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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (II)

Bernardo replicou modestamente, mas com dignidade e energia


Segue abaixo a segunda parte do trecho do trabalho  «Em louvor da Nova Milícia», dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.

«Os templários compreendiam quatro classes de pessoas: os cavaleiros, que formavam a cavalaria pesada; os sargentos ou cavalaria ligeira; os lavradores, a cujo cargo se achavam as temporalidades e, os capelães que atendiam as necessidade espirituais dos seus irmãos. Constituía seu singular privilégio encontrarem-se directamente sujeitos à Santa Sé e totalmente independentes de qualquer outra autoridade eclesiástica ou civil. Semelhante favor e os bens que rapidamente se acumularam nas suas mãos, juntamente com as glórias adquiridas nos campos de batalha, provocaram considerável oposição. Não obstante, a Ordem continuou a desfrutar de exemplar prosperidade até ao começo do século catorze. Neste período, governava a França Filipe, o Belo. A cupidez era o seu pecado proeminente, e dirigiu um olhar voraz para a extensa propriedade que os templários haviam conquistado com a espada ou adquirido por doação. Necessitava de apoderar-se daquelas riquezas por meios pacíficos ou à força. Alguns membros degradados foram induzidos a acusar os seus irmãos de ofensas contra a fé e moralidade, e, apoiado nesta acusação, o monarca ordenou, no mesmo dia, 13 de Outubro de 1307, a prisão de todos os cavaleiros brancos no seu reino. Não existindo provas consistentes contra eles, foram torturados para forçá-los a confessar. Alguns pereceram sob o tormento e muitos outros proclamaram-se culpados como única forma de obterem lenitivo; mais tarde retrataram as suas confissões, o que lhes valeu serem queimados vivos, em número de cinquenta e quatro, a 12 de Maio de 1310. Tudo isto, não somente sem autorização do papa Clemente V, mas apesar da sua vigorosa oposição. Por fim, o Pontífice suspendeu os poderes dos inquisidores de Filipe e abriu um inquérito que se estendeu a todos os países cristãos. Em Portugal, Espanha, Alemanha, Itália e Chipre o carácter dos cavaleiros templários foi reabilitado triunfalmente. A parte o que se pudesse dizer aqui e ali de indivíduos isolados, a Ordem foi reconhecida inocente das acusações anteriores. Foi este o veredicto do concílio geral de Viena, em 16 de Outubro de 1311, no qual a maioria dos padres votaram pela manutenção da Ordem. No entanto, Clemente, considerando que, com tanta oposição e suspeita contra ela, a Ordem dos cavaleiros brancos, apesar de inocente, não poderia continuar a ser útil à Igreja, decretou a sua 'dissolução', não como castigo, mas como medida de prudência. 

O concílio de Troyes não foi o único nesta época ilustrado pela sabedoria de Bernardo. Assistiu também, bastante contra a sua vontade, aos de Arras, Châlons, Cambrai e Laon. As fortes medidas adoptadas por estas assembleias indicam claramente a sua influência. O concílio de Arras, efectuado em Maio de 1128, ordenou a dispersão de uma comunidade religiosa que se tornara incorrigivelmente descuidada; em Châlons, () bispo de Verdun, acusado de Simonia e má administração, foi forçado a abandonar a sua sé; em Cambrai, o abade Fulbert de_ Santo Sepulcro teve de demitir-se. O povo atribuiu estas severas determinações ao abade de Claraval como se fosse ele o único responsável. Claro que o facto excitou bastante a amargura e ressentimento daqueles que haviam sido punidos pelo
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
concílio. Foi denunciado a Roma como entremetido oficioso, homem de ideias ambiciosas, amigo de aparecer em público. Como o papa Honório se encontrava então no seu leito de morte (faleceu a 14 de Fevereiro de 1130), o Cardeal Haimeric, chanceler da Santa Sé, enviou-lhe em nome do Sagrado Colégio uma áspera censura. A carta do cardeal não chegou até nós; todavia, podemos formar uma ideia do seu conteúdo pela resposta de Bernardo. Afigura-se-nos que a comparação do abade santo com uma rã impudente (que salta do seu lodaçal para perturbar a paz do mundo com o seu rouco coaxar) não pertence, na realidade, a Haimeric, mas ao próprio Bernardo. O chanceler certamente nunca teria pensado em empregar linguagem tão violenta para se dirigir a quem tanto estimava. A prova de que estimava o abade de Claraval está bem patente nos termos utilizados para com ele numa carta a formular uma petição a favor dos monges beneditinos de São Benigno, Dijon, no ano de 1126. "Os meus amigos conhecem perfeitamente o muito que me amais, e principiarão a invejar-me a felicidade se eu tentar conservar somente para mim todo o benefício dela resultante (escreve o santo), Os monges de Dijon são-me muito queridos; agradar-me-ia lhes permitísseis ver que o amor não é vão, tanto o vosso por mim como o meu por eles, desde que, evidentemente, não brigue com os interesses da justiça, em cujo caso seria censurável pedir coisa alguma mesmo a um amigo". Fora igualmente ao chanceler que Bernardo dedicara a sua dissertação acerca do amor de Deus, de que mais adiante falaremos. Podemos, pois, inferir, pelo menos, que a carta de censura foi elaborada polidamente; a severidade do seu tom dificilmente pode ser negada, embora expressasse menos as ideias do próprio cardeal do que as dos seus irmãos. Bernardo replicou modestamente, é certo, mas com dignidade e energia __ pois não se tratava de uma defesa própria, mas de justificar os actos de concílios provincianos, alguns dos quais haviam sido presididos pelo Cardeal Legado Mateus. 

"O quê? (exclama). Até os pobres e desprotegidos deverão encontrar oposição para salvaguarda da verdade? Nem na própria miséria haverá refúgio da inveja? Deverei lamentar-me ou alegrar-me, visto eu próprio haver conseguido inimigos ao pronunciar a verdade? Deverei dizer: falo verdade ou procedo de acordo com a verdade? Isto por vós deverá ser decidido: quem contra a prescrição da lei amaldiçoara o surdo (Lav., 19, 14) e, apesar do conselho do profeta, chamará mal ao bem e bem ao mal (Is., 5, 20)".

A Ordem desfrutou de prosperidade
 até ao começo do século XIV.
A seguir expõe as faltas de que é acusado: a deposição do bispo de Verdun, a deposição do abade Fulbert e a supressão do convento de São João. Não considera que haja merecido censura por estes actos, e isto por dois motivos: em primeiro lugar, porque os actos em questão, longe de serem culpáveis, merecem antes louvor; em segundo, porque não eram de sua autoria. "Se são meus, mereci elogios; se não o são, não mereci censuras... A recriminação imerecida preocupa-me pouco, e os louvores que não me são devidos, recuso-me a aceita-los. Não produz em mim a menor diferença a forma como julgais essas medidas das quais não Sou o autor. Por uma delas (a deposição do bispo), o povo poderá louvar, se desejar, ou censurar, se se atrever, o cardeal legado; por outra (o afastamento de Fulbert), o bispo de Reims; e pela terceira (a supressão do convento), o arcebispo de Seus juntamente com o bispo de Laon e o rei, além de outras numerosas pessoas veneráveis, que não repudiarão a responsabilidade do que foi feito... A única acusação contra mim será haver estado presente, em vez de permanecer na obscuridade do meu lar onde eu podia ser juiz, acusador e árbitro apenas para mim próprio? Não nego haver presenciado esses concílios, mas compareci sob compulsão e não de livre vontade. Se o facto desagradou aos meus amigos, foi igualmente desagradável para mim. Deus não tivesse permitido que eu seguisse para lá! Deus não permita que eu volte lá novamente! Detesto intervir em assuntos que não me dizem directamente respeito. Mas, não obstante isto, sou arrastado para eles. Meu querido senhor cardeal, não existe outra pessoa da qual eu possa razoavelmente esperar libertação desta tirania além de vós. Tendes o poder, como eu sempre soube, e a boa vontade, como ultimamente descobri. Regozija_me saber que estais desgostado com a minha intervenção em assuntos que não pertencem a monges. Mostrais aqui a vossa prudência e, igualmente, amizade por mim. Providenciai, pois, para que tanto a vossa vontade como a minha fiquem satisfeitas. Proibi que, de futuro, estas ruidosas e incomodativas rãs saiam dos seus lodaçais. Que o seu coaxar jamais torne a ser escutado nas salas de concílios ou nos palácios de reis. Que nenhuma necessidade ou autoridade tenha poder para determinar a sua interferência em contendas ou assuntos públicos de qualquer natureza. Talvez assim o vosso amigo escape à acusação de presumido. No entanto, ignoro como me posso haver exposto a ela, pois sempre constituiu minha determinação nunca abandonar o convento, excepto por assuntos da Ordem ou por solicitação de um legado da Santa se ou do meu diocesano, a nenhum dos quais posso em consciência desobedecer, a não ser por privilégio de uma autoridade superior. Se vossa eminência se dignar obter para mim esse privilégio, então desfrutarei indubitavelmente, de paz e deixarei os outros tranquilos».


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Primeira parte aqui.



MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (I)


"Combinavam as funções do monge com as do guerreiro."


"O trabalho sob o título «Em louvor da Nova Milícia», é dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.


O capítulo de abertura expõe as vantagens desfrutadas pelos soldados da «nova milícia», que havia surgido na própria terra consagrada pela vida e sofrimentos do Redentor, com a missão de banir os filhos das trevas onde Ele outrora banira o seu soberano.

Aqueles cavaleiros de Cristo combinavam as funções do monge com as do guerreiro, eram igualmente peritos na utilização das armas materiais e espirituais, mantinham guerra permanente contra os inimigos visíveis e invisíveis, eram invulneráveis a todos excepto a si próprios, pois não receavam ferimento algum além do pecado, caminhavam para a batalha com a certeza infalível da vitória - vitória se vencessem o adversário, vitória mais gloriosa se tombassem na peleja.

São Bernardo pregando as cruzadas
«Providos de armas de toda a espécie, não receiam o homem nem o demônio. A própria morte, longe de ser temida, é o objectivo do seu desejo. Na verdade, o que poderá causar qualquer alarme àquele, quer na vida quer na morte, para quem 'viver é Cristo e morrer lucro' (FiL, 1, 21)? Fiel e gostosamente viverá por Cristo; no entanto, preferiria 'ser dissolvido e estar com Cristo, coisa bastante melhor' (ibid., 23). Avante, pois, soldados de Cristo, e com corações intrépidos, ponde em fuga os inimigos da sua cruz, confiantes em que 'nem a morte nem a vida vos poderão separar da caridade de Deus que existe em Jesus Cristo' (Rom., 8, 39). Em todos os perigos repeti para convosco as palavras de São Paulo: ‘Tanto se vivermos como se morrermos somos do Senhor' (Rom., 14, 8). Oh, como será glorioso o vosso regresso se vencerdes na luta! Quão abençoado o vosso martírio, se tombardes no campo de batalha! Alegre-te, intrépido guerreiro, se víveres e conquistares no Senhor. Porém, bastante maior motivo terás para alegrar-te, se uma morte de mártir te unir ao teu Senhor. A tua vida será, sem dúvida, fecunda em bem e plena de glória, mas a morte santa é algo muito mais precioso. Porque, apesar de serem abençoados aqueles que morrem com o Senhor (Apoc, 14, 13), quão grande não será a santidade dos que morrem por Deus? Indubitavelmente, 'é preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos' (Sal. 115, 15), independentemente do lugar onde ocorra, tanto no leito como em combate; mas, morrer em combate é a forma mais preciosa de morte, por mais gloriosa. Oh vida segura do soldado cristão onde a consciência nada tem a recear! Oh vida segura do campeão da cruz para quem a morte não contém horrores, mas é antes desejada por ele com ardor e bem-vinda alegria! Oh milícia de Cristo, verdadeiramente leal e santa, livre do duplo perigo a que estão expostos os beligerantes quando Deus não é a causa da sua luta! Aquele que combate por algum interesse temporal possui frequentemente motivo para temer que, ao matar o corpo do seu inimigo, imole a sua própria alma, ou que sejam destruídos o seu corpo e alma; visto que, no entender de um cristão, a derrota e o triunfo dependem não dos acidentes da guerra, mas do sentir do coração. Se a guerra for justa, o resultado não pode ser mau, tal como nunca será bom se ela for injusta, quer na sua origem como na sua finalidade. Aquele que, numa peleja injusta, ao tentar matar, é morto, perece como um assassino; mas se sobreviver e abater o seu inimigo, vive como um assassino. Todavia, é terrível ser um assassino quer na vida ou na morte, na derrota ou na vitória. Desditosa considero essa vitória na qual, embora vencedor do adversário, se é vencido pelo demônio, e constitui presunção proclamar que se conquistou um homem».

"Cordeiros na paz e leões na guerra."
Nos três capítulos seguintes, o santo traça uma comparação entre os cavaleiros mundanos e «Quem afirmará que é ilegal para um cristão recorrer à espada, quando o precursor do Salvador não proibiu aos soldados o uso de armas, mas lhes recomendou simplesmente que se contentassem com o seu soldo? (Luc. 3, 14)» Aqui o santo opõe-se a Orígenes e Tertuliano que entenderam a guerra e a profissão das armas proibidas pelos cristãos. «Portanto, que se desembainhem ambas as espadas, a espiritual e a material, e sejam brandidas na face do inimigo 'até que se abatam todos os perigos que se ergueram contra a sabedoria de Deus' (1, Cor., 9, 4, 5), que é a fé cristã, 'para que nunca digam as nações: onde está agora o teu Deus' (Sal. 114, 2)?... Não que os pagãos devam ser imolados, se por qualquer outro meio puderem ser impedidos de perseguir e oprimir os fiéis. Mas é preferível que sejam destruídos, do que 'a vara dos pecadores caia sobre os justos' de forma 'a que os justos não estendam as suas mãos para a iniquidade' (Sal. 124, 3)». O autor prossegue, enumerando as virtudes dos templários: as suas vidas irrepreensíveis, a obediência, a simplicidade e pobreza, a sobriedade, a devoção pelo trabalho, o respeito e estima mútuos, a aversão por jogos e desportos, a discrição no falar e desprezo pelos murmúrios, a coragem indômita que nunca descansa para atacar o inimigo, a brandura e fúria marciais que os tornavam cordeiros na paz e leões na guerra.
os templários, em desfavor dos primeiros, evidentemente. O cavaleiro mundano possui maior interesse pela exibição do que pela utilidade do seu equipamento; assemelha-se mais a uma dama garrida do que a um militar ansiando pela guerra. Aliás, as pelejas nas quais estes cavaleiros seculares costumam participar têm por origem vinganças, vanglórias ou conquistas de territórios; porém, morrer ou ser morto em semelhantes refregas é igualmente perigoso para as almas. Ao contrário, os soldados de Cristo sentem-se tão seguros se se mantêm de pé como se tombam nas lutas pelo seu Salvador, pois não representa pecado mas antes
mérito e glória provocar ou sofrer a morte por Cristo.

Seguem-se nove capítulos, versando cada um os objetivos ou lugares mais sagrados na Palestina: o templo, Belém, Nazaré, o Monte Olivete e o vale de Josafá, o Jordão, o Calvário, o Santo Sepulcro, Bethfage e Betânia. São, na verdade, nove belas meditações, repletas dos pensamentos que deviam ocupar os espíritos dos templários ao contemplares os diferentes cenários consagrados pelo labor e sofrimentos do Redentor.

Estas palavras do eminente abade retumbaram através da cristandade, atraindo súbita fama a Hugo de Payens e seus companheiros. Bravo Hugo! A vossa longa e dolorosa provação acha-se no seu termo. A ameaça da extinção está removida da vossa instituição.

Doravante a vossa dificuldade consistirá em conseguir albergar todos os voluntários ansiosos provenientes dos mais afastados recantos da terra cristã. Os vossos cavaleiros brancos tornar-se-ão (...) terror dos sarracenos e o seu estandarte será o mais venerado da Europa. Durante dois séculos sustentarão o choque das Guerras Santas, repelindo com coragem desesperada e com risco de 20.000 dos seus, a onda crescente do islamismo que ameaçou, ano após ano, romper os seus laços e varrer irresistivelmente a Europa. E então, ser-lhes-á concedida a dura recompensa da prisão quando o seu principal crime for a posse de riquezas e o principal acusador um monarca cobiçoso."


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Continua aqui.

MARIA SEMPRE!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SOBRE A VISÃO ROMÂNTICA - PARTE II

 Leia a primeira parte aqui

Romantismo é a tendência a acentuar
a primazia do sentimento sobre o pensamento
Prof. Pedro Maria da Cruz

A partir de então, o homem passou a ser encarado em sua vida total. Mais que o entendimento e a vontade se impuseram o sentimento e a fantasia. Com isso, o Romantismo instalou sua pátria, predominantemente, na região artística, de maneira especial na região da poesia. Daí ter se encaminhado para uma direção irracional, em busca de um ‘viver-com-tudo’ que, ao mesmo tempo, aparece também como intuição intelectual que repele todo conceito definitivamente perfilado e acompanha a vida em seu devir que segue para o Infinito e desfaz, reiteradamente, toda forma. Excluindo e incluindo o irracional e o racional, isto é, espontaneidade, a novidade imprevisível e a força coordenadora e unificadora que tende a fazer de um caos um cosmos, o Romantismo deixa de ser um fato principalmente literário – e filosófico só por acessão – para se transformar num fato principalmente filosófico, onde não só a Literatura, mas também a Ciência, a Religião, a História se encontram conjugadas por um mesmo esforço para conquistar uma visão total da vida.”

“(...) As imagens fazem bem à alma, já se havia dito nos primórdios do Romantismo; a poesia é a realidade absoluta, se acrescentará depois. Ao irromper em seu mistério, os poetas buscavam a total harmonia com a natureza, impulsionados com intensidade pelas representações do inconsciente. Para isso aniquilaram as aparências temporais, apreenderam a existência imediata como uma vida para âmbitos noturnos e oníricos, aplicaram novos significados à revelação das sensações, e assim a poesia se converteu numa forma de conhecimento ‘mágico’ que relacionava estreitamente o circundante com a vida obscura do poeta. (...) A concepção ‘analógica’ entre universo e alma se fez a tal grau consciente que, em geral, precedia à aventura lírica. E isto ensejou uma impetuosa corrente universal que confiava sua inspiração ao sonho e à noite e que ajudou a criar o conceito moderno de arte. Nesse sentido, a poesia passou a ser a interpretação dos fenômenos e dos mistérios do universo, por que é uma série de gestos mágicos realizados pelo poeta que não conhece claramente sua significação, mas que acredita firmemente que esses ritos são os elementos de uma magia soberana. E precisamente nessa humanização do divino, nesse pressentimento do Infinito nas intuições – como queria Uhland – está a essência do romântico. 

Wonder - Zena contemplando a lua.
Pintura Moderna de Alex Grey
Era o Romantismo a vitória do indivíduo sobre a disciplina moral e intelectual do Classicismo, que transformara a cultura humana, desde o século XVI, num jogo de princípios invariáveis e regras inflexíveis dentro dos quais o espírito se movia com dificuldade, e quase sem autonomia. Uma vitória, porém, imersa num halo mórbido, pois as linhas nítidas do Classicismo são substituídas pelos entretons românticos; uma indecisa religiosidade, a atração pelos aspectos indolentes da natureza, pelos crepúsculos silenciosos e pelas ruínas verdejantes, e tranquilas, uma vaga piedade por todas as matérias da terra e, ao mesmo tempo, um descontentamento permanente de tudo quanto existe, assim como uma constante exaltação pelo desconhecido e pelos grandes sacrifícios e heroísmos. Dos nevoentos fiordes nórdicos emerge a enigmática máscara de Odin: é o mal do século... 

E o Brasil foi colhido em cheio pelo Romantismo, fazendo do garoento planalto paulista seu reduto (...).” 


Fonte: VITA, Luís Washington. Panorama da Filosofia no Brasil. COLEÇÃO CATAVENTO: Série Universitária. Porto Alegre: Editora Globo, 1969; págs. 48-60

MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

SOBRE A VISÃO ROMÂNTICA - PARTE I


"O Romantismo não se define: sente-se"

Prof. Pedro Maria da Cruz


Livro aqui indicado
Luís Washington Vita (1921-1968) é conhecido no meio acadêmico como historiador culturalista da Filosofia no Brasil. Seu livro “Panorama da Filosofia no Brasil” (do qual apresentamos alguns parágrafos abaixo referentes ao Romantismo), apresenta em várias partes uma crítica superficial e infundada à posição filosófica da Igreja Católica, assim como, ao papel que exerceu a Idade Média na história mundial. De facto, nesse livro específico, o autor parece reduzir o todo medieval ao período de decadência da escolástica, a qual, excluída em muito de sua rota por vários autores, acabou propiciando o surgimento de erros modernos.

Para Luís W. Vita, o termo Renascença é apropriado “(...) para sugerir a sensação que o homem de Quinhentos teve de renascer com alentos e modos de vida espiritual que, de certo modo, se haviam interrompido ou atrofiado durante séculos.” (p.10) Ainda segundo o mesmo autor, de modo um tanto reducionista, a Contra- Reforma católica teria levado Portugal a um “obscurantismo propositado” (p.12), ou, usando outra frase do livro, o Concilio de Trento “(...) se limitara a tão-somente a reforçar a cinta de ferro com que a Igreja, em nome da religião, comprimiu o cérebro da catolicidade.” (p.12) Reconhece, devemos dizê-lo, o papel da Igreja na formação intelectual do Brasil, porém, todo o tempo, demonstra clara aversão à visão católica (chamada “tirania do Homo credulus”, p.11) o que está alinhado, cremos, às suas estranhas referências à maçonaria. 

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“O movimento de cultura, e por isso mesmo também filosófico, que nasce como uma reação ao iluminismo, é o Romantismo. No Brasil foi a primeira afirmativa de nossos valores mais caros, atuando como centros irradiadores as duas faculdades de Direito existentes na primeira metade do século XIX: a de São Paulo e a do Recife. Ao lado desses dois institutos de estudos superiores também atuam as lojas maçônicas.”

Símbolo da maçonaria. Condenada pela Igreja
“(...) É o momento em que viceja a maçonaria, não apenas multiplicando lojas propriamente ditas, a partir de 1800, como inspirando a formação de grupos interessados na difusão do saber e no culto da liberdade. 

‘Nesse tempo – informa Antônio Cândido – tais associações desempenharam não apenas funções hoje atribuídas aos agrupamentos partidários, mas algumas das que se atribuem ao jornalismo, às sociedades profissionais, à universidade: congregaram e poliram aos patriotas, serviram de público às produções intelectuais, contribuíram para laicizar as atividades do espírito, formularam os problemas do país, tentando analisá-los à luz das referências teóricas da Ilustração. Foi um toque de reunir para os homens interessados na cultura e na política, corroborando o ponto de vista de Hipólito da Costa num dos seus melhores ensaios, onde analisa a necessidade e função das ‘sociedades particulares’: elas correspondem a uma necessidade de organização social – pois a marcha da civilização está ligada à diferenciação da sociedade – e condicionam o próprio funcionamento do Estado, ao se interporem entre ele e os indivíduos cujas atividades definem e coordenam. ’

E tudo fluía – acadêmicos e maçons – numa atmosfera romântica.

Schelling (1775–1854)
Problema prévio apaixonante, e por isso mesmo controvertido, é o da definição do Romantismo. Já na sua origem, em 1801, afirmava Sébastien Mercier que ‘o romantismo não se define: sente-se’. Para alguns o Romantismo é uma constante espiritual do homem, contraposta ao Classicismo: é a tendência a acentuar a primazia do sentimento sobre o pensamento, da intuição sobre o conceito, do dinâmico sobre o estático, do orgânico sobre o mecânico, do alusivo sobre o presente, do expressivo sobre o plástico. Assim, romântico seria o dionisíaco enquanto que o clássico seria o apolíneo, e acompanha a humanidade desde sua gênese. A esta concepção se opõe a teoria historicista, que afirma ser o Romantismo uma forma de vida humana e, por isso, constitui uma etapa da História, isto é, um dos modos de ser do homem num dado instante de sua evolução. (...) admite Roger Picard, ainda que com algumas restrições, que o Romantismo ‘foi uma época histórica’, daí explicar-se sua integração com o movimento das ideias, das reivindicações e das lutas sociais. Quer isto dizer que mais que um momento da Filosofia ou da Arte, foi o Romantismo um momento da cultura europeia, que vai precisamente dos fins do século XVIII até a metade do século XIX, e que explica seus motivos mais característicos na sua reação ao Iluminismo, que o precede. Ao império da razão e das regras opõe a exaltação da genialidade e espontaneidade do espírito nos seus aspectos a-racionais, intuitivos, sentimentais, fideístas. E à Filosofia coube interpretar esse momento espiritual nos grandes sistemas de Fichte, Schelling e Hegel, nos quais é feita a tentativa grandiosa de mostrar a fecundidade de um princípio espiritual (respectivamente, Eu, Absoluto e Ideia), no qual se integra numa unidade todo o sistema do universo. Identificando os contrários, fundindo todos os aspectos da realidade e da cultura num princípio único, e defendendo a tese da igualdade essencial da Filosofia, da Ciência, da Arte e da Religião, encontrou o Romantismo seu filósofo máximo em Schelling, que lhe imprimiu o tom peculiar de sua forma mentis.


Continua aqui.


Fonte: VITA, Luís Washington. Panorama da Filosofia no Brasil. COLEÇÃO CATAVENTO: Série Universitária. Porto Alegre: Editora Globo, 1969; págs. 48-60


MARIA SEMPRE!

domingo, 15 de novembro de 2015

MANIQUEÍSMO: A RELIGIÃO GNÓSTICA

No maniqueísmo, o mundo teria dois princípios contrários , um bom e outro mau

“Mani, depois de duas ‘revelações’, recebida aos 12 e aos 24 anos de idade, por meio do anjo (...) convenceu-se de que Deus o escolhera para anunciar ao mundo a verdade.”

“A salvação consistirá, pois, em tomar conhecimento (gnose) de nossa origem celeste e em libertar-nos dos laços da matéria.”

“(...) Deus tentará libertar a ‘alma divina’, isto é, libertar-se a si mesmo
do processo evolutivo da matéria.”


Por Editores do Blog

É comum a muitas religiões a ideia de “libertação” (Religiões de Libertação), que supõe encontrar-se o homem colocado em uma situação degradante ou ao menos constrangedora, e se propõe libertá-lo da mesma mediante certos meios éticos ou técnicos. Esse é o caso do Maniqueísmo, que chegara a seduzir ao próprio Agostinho de Hipona, antes de sua conversão ao catolicismo. Em se tratando de curiosidades: o Cristianismo é classificado habitualmente entre as Religiões de Salvação, segundo o Pe. Waldomiro O. Piazza, autor do texto que apresentamos abaixo.

A RELIGIÃO DE MANI

A mais característica das religiões de ‘libertação’ é o ‘maniqueísmo’, fundado por Mani (Manes, Maniqueus), personagem histórico, nascido no início do século terceiro de nossa era, em um vilarejo perto de Babilônia (215-275, em Ctesifonte). Como movimento religioso, tem raízes mais profundas, que se prendem ao dualismo irânico e ao orfísmo grego, com eventuais tinturas cristãs.

Mani, fundador do maniqueísmo
Mani, ao que tudo indica, fez parte do grupo dos mandei, chamados também ‘batizadores’, seita religiosa do Iraque e do Irã meridional, que foi conhecida no passado como ‘cristãos de João Batista’ (At.19,3), talvez porque davam especial importância às abluções rituais. O termo manda, designa os textos rituais da chamada ‘cabana do culto’, recinto fechado onde se encontrava um pequeno lago com água corrente para os fins rituais do batismo. Alguns textos eram reservados aos ‘sacerdotes’ batizadores: contêm interpretações místicas do universo e da divindade, por meio de dois princípios complementares, um chamado ‘Pai’ e outro a ‘Mãe’, o primeiro criador e ativo, o segundo recebedor e passivo. O ‘Pai’ é puro espírito, a ‘Mãe’ é matéria. A união mística dos dois elementos dá origem ao ‘homem cósmico’, também chamado ‘homem primordial’ (Urmensch), de cujos membros é feito o mundo material e cuja coroa é o mundo divino. Cada homem repete no microcosmo esta concepção macrocósmica do homem primordial. 

Mani, depois de duas ‘revelações’, recebida aos 12 e aos 24 anos de idade, por meio do anjo at-Taum (o companheiro), ou do Espirito Santo, conforme outra versão, convenceu-se de que Deus o escolhera para anunciar ao mundo a verdade. Descendente de um príncipe iraniano, cuja família se estabelecera na Mesopotâmia, começou a pregar na Índia, no atual Belecistan, e depois na corte do imperador Shapur, do Irã, onde foi bem acolhido, e daí irradiou a sua doutrina, mas não conseguiu torná-la oficial do império. Por morte de Shapur, assumiu o imperador Bahran que, instigado pelos ‘magos’, lançou Mani na prisão, onde ele morreu aos 60 anos de idade.

Mani anunciou que era o último sucessor de uma longa série de mensageiros divinos, a começar de Adão, passando por Zoroastro, Buda e Jesus. Considerou-se o ‘profeta sublime’, o ‘iluminado’ pelo Paráclito, prometido por Cristo, a fim de anunciar o fim do mundo.

Sua pregação tem três características:

- é universal: a igreja de Mani não se dirige só aos habitantes do Irã, como a de Zoroastro, nem só ao Oriente, como Buda, nem só ao Ocidente, como Jesus (Sic.), mas é uma verdade total que se dirige a todos os homens.

- é uma pregação missionária: que obriga todos os seus membros a operar a conversão do próximo...

- é uma ‘religião do livro’: Mani atribui a ruína das religiões passadas ao fato de não terem sido ‘escritas', e por isso empenhou-se em escrever ele mesmo a sua doutrina, deixando-nos sete livros ‘canônicos’...

- por fim, é uma religião sincretista: pois reúne elementos de outras religiões, como do budismo e do cristianismo, sem falar do dualismo persa.

Sua doutrina é fundamentalmente ‘gnóstica’, pelo fato de ensinar que a salvação consiste em uma progressiva ‘libertação’ do espírito humano da condição material, sem intervenção de uma ‘graça divina’...

Ensina que no início de tudo estão dois princípios contrários, um bom e outro mau, um todo luz e outro todo trevas, que lutam entre si.

Representação artística do dualismo presente no maniqueísmo
Em uma primeira fase, o ‘reino do bem’, tendo à frente o ‘Pai’ com seus ‘leões’ e as ‘cinco habitações’ lutam em uma região de essências abstratas contra o ‘reino do mal’, chefiado pelo ‘príncipe das trevas’ com seus ‘archontes’, ‘demônios’ e ‘cinco abismos’. 

Em uma segunda fase, Deus resolve combater pessoalmente contra o mal e faz entrar no campo da luta a sua ‘alma’, personificada no ‘homem primordial’. Mas este é vencido, atirado ao abismo e os seus cinco filhos, que constituem a sua armadura luminosa, são devorados pelos demônios. Desta forma, uma parte da substância luminosa, isto é, da ‘alma divina’, mistura-se com a obscuridade da matéria e lhe fica sujeita. Daqui em diante, Deus tentará libertar a ‘alma divina’, isto é, libertar-se a si mesmo do processo evolutivo da matéria. Para tanto, envia ao mundo um novo ser, o ‘amante da luz’, que emana do ‘grande arquiteto’, o qual, por sua vez, gera o ‘espírito vivente’. Com o seu auxilio, o ‘homem primordial’ dilacera as trevas que o cercam e sobe à ‘pátria celeste’. Com o auxilio do ‘espírito vivente’, põe-se a ordenar o mundo material, libertando as ‘partículas’ de luz, misturadas com as trevas. Mas a matéria, temendo ficar sem ‘vida’, concentra toda a ‘luz’ que lhe resta em dois seres novos, um masculino, ‘Adão’, e outro feminino, ‘Eva’. Por isso, a descendência de Adão e Eva leva em si mesma a contradição desta luta, entre a luz e as trevas.

Em uma terceira fase, depois de uma calamidade apocalíptica, segue-se o Juízo final. As ‘partículas de luz’, que ainda se possam salvar, subirão ao céu. O mundo será aniquilado e os demônios sepultados em um grande túmulo. A salvação consistirá, pois, em tomar conhecimento (gnose) de nossa origem celeste e em libertar-nos dos laços da matéria. Os que praticarem uma ascese rigorosa, principalmente uma castidade integral, conhecerão a paz do nirvana. Os outros terão de renascer, para, através de várias transmigrações, purificar-se completamente da matéria e de sua concupiscência. 

Daí a rigorosa ascese maniqueísta: não gerar, não fornicar, não possuir, não cultivar, não colher, não comer, não beber vinho... ascese que inspirou alguns movimentos sectários dentro do cristianismo, como os priscilianos, os cátaros, e influiu grandemente na ascese da Idade Média. Como só poucos podiam praticar uma ascese tão rigorosa, Mani previu que a grande massa dos aderentes podia salvar-se sustentando os ‘perfeitos’ com seus recursos financeiros. 

A religião de Mani alcançou notável sucesso e, apesar de perseguida pelos Sassânidas, que declararam o Masdeísmo religião oficial, constituiu sério problema para o cristianismo, pois lançou muita confusão sobre os seus dogmas. Depois do século IV começou a declinar e desapareceu como movimento religioso independente.

Fonte: PIAZZA, Waldomiro. Religiões da Humanidade. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1991; p.                    227-229. (O negrito é nosso)



MARIA SEMPRE!



sábado, 20 de junho de 2015

INTERESSANTE! HERÁLDICA CATÓLICA

Escudo heráldico pontifício
Basílica Lateranense - Roma

Postado por Paulo Oliveira e Prof. Pedro M. da Cruz
A heráldica é a ciência ou arte dos brasões de armas de famílias, indivíduos e grupos, de suas estruturas e significados. Parece indiscutível que o uso organizado e codificado de símbolos heráldicos apenas se verificou a partir do século XII, como resultado da evolução de símbolos e marcas de posse muito mais antigas. Seu uso já se verificava nos inícios da Idade Média como forma de identidade dos contendores em guerras e também em torneios medievais.[1] Desde o século XIII, regista-se o uso de brasões de armas por parte de mulheres, o que comprova que os mesmos eram já verdadeiros emblemas pessoais, e não uma simples transposição das armas de combate dos cavaleiros.

Cruz de Jerusalém

A cruz de Jerusalém foi o brasão de armas adotado por Godofredo de Bulhão para o Reino Latino de Jerusalém, que existiu por cerca de duzentos anos após a Primeira Cruzada. A cruz maior simboliza a Jesus Cristo, e as quatro cruzes gregas nos cantos os quatro Evangelhos, ou as quatro direções nas quais a Palavra de Cristo se espalhou a partir de Jerusalém. Outra significação seria das cinco cruzes como as cinco chagas de Cristo durante a Paixão.

Águia heráldica 

A águia, símbolo da latinidade e ave de primeira categoria na heráldica, representa a audácia, a firmeza, o vôo para alturas, a força, a grandeza. A águia heráldica apresenta grandes garras e cauda estilizada, posta de frente e com a cabeça voltada para a destra. São João foi cognominado de Águia de Patmos; Bossuet, Águia de Meaux. Símbolo do Sacro Império, a vemos no túmulo de Carlos Magno. O seu uso nos brasões vem desde o séc. XI. 

Flor-de-lis

A flor-de-lis simboliza características ligadas à famílias, pessoas e locais, além de ter sido ela o símbolo da monarquia francesa. Na heráldica, é símbolo de poder e soberania, assim como de pureza de corpo e alma, candura e felicidade. Seu desenho era colocado no manto de reis já na época pré-cruzada. No século XIV começou a ser usada também para representar a Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Serpente ou Biscione medieval
A serpente (ou biscione) é uma figura heráldica medieval adotada como brasão de armas da família Visconti, que deu à Igreja o Papa Beato Gregório X (1210-1276). É o símbolo da prudência, como se depreende das palavras do próprio Cristo (Mt X, 16), assim como da cura (Nm XXI, 9) e da vitalidade redentora do Divino Salvador (Jo III, 14), motivo pelo qual, provavelmente, satanás tenha tentado usurpar para si este símbolo escriturístico.

Leão rampante

O leão é uma das figuras mais empregadas na heráldica, sendo encontrado nos brasões de várias famílias e nas armas de diversos países. A presença do leão na heráldica representa a força, grandeza, coragem e nobreza, virtudes estas tão conformes ao ideal medieval; também caracteriza domínio e proteção, condições que deve ter um superior sobre os subordinados. A figura acima, mostra o chamado  "Leão rampante", sempre em pé e com suas garras e dentes à mostra

Cruz pátea

Cruz Pátea (do francês croix pattée, significando cruz patada), mais do que uma cruz específica, é uma categoria de cruzes caracterizadas por terem pontas mais amplas no seu perímetro do que no centro. Acima, na sua configuração mais conhecida, está representada com as bordas das pontas côncavas. Inicialmente, foi usada pela Ordem dos Cavaleiros Templários na cor vermelha (cruz de goles). É o símbolo do guerreiro cristão.



MARIA SEMPRE!



[1] “O uso de armaduras completas e, muito particularmente, dos elmos que cobriam completamente o rosto tornou necessário um sistema de identificação claro e facilmente visível de longe. Um cavaleiro medieval dentro da sua armadura era virtualmente impossível de distinguir, no calor de uma batalha ou desde a bancada de um torneio, de qualquer outro com uma armadura semelhante; os reis e chefes militares eram difíceis de identificar e seguir; durante um combate, amigos e inimigos confundiam-se. Estes fatores levaram, desde meados do século XII, ao uso de emblemas pessoais pintados nos escudos e elmos e, por vezes, nas roupas do cavaleiro ou na cobertura da montada. Nos torneios, os elmos eram, quase sempre, encimados por uma figura em relevo (frequentemente uma peça do escudo), o timbre, que mais facilitava a identificação dos contendores.” Disponível em: http://www.heraldicaeclesiastica.com.br/introducao/.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SÃO JOÃO PAULO II SOBRE FÉ E RAZÃO


São João Paulo II (1920-2005)

Postado por Editores do Blog

Convidamos nossos leitores a acompanhar abaixo uma interessante reflexão de São João Paulo II, a respeito do gradativo distanciamento ocorrido entre a fé e a razão desde a baixa Idade Média. Cremos que as palavras do papa muito ajudarão a compreender um pouco mais a triste decadência no pensamento hodierno. 


CARTA ENCÍCLICA
FIDES ET RATIO 
DO SUMO PONTÍFICE 
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA


CAPÍTULO IV - A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO (45-48)


"Quando surgiram as primeiras universidades, a teologia começou a relacionar-se mais diretamente com outras formas da pesquisa e do saber científico. Santo Alberto Magno e Santo Tomás, embora admitindo uma ligação orgânica entre a filosofia e a teologia, foram os primeiros a reconhecer à filosofia e às ciências a autonomia de que precisavam para se debruçar eficazmente sobre os respectivos campos de investigação. Todavia, a partir da
Fides et Ratio,
lançada em 1998
baixa Idade Média, essa distinção legítima entre os dois conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta separação. Devido ao espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores, radicalizaram-se as posições, chegando-se, de facto, a uma filosofia separada e absolutamente autónoma dos conteúdos da fé. Entre as várias consequências de tal separação, sobressai a difidência cada vez mais forte contra a própria razão.
Alguns começaram a professar uma desconfiança geral, céptica ou agnóstica, quer para reservar mais espaço à fé, quer para desacreditar qualquer possível referência racional à mesma (...) As radicalizações mais influentes são bem conhecidas e visíveis, sobretudo na história do Ocidente. Não é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu num progressivo afastamento da revelação cristã até chegar explicitamente à contraposição. No século passado, este movimento tocou o seu apogeu. Alguns representantes do idealismo procuraram de diversos modos, transformar a fé e os seus conteúdos, inclusive o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, em estruturas dialéticas racionalmente compreensíveis. Mas a esta concepção, opuseram-se diversas formas de humanismo ateu, elaboradas filosoficamente, que apontaram a fé como prejudicial e alienante para o desenvolvimento pleno do uso da razão. Não tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando base a projetos que desembocaram, no plano político e social, em sistemas totalitários traumáticos para a humanidade.

Idéias de Marx influenciaram
a "Teologia da Libertação"
No âmbito da investigação científica, foi-se impondo uma mentalidade positivista, que não apenas se afastou de toda a referência à visão cristã do mundo, mas sobretudo deixou cair qualquer alusão à visão metafísica e moral. Por causa disso, certos cientistas, privados de qualquer referimento ético, correm o risco de não manterem, ao centro do seu interesse, a pessoa e a globalidade da sua vida. Mais, alguns deles, cientes das potencialidades contidas no progresso tecnológico, parecem ceder à lógica do mercado e ainda à tentação dum poder demiúrgico sobre a natureza e o próprio ser humano. Como consequência da crise do racionalismo, apareceu o niilismo. Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo fascínio sobre os nossos contemporâneos. Os seus seguidores defendem a pesquisa como fim em si mesma, sem esperança nem possibilidade alguma de alcançar a meta da verdade. Na interpretação niilista, a existência é somente uma oportunidade para sensações e experiências onde o efémero detém o primado. O niilismo está na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não se deve assumir qualquer compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.

 Nietzsche, escreveu
sobre uma Morte de Deus
Por outro lado, é preciso não esquecer que, na cultura moderna, foi alterada a própria função da filosofia. De sabedoria e saber universal que era, foi-se progressivamente reduzindo a uma das muitas áreas do saber humano; mais, sob alguns dos seus aspectos, ficou reduzida a um papel completamente marginal. Entretanto, foram-se consolidando sempre mais outras formas de racionalidade, pondo assim em evidência o carácter marginal do saber filosófico. Em vez de apontarem para a contemplação da verdade e a busca do fim último e do sentido da vida, essas formas de racionalidade são orientadas, ou pelo menos orientáveis, como « razão instrumental » ao serviço de fins utilitaristas, de prazer ou de poder. (...) Na sequência destas transformações culturais, alguns filósofos, abandonando a busca da verdade por si mesma, assumiram como único objetivo a obtenção da certeza subjetiva ou da utilidade prática. Em consequência, deu-se o obscurecimento da verdadeira dignidade da razão, impossibilitada de conhecer a verdade e de procurar o absoluto.


Assim, o dado saliente desta última parte da história da filosofia é a constatação duma progressiva separação entre a fé e a razão filosófica. É verdade que, observando bem, mesmo na reflexão filosófica daqueles que contribuíram para ampliar a distância entre fé e razão, se manifestam às vezes gérmenes preciosos de pensamento que, se aprofundados e desenvolvidos com mente e coração reto, podem fazer descobrir o caminho da verdade. Estes gérmenes de pensamento podem-se encontrar, por exemplo, nas profundas análises
João Paulo II morreu em 2005 aclamado como santo.
sobre a percepção e a experiência, a imaginação e o inconsciente, sobre a personalidade e a intersubjetividade, a liberdade e os valores, o tempo e a história. Inclusive o tema da morte pode tornar-se, para todo o pensador, um severo apelo a procurar dentro de si mesmo o sentido autêntico da própria existência. Todavia isto não pode fazer esquecer a necessidade que a atual relação entre fé e razão tem de um cuidadoso esforço de discernimento, porque tanto a razão como a fé ficaram reciprocamente mais pobres e débeis. A razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição. Da mesma maneira, uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade do ser. (...) Ao desassombro (parresia) da fé deve corresponder a audácia da razão."




Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 14 de Setembro
 Festa da Exaltação da Santa Cruz - de 1998, vigésimo ano de Pontificado.


FONTE: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jpii_enc_14091998_fides-et-ratio_po.html

terça-feira, 1 de julho de 2014

MEUS PROFESSORES MENTIRAM...


S. Domingos  de Gusmão defendendo a fé católica
contra o catarismo.


Prof. Rafael Maria da Cruz

Prezados leitores, segue abaixo uma breve exposição referente à heresia cátara que tanto mal fez à Igreja e à sociedade civil. Chamamos a atenção dos senhores sobre o fato lastimável de vários professores mal formados ou maliciosos haverem nos privado das terríveis características desta seita gnóstica e apresentado a Igreja Católica como a "vilã da história", cruel e manchada de sangue inocente. 

Os parágrafos seguintes, cremos, bastarão para termos o mínimo de noção da periculosidade desta seita atacada primeiro pela sociedade civil e depois, a pedido desta, pela mão zelosa da Igreja. Os mais lúcidos saberão criticar com prudência os excessos daqueles que agiram em nome da Igreja mas que muitas vezes não se deixaram conduzir pela sabedoria milenar desta mesma instituição. Boa leitura.



†††


OS ALBIGENSES 

“Do antigo fermento do gnosticismo que tinha envenenado por tanto tempo os primeiros séculos da Igreja, havia germinado uma seita perigosa. Habilmente explorada por espíritos inquietos e ambiciosos aos quais irritavam a riqueza e o poder da Igreja, havia ela invadido pouco a pouco o norte da Itália, a Provença, o Delfinado e o Languedoc, e aí tomou o nome sob que é mais conhecida: o Albigeísmo, da cidade de Albi, capital de seus sectários. Era a heresia cátara, ramificada sob os nomes diversos de seitas irmãs: Publicanos, Búlgaros, Valdezes, Pobres de Lyon, Patarins e Albigenses. 

No Languedoc sob o céu enervante do sul, onde tudo falava de vida fácil e voluptuosa, ela fez em breve grandes progressos. Suas doutrinas eram um perigo para sociedade não só pelos princípios que enunciavam como pelas desordens e sedições que suscitavam. Proibiam todo contato com a matéria, emanada do princípio mal, e condenavam o casamento, fonte da sociedade, permitindo embora, a seus sectários, a prática das mais vergonhosas orgias. 

Negadores da base de toda ordem, atacavam tanto a autoridade do poder secular como a da Igreja. Os sectários que tinham recebido o consolamentum, espécie de batismo espiritual, para evitar recaírem no pecado, condenavam-se ao suicídio, deixando-se morrer de fome, tomando veneno ou vidro moído, ou abrindo as veias. E se um consolado recusava suicidar-se, era proibido à sua família nutri-lo; viu-se assim filhos deixarem morrer de fome seus pais e pais deixarem perecer de inanição seus filhos. 

Ao passo que para o cristão toda prova, toda tentação mesmo, é um meio de santificação, e a vida tem um preço infinito porque ela permite ganhar o céu – para o maniqueu ou albigense, a vida espiritual não pode existir nesta terra, porque alma é prisioneira num corpo que é obra de Satanás. O suicídio é a conseqüência lógica de tal sistema: já que o corpo é uma prisão, é preciso sair dela; já que a vida é um mal, é necessário destruí-la. 

Usando de todos os meios para espalhar seus erros, acharam amigos e partidários não só entre os leigos como até entre o clero, mas foram sobretudo os representantes da alta aristocracia feudal que se tornaram seus defensores. 

Batalha de Muret 1213, realizada contra as barbáries
 praticadas pelos Albigenses.
Muitos dos príncipes os mais poderosos, como os Condes Raimundo VI e VII de Tolosa, os Viscondes de Béziers, os Condes de Bearn, d’Armagnac, de Foix e de Comminges, os tomaram abertamente debaixo de sua proteção. Era raro mesmo encontrar entre eles um homem do povo, operário ou camponês. A seita recrutava-se entre a aristocracia e a burguesia. (...) Bem disse Bossuet: ‘A heresia cátara ameaçava a terra de uma conflagração geral’(...) Foi certamente pensando em todos esses excessos e nas doutrinas fanáticas que os haviam inspirado que num momento de sinceridade, um dos inimigos da inquisição, Lea, fez a seguinte interessante confissão: 'Por mais horror que nos possa inspirar os meios empregados para combatê-los, por mais compaixão que devamos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecemos sem hesitação que A CAUSA DA ORTODOXIA NÃO ERA SENÃO A MESMA QUE A DA CIVILIZAÇÃO E DO PROGRESSO. Se o catarismo houvesse dominado, ou mesmo emparelhado com, o catolicismo, não é duvidosos que a sua influência teria sido simplesmente desastrosa’. [i]

Compreende-se agora porque os príncipes do século XI e XII foram mais enérgicos do que os bispos e os papas na repressão da heresia e porque eles não cessaram de atiçar nesse ponto o zelo da hierarquia eclesiástica (...). ”


†††


FONTE: OTTONI, Pio Benedito. A Inquisição.7ª edição, Gráfica Jacyra: Niterói, 1964, p.18-24


MARIA SEMPRE! 


[i] Lea, Histoire da l’Inquisition I, p. 120. (Nb.: O itálico e o negrito são nossos.)