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sexta-feira, 8 de março de 2019

VIA SACRA - por Dom Mayer



ORAÇÃO PREPARATÓRIA

Meu Senhor Jesus Cristo, disponho-me a acompanhar-Vos no caminho que trilhastes do pretório de Pilatos ao Calvário, para Vos imolardes por minha salvação. Peço-Vos a graça de nos conceder grande dor e arrependimento de ter pecado, causando vossos atrozes sofrimentos, e que vosso Sangue preciosíssimo infunda em minha alma o propósito firme de nunca mais pecar.

ANTES DE CADA ESTAÇÃO

Dirigente: Nós Vos adoramos, Senhor, e Vos bendizemos;

Todos: Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

No final da consideração, depois da Ave Maria:

Todos: PESA-ME, SENHOR, de todo o meu coração ter ofendido a vossa infinita bondade, proponho com vossa graça a emenda, e espero que me perdoeis por vossa infinita misericórdia. Amém.

Dirigente: Compadecei-vos de nós, Senhor!

Todos: Compadecei-vos de nós!

Dirigente: Que as almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.

Todos: Amém.

OBS.: O FIEL DEVE FICAR:

DE PÉ: Durante o Cântico e a Leitura do Texto.

DE JOELHOS: Durante a leitura do texto da 12.ª Estação e demais orações.


I ESTAÇÃO

A morrer crucificado

Teu Jesus é condenado

Por teus crimes, pecador.

Jesus é condenado à morte

Dirigente: Cedendo aos clamores dos judeus, Pilatos condenou Jesus à morte na Cruz.

O que levou os judeus a pedirem a morte de Jesus Cristo foi sua infidelidade. Quiseram seguir uma religião do seu agrado, e não a Religião revelada pelo Filho de Deus humanado. Nisto imitaram a desobediência de Adão e a rejeição da vontade de Deus.

Nós estamos na mesma miserável condição. Humilhemo-nos e peçamos a Nossa Senhora nos alcance a graça de sermos fiéis à Santíssima Vontade de seu Divino Filho.

Ave Maria…



II ESTAÇÃO

Com a cruz é carregado

E do peso acabrunhado:

Vai morrer por teu amor.

Jesus com a Cruz às costas

Dirigente: Depois da vigília no Horto das Oliveiras e da atrocíssima flagelação, Jesus se submete ainda ao sacrifício de carregar a Cruz até aa Calvário.

Jesus o fez para reparar os nossos pecados. Aprendamos que sem sacrifício e o habitual espírito de mortificação, nossa religião é vã, vazia, sem merecimento. Peçamos a Nossa Senhora a graça de aceitar com alegria as mortificações que nos impõe o cumprimento de nossos deveres de estado.

Ave Maria…






III ESTAÇÃO

Pela Cruz tão oprimido,

Cai Jesus desfalecido

Pela tua salvação.

Jesus cai pela primeira vez


Dirigente: Já esgotado pela insônia, fome e perda de sangue, Jesus sucumbe ao peso da cruz e cai por terra.

Nos desígnios de Deus, esta queda é para descontar as ofensas de nossos pecados, e 
para nos alertar contra nossa presunção. Por nós mesmos só vamos de pecado em pecado, de queda em queda.

Peçamos a Nossa Senhora nos alcance a graça da vigilância na oração e na fuga das ocasiões de pecado.

Ave Maria…




IV ESTAÇÃO

De Maria lacrimosa,

Sua Mãe tão dolorosa,

Vê a imensa compaixão.

Jesus encontra-se com sua Mãe Santíssima

Dirigente: Na agonia, do Horto do Getsêmani e no processo infame a que foi submetido seu Divino Filho, esteve ausente Maria Santíssima. Quando, porém, vai Ele consumar o sacrifício da redenção do mundo. Ela se apresenta. É que ambos, Jesus e Maria, no decretos do Altíssimo, estão como identificado na missão redentora do homem. É como Mãe dos remidos que Maria coopera na obra da salvação.

É a esta Mãe que recorremos para nos assegurar a fidelidade a seu Divino Filho, e meio da sociedade paganizada que nos envolve

Ave Maria…






V ESTAÇÃO

Em extremo desmaiado,

Deve auxílio, tão cansado,

Receber do Cirineu.

Simão Cirineu ajuda Jesus a levar a Cruz

Dirigente: A breve trecho, no caminho do Calvário, convencem-se os verdugos do Salvador de que pela extrema debilidade, conseqüência das torturas a que tinha sido submetido, Jesus Cristo não estava em condições de carregar o seu patíbulo até ao cimo do monte. Forçaram Simão de Cirene a carregar a cruz do Salvador.

Nossa salvação, por vontade de Deus, não se realiza sem nossa cooperação. Precisamos, a nosso modo, ajudar Jesus Cristo a carregar a Cruz. E o fazemos quando não nos conformamos com a maneira de proceder de uma sociedade que, na prática, se afastou da austeridade cristã. Que Nossa Senhora nos alcance esta graça.

Ave Maria…




VI ESTAÇÃO

O seu rosto ensangüentado,

Por Verônica enxugado,

Eis no pano apareceu.

Verônica enxuga a face de Jesus

Dirigente: Do meio daquela multidão sádica que formava o séquito nefando do Salvador no caminho do Calvário, destaca-se uma mulher forte que, arrostando a arrogância dos soldados, aproxima-se de Jesus e com uma toalha Lhe limpa o sagrado rosto desfigurado pelo sangue da coroa de espinhos pelos escarros dos sicários do Sinédrio e pelas bofetadas da soldadesca bestial.

Admiremos envergonhados a fortaleza desta mulher e peçamos a Nossa Senhora nos alcance a graça de nunca trairmos por respeito humano nossa religião, com nosso procedimento.

Ave Maria…




VII ESTAÇÃO

Outra vez desfalecido,

Pelas dores abatido,

Cai em terra o Salvador.

Jesus cai pela segunda vez

Dirigente: Não obstante o auxílio do Cirineu, a enorme fraqueza do Salvador fê-lo cair uma segunda vez no caminho do Calvário.

Esta segunda queda do Salvador lembra nossas repetidas culpas e, de outro lado, da infinita misericórdia de Deus que só espera nosso arrependimento para nos soerguer.

Que a fraqueza do Redentor que o prostrou por terra, seja a nossa fortaleza, e não nos permita aceitar um meio-catolicismo ao sabor da sensualidade feito mais de quedas do que de virtudes.

Ave Maria…





VIII ESTAÇÃO

Das matronas piedosas,

De Sião filhas chorosas

É Jesus consolador.

Jesus consola as filhas de Jerusalém

Dirigente: Ao ver os tormentos a que os sicários do Sinédrio submetiam Jesus no caminho do Calvário, umas piedosas mulheres de Jerusalém não contiveram as lágrimas e expandiram em altos prantos suas consternação. Jesus, agradecido, exortou-as a que tornassem profícuos seus prantos, chorando mais por elas e seus filhos, do que por Ele.

O que Jesus deseja é a nossa salvação. Por isso ferem-Lhe mais nossos pecados do que O afligem as chagas de seu corpo ou Lhe pesa a coroa de espinhos. “Chorai por vós e por vossos filhos” – nos repete o Senhor, quando nos vê mais preocupados com nossas moléstias e os bens terrenos do que com os nossos pecados. Abra-nos os olhos a virgem Santíssima para purificar nosso catolicismo.

Ave Maria…



IX ESTAÇÃO

Cai terceira vez prostrado,

Pelo peso redobrado

Dos pecados e da cruz.

Jesus cai pela terceira vez

Dirigente: Novamente a extrema debilidade prostra a Jesus por terra. É mais uma humilhação que se junta a todas, as outras igualmente atrozes a que se sujeitou o Salvador na sua Paixão.

Fê-lo por nosso amor, nossa salvação, mas também para que compreendêssemos que, sem a aceitação amorosa das humilhações que Nosso Senhor nos envia, não participamos da Redenção, porquanto não nos assemelhamos a Jesus Cristo.

Que a Virgem Santíssima, Mãe das Dores, nos compenetre desta verdade.

Ave Maria…



X ESTAÇÃO

Dos vestidos despojado,

Por verdugos maltratado

Eu Vos vejo, meu Jesus.

Jesus é despojado de suas vestes

Dirigente: Chegado ao Calvário, foi , Jesus despudoradamente despido de suas vestes pela soldadesca imunda.

Jesus, o cândido lírio da inocência, mais branco, mais puro do que o mais puro arminho e que a mais branca neve, é apresentado nu aos olhos da multidão, tendo apenas para velar seu corpo sagrado a túnica do seu sangue sacrossanto.

Foi certamente a mais sensível das humilhações a que nossos pecados submeteram o Filho de Deus. No entanto, é a humilhação a que mesmo as pessoas que se dizem cristãs e tementes a Deus, continuam a submeter o Divino Salvador. A Virgem Mãe, pureza alvinitente, nos alcance o apego ao recato, à modéstia, ao comedimento, que são as condições indispensáveis para a prática da virtude.

Ave Maria…



XI ESTAÇÃO

Sois por mim à Cruz pregado,

Insultado, blasfemado

Com cegueira e com furor.

Jesus é pregado na Cruz

Dirigente: Estirado Jesus sobre a Cruz, esticaram-Lhe violentamente os membros e os cravaram no madeiro com grossos e pontiagudos cravos.

O suplício da Cruz era reservado aos escravos, com os quais era legítimo não ter a menor comiseração. Além disso, Jesus Cristo foi crucificado entre dois ladrões, como a indicar – diz S. Boaventura – que era o pior deles.

Tudo concorria para levar aos extremos os sofrimentos físicos e morais do Divino Salvador. Cravado na Cruz após a flagelação e coroação de espinhos, não é possível imaginar sofrimentos mais atrozes. Considerado malfeitor vil e abjeto como os crucificados, é impossível humilhação maior.

Pois esses sofrimentos, essas humilhações foram o preço de nossos pecados. Foi assim que Ele nos libertou da escravidão do demônio da morte eterna, e nos mereceu o céu no seio de Deus.

Com o coração agradecido, aprendamos a apreciar as humilhações e os sofrimentos com que Deus purifica a nossa alma, especialmente quando exigidos pelo cumprimento dos deveres de nosso estado.

Ave Maria…



XII ESTAÇÃO

Por meus crimes padecestes.

Meus Jesus, por mim morrestes.

Como é grande a minha dor!

Jesus morre na Cruz

Dirigente: Depois de três horas de tormentosa agonia, Jesus inclinou a cabeça e morreu.

Consumou-se o sacrifício. O véu do templo rasgou-se de alto a baixo anunciando a abolição da lei mosaica substituída pela lei de Cristo que a aperfeiçoa e supera, e atinge todos os homens.

Exclama São Paulo: “Estou pregado na cruz com Cristo.” É este também o ideal da vida do fiel: unir-se a Jesus Crucificado. Ou seja, tomar o caminho da renúncia de si mesmo na obediência aos legítimos superiores, nas humilhações, no espírito de mortificação, nos sacrifícios exigidos para o cumprimento dos próprios deveres. São as disposições da alma que pedimos à Virgem Santíssima presente ao pé da Cruz.

Ave Maria…




XIII ESTAÇÃO

Do madeiro Vos tiraram

E à Mãe Vos entregaram,

Com que dor e compaixão.

Jesus é descido da Cruz

Dirigente: Nicodemos e José de Arimatéia obtiveram de Pilatos o corpo de Jesus. Cuidadosamente O retiraram da Cruz e O entregaram à sua Mãe, Maria Santíssima, a quem Ele pertencia por direito materno.

A Virgem Mãe contemplou em silêncio a retidão profunda daquele rosto sempre senhor de si mesmo, embora desfigurado pelos atrozes sofrimentos e morte violenta. Contemplou, adorou, e O apresentou ao Padre Eterno como propiciação pelos nossos pecados, nossos de seus filhos adotivos.

Habituemo-nos a viver com Maria. Ela nos levará a Jesus. Ela nos dará sua graça e seu vigor para triunfarmos da multidão dos atrativos para o mal que emergem de uma sociedade imersa no egoísmo e na sensualidade.

Ave Maria…



XIV ESTAÇÃO

No sepulcro Vos deixaram,

Sepultado Vos choraram,

Magoado o coração.

Jesus é depositado no sepulcro

Dirigente: Atendida a exigência de seu direito materno, Maria Santíssima acompanho o enterro de Seu Divino Filho organizado por Nicodemos e José de Arimatéia. Foi Ele deposto num sepulcro novo, aberto na rocha, no qual ninguém tinha ainda sido sepultado.

Sobre todos desceu um ambiente de paz que sepultou o alarido da multidão infrene, quando pedia a morte do Salvador.

A paz do Senhor é a paz de consciência que repercute no homem todo, dando-lhe a sensação de um profundo bem-estar. Esta paz encontramo-la quando desalojamos de nosso coração os sentimentos egoístas e sensuais para enche-lo de caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Virtude que obteremos pela intercessão de Maria Santíssima.

Ave Maria…

Meu Jesus, por vossos passos,

Recebei-me em vossos braços,

A mim, pobre pecador.



ORAÇÃO FINAL À VIRGEM DOLOROSA

Ó Maria, minha Mãe, compartilho conVosco as dores e sofrimentos que suportastes no corpo e na alma, ao acompanhardes Vosso Divino Filho no caminho do Calvário, e ao assistirdes à sua dolorosa e humilhante morte na Cruz.

Peço-Vos que me guardeis sob vossa proteção para que não torne a pecar, renovando a Paixão de Vosso Divino Filho.

(Padre-Nosso e Ave-Maria, na intenção do Sumo Pontífice para se lucrarem as indulgências).

Pela Virgem Dolorosa,

Vossa Mãe tão piedosa,

Perdoai-me, meu Jesus!

terça-feira, 27 de março de 2018

QUE A CONSIDERAÇÃO DE JESUS CRUCIFICADO ANIMA A SOFRER E DÁ CONSTÂNCIA E CORAGEM


Filho meu amado, acharás decerto, como achei aos pés da cruz, o sustento nas tuas aflições!
O Servo – Treme a terra, Senhora, ante a morte de um justo! Morto Jesus, eclipsa-se o sol, fendem os rochedos, a natureza inteira desconcerta-se. Outro é o objeto, porém, que me ocupa mais do que todas essas maravilhas. Este objeto sois Vós, ó Maria, que permaneceste de pé, junto da cruz, a cada momento a renovar o sacrifício vosso ao Pai celestial, o sacrifício do vosso querido filho Jesus. 

Como pudestes sustentar, ó mãe, tal espetáculo? De onde veio essa coragem vossa? Ensinai, suplico, a esta alma que sofre tanto diante da mínima dificuldade que se lhe apresente. 

Maria – Ante os meus olhos, filho, eu tinha poderoso exemplo. Era Jesus crucificado, sofrendo com submissão todas as vontades de seu Pai. E só palavras de paz proferiram os seus lábios. E pedia ao Pai, pelos merecimentos do seu sangue, a salvação dos seus algozes. 

Os meus olhos estavam presos no divino modelo. Eu penetrava no coração de Jesus. Procurava tirar o molde dos sentimentos desse coração. 

Ao vê-lo tão generosamente sacrificar a vida pelos homens, entre suplícios horrorosos, foi que eu aprendi a fazer de minha parte a Deus o maior de todos os sacrifícios deste mundo, que era o sacrifício do próprio Jesus.
Filho meu amado, acharás decerto, como achei aos pés da cruz, o sustento nas tuas aflições, a força nas tuas fraquezas, a resignação nos sacrifícios que Deus te peça. Quando em aflição te achares, não procures consolo aos pés dos homens, porque bem depressa compreenderias como é breve e efêmera a compaixão dos homens. Depois de te queixares, acabam de se entediar com o relato das tuas queixas, senão mesmo da tua presença. Se a ti mesmo te reduzes e às tuas reflexões te abandonas, verás as penas aumentarem. Os teus esforços no sarar com os próprios recursos as tuas chagas ainda virão agravá-las mais. 

Que fazer, portanto, filho? É te armares nas horas de combate da imagem de Jesus Crucificado. 

Seja o teu crucifixo o primeiro recurso ao tempo das tribulações. 

Por muito que esteja enfraquecida a tua coragem, nele encontrarás a força necessária. Por muita amargura que te encha o coração, serás consolado. 

Sofres por parte dos homens? A cruz há de mostrar-te o maior dos Pais, dos Mestres, dos Justos, dos Amigos – ultrajado, abandonado, perseguido. 

Da parte do Inferno é que sofres? 

Vê na Cruz o bom Jesus – alvo de todas as fúrias infernais. 

Pensarás que te trate rigorosamente o Céu? Considera um momento todo o rigor que o Pai Celeste exerceu sobre o Filho bem-amado!
Castiga-te Deus os pecados com algumas penas temporais? Que são tais penas em confronto com as que sofreu Jesus por te livrar das eternas? Dirás que foste resgatado, considerando o teu crucifixo, pelos excessivos sofrimentos de um Deus. 

Ai! Filho, justo é que a alma resgatada assim guarde alguma semelhança com Aquele que a resgatou. 

Filho meu, tão pouco pareces com o teu crucifixo, pelas virtudes que ele próprio te dirá, que muito consolador será para ti se lhe pareceres ao menos um pouco pelas dores. A este recorre, pois, nas tuas dores, tristezas e tentações. Beija-o mesmo com amor, rega-o com lágrimas, aperta-o estreitamente de encontro ao coração. Imagina que te achas no Calvário e te é permitido abraçar os pés do teu Deus sofrendo e morrendo por ti. Fala-lhe das tuas penas unindo-as às penas dele, e pede-lhe o alívio para elas. Conjura esse misericordioso Salvador a fazer-te ouvir de sua voz alguma palavra de consolação que te ajude a suportar o rigor das tuas penas. Dize-lhe que o não abandonarás enquanto não te restituir a tranquilidade e a paz à alma, enquanto a não haja fortalecido pela unção da sua graça. Se fiel te mostrares a esse santo exercício, as tuas lágrimas serão enxutas, a paz voltará ao teu coração, a coragem sucederá à fraqueza, não mais amarga te será a cruz; pois o seu amargor se converterá em doçura. Ou, se ainda tens de sofrer, ao menos sofrerás com os sentimentos de paciência, resignação e amor, os quais faziam o Apóstolo dizer: “ Alegro-me nos opróbrios, misérias, perseguições, desgostos extremos que sofro por Jesus Cristo” (2Cor 12, 10). 


[Religioso Anônimo. Imitação de Maria. Cultor de livros, 2014. Pg. 271-274]

MARIA SEMPRE!

terça-feira, 11 de abril de 2017

PAIXÃO: CRUZ, TRAIÇÃO, REDENÇÃO

O Beijo de Judas. Por Giotto di Bondone.
O Beijo de Judas. Por Giotto di Bondone.

Prof. Helmer Ézion

Semana Santa! Momento que requer de nós cristãos mais piedade e zelo para com a causa de Nosso Senhor Jesus Cristo, a nossa própria salvação. Momento em que a Cruz (em variadas denotações e conotações) se faz mais pungente!

No cenário atual do mundo, a exigência e o peso da cruz, talvez, sejam ainda maiores. A moral católica é devastada, denegrida e atacada por todos os lados. Inimigos da Cristandade avançam cada vez mais nos seus propósitos, impondo sobre nós leis absurdas baseadas em ideologias péssimas e contraditórias e forçando-nos a ceder a tudo isso. Deste cenário já nos alertava o então Cardeal Ratzinger: “Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio 'eu' e os seus apetites.” [1]

Ora, aquele que  sucumbe à ditadura do relativismo faz tal qual os Judeus tentando justificar porque queriam a crucificação de Cristo: “Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus”[2] Cientes de tudo isso, resta perguntarmo-nos qual a nossa posição: será que faremos tal qual a multidão que gritava "crucifica-o!"[3]e como Pilatos que lavou as suas mãos?[4] Ou carregaremos a cruz como fez Simão Cireneu[5] e subiremos ao Calvário com coragem como Nossa Senhora e o Apóstolo São João?[6]Enfim, muitas são as reflexões que podemos fazer acerca de nós mesmos em relação à paixão de Nosso Senhor. As respostas para estes questionamentos nos elucidarão a autenticidade da nossa vivência cristã.

Há algum tempo, o Papa nos apresentou a seguinte questão: "Sou como Judas, capaz de trair Jesus, ou como os discípulos que não entendem nada, que dormiam enquanto que o Senhor sofria? Minha vida está adormecida?”[7]Esta pergunta abre um leque de considerações a serem feitas, afinal, em que consiste exatamente a traição? Qual é a medida da ignorância? A figura de Judas Iscariotes ainda é bastante emblemática, meditar sob ela à luz da Tradição, em relação as nossas vidas, pode ser muito proveitoso para nossa santificação.

Bem, é importante lembrarmo-nos do que disse Nosso Senhor Jesus Cristo aos seus apóstolos, inclusive a Judas: "Se guardares os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor." Portanto, "já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer. Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça (...)."[8] Judas era escolhido e querido por Cristo, sendo assim, um privilegiado. Certamente, no princípio ele correspondeu a tão belo chamado e rendeu alguns frutos. Aliás, todo e qualquer autêntico cristão recebe alto privilégio, pois, existe dádiva maior do que a de ser reconhecido como filho de Deus a partir do batismo? Desta forma, somos todos chamados a dar testemunho do evangelho, cada um de acordo com sua condição. A potencialidade de Judas Iscariotes era imensurável, afinal ele era apóstolo e convivia diretamente com Nosso Senhor.

No entanto, alguns chegam a supor absurdamente que Judas foi escolhido para ser o traidor, afinal Jesus sabia a malícia que Judas carregava consigo.[9] Grande falácia! De fato, Jesus sabe de todas as coisas e sabia da traição que, em sua liberdade, Judas viria a cometer. Mas Judas, assim como todos os apóstolos fora tocado pela misericórdia de Cristo e demonstrava grande disposição em servir Nosso Senhor. Era, portanto, um verdadeiro amigo de Cristo e junto a ele também operou prodígios. Como, então, alguém que vive na companhia constante e real do Amor humanado, encontra razões e ocasiões para cometer tamanha perversidade de traí-lo? 

Judas cedeu às investidas demoníacas
Não é possível que tamanho ato de iniquidade tenha sido espontâneo. Ou seja, Judas não resolveu trair repentinamente, muito menos estando ele na companhia constante de Jesus. A situação de apóstolo não o dispensou da necessidade de vigilância e prudência, pois Jesus nos fornece todas as graças necessárias para vivermos em comunhão com Ele, mas é preciso uma disposição pessoal em conformidade com esta graça. Isto significa que Judas teria vacilado aqui e ali em momentos de prova. Estando ele em tão alta posição, era de se esperar também grandes provações e tentações.[10]

Por misericórdia, Deus nos prova a fim de nos santificar (nunca para além de nossas forças) e até mesmo permite que o demônio (alimentado pelo seu ódio) nos tente. Mas Deus não quer que pereçamos, e sim, que auxiliados por Sua graça, vençamos, com Ele, o pecado. Portanto, Judas distanciava-se de Cristo, mesmo estando na presença dEle, na medida em que ia permitindo a ação do demônio.[11] Claro que ele não permitia deliberadamente, mas ao passo em que voltava-se para o seu ego e suas vaidades, ia, por mais disparate que isso pareça, se esquecendo de Deus e tolerando uma "sugestão demoníaca", até cair em uma possessão.

 Judas, com seu beijo, traiu Aquele que lhe chamava de amigo! [12] – Cristo ainda o chamava assim porque ainda o amava e o queria com Ele, e era ainda possível o arrependimento – Obstinado em sua malícia, executou o seu perverso ato! É justo que reprovemos, rechacemos e repudiemos a traição de Judas. Mas é preciso que pensemos se não estamos sendo hipócritas... 

"Bom seria para tal homem
não haver nascido"
Quantas vezes deixamos de prestar culto a Deus por causa de nossa tibieza? Deixamos de rezar um dia, faltamos à missa em outro, questionamos a doutrina em um ponto, não nos esforçamos em evitar os pecados (ainda que veniais) ... As ocasiões mínimas que vão abrindo brechas para o demônio são incontáveis. Se não nos atentarmos no básico mais cedo ou mais tarde cairemos em coisas mais graves, a apostasia, por exemplo, que corresponde totalmente a uma traição. Ou seja, de certa perspectiva, somos traidores sempre que consentimos com a ditadura do relativismo e os pecados, tão presentes no mundo. Ao pensar isso, não devemos nos desesperar como fez Judas. Mas ter a consciência da nossa mazela (até mesmo da nossa vulnerabilidade diante das provações) já é um sinal da misericórdia de Deus. É o mesmo que Cristo nos chamando de amigo no momento de fraqueza.

Portanto, devemos nos lembrar que a Redenção de Jesus na cruz é extensiva a todos, por mais iníquos que possamos ser. Porque Cristo, ao derramar seu sangue quis salvar a todos. Porém cabe a nós reconhecermos e nos arrependermos de nossos pecados, suplicando a Deus que, por intercessão de Nossa Senhora, possamos integrar nossos sofrimentos à cruz de Cristo. Pois, quanto mais somos tocados pela misericórdia do Senhor, tanto mais entramos em solidariedade com o seu sofrimento – tornamo-nos disponíveis para completar na nossa carne o que falta à Paixão de Cristo.[13]


MARIA SEMPRE!

Referência bibliográfica:

HOPHAN, Otto. Judas Iscariote. tradução de Roberto Vidal da Silva Martins. Ed. Quadrante. São Paulo. 1996, 56 páginas.

NOTAS:

[1] Texto da homilia do então Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, pronunciada na Missa Pro Eligendo Pontífice, celebrada no dia 18 de abril de 2005.

[2] Jo 19,7.

[3] Jo19,6.

[4] Mt 27,24

[5] Mt 27:32

[6] Mt 27,25-27

[7] https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/papa-pede-que-catolicos-reflitam-se-sao-traidores-como-judas-ou-se-amam-deus-92bxf1yg9pbv3xs17j64459hq/

[8] Jo 15:10-16

[9] Jo 6, 70

[10] Lc 12:48

[11] Lc 22, 3 e Jo 13, 27

[12] Mt 26:50

[13] Col 1, 24

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

REFLEXÃO: CARNAVAL E REPARAÇÃO


"Jesus, silencioso,
 gemia e suspirava"

Por Paulo Oliveira


Nos próximos dias, acontecerá o carnaval, sabemos que são dias, pelos acontecimentos que neles ocorrem, em que Nosso Senhor Jesus é particularmente ofendido pelos pecados dos homens. Pensando nisso, segue abaixo dois trechos tirados do Diário de Santa Faustina, onde a santa fala sobre os sofrimentos que estes dias causam em Jesus. Diante de tamanha exaltação do pecado e do vício, cabe-nos rezar em reparação pelos sofrimentos que Jesus irá suportar em sua alma, pois se é verdade que o Senhor já não pode sofrer em seu corpo glorioso, a sua alma ainda experimenta angústias e dores pelo desamor daqueles que ele tanto amou e ama. Mais abaixo uma bela oração de reparação.



"O dia todo senti a dor da coroa de espinhos"
“Nos últimos dias do Carnaval, quando rezei a hora santa, vi Nosso Senhor no momento da flagelação. - Oh, que suplício inconcebível - Como Jesus sofreu terrivelmente quando foi flagelado. - Oh pobres pecadores, como será o vosso encontro no dia do julgamento com esse Jesus a quem agora martirizais? - O Seu Sangue corria para o chão, e em alguns lugares o corpo começou a desprender-se. E vi nas costas alguns dos Seus ossos despidos de carne... Jesus, silencioso, gemia e suspirava.” (nº. 188)



27 de fevereiro de 1938 últimos dias do Carnaval: 



 “Os meus sofrimentos físicos aumentaram. Procurei unir-me mais estreitamente com o Salvador, pedindo-Lhe misericórdia para o mundo todo, que enlouquece em sua maldade. O dia todo senti a dor da coroa de espinhos. Quando fui me deitar, não podia encostar a cabeça no travesseiro, porém às dez horas desapareceram as dores e adormeci, sentindo contudo no dia seguinte, um grande aniquilamento.” (n°1619).

ORAÇÃO REPARADORA

"Do esquecimento
 e ingratidão dos homens"

Divino Salvador Jesus! Dignai-vos baixar um olhar de misericórdia sobre vossos filhos, que reunidos em um mesmo pensamento de Fé, Reparação e Amor, vêm chorar a vossos pés suas infidelidades e a de seus irmãos, os pobres pecadores! Possamos nós, pelas promessas unânimes e solenes que vamos fazer, tocar o vosso divino Coração, e dele alcançar misericórdia para o mundo infeliz e criminoso e para todos aqueles que não têm a felicidade de vos amar!

Daqui por diante, sim, todos nós vo-lo prometemos:

Do esquecimento e da ingratidão dos homens, 
R.: Nós vos consolaremos, Senhor! (responder assim a cada intenção)

Do abandono em que sois deixado no santo Tabernáculo,
Dos crimes dos pecadores,
Do ódio dos ímpios,
Das blasfêmias que se vomitam contra vós,
Das injúrias feitas à vossa divindade,
Dos sacrilégios com que se profana o vosso Sacramento de amor,
Das imodéstias e irreverências cometidas em vossa presença adorável,
Da tibieza do maior número de vossos filhos,
Do desprezo que se faz de vossos convites cheios de amor,
Das infidelidades daqueles que se dizem vossos amigos,
Do abuso de vossas graças,
De nossas próprias infidelidades,
Da incompreensível dureza de nossos corações,
De nossa longa demora em vos amar,
De nossa frouxidão em vosso santo serviço,
Da amarga tristeza em que sois abismado pela perda das almas,
Do vosso longo esperar às portas de nossos corações,
Das amargas repulsas de que sois saciado,
De vossos suspiros de amor,
De vossas lágrimas de amor,
De vosso cativeiro de amor,
De vosso martírio de amor,
R.: Nós vos consolaremos, Senhor!

ORAÇÃO

Divino Salvador Jesus, que de vosso Coração deixastes escapar esta queixa dolorosa: "Eu procurei consoladores e não os achei", dignai-vos aceitar o pequeno tributo de nossas consolações e assistir-nos tão poderosamente com o socorro de vossa graça que, para o futuro, fugindo cada vez mais de tudo o que vos poderia desagradar, nos mostremos em tudo, por toda a parte e sempre, vossos filhos, os mais fiéis e devotados. Nós vo-lo pedimos por vós mesmo, que sendo Deus, com o Pai e o Espírito Santo, viveis e reinais nos séculos dos séculos. Amém.


MARIA SEMPRE!


FONTE: WWW.SOCIEDADEAPOSTOLADO.BLOGSPOT.COM