosso martírio, se tombardes no campo de batalha! Alegre-te, intrépido guerreiro, se víveres e conquistares no Senhor. Porém, bastante maior motivo terás para alegrar-te, se uma morte de mártir te unir ao teu Senhor. A tua vida será, sem dúvida, fecunda em bem e plena de glória, mas a morte santa é algo muito mais precioso. Porque, apesar de serem abençoados aqueles que morrem com o Senhor (Apoc, 14, 13), quão grande não será a santidade dos que morrem por Deus? Indubitavelmente, 'é preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos' (Sal. 115, 15), independentemente do lugar onde ocorra, tanto no leito como em combate; mas, morrer em combate é a forma mais preciosa de morte, por mais gloriosa. Oh vida segura do soldado cristão onde a consciência nada tem a recear! Oh vida segura do campeão da cruz para quem a morte não contém horrores, mas é antes desejada por ele com ardor e bem-vinda alegria! Oh milícia de Cristo, verdadeiramente leal e santa, livre do duplo perigo a que estão expostos os beligerantes quando Deus não é a causa da sua luta! Aquele que combate por algum interesse temporal possui frequentemente motivo para temer que, ao matar o corpo do seu inimigo, imole a sua própria alma, ou que sejam destruídos o seu corpo e alma; visto que, no entender de um cristão, a derrota e o triunfo dependem não dos acidentes da guerra, mas do sentir do coração. Se a guerra for justa, o resultado não pode ser mau, tal como nunca será bom se ela for injusta, quer na sua origem como na sua finalidade. Aquele que, numa peleja injusta, ao tentar matar, é morto, perece como um assassino; mas se sobreviver e abater o seu inimigo, vive como um assassino. Todavia, é terrível ser um assassino quer na vida ou na morte, na derrota ou na vitória. Desditosa considero essa vitória na qual, embora vencedor do adversário, se é vencido pelo demônio, e constitui presunção proclamar que se conquistou um homem».

"Cordeiros na paz e leões na guerra."
Nos três capítulos seguintes, o santo traça uma comparação entre os cavaleiros mundanos e «Quem afirmará que é ilegal para um cristão recorrer à espada, quando o precursor do Salvador não proibiu aos soldados o uso de armas, mas lhes recomendou simplesmente que se contentassem com o seu soldo? (Luc. 3, 14)» Aqui o santo opõe-se a Orígenes e Tertuliano que entenderam a guerra e a profissão das armas proibidas pelos cristãos. «Portanto, que se desembainhem ambas as espadas, a espiritual e a material, e sejam brandidas na face do inimigo 'até que se abatam todos os perigos que se ergueram contra a sabedoria de Deus' (1, Cor., 9, 4, 5), que é a fé cristã, 'para que nunca digam as nações: onde está agora o teu Deus' (Sal. 114, 2)?... Não que os pagãos devam ser imolados, se por qualquer outro meio puderem ser impedidos de perseguir e oprimir os fiéis. Mas é preferível que sejam destruídos, do que 'a vara dos pecadores caia sobre os justos' de forma 'a que os justos não estendam as suas mãos para a iniquidade' (Sal. 124, 3)». O autor prossegue, enumerando as virtudes dos templários: as suas vidas irrepreensíveis, a obediência, a simplicidade e pobreza, a sobriedade, a devoção pelo trabalho, o respeito e estima mútuos, a aversão por jogos e desportos, a discrição no falar e desprezo pelos murmúrios, a coragem indômita que nunca descansa para atacar o inimigo, a brandura e fúria marciais que os tornavam cordeiros na paz e leões na guerra.
os templários, em desfavor dos primeiros, evidentemente. O cavaleiro mundano possui maior interesse pela exibição do que pela utilidade do seu equipamento; assemelha-se mais a uma dama garrida do que a um militar ansiando pela guerra. Aliás, as pelejas nas quais estes cavaleiros seculares costumam participar têm por origem vinganças, vanglórias ou conquistas de territórios; porém, morrer ou ser morto em semelhantes refregas é igualmente perigoso para as almas. Ao contrário, os soldados de Cristo sentem-se tão seguros se se mantêm de pé como se tombam nas lutas pelo seu Salvador, pois não representa pecado mas antes
mérito e glória provocar ou sofrer a morte por Cristo.

Seguem-se nove capítulos, versando cada um os objetivos ou lugares mais sagrados na Palestina: o templo, Belém, Nazaré, o Monte Olivete e o vale de Josafá, o Jordão, o Calvário, o Santo Sepulcro, Bethfage e Betânia. São, na verdade, nove belas meditações, repletas dos pensamentos que deviam ocupar os espíritos dos templários ao contemplares os diferentes cenários consagrados pelo labor e sofrimentos do Redentor.

Estas palavras do eminente abade retumbaram através da cristandade, atraindo súbita fama a Hugo de Payens e seus companheiros. Bravo Hugo! A vossa longa e dolorosa provação acha-se no seu termo. A ameaça da extinção está removida da vossa instituição.

Doravante a vossa dificuldade consistirá em conseguir albergar todos os voluntários ansiosos provenientes dos mais afastados recantos da terra cristã. Os vossos cavaleiros brancos tornar-se-ão (...) terror dos sarracenos e o seu estandarte será o mais venerado da Europa. Durante dois séculos sustentarão o choque das Guerras Santas, repelindo com coragem desesperada e com risco de 20.000 dos seus, a onda crescente do islamismo que ameaçou, ano após ano, romper os seus laços e varrer irresistivelmente a Europa. E então, ser-lhes-á concedida a dura recompensa da prisão quando o seu principal crime for a posse de riquezas e o principal acusador um monarca cobiçoso."


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Continua aqui.

MARIA SEMPRE!