quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (I)


"Combinavam as funções do monge com as do guerreiro."


"O trabalho sob o título «Em louvor da Nova Milícia», é dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.


O capítulo de abertura expõe as vantagens desfrutadas pelos soldados da «nova milícia», que havia surgido na própria terra consagrada pela vida e sofrimentos do Redentor, com a missão de banir os filhos das trevas onde Ele outrora banira o seu soberano.

Aqueles cavaleiros de Cristo combinavam as funções do monge com as do guerreiro, eram igualmente peritos na utilização das armas materiais e espirituais, mantinham guerra permanente contra os inimigos visíveis e invisíveis, eram invulneráveis a todos excepto a si próprios, pois não receavam ferimento algum além do pecado, caminhavam para a batalha com a certeza infalível da vitória - vitória se vencessem o adversário, vitória mais gloriosa se tombassem na peleja.

São Bernardo pregando as cruzadas
«Providos de armas de toda a espécie, não receiam o homem nem o demônio. A própria morte, longe de ser temida, é o objectivo do seu desejo. Na verdade, o que poderá causar qualquer alarme àquele, quer na vida quer na morte, para quem 'viver é Cristo e morrer lucro' (FiL, 1, 21)? Fiel e gostosamente viverá por Cristo; no entanto, preferiria 'ser dissolvido e estar com Cristo, coisa bastante melhor' (ibid., 23). Avante, pois, soldados de Cristo, e com corações intrépidos, ponde em fuga os inimigos da sua cruz, confiantes em que 'nem a morte nem a vida vos poderão separar da caridade de Deus que existe em Jesus Cristo' (Rom., 8, 39). Em todos os perigos repeti para convosco as palavras de São Paulo: ‘Tanto se vivermos como se morrermos somos do Senhor' (Rom., 14, 8). Oh, como será glorioso o vosso regresso se vencerdes na luta! Quão abençoado o vosso martírio, se tombardes no campo de batalha! Alegre-te, intrépido guerreiro, se víveres e conquistares no Senhor. Porém, bastante maior motivo terás para alegrar-te, se uma morte de mártir te unir ao teu Senhor. A tua vida será, sem dúvida, fecunda em bem e plena de glória, mas a morte santa é algo muito mais precioso. Porque, apesar de serem abençoados aqueles que morrem com o Senhor (Apoc, 14, 13), quão grande não será a santidade dos que morrem por Deus? Indubitavelmente, 'é preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos' (Sal. 115, 15), independentemente do lugar onde ocorra, tanto no leito como em combate; mas, morrer em combate é a forma mais preciosa de morte, por mais gloriosa. Oh vida segura do soldado cristão onde a consciência nada tem a recear! Oh vida segura do campeão da cruz para quem a morte não contém horrores, mas é antes desejada por ele com ardor e bem-vinda alegria! Oh milícia de Cristo, verdadeiramente leal e santa, livre do duplo perigo a que estão expostos os beligerantes quando Deus não é a causa da sua luta! Aquele que combate por algum interesse temporal possui frequentemente motivo para temer que, ao matar o corpo do seu inimigo, imole a sua própria alma, ou que sejam destruídos o seu corpo e alma; visto que, no entender de um cristão, a derrota e o triunfo dependem não dos acidentes da guerra, mas do sentir do coração. Se a guerra for justa, o resultado não pode ser mau, tal como nunca será bom se ela for injusta, quer na sua origem como na sua finalidade. Aquele que, numa peleja injusta, ao tentar matar, é morto, perece como um assassino; mas se sobreviver e abater o seu inimigo, vive como um assassino. Todavia, é terrível ser um assassino quer na vida ou na morte, na derrota ou na vitória. Desditosa considero essa vitória na qual, embora vencedor do adversário, se é vencido pelo demônio, e constitui presunção proclamar que se conquistou um homem».

"Cordeiros na paz e leões na guerra."
Nos três capítulos seguintes, o santo traça uma comparação entre os cavaleiros mundanos e «Quem afirmará que é ilegal para um cristão recorrer à espada, quando o precursor do Salvador não proibiu aos soldados o uso de armas, mas lhes recomendou simplesmente que se contentassem com o seu soldo? (Luc. 3, 14)» Aqui o santo opõe-se a Orígenes e Tertuliano que entenderam a guerra e a profissão das armas proibidas pelos cristãos. «Portanto, que se desembainhem ambas as espadas, a espiritual e a material, e sejam brandidas na face do inimigo 'até que se abatam todos os perigos que se ergueram contra a sabedoria de Deus' (1, Cor., 9, 4, 5), que é a fé cristã, 'para que nunca digam as nações: onde está agora o teu Deus' (Sal. 114, 2)?... Não que os pagãos devam ser imolados, se por qualquer outro meio puderem ser impedidos de perseguir e oprimir os fiéis. Mas é preferível que sejam destruídos, do que 'a vara dos pecadores caia sobre os justos' de forma 'a que os justos não estendam as suas mãos para a iniquidade' (Sal. 124, 3)». O autor prossegue, enumerando as virtudes dos templários: as suas vidas irrepreensíveis, a obediência, a simplicidade e pobreza, a sobriedade, a devoção pelo trabalho, o respeito e estima mútuos, a aversão por jogos e desportos, a discrição no falar e desprezo pelos murmúrios, a coragem indômita que nunca descansa para atacar o inimigo, a brandura e fúria marciais que os tornavam cordeiros na paz e leões na guerra.
os templários, em desfavor dos primeiros, evidentemente. O cavaleiro mundano possui maior interesse pela exibição do que pela utilidade do seu equipamento; assemelha-se mais a uma dama garrida do que a um militar ansiando pela guerra. Aliás, as pelejas nas quais estes cavaleiros seculares costumam participar têm por origem vinganças, vanglórias ou conquistas de territórios; porém, morrer ou ser morto em semelhantes refregas é igualmente perigoso para as almas. Ao contrário, os soldados de Cristo sentem-se tão seguros se se mantêm de pé como se tombam nas lutas pelo seu Salvador, pois não representa pecado mas antes
mérito e glória provocar ou sofrer a morte por Cristo.

Seguem-se nove capítulos, versando cada um os objetivos ou lugares mais sagrados na Palestina: o templo, Belém, Nazaré, o Monte Olivete e o vale de Josafá, o Jordão, o Calvário, o Santo Sepulcro, Bethfage e Betânia. São, na verdade, nove belas meditações, repletas dos pensamentos que deviam ocupar os espíritos dos templários ao contemplares os diferentes cenários consagrados pelo labor e sofrimentos do Redentor.

Estas palavras do eminente abade retumbaram através da cristandade, atraindo súbita fama a Hugo de Payens e seus companheiros. Bravo Hugo! A vossa longa e dolorosa provação acha-se no seu termo. A ameaça da extinção está removida da vossa instituição.

Doravante a vossa dificuldade consistirá em conseguir albergar todos os voluntários ansiosos provenientes dos mais afastados recantos da terra cristã. Os vossos cavaleiros brancos tornar-se-ão (...) terror dos sarracenos e o seu estandarte será o mais venerado da Europa. Durante dois séculos sustentarão o choque das Guerras Santas, repelindo com coragem desesperada e com risco de 20.000 dos seus, a onda crescente do islamismo que ameaçou, ano após ano, romper os seus laços e varrer irresistivelmente a Europa. E então, ser-lhes-á concedida a dura recompensa da prisão quando o seu principal crime for a posse de riquezas e o principal acusador um monarca cobiçoso."


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Continua aqui.

MARIA SEMPRE!

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

SER PAI - IR ALÉM DO NATURALISMO

Ser pai é, sobretudo, um Dom!
 Logo, é uma dádiva que os homens que se casam não devem evitar

Por João S. de O. Junior *

Conforme calendário civil, no segundo domingo de Agosto comemora-se o dia dos Pais, data trazida para o Brasil com fins publicitários [1]. Na liturgia da Igreja, nesse mesmo mês, recorda-se de modo especial o tema vocações. Coincidências à parte, foi conveniente reservar um dia do ano para lembrar daquele que, junto à mãe, gera e cuida da prole. 

A realidade do casal gerar um ser humano, sangue do seu sangue, é como cultivar um outro "eu" para se perpetuar nesta vida pelas gerações, assim concordam os poetas e os iletrados, os cristãos e os pagãos. Convicção esta que aumenta com a experiência paterna concretizada. 

Podemos afirmar que a geração e o cuidado para com os filhos está na Lei Natural física (para os seres irracionais também) e Lei Natural moral [2], no caso dessa última, posta por Deus no coração dos seres humanos para consecução de suas finalidades [3]. Logo, de modo geral, a paternidade e muitas de suas implicações são inatas ao homem. 

Até aqui, nada de novo. Mas, meus irmãos, atenção! Eis este mundo marcado pelo pecado original. E não pense que nos referiremos aos maus pais, àqueles que prestarão contas no dia do Juízo pelos "órfãos de pais vivos", não. Se a paternidade é algo natural e bom, chamaremos atenção para o Naturalismo, tão presente e maléfico em nosso tempo.
Como corrente filosófica desde o séc. XIX, complementar a outras como o Materialismo e o Positivismo, “(...) a corrente Naturalista sustenta que a natureza é formada pela totalidade das realidades físicas existentes e, por conseguinte, é o princípio único e absoluto do real. Para o naturalismo filosófico, todo o real é natural e vice-versa. Não existe outra realidade que não a natureza. (...)” [4]

O Naturalismo é um sistema filosófico que destaca
a natureza como sendo o primeiro princípio da realidade
Esse conceito é perceptível com a realidade paterna contemporânea, não? Um pai que faz de sua função apenas dar o alimento e sustento corporal aos seus filhos, ou mesmo uma "educação" unicamente voltada para este mundo material, está sendo naturalista. Por mais que tenha afeto verdadeiro pela prole, o pai que não enxergar um propósito maior como tal, a não ser advindo da natureza humana, é naturalista. Percebam: mesmo que não falte amor aos filhos, os pais que, na prática, não vislumbram a transcendência daqueles, dotados de corpo e alma espiritual e imortal, estão sendo naturalistas. E, por isso, não estão sendo bons pais, de fato.

Isto vos escandaliza? Como católicos não podemos permitir que os ditames de filosofias vãs prevaleçam. Devemos, sim, propagar a sã doutrina que, embasada na Revelação Divina, nos dá outra perspectiva, mesmo na paternidade. Ser pai é, sobretudo, um Dom! Logo, é uma dádiva que os homens que se casam não devem evitar. É a graça de uma participação especial na obra do Criador[5], é para povoar o Céu! E isto, meus irmãos, é a excelência de nosso chamado.

Os sacerdotes são nossos pais espirituais
Não por acaso, o sacerdote católico, que transmite a Vida da Graça aos Fiéis através dos Sacramentos, é chamado de padre (termo latino que significa "Pai"). Os grandes propagadores de nossa Fé nos primeiros séculos da Igreja, pelo testemunho e defesa contra as heresias, são denominados Pais da Igreja. E, com sentido carinhoso em termo grego (papai), o Vigário de Cristo na Terra é o... Papa! [6] 

Se hoje, para muitos, o fato de ser pai se resume em "pagar pensão", na doutrina católica, a principal Missão deles se dará pela Educação dos filhos. E esta começa por iniciá-los e ajudá-los a dar os primeiros passos da Fé, fazê-los conhecer a sã doutrina[7], crida, professada e que seja vivida exemplarmente. [8] 

Para concluir o que afirmamos, o Catecismo de São Pio X, sucintamente, explana sete deveres dos pais para com os filhos: 

"Os pais têm o dever de amar, cuidar e alimentar seus filhos, de prover à sua educação religiosa e civil, de dar-lhes o bom exemplo, de afastá-los das ocasiões de pecado, de corrigi-los nas suas faltas, e de auxiliá-los a abraçar o estado para o qual são chamados por Deus." [9] 
Num Mundo naturalista, materialista, relativista, cada vez mais moralmente liberal, onde até parte da hierarquia e membros de nossa Madre Igreja se "contaminam", é de questionar se mesmo os ditos "católicos praticantes" estão observando estes deveres em destaque. Diante da crise, o maior ato heroico de um pai, além de se salvar, e como condição para tal, será trabalhar pela salvação eterna de seus filhos.

MARIA SEMPRE!

    * O autor é o atual Presidente da SSVM. 
Aqui no batismo de João Henrique, seu filho
Notas e Referências:

[2] - Bettencourt, Dom Estevão. "Lei Natural: o que é? Existe mesmo?", revista Pergunte e Responderemos, disponível em: http://www.pr.gonet.biz/index-read.php?num=565
[3]-Fedeli, Dr. Orlando. " Os três princípios da Lei Natural", artigo disponível em: http://www.montfort.org.br/bra/cartas/doutrina/20040821155008/
[4] - Vide: "Conceito de Naturalismo", disponível em: http://conceito.de/naturalismo.
[5] Catecismo da Igreja Católica, 1982, Da ordenação da família a fecundidade, parágrafo 1652.
[6] - Artigo "Qual é a origem da Palavra 'Papa', disponível em: http://pt.aleteia.org/2014/01/22/qual-e-a-origem-da-palavra-papa/
[7] - Vide Catecismo de São Pio X, questão 6.
[8] - Catecismo da Igreja Católica, 1982, Parágrados 2225-2226.
[9] - Catecismo de São Pio X, questão 403.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SOBRE A VISÃO ROMÂNTICA - PARTE II

 Leia a primeira parte aqui

Romantismo é a tendência a acentuar
a primazia do sentimento sobre o pensamento
Prof. Pedro Maria da Cruz

A partir de então, o homem passou a ser encarado em sua vida total. Mais que o entendimento e a vontade se impuseram o sentimento e a fantasia. Com isso, o Romantismo instalou sua pátria, predominantemente, na região artística, de maneira especial na região da poesia. Daí ter se encaminhado para uma direção irracional, em busca de um ‘viver-com-tudo’ que, ao mesmo tempo, aparece também como intuição intelectual que repele todo conceito definitivamente perfilado e acompanha a vida em seu devir que segue para o Infinito e desfaz, reiteradamente, toda forma. Excluindo e incluindo o irracional e o racional, isto é, espontaneidade, a novidade imprevisível e a força coordenadora e unificadora que tende a fazer de um caos um cosmos, o Romantismo deixa de ser um fato principalmente literário – e filosófico só por acessão – para se transformar num fato principalmente filosófico, onde não só a Literatura, mas também a Ciência, a Religião, a História se encontram conjugadas por um mesmo esforço para conquistar uma visão total da vida.”

“(...) As imagens fazem bem à alma, já se havia dito nos primórdios do Romantismo; a poesia é a realidade absoluta, se acrescentará depois. Ao irromper em seu mistério, os poetas buscavam a total harmonia com a natureza, impulsionados com intensidade pelas representações do inconsciente. Para isso aniquilaram as aparências temporais, apreenderam a existência imediata como uma vida para âmbitos noturnos e oníricos, aplicaram novos significados à revelação das sensações, e assim a poesia se converteu numa forma de conhecimento ‘mágico’ que relacionava estreitamente o circundante com a vida obscura do poeta. (...) A concepção ‘analógica’ entre universo e alma se fez a tal grau consciente que, em geral, precedia à aventura lírica. E isto ensejou uma impetuosa corrente universal que confiava sua inspiração ao sonho e à noite e que ajudou a criar o conceito moderno de arte. Nesse sentido, a poesia passou a ser a interpretação dos fenômenos e dos mistérios do universo, por que é uma série de gestos mágicos realizados pelo poeta que não conhece claramente sua significação, mas que acredita firmemente que esses ritos são os elementos de uma magia soberana. E precisamente nessa humanização do divino, nesse pressentimento do Infinito nas intuições – como queria Uhland – está a essência do romântico. 

Wonder - Zena contemplando a lua.
Pintura Moderna de Alex Grey
Era o Romantismo a vitória do indivíduo sobre a disciplina moral e intelectual do Classicismo, que transformara a cultura humana, desde o século XVI, num jogo de princípios invariáveis e regras inflexíveis dentro dos quais o espírito se movia com dificuldade, e quase sem autonomia. Uma vitória, porém, imersa num halo mórbido, pois as linhas nítidas do Classicismo são substituídas pelos entretons românticos; uma indecisa religiosidade, a atração pelos aspectos indolentes da natureza, pelos crepúsculos silenciosos e pelas ruínas verdejantes, e tranquilas, uma vaga piedade por todas as matérias da terra e, ao mesmo tempo, um descontentamento permanente de tudo quanto existe, assim como uma constante exaltação pelo desconhecido e pelos grandes sacrifícios e heroísmos. Dos nevoentos fiordes nórdicos emerge a enigmática máscara de Odin: é o mal do século... 

E o Brasil foi colhido em cheio pelo Romantismo, fazendo do garoento planalto paulista seu reduto (...).” 


Fonte: VITA, Luís Washington. Panorama da Filosofia no Brasil. COLEÇÃO CATAVENTO: Série Universitária. Porto Alegre: Editora Globo, 1969; págs. 48-60

MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SOBRE A VISÃO ROMÂNTICA - PARTE I


"O Romantismo não se define: sente-se"

Prof. Pedro Maria da Cruz


Livro aqui indicado
Luís Washington Vita (1921-1968) é conhecido no meio acadêmico como historiador culturalista da Filosofia no Brasil. Seu livro “Panorama da Filosofia no Brasil” (do qual apresentamos alguns parágrafos abaixo referentes ao Romantismo), apresenta em várias partes uma crítica superficial e infundada à posição filosófica da Igreja Católica, assim como, ao papel que exerceu a Idade Média na história mundial. De facto, nesse livro específico, o autor parece reduzir o todo medieval ao período de decadência da escolástica, a qual, excluída em muito de sua rota por vários autores, acabou propiciando o surgimento de erros modernos.

Para Luís W. Vita, o termo Renascença é apropriado “(...) para sugerir a sensação que o homem de Quinhentos teve de renascer com alentos e modos de vida espiritual que, de certo modo, se haviam interrompido ou atrofiado durante séculos.” (p.10) Ainda segundo o mesmo autor, de modo um tanto reducionista, a Contra- Reforma católica teria levado Portugal a um “obscurantismo propositado” (p.12), ou, usando outra frase do livro, o Concilio de Trento “(...) se limitara a tão-somente a reforçar a cinta de ferro com que a Igreja, em nome da religião, comprimiu o cérebro da catolicidade.” (p.12) Reconhece, devemos dizê-lo, o papel da Igreja na formação intelectual do Brasil, porém, todo o tempo, demonstra clara aversão à visão católica (chamada “tirania do Homo credulus”, p.11) o que está alinhado, cremos, às suas estranhas referências à maçonaria. 

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“O movimento de cultura, e por isso mesmo também filosófico, que nasce como uma reação ao iluminismo, é o Romantismo. No Brasil foi a primeira afirmativa de nossos valores mais caros, atuando como centros irradiadores as duas faculdades de Direito existentes na primeira metade do século XIX: a de São Paulo e a do Recife. Ao lado desses dois institutos de estudos superiores também atuam as lojas maçônicas.”

Símbolo da maçonaria. Condenada pela Igreja
“(...) É o momento em que viceja a maçonaria, não apenas multiplicando lojas propriamente ditas, a partir de 1800, como inspirando a formação de grupos interessados na difusão do saber e no culto da liberdade. 

‘Nesse tempo – informa Antônio Cândido – tais associações desempenharam não apenas funções hoje atribuídas aos agrupamentos partidários, mas algumas das que se atribuem ao jornalismo, às sociedades profissionais, à universidade: congregaram e poliram aos patriotas, serviram de público às produções intelectuais, contribuíram para laicizar as atividades do espírito, formularam os problemas do país, tentando analisá-los à luz das referências teóricas da Ilustração. Foi um toque de reunir para os homens interessados na cultura e na política, corroborando o ponto de vista de Hipólito da Costa num dos seus melhores ensaios, onde analisa a necessidade e função das ‘sociedades particulares’: elas correspondem a uma necessidade de organização social – pois a marcha da civilização está ligada à diferenciação da sociedade – e condicionam o próprio funcionamento do Estado, ao se interporem entre ele e os indivíduos cujas atividades definem e coordenam. ’

E tudo fluía – acadêmicos e maçons – numa atmosfera romântica.

Schelling (1775–1854)
Problema prévio apaixonante, e por isso mesmo controvertido, é o da definição do Romantismo. Já na sua origem, em 1801, afirmava Sébastien Mercier que ‘o romantismo não se define: sente-se’. Para alguns o Romantismo é uma constante espiritual do homem, contraposta ao Classicismo: é a tendência a acentuar a primazia do sentimento sobre o pensamento, da intuição sobre o conceito, do dinâmico sobre o estático, do orgânico sobre o mecânico, do alusivo sobre o presente, do expressivo sobre o plástico. Assim, romântico seria o dionisíaco enquanto que o clássico seria o apolíneo, e acompanha a humanidade desde sua gênese. A esta concepção se opõe a teoria historicista, que afirma ser o Romantismo uma forma de vida humana e, por isso, constitui uma etapa da História, isto é, um dos modos de ser do homem num dado instante de sua evolução. (...) admite Roger Picard, ainda que com algumas restrições, que o Romantismo ‘foi uma época histórica’, daí explicar-se sua integração com o movimento das ideias, das reivindicações e das lutas sociais. Quer isto dizer que mais que um momento da Filosofia ou da Arte, foi o Romantismo um momento da cultura europeia, que vai precisamente dos fins do século XVIII até a metade do século XIX, e que explica seus motivos mais característicos na sua reação ao Iluminismo, que o precede. Ao império da razão e das regras opõe a exaltação da genialidade e espontaneidade do espírito nos seus aspectos a-racionais, intuitivos, sentimentais, fideístas. E à Filosofia coube interpretar esse momento espiritual nos grandes sistemas de Fichte, Schelling e Hegel, nos quais é feita a tentativa grandiosa de mostrar a fecundidade de um princípio espiritual (respectivamente, Eu, Absoluto e Ideia), no qual se integra numa unidade todo o sistema do universo. Identificando os contrários, fundindo todos os aspectos da realidade e da cultura num princípio único, e defendendo a tese da igualdade essencial da Filosofia, da Ciência, da Arte e da Religião, encontrou o Romantismo seu filósofo máximo em Schelling, que lhe imprimiu o tom peculiar de sua forma mentis.


Continua aqui.


Fonte: VITA, Luís Washington. Panorama da Filosofia no Brasil. COLEÇÃO CATAVENTO: Série Universitária. Porto Alegre: Editora Globo, 1969; págs. 48-60


MARIA SEMPRE!

domingo, 3 de julho de 2016

NOTÍCIAS: EVENTO "APELO AO AMOR!"

Evento "Apelo ao Amor", auditório do Hospital Universitário

Ocorreu no último dia 25 de Junho o evento "Apelo ao Amor" no auditório do Hospital Universitário Clemente Farias, Montes Claros - MG. Contando com a presença de amigos e benfeitores da Sociedade da Santíssima Virgem Maria - SSVM, o encontro transcorreu em clima de intensa piedade e reflexão. O objetivo foi o lançamento do compêndio "Vinde a mim todos", organizado pelo sr. Paulo Vinícius Oliveira, advogado, membro da SSVM. Segundo explicado pelo autor, o texto é composto pelo resumo dos escritos referentes às revelações de Nosso Senhor Jesus Cristo à Irmã Josefa Menendez, da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus.
Sr. Rafael Rocha, orador do evento.

Dado início às 19h do referido dia, o orador sr. Rafael Rocha, acadêmico do curso de Direito - UNIMONTES, tomou a palavra e convidou a todos para a recitação do Santo Terço, como ordenado por Nossa Senhora em várias de suas aparições. Conduzido pelo sr. Lucas Estefânio, jovem membro da SSVM, todos participaram da meditação dos mistérios com notória piedade, o que testemunha mais uma vez o louvável espírito mariano do povo norte-mineiro.

Após a recitação do Santo Terço, o orador expôs de modo introdutório a história da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. No desenrolar de sua fala, apresentou exemplos atuais que explicitam o estado de crise em que vive a Igreja e consequentemente a sociedade hodierna, fato este tantas vezes evidenciado pelo hoje emérito Bento XVI.

Convidados rezando o S. Terço
Num terceiro momento, o sr. Rafael Rocha chamou para compor a mesa o reverendíssimo Sacerdote Jesuíta, Pe. Henrique Munaiz, sempre muito próximo das atividades promovidas pela Sociedade da Santíssima Virgem Maria. Foi ele quem deu à arquidiocese de Montes Claros a alegria do retorno da Santa Missa no rito Tridentino, após décadas de ausência. Compôs o quadro o sr. João Soares de Oliveira Junior, Presidente da SSVM e o sr. Paulo Vinicius Oliveira. Findados os convites, tomou a palavra o organizador do compêndio. 

Pe. Henrique  aprecia o compêndio
O sr. Paulo Vinicius expôs com maestria o conteúdo da obra em questão ("Vinde a mim todos"), fato muito edificante. Sua conferência foi acompanhada de uma aprofundada reflexão a respeito das palavras transmitidas pela serva de Deus que teve a honra de receber as visitas sobrenaturais de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não deixou de chamar a atenção à necessária verdade da reparação tão ligada à devoção ao Sagrado Coração. Com efeito, num mundo onde alastrou-se um sentimentalismo exacerbado fruto do Romantismo não combatido devidamente, corre-se o perigo de uma abordagem manca a respeito da misericórdia, tema tão ligado a essa devoção. Vem-nos à mente as palavras de Santo Tomás de Aquino (Doutor da Igreja) o qual com extrema lucidez, afirmara: "Ser misericordioso é ter de algum modo um mísero coração, isto é, atingido pela tristeza à vista da miséria do outro, como se fosse a sua própria. Segue-se então que se busca fazer cessar a miséria do próximo como se fosse a sua própria; esse é o efeito da misericórdia."1

Sr. Paulo Vinicius expôs com maestria o teor da obra.
Terminada a conferência, abriu-se um espaço para a participação dos presentes. Todas as questões apresentadas foram sanadas pelos que compunham a mesa. Os modos alegres e expressivos do Pe. Henrique completaram com eloquência as mui embasadas respostas dadas aos que recorreram à mesa.


Finalmente, feito os devidos agradecimentos, todos foram convidados para um agradável convivência, onde foi oferecido aos amigos e benfeitores um delicioso coquetel. Ali, as pessoas puderam adquirir a obra "Vinde a mim todos" assim como outros materiais de piedade: Catecismo do Escapulário do Carmo, Quadros religiosos e os já conhecidos Pugnas, boletins distribuídos gratuitamente à população católica.


Pe. Henrique ladeado por alguns membros e amigos da SSVM.

Aspectos gerais do lançamento do compêndio "Vinde a Mim todos!" (Organizado pelo Sr. Paulo Vinícius Oliveira) durante o evento "Apelo ao Amor" da SSVM.






Fotos: Sr. Renato Diniz/ Sr. Anderson Santos


MARIA SEMPRE!


Referência:

1 AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica. Tomo I. Questão XXI, Art. III.

domingo, 26 de junho de 2016

RUSSELL NORMAN CHAMPLIN E CIA...


A Igreja Católica sempre defendeu a doutrina da intercessão dos santos.

“(...) destruímos os raciocínios presunçosos e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus. Obrigamos toda inteligência a obediência a Cristo”1

Por Prof. Pedro Maria da Cruz

Muitos estudiosos protestantes têm se aproximado pouco a pouco da fé católica. A coerência interna e a solidez da doutrina, guardada pela Igreja romana e confirmada por milagres incontestáveis, iluminam as inteligências humildes que não põem obstáculos à graça.

“Estão sempre aprendendo sem jamais
chegar ao conhecimento da verdade
Todavia, o coração empedernido coadjuvado por uma inteligência vigorosa, mas perdida numa selva de teorias estranhas - conhecidas, tão somente, por ceder ao “prurido de novidades”2 - pode até vislumbrar a “terra prometida” onde brilha a verdade; entretanto, jamais tomará posse dela em sua totalidade. Confuso entre mil visões diferentes e contraditórias encantar-se-á com um ponto luminoso, mas logo em seguida preferirá tal ou tal conclusão imperfeita para não ceder a nada nem a ninguém que lhe tire o gosto da multiplicidade de ideias, ainda que incoerentes.

Para o orgulhoso tal postura lhe confere certo status de pesquisador inflexível, segundo ele, muito acima do dogmatismo de crentes ignorantes, sem rigor epistemológico ou gosto pelos estudos. A ciência o incha e cega 3. Desse modo, torna-se incapaz de ver os absurdos a que muitos de seus raciocínios o conduzem se levados às últimas consequências. E não os vendo, continua a deleitar-se em suposições e ideias que abarrotam seu ego de auto complacência. “Estão sempre aprendendo sem jamais chegar ao conhecimento da verdade” 4.

Em meio às pesquisas que fizemos para o aprofundamento da fé, acabamos por deparar-nos, há tempos atrás, com a figura do professor Russell Norman Champlin (nascido em 1933, Salt Lake City, EUA), protestante de origem Batista. Ele parece ajustar-se em várias características apresentadas acima. Ademais, seus escritos acusam tendências espíritas, esotéricas, católicas e, obviamente, protestantes, para não citarmos outros aspectos. Uma verdadeira miscelânea de pensamentos, variados e desconexos entre si, os quais ele pretende harmonizar em conclusões desbaratadas. Tudo isso o torna mal quisto inclusive nos meios protestante, como é fácil deduzir.

Para conferirmos um pouco como Russell N. Champlin utiliza-se de argumentos católicos sem, contudo, inferir as devidas conclusões, acompanhemos seu texto abaixo:

Russell Norman Champlin-
 autor protestante
“Não é errado lembrar os heróis da fé; e também não é mister fazer cuidadosas distinções, entre os santos, quanto às denominações cristãs a que eles pertenceram. E apesar de não ser correto usar o termo “santo” para distinguir uma alma humana altamente desenvolvida, que se eleva acima de seus irmãos (tanto nesta vida quanto na outra), é indiscutível que há almas que estão acima das demais. Mas todas as pessoas remidas são santas, ou seja, foram separadas para o Senhor Deus, por estarem em Cristo; e todas essas pessoas merecem o epíteto.

Porém, tal como sucede nesta vida terrena, assim sucederá na existência após-túmulo; algumas almas remidas terão um grau mais elevado de transformação segundo a imagem de Cristo. É correto termos tais pessoas como objetos de admiração e emulação, pois nos servem de bons exemplos. Mas é um erro transformar tais pessoas em objetos de culto (...).

Assim afirmado, não nego que tais almas possam ajudar as outras, com base na comunhão dos santos. De fato, espero que assim suceda, porquanto precisamos de toda ajuda que pudermos obter tanto para promoção de nossa suficiência material quanto para a promoção de nosso progresso espiritual. Se anjos ministram àqueles que são os herdeiros da salvação (Heb.1,14), não vejo motivos para duvidar que os santos de Deus, já do outro lado da existência, tanto os maiores (assim reconhecidos) quanto os menores (nossos parentes e amigos crentes, etc.) possam prestar-nos sua ajuda, sem que para tanto tenhamos de prestar-lhes culto. (...) se um espírito remido chegar a mostrar interesse por minha vida, e eu puder detectá-lo, então poderei dizer-lhe: 'Alegro-me em vê-lo! Faça o que puder!'. Em outras palavras, creio que tais espíritos podem ministrar, da mesma forma que o fazem os anjos. Ocasionalmente, ouve-se o relato de alguma cura especial, operada por um espírito, dentro dos limites de uma família. Nesse caso, Deus pode ter enviado tal espírito como seu delegado e todos os delegados de Deus são bem vindos. Nem por isso, entretanto, devo prostrar-me a venerar os delegados de Deus. Acredito que o amor entre os membros de uma família continua para além da morte biológica; e que o amor pode cruzar as fronteiras entre o céu e a terra, realizando muitos feitos notáveis (...) “5 (CHAMPLIN, R.N.,1995)

Suplicamos a Nossa Senhora que interceda por todos que buscam a verdade. É preciso coragem para abandonar antigas negociatas, reconhecer-se equivocado e submeter a inteligência à verdade que exige o obséquio da razão. Ora - afirmara Santo Tomás de Aquino - algo é tanto mais compreendido pela razão quanto o contrário é mais grave e mais repugnante a ela; sendo assim, cabe a nós mostrar também a feiura do erro e o absurdo de suas afirmações. Desse modo, auxiliados pela intercessão da Virgem e socorridos por nosso esforço missionário (tudo isso, junto aos imperscrutáveis lances da Divina Providência), não poucos verão o brilho da verdade e, convertidos, dirão “sim” à única e verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: Católica, Apostólica e Romana.


MARIA SEMPRE!

Referências:
1) IICor. 10, 4-5 
2) IITm 4,3 
3) ICor. 8,1 
4) II Tm.3,7 
5) CHAMPLIN, R.N.; BENTES, J.M.. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 3 ed. Volume VI. Editora Candeia, São Paulo, 1995; págs. 117-118

quarta-feira, 15 de junho de 2016

LANÇAMENTO: "VINDE A MIM TODOS"


Com muita satisfação a Sociedade da Santíssima Virgem Maria - SSVM convida aos seus benfeitores e amigos para o Evento “Apelo ao Amor”!

Ocorrerá no sábado, dia 25/06, de 19h. às 20h30 no Auditório do Hospital Clemente Farias (Av. Cula Mangabeira, 562, bairro Cândida Câmara) - Montes Claros_ MG

"Apelo ao Amor" é o livro das revelações do Coração de Jesus à Irmã Josefa Menéndez, religiosa da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus. 

Com aprovação eclesiástica de Pio XII, a obra é repleta de terníssimas mensagens do Coração de Cristo, convidando toda a humanidade a se entregar aos seus apelos de conversão e confiança na divina misericórdia. 

O resumo da mensagem contida no "Apelo ao Amor" consta no livro, produção da SSVM, intitulado "Vinde a Mim Todos!". Esta obra será lançada no Evento a preço de R$18,00 cada aos que desejarem adquiri-lo.

Desde já, contamos com sua digníssima presença para conhecer esta importante mensagem do Coração de Jesus, no espírito do Ano Santo da Misericórdia, para todos nós pecadores!


MARIA SEMPRE! 


segunda-feira, 6 de junho de 2016

REFLEXÃO: A IGREJA E OS PECADORES

“Ó Deus, relembramos a vossa misericórdia
 no interior de vosso Santo Templo.” (Sl. 47,10)

Prof. Pedro Maria da Cruz

Resplandecente em sua beleza refulge a glória da única e verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo! Mas, me perguntareis, onde está esta beleza da qual te ufanas, se vejo Imorais, Pedófilos, Avarentos e Abortistas dizendo-se Católicos? Se vejo sacrilégios, apatia ante o santo sacrifício da missa, relativismo, hedonismo, e ignorância religiosa? Acaso tudo isso não existe qual fumaça negra, tomando todo o sagrado recinto, impregnando de fétido odor toda a dita glória que cantas, e impedindo a visão desta grandeza de que te gabas? Não será esta, a fumaça de Satanás, o sinal de um fogo devorador, que fará ruir todo o templo?

“Ó Deus, relembramos a vossa misericórdia no interior de vosso Santo Templo.” (Sl. 47,10). Acaso não te lembras das promessas de Nosso Senhor com referência à sua Igreja? Cuidado! Tal dúvida pode ser o sinal de um coração que se afastou do mistério; de alguém, que não segue o salutar exemplo da Virgem Maria, que “... guardava todas as coisas em seu coração” (Lucas 2,51). O homem que se afasta da oração profunda e verdadeira, tende a ouvir sempre mais as mediocridades advindas da ignorância de uma razão, que julgou desnecessária a iluminação divina. “Filho, que o pensamento de Deus ocupe o teu espírito, e os preceitos do altíssimo sejam a tua conversa” (Eclo. 9,23). Digamos sempre com o salmista: “... jamais esquecerei vossas palavras.” (Sal.118,16) 

"Deixai crescer juntos, o joio e o trigo" Mt 13,30 
Disse acertadamente Nosso Senhor, que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra sua Igreja! Sim, o disse; porém, não sejamos simplórios. Nunca poderemos julgar um versículo bíblico, fora de toda uma lógica que interliga qual rede, o discurso do Cristo; caso contrário, pecaremos contra a Hermenêutica, que nos ensina o legítimo método de interpretação dos textos Sagrados; assim, devemos ler a parte sem desprezar o todo Revelado. Deste modo, recordemos à significativa “Parábola do Joio”, onde o divino Mestre nos revela que faz parte da misteriosa vontade do Pai Celestial, deixar crescerem juntos em seu Reino, os bons e os maus; de modo, que somente chegando o final dos tempos é que serão separados uns dos outros pela Justiça do Altíssimo. “Não podemos separar ‘o Reino’, da ‘Igreja’. Com certeza que esta (a Igreja) não é fim em si própria, uma vez que se ordena ao Reino de Deus (Escatológico), do qual é princípio, sinal e instrumento. Mesmo sendo distinta de Cristo e do Reino, a Igreja, todavia está unida indissoluvelmente a ambos.”1 Assim, "o filho do homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino (a Igreja e o mundo) todos os escândalos e todos os que fazem o mal...” (Mateus 13,41). “Quão saborosas são para mim vossas palavras! São mais doces que o mel à minha boca”. (Sal. 118, 103); “Vossa palavra é minha esperança.” (Sal.118, 114) 

Sim! A Palavra de Deus é uma verdadeira luz que esclarece todas as trevas de nossa vã ignorância. Na única Igreja de Cristo, Católica, Apostólica, e mil vezes Romana, crescerá junto ao Trigo, o Joio; junto ao santo, o pecador; junto ao bom, o mal; pois aprouve a Deus, no mistério de sua divina vontade, o permitir. “Quão impenetráveis são os seus juízos, e inexploráveis os teus caminhos! Quem pode compreender o caminho do Senhor? Quem jamais foi seu conselheiro?” (Rom.11,34) 

Deste modo, posso cantar a beleza da casa de Deus, casa esta cujos inimigos nunca vencerão completamente. No fim, aqueles que ousaram colocar-se contra os mandamentos do Senhor, seguindo seus instintos egoístas, perdendo-se em falsas doutrinas, receberão a paga devida por suas transgressões; e já nesta vida, com a escuridão de suas vidas e seus princípios, evidenciarão com mais beleza, contra sua vontade, obviamente, a luz que brilha radiante da Única Igreja de Cristo, “coluna e sustentáculo da verdade” (1 Tm.3,15), pois “a luz resplandece nas trevas...” (João 1,5).



Diante da majestade do sol, o pequeno lume de uma vela mais parece um nada; porém, na escuridão da noite, mesmo aquela acanhada chama é resplandecente em sua beleza; parece seduzir todos os olhares com o bailar gracioso de seu singelo corpo nu incandescente, conduzido pelo vento, que “sopra onde quer” (João 3,8).Quem é Santo Tomás de Aquino ante a glória da Santíssima Virgem Maria, mãe de Deus Imaculada? Entretanto mesmo aquele, em meio aos mais pérfidos pecadores iníquos, é qual fogueira que assombra o mundo; com efeito, “Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade.” (1 Cor. 15,41) 

Assim, até mesmo a noite torna-se para Deus qual dia luminoso, e a maldade de uns, campo aberto para a manifestação da glória divina. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”, diz-nos o grande São Paulo de Tarso. Realmente, a desgraça do ímpio, contribui para manifestar a justiça do Pai Celestial (Pr.16,4). Deste modo, o fogo do inferno, de forma alguma perturbará os eleitos, mas ao contrário, os aquecerá, e será causa de júbilo, por serem suas chamas semelhantes a arautos da inefável justiça do Altíssimo.

"O Juízo Final" na Capela Arena (Cappella degli Scrovegni), em Pádua
Vede irmãos, como é evidente, e coerente com a palavra de Deus, a coexistência do Santo e do pecador inveterado, na única e verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. É por esquecermos das palavras do Redentor, que não entendemos, dentro do possível, esta
realidade misteriosa; porém “quando a sabedoria penetrar em nossos corações, e o saber deleitar nossa alma, a reflexão velará sobre nós, e a razão vai nos amparar...” (Pr 2,10-11) 
Alegremo-nos! No final, “ O vencedor herdará tudo...” (AP 21, 7). Que imagem estupenda: O guerreiro em seu cavalo branco! É assim que o último escrito de São João nos apresenta o Verbo de Deus, o Cristo; “Tem olhos flamejantes. Há em sua cabeça muitos diademas (...). Está vestido com um manto tinto de sangue (...) Seguiam-no em cavalos brancos, os exércitos celestes vestidos de linho fino e de uma brancura imaculada. De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir (...) Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis, Senhor dos senhores.” (cf. Ap 19,11-21) Decididamente, irmãos, o Cristo que nos é mostrado pelo Apocalipse, é austero e viril, corajoso e voraz, aquele que vai” pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus dominador.” (Ap 19,15) 

Observai queridos, que não é por acaso que a Única Igreja de Cristo, enquanto caminha neste mundo rumo aos Céus é chamada de "Militante”,devendo “combater pela Fé, confiada de uma vez por todas aos Santos.” (Judas 1,3) .Verdadeiramente vivemos num contexto belicoso e revolto, pois o demônio desceu contra nós cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta. (Ap 12,12), além do que as próprias paixões combatem em nossos membros (Tiago 4,1), e “... há outra lei que luta contra a lei do espírito...” (Rom. 7,23). Bem disse o glorioso Apóstolo São Paulo: “Não é contra homens de carne e sangue que devemos lutar, mas contra (...) forças espirituais do mal (...) tomai (...) a espada do espírito, isto é a Palavra de Deus.” (cf. Ef 6,12-17) Em outra parte também nos dissera: "Todos os que querem viver piedosamente em Jesus Cristo, sofrerão perseguição” (IITim,3,12).

Portanto, não deveria ser estranho para nós, a existência de conflitos e combates dentro da Igreja Católica, uma vez que, inclusive, “... certos homens ímpios se introduziram furtivamente entre nós (...) eles transformam em dissolução a Graça de Deus e negam a Jesus Cristo...” (Judas 1,4). Finalmente, lembremo-nos o que disse Nosso divino Mestre: “Não vim trazer paz à terra mas sim separação”, e mais acima no mesmo texto,” Eu vim trazer fogo à terra e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?” (Lucas 12,49-53); ainda noutra parte também dissera: “Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão (...) e os Inimigos do homem serão os de sua própria casa.” (cf. Mt 10,34-39).

Sim! Estamos numa guerra! Não sejamos como aquele louco, que cego e surdo, saiu em meio a um tiroteio virulento para passear... Já imaginais o que lhe aconteceu!!! Realmente, “sem a Ciência, nem mesmo o zelo é bom: quem precipita seus passos, desvia-se” (Pr19, 2). Se é verdade inexorável a vitória final da Santa Igreja Católica, como se conclui das irrevogáveis palavras de Cristo em Mateus 13,41-43, também é verdade o que está escrito no livro das revelações a respeito da Fera: “Foi-lhe dado fazer guerra aos Santos, e vencê-los” (Ap 13,7). Irmãos, a guerra já está ganha pela Fé!!! Mas as batalhas ainda não... Cair em campo ou não, depende de nossa correspondência à graça de Deus, e confiança no auxílio da Virgem Maria “... terrível como um exército...” Porém, sejamos sábios, pois uma aparente derrota pode ser, na verdade, uma astuta estratégia do Altíssimo! Não foi o que ocorreu com a gloriosa Mártir de França, Santa Joana D’arc, morta na fogueira, por culpa de seus inimigos? Bem dizia Tertuliano em sua obra “Apologético”: “Sangue de Mártires, semente de novos Cristãos.” 

 “Ele esteve comigo na hora do combate,
é natural que esteja também no momento da glória”
Santa Joana D'arc
A guerra já começou! Uns lutam, porém desistem ou são vencidos; outros, infelizmente, passam para o lado inimigo, quiçá seduzidos pela falácia dos pecadores; ainda há os que, por incrível que seja, preferem acreditar que nada está acontecendo, ou até resistem, mas preferem não atacar em legítima defesa. No entanto, graças a Deus, e confiantes na proteção indubitável de Nossa Senhora, há aqueles que lutam até a morte contra o inimigo do Senhor, combatendo o bom combate (I Tim. 6,11-12), revestidos da armadura de Deus (Ef. 6,10). Oh, Pai! Pela dolorosa paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela intercessão da Virgem Maria, Rainha do Céu e da terra, e de todos os Anjos e Santos, eu te suplico, prostrado a seus pés, que sejamos do número destes, que julgam uma honra darem a vida por vossa causa. Isso a exemplo dos grandes Mártires do início do cristianismo, e de todos os tempos, que diante do veredicto mortal dos seus algozes respondiam jubilosos: Deo gratias!!! Gostaria de continuar a desenvolver o assunto, no entanto para não parecer prolixo, termino por aqui. Este é um Mistério que cabe a nós, soldados de Cristo! O mistério da Iniqüidade. Alegrar-me-ei, no entanto, se tivermos compreendido um pouco mais, sobre a misteriosa vontade do Pai celestial de permitir a coexistência dos Santos, junto aos pecadores inveterados, até a consumação dos tempos. 


1João Paulo II, Cart.Enc.Redemptoris missio, n.18.
“O Reino é de tal modo inseparável de Cristo que, em certo sentido, identifica-se com Ele.” diz-nos a Tradição (Orígenes, Tertuliano...). Ora, Cristo é a cabeça da Igreja, que é seu corpo místico; logo, o Reino e a Igreja confundem-se também, num misterioso amplexo, onde um interpenetra o outro, fundindo-se em suas “substâncias”.



MARIA SEMPRE!