quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

COMPÊNDIO "VINDE A MIM TODOS" (versão digital)


Neste dia 29 de dezembro, nascimento para o Céu da Ir. Josefa Menéndez, este blog disponibiliza gratuitamente para seus leitores o download do arquivo do Compêndio "Vinde a Mim Todos"- Resumo da obra "Apelo ao Amor" de autoria da referida religiosa.
"Apelo ao Amor" é o livro das revelações do Coração de Jesus à Irmã Josefa Menéndez, religiosa da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus.Com aprovação eclesiástica de Pio XII, a obra é repleta de terníssimas mensagens do Coração de Cristo, convidando toda a humanidade a se entregar aos seus apelos de conversão e confiança na divina misericórdia.

A versão impressa ainda se encontra disponível, e caso queira adquirir basta entrar em contato conosco:
 catolicafidei@gmail.com.

MARIA SEMPRE!


domingo, 25 de dezembro de 2016

ENTRE JARDINS E GRUTAS SOMBRIAS


Por Prof. Pedro M. da Cruz

Um rei extraordinário em seu trono de marfim revestido de ouro fino,[i]cercado por milhares de cavaleiros, servido em taças do mais nobre metal! Um dominador supremo resguardado em seu palácio de cedro e cipreste maravilhosamente combinado com o mais límpido cristal! Banquetes, festas, cânticos ... Assim imaginavam - iludidos em sua ignorância e orgulho - muitos daqueles que aguardavam o “Rei dos Judeus”[ii]


Entretanto, quão impenetráveis são os juízos do Altíssimo e inexploráveis os Seus caminhos. Quem pode compreender os pensamentos de Deus?![iii] Indo à procura do Salvador, chamado, mesmo por anjos, “Senhor”[iv], o que encontraram os pastores? Maria, José e um menino deitado num cocho onde serviam comida aos animais[v]

Que Mistério desconcertante! Uma criança pobre, envolta em faixas numa gruta escura e suja, rodeada por animais, velada pelo olhar virginal da mãe - mas, que mãe!- e protegida pela virtude do pai – e, que pai! - tão justo e casto! “O mistério por seu próprio segredo desperta veneração.”[vi]

O filho eterno descera dos céus e deste não sentira saudades, pois sua Mãe, com sublimes encantos, compensava esplendores celestiais[vii]. Em Maria, aquela virgindade, pureza e graça sobrenaturais propagavam uma luz tão radiosa e imponderável, que somente Nosso Senhor era capaz de abarcá-la em sua totalidade. Ela era aos seus olhos, e numa medida só a Ele perceptível, seu amor, como também, seu jardim de delícias toda bela e graciosa[viii].

Temos ante os olhos duas realidades tão verdadeiras quanto paradoxais: uma exterior e natural, ao alcance de todo e qualquer observador; outra, por sua vez, interior e mística, da qual são capazes somente os que têm um coração dilatado pela graça. O olhar superficial pararia nas chamadas injustiças, mesquinharias, loucuras e fracassos de Belém. Todavia, aos olhares profundos e místicos, descortina-se imenso oceano de infinitas torrentes da sabedoria divina. Ali se encontram esplendor, grandeza e glória: realidades espirituais secretamente veladas. 

Este é um dos caminhos da Providência! Esconder pérolas preciosas em campos desvalorizados, a fim de que somente os puros e mais ousados possam encontrá-las: oculta em fatos, à primeira vista ordinários, verdadeiros tesouros jamais concebíveis em toda sua riqueza. 

De fato, é exatamente assim que se dá nas coisas de Deus: entrando, pelas brechas da vida, nos mais recônditos cantos da alma humana, acende ali um lume de verdade! Talvez para aquecer-se em um lugar mórbido e sombrio, ausente da graça... E vai, pouco a pouco, fixando aqui e acolá pequenas tochas de virtudes nos corredores escuros, secretamente interiores, inacessíveis aos outros mortais. Objetiva fazer com que o deserto de infelicidade ceda lugar a um vergel estupendo, povoado de maravilhas. 

O homem, mesmo em pecado, é sempre “desejo”. Perante a realidade mística que atua em sua alma, torna-se lhe impossível a total indiferença. Ainda que ao final da vida opte pelo absurdo de negar o Deus que o buscava em sua alma, jamais poderá negar esta realidade não poucas vezes lancinante. Neste misterioso processo de buscas e encontros entre Deus e o homem a novidade está sempre presente: sim, o Pai Celeste a todo tempo surpreende a alma humana. Isso para não ocorrer que “saciado o apetite, calce aos pés o favo de mel.”[ix]Desejando e saciando-se ininterruptamente o homem é sempre busca e gozo num Deus imenso. Aqueles que se deixam seduzir pelos encantos divinos, muitas vezes, sem o perceber, alcançam a graça de uma oração constante, como referida por São Paulo em uma de suas cartas.[x] Esta verdade não poderia passar despercebida ao Santo Bispo de Hipona (354-430) que em sua vida de mortificações e penitências escrevera “O teu próprio desejo é a tua Oração: e o contínuo desejo é uma constante oração.”[xi]

Voltemos, entretanto, ao foco inicial de nossa reflexão. Após havermos rapidamente percebido a confusão dos que encontraram a sagrada família em Belém, a sublime realidade escondida por detrás da pobreza que envolveu a vinda do Messias, e cogitado, mesmo que modestamente, sobre o mistério da ação Divina, detenhamo-nos num ponto de particular luminosidade, antes de encerrarmos nossa singela meditação.

Por que quis o rei dos reis nascer exatamente num estábulo, numa gruta? Por quê? “Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”.[xii] Nos abismos da sabedoria divina, quanto mais se lançam os homens mais profundos eles ficam. Poderia o Pai Celestial haver preparado ao Seu filho unigênito ao menos uma casa minúscula, humilde? Sim! Poderia; mas, não o fez. À gruta sombria, marcada pela feiura, caberia prefigurar mui acertadamente as almas as quais o menino Deus fora enviado. A gruta suja, fétida, desconfortável, em meio à noite, povoada de animais... eis uma imagem gritante da alma humana decaída após o Pecado Original. Ei-la prefigurada aí, agravada por tantas faltas cotidianas e povoada por vícios, traumas, angústias e tantos outros sofrimentos. Ali quis encontrar abrigo o Salvador, porque, de fato, são os doentes que necessitam do médico.[xiii]

A Virgem Maria distinguia-se entre os seres humanos qual lírio de pureza entre os espinhos.[xiv] Por isso, torna-se compreensível que o Verbo Encarnado viesse primeiramente a ela em seu seio castíssimo. Cumpria-se assim de algum modo a justiça. [xv] Enterrava, deste modo, o antigo ato adâmico que colhera o fruto da desobediência daquela que era o extremo oposto da Virgem Mãe de Deus. Pudemos vislumbrar assim algo do que intentara o Divino Redentor antes mesmo de vir às grutas fétidas e infrutíferas das almas restantes.

Eis aqui, caro leitor, um dos motivos sublimes de o Bem-amado haver decido antes de tudo ao dulcíssimo jardim de sua alma virginal e imaculada; aos canteiros perfumados de suas virtudes elevadíssimas. Com este ato singular, exaltava, primeiramente, a nova Eva, já que a antiga mulher havia tido a primazia entre os seres humanos, porém no tocante ao castigo reparador. Além do que - reconheçamos - o novo Adão desejava colher os frutos das fidelidades marianas...

Não exageramos neste texto o triste estado das criaturas que jazem no pecado. Santa Teresa D’ávila (1515-1582) escrevera no mesmo sentido: “Não há trevas mais densas, nem coisa mais escura e negra: a tudo excede a sua escuridão[xvi]. A Mãe de Deus era toda de seu filho e Ele todo dela! Naquela alma, qual jardim, Ele apascentava entre lírios... Enquanto isso, nas grutas brumosas de nossas almas pecadoras Ele deve lutar contra os animais indômitos de nossos vícios e más inclinações. Portanto, repitamos sem receios: a gruta de Belém é, nesta perspectiva, a prefiguração das almas pecadoras que, apesar de suas limitações, abrem-se gradativamente ao Verbo Encarnado que nos vem pelas mãos maternais de Maria Santíssima.

Há nestas moradas interiores, graças ocultas; graças que germinam quase que imperceptivelmente, mas que ali estão, serpenteando, predispondo seu hospedeiro ao lance súbito do amor divino. É bem verdade, o Senhor abusa de nossa ingenuidade, seduzindo-nos. Usa de força para conosco, dominando-nos. É realmente uma luta desigual...[xvii]

Ao reler o que escrevemos acima, parece-nos ouvir uma oração silenciosa da rainha celeste após seu “Fiat”. Perante ela, absorto em profunda veneração, encontra-se o anjo Gabriel, humildemente ajoelhado a reconhecer a grandeza daquela cujo excelso esplendor arrebata os próprios seres angelicais. Então, no silêncio de sua alma, a Virgem dá-nos a sublime impressão de exalar estas palavras: “Entre em Seu jardim meu bem amado; prove-lhe os frutos deliciosos.”[xviii]

Finalmente, peçamos a Nosso Senhor que nos seja possível, ao menos neste Natal, à imagem de sua Mãe, apresentarmo-nos quais jardins lacrados, com frutos e flores de virtudes; a fim de que possa dizer-se de nós ao menos sob algum aspecto o que fora escrito pelo Divino Espírito nas Sagradas Escrituras:

“És um Jardim fechado (...) uma fonte selada. (...) És a fonte de meu jardim, uma fonte de água viva, um riacho que corre do Líbano. Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do sul. Sopra no meu Jardim para que se espalhem os meus perfumes. (...) Entro no meu jardim (...) colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o meu favo com o meu mel, e bebo o meu vinho com o meu leite. (...) O meu bem amado desceu aos canteiros perfumados, para apascentar em meu jardim e colher os lírios. (...) Ó tu que habitas nos jardins, faze-me ouvir a tua voz.” [xix]

Cremos haver nos estendido por demais nesta reflexão. No entanto, ao depararmos com o tema do Natal é quase impossível não nos encantarmos com tantos e tantos pontos de reflexão que pululam ante nossos olhos. Fixemo-nos portanto num último ponto final, o
mais importante: o divino infante deitado em sua manjedoura: Oh, Senhor! Meu céu, meu tudo! Tens sono? Sim, bem sei que tens... Estás cansado. Dorme em paz, dorme enquanto velo com a Virgem teu sono. Descansa de tantos crimes, tantas ofensas, que povoam o mundo. Tu que foste tão agravado, humilhado, esquecido, desprezado. Ninguém faz caso de tuas palavras, das tantas chagas que te cobrem o corpo crucificado. É com dor que reconheço: sois um Rei abandonado... Dorme meu Senhor, dorme meu menino, dorme. Ao menos neste natal, dorme! Mãe - digo-o baixinho, quase sussurrando - enquanto acaricias a fronte perfumada de teu Filho: peça por nós. Temos medo Senhora. Enquanto Ele dorme o mar está revolto. Seguramos dum lado, ferimo-nos de outro, as ondas avançam impiedosas sobre nós. Ai meu Deus! Oh, meu amor! Os homens nos abandonaram também. E quantos caem...quantos! Sorrindo enquanto afogam... É gritando, entre soluços e lágrimas, que suplico: Salva-nos!!! Salva-nos enquanto dormes ...

“...Jesús dormía, como de costumbre.(...) Tal vez no se despierte hasta mi gran retiro de la eternidad; pero esto, en lugar de entristecerme, me causa un contento grándísimo...”[xx] (Santa Teresinha de Lisieux).


MARIA SEMPRE!


[i] 1Reis 10,18
[ii] Mateus 2,2
[iii] Romanos 11,33-34
[iv] Lucas 2,11
[v] Lucas 2,16
[vi] GRACIAM,Baltasar.A arte da prudência.Trad. Davina Moscoso de Araujo.Coleção Auto- Estima. Rio de Janeiro, Sextante, 2006,93p
[vii] Afirmação em sentido poético utilizada por Michel Quoist para mostrar a grandeza da Virgem Maria: QUOIST, M. Poemas para rezar. trad. Lucas Moreira Alvez.25 Edição. São Paulo , Livraria Duas Cidades, 1970 206 p.
[viii] Cântico dos cânticos 7,7
[ix] Provérbios 27,7
[x] 1Tessalonicenses 5,17. “ Orai sem cessar.”
[xi] João Paulo II. Carta Apostólica sobre Santo Agostinho de Hipona. Documentos pontifícios. N.210.Petrópolis, Vozes, 1986.pg.37
[xii] Sabedoria 9,16
[xiii] Mateus 9,12
[xiv] Cântico dos cânticos 2,2
[xv] Cântico dos cânticos 6,2
[xvi] DE JESUS, Santa Teresa. Castelo interior ou Moradas. Trad. Carmelitas descalças do convento Santa Teresa. 3 Edição. Edições Paulinas, Rio de Janeiro,1984,pg.26
[xvii] Jeremias 20,7
[xviii] Cântico dos Cânticos 4,16
[xix] Trechos do livro Cânticos dos cânticos retirados dos capítulos IV – VIII. Santo Ambrósio de Milão, falando sobre este livro Bíblico escrevera: “Queres aplicar isso a Cristo? Nada mais agradável . Queres aplicar à tua alma? Nada mais doce.” ( Coleção Patrística. Número 5. Ambrósio de Milão. Tradução: Célia Mariana Franchi Fernandes da Silva. São Paulo, Paulus, 1996;pg .62 )
[xx] LISIEUX, Teresa de. Historia de un alma, manuscritos autobiográficos. Trad. Setién de Jesús María O.C.D. Colección Teresita. Segunda edição. Editorial Monte Carmelo, Burgos, 1978;pg.217

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

COMO TRATAR COM OS SUPERIORES?

Paulo III recebe as Constituições (Santuário de Loyola, Espanha)
“Nunca diga ao Superior, tratando com ele: isto ou aquilo é ou será bom assim; mas diga no condicional, se é ou se será.”

“A experiência, com o tempo, descobre muitas coisas; 
e inclusive elas mudam com o tempo.”

Nessa carta Santo Inácio escreve aos Jesuítas sobre o modo de representar aos superiores quando os subordinados achavam ser maior glória de Deus algo diferente do ordenado pelos superiores: tudo em ordem à perfeição da obediência. Poderemos observar como em tudo Inácio de Loyola conduz à humildade, inclusive no modo de os subordinados falar aos Superiores. O santo fundador experimentava desgosto com aqueles que vinham a ele com ideias formadas, sem a devida indiferença. Santo Inácio os chamava de modo aborrecido: “Decretistas”.

MODO DE TRATAR OU NEGOCIAR COM QUALQUER SUPERIOR
(Roma, 29 de Maio de 1555)

- Quem for tratar com algum Superior leve as coisas bem mastigadas e estudadas pessoalmente ou consultadas com outros, segundo forem de maior ou menor importância. Contudo, nas coisas mínimas ou de muita urgência, se não tem tempo para olhar e conferir, deixa-se à sua boa discrição se deverá ou não representá-las ao Superior sem tê-las consultado ou pensado muito.

- Assim assimiladas e bem pensadas, apresente-as dizendo: estudei este ponto pessoalmente, ou com outros, segundo for o caso; e pensei ou consideramos se seria bom assim ou assim. Nunca diga ao Superior, tratando com ele: isto ou aquilo é ou será bom assim; mas diga no condicional, se é ou se será.

- Uma vez colocadas assim as coisas, caberá ao Superior decidir ou esperar algum tempo para pensá-las, ou remetê-las àquele ou àqueles que as estudaram, ou nomear a outros para que as estudem ou decidam, segundo a coisa for mais ou menos importante ou difícil.

- Se à decisão do Superior ou àquilo que ele disser, replicar algo que lhe parecer bem, uma vez que o superior tornar a dar a sua decisão, não replique mais nem dê outras razões por enquanto.

- Depois que o Superior determinou uma coisa, se aquele que trata com ele sentir ou pensar com algum fundamento que seria melhor outra coisa, embora suspenda o sentir por enquanto, depois de três ou quatro horas ou no dia seguinte pode representar ao Superior se seria bom isto ou aquilo, conservando sempre tal modo de falar e tais palavras que não haja nem pareça haver nenhuma dissenção ou desacordo e calando diante do que for determinado naquela hora.

- Contudo, embora a coisa tenha sido já decidida uma e outra vez, depois de um mês ou mais tempo pode representar de novo o que sentir e achar da ordem dada; porque a experiência, com o tempo, descobre muitas coisas; e inclusive elas mudam com o tempo.

- Além disso, quem trata deve adaptar-se às disposições e qualidades naturais do Superior, falando claro e com voz inteligível e nos momentos oportunos, na medida do possível...” (Suprimimos o restante desta instrução contida na carta de Santo Inácio, pois tratam de normas administrativas sobre correspondência)


FONTE: CARDOSO, Armando. Cartas de Santo Inácio de Loyola. Vol. II. São Paulo: Edições               Loyola, 1990; p.137-138


MARIA SEMPRE!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

CARTA DE S. INÁCIO: A CULPA É SUA!



“Se não muda o seu homem interior, nunca agirá bem
 e em qualquer lugar será o mesmo.” 

“Ou você será bom aí, em Ferrara, ou não será bom em nenhum Colégio.” 

“Ocupe-se em ver e chorar as suas imperfeições e não as dos outros.”

O estudante jesuíta Bartolomeu Romano, morador do Colégio de Ferrara, atribuía aos outros e ao lugar onde se encontrava seu desgosto nas práticas espirituais e nos estudos, e sem dúvida desejava mudar de casa. Santo Inácio nesta carta lhe faz ver como não depende do lugar nem dos companheiros seu desgosto. Enquanto não mude seu interior, seja onde for, se encontrará descontente. Por isso o exorta a mudar de proceder, a abrir-se ao Superior e a lutar contra suas imperfeições.


CARTA AO ESTUDANTE BARTOLOMEU ROMANO
(Roma, 26 de janeiro de 1555)

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“Caríssimo irmão Bartolomeu,
Pelas suas cartas e as dos outros, mas principalmente pelas suas, entendo o seu estado. E tanto mais me desagrada quanto mais desejo o seu bem espiritual e salvação eterna.

Está muito enganado se pensa que a causa de não conseguir aquietar-se nem dar fruto no caminho do Senhor está no lugar ou nos superiores ou nos irmãos. Isso vem de dentro de você e não de fora, isto é, da sua pouca humildade, pouca obediência, pouca oração e, enfim, pouca mortificação e pouco fervor para avançar no caminho da perfeição. Pode mudar de lugar, de superiores e de irmãos: mas se não muda o seu homem interior, nunca agirá bem e em qualquer lugar será o mesmo, até que chegue a ser humilde, obediente, devoto, mortificado no seu amor-próprio. De modo que procure esta mudança e não outra. Digo que procure mudar o homem interior e dominá-lo como servo de Deus, e não pense em nenhuma mudança externa, porque ou você será bom aí, em Ferrara, ou não será bom em nenhum Colégio. E tenho certeza disto, pois me consta em Ferrara poder ser mais ajudado que em qualquer outro lugar.
Dou-lhe um conselho: que se humilhe muito de coração ao seu Superior e lhe peça ajuda abrindo-lhe o seu coração em confissão ou como quiser e tome o remédio que lhe dará. Ocupe-se em ver e chorar as suas imperfeições e não as dos outros, procure em diante dar maior edificação e não encha, por favor, a paciência daqueles que o amam em Jesus Cristo nosso Senhor e gostariam de vê-lo bom e perfeito servo do mesmo. 

Cada mês escreva duas linhas para dizer como se encontra quanto à humildade, obediência, oração e desejo de sua perfeição; e também como vai nos estudos. Cristo nosso Senhor o guarde.”


FONTE: CARDOSO, Armando. Cartas de Santo Inácio de Loyola. Vol. II. São Paulo:                             Edições Loyola, 1990; p.135-136


MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (II)

Bernardo replicou modestamente, mas com dignidade e energia


Segue abaixo a segunda parte do trecho do trabalho  «Em louvor da Nova Milícia», dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.

«Os templários compreendiam quatro classes de pessoas: os cavaleiros, que formavam a cavalaria pesada; os sargentos ou cavalaria ligeira; os lavradores, a cujo cargo se achavam as temporalidades e, os capelães que atendiam as necessidade espirituais dos seus irmãos. Constituía seu singular privilégio encontrarem-se directamente sujeitos à Santa Sé e totalmente independentes de qualquer outra autoridade eclesiástica ou civil. Semelhante favor e os bens que rapidamente se acumularam nas suas mãos, juntamente com as glórias adquiridas nos campos de batalha, provocaram considerável oposição. Não obstante, a Ordem continuou a desfrutar de exemplar prosperidade até ao começo do século catorze. Neste período, governava a França Filipe, o Belo. A cupidez era o seu pecado proeminente, e dirigiu um olhar voraz para a extensa propriedade que os templários haviam conquistado com a espada ou adquirido por doação. Necessitava de apoderar-se daquelas riquezas por meios pacíficos ou à força. Alguns membros degradados foram induzidos a acusar os seus irmãos de ofensas contra a fé e moralidade, e, apoiado nesta acusação, o monarca ordenou, no mesmo dia, 13 de Outubro de 1307, a prisão de todos os cavaleiros brancos no seu reino. Não existindo provas consistentes contra eles, foram torturados para forçá-los a confessar. Alguns pereceram sob o tormento e muitos outros proclamaram-se culpados como única forma de obterem lenitivo; mais tarde retrataram as suas confissões, o que lhes valeu serem queimados vivos, em número de cinquenta e quatro, a 12 de Maio de 1310. Tudo isto, não somente sem autorização do papa Clemente V, mas apesar da sua vigorosa oposição. Por fim, o Pontífice suspendeu os poderes dos inquisidores de Filipe e abriu um inquérito que se estendeu a todos os países cristãos. Em Portugal, Espanha, Alemanha, Itália e Chipre o carácter dos cavaleiros templários foi reabilitado triunfalmente. A parte o que se pudesse dizer aqui e ali de indivíduos isolados, a Ordem foi reconhecida inocente das acusações anteriores. Foi este o veredicto do concílio geral de Viena, em 16 de Outubro de 1311, no qual a maioria dos padres votaram pela manutenção da Ordem. No entanto, Clemente, considerando que, com tanta oposição e suspeita contra ela, a Ordem dos cavaleiros brancos, apesar de inocente, não poderia continuar a ser útil à Igreja, decretou a sua 'dissolução', não como castigo, mas como medida de prudência. 

O concílio de Troyes não foi o único nesta época ilustrado pela sabedoria de Bernardo. Assistiu também, bastante contra a sua vontade, aos de Arras, Châlons, Cambrai e Laon. As fortes medidas adoptadas por estas assembleias indicam claramente a sua influência. O concílio de Arras, efectuado em Maio de 1128, ordenou a dispersão de uma comunidade religiosa que se tornara incorrigivelmente descuidada; em Châlons, () bispo de Verdun, acusado de Simonia e má administração, foi forçado a abandonar a sua sé; em Cambrai, o abade Fulbert de_ Santo Sepulcro teve de demitir-se. O povo atribuiu estas severas determinações ao abade de Claraval como se fosse ele o único responsável. Claro que o facto excitou bastante a amargura e ressentimento daqueles que haviam sido punidos pelo
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
concílio. Foi denunciado a Roma como entremetido oficioso, homem de ideias ambiciosas, amigo de aparecer em público. Como o papa Honório se encontrava então no seu leito de morte (faleceu a 14 de Fevereiro de 1130), o Cardeal Haimeric, chanceler da Santa Sé, enviou-lhe em nome do Sagrado Colégio uma áspera censura. A carta do cardeal não chegou até nós; todavia, podemos formar uma ideia do seu conteúdo pela resposta de Bernardo. Afigura-se-nos que a comparação do abade santo com uma rã impudente (que salta do seu lodaçal para perturbar a paz do mundo com o seu rouco coaxar) não pertence, na realidade, a Haimeric, mas ao próprio Bernardo. O chanceler certamente nunca teria pensado em empregar linguagem tão violenta para se dirigir a quem tanto estimava. A prova de que estimava o abade de Claraval está bem patente nos termos utilizados para com ele numa carta a formular uma petição a favor dos monges beneditinos de São Benigno, Dijon, no ano de 1126. "Os meus amigos conhecem perfeitamente o muito que me amais, e principiarão a invejar-me a felicidade se eu tentar conservar somente para mim todo o benefício dela resultante (escreve o santo), Os monges de Dijon são-me muito queridos; agradar-me-ia lhes permitísseis ver que o amor não é vão, tanto o vosso por mim como o meu por eles, desde que, evidentemente, não brigue com os interesses da justiça, em cujo caso seria censurável pedir coisa alguma mesmo a um amigo". Fora igualmente ao chanceler que Bernardo dedicara a sua dissertação acerca do amor de Deus, de que mais adiante falaremos. Podemos, pois, inferir, pelo menos, que a carta de censura foi elaborada polidamente; a severidade do seu tom dificilmente pode ser negada, embora expressasse menos as ideias do próprio cardeal do que as dos seus irmãos. Bernardo replicou modestamente, é certo, mas com dignidade e energia __ pois não se tratava de uma defesa própria, mas de justificar os actos de concílios provincianos, alguns dos quais haviam sido presididos pelo Cardeal Legado Mateus. 

"O quê? (exclama). Até os pobres e desprotegidos deverão encontrar oposição para salvaguarda da verdade? Nem na própria miséria haverá refúgio da inveja? Deverei lamentar-me ou alegrar-me, visto eu próprio haver conseguido inimigos ao pronunciar a verdade? Deverei dizer: falo verdade ou procedo de acordo com a verdade? Isto por vós deverá ser decidido: quem contra a prescrição da lei amaldiçoara o surdo (Lav., 19, 14) e, apesar do conselho do profeta, chamará mal ao bem e bem ao mal (Is., 5, 20)".

A Ordem desfrutou de prosperidade
 até ao começo do século XIV.
A seguir expõe as faltas de que é acusado: a deposição do bispo de Verdun, a deposição do abade Fulbert e a supressão do convento de São João. Não considera que haja merecido censura por estes actos, e isto por dois motivos: em primeiro lugar, porque os actos em questão, longe de serem culpáveis, merecem antes louvor; em segundo, porque não eram de sua autoria. "Se são meus, mereci elogios; se não o são, não mereci censuras... A recriminação imerecida preocupa-me pouco, e os louvores que não me são devidos, recuso-me a aceita-los. Não produz em mim a menor diferença a forma como julgais essas medidas das quais não Sou o autor. Por uma delas (a deposição do bispo), o povo poderá louvar, se desejar, ou censurar, se se atrever, o cardeal legado; por outra (o afastamento de Fulbert), o bispo de Reims; e pela terceira (a supressão do convento), o arcebispo de Seus juntamente com o bispo de Laon e o rei, além de outras numerosas pessoas veneráveis, que não repudiarão a responsabilidade do que foi feito... A única acusação contra mim será haver estado presente, em vez de permanecer na obscuridade do meu lar onde eu podia ser juiz, acusador e árbitro apenas para mim próprio? Não nego haver presenciado esses concílios, mas compareci sob compulsão e não de livre vontade. Se o facto desagradou aos meus amigos, foi igualmente desagradável para mim. Deus não tivesse permitido que eu seguisse para lá! Deus não permita que eu volte lá novamente! Detesto intervir em assuntos que não me dizem directamente respeito. Mas, não obstante isto, sou arrastado para eles. Meu querido senhor cardeal, não existe outra pessoa da qual eu possa razoavelmente esperar libertação desta tirania além de vós. Tendes o poder, como eu sempre soube, e a boa vontade, como ultimamente descobri. Regozija_me saber que estais desgostado com a minha intervenção em assuntos que não pertencem a monges. Mostrais aqui a vossa prudência e, igualmente, amizade por mim. Providenciai, pois, para que tanto a vossa vontade como a minha fiquem satisfeitas. Proibi que, de futuro, estas ruidosas e incomodativas rãs saiam dos seus lodaçais. Que o seu coaxar jamais torne a ser escutado nas salas de concílios ou nos palácios de reis. Que nenhuma necessidade ou autoridade tenha poder para determinar a sua interferência em contendas ou assuntos públicos de qualquer natureza. Talvez assim o vosso amigo escape à acusação de presumido. No entanto, ignoro como me posso haver exposto a ela, pois sempre constituiu minha determinação nunca abandonar o convento, excepto por assuntos da Ordem ou por solicitação de um legado da Santa se ou do meu diocesano, a nenhum dos quais posso em consciência desobedecer, a não ser por privilégio de uma autoridade superior. Se vossa eminência se dignar obter para mim esse privilégio, então desfrutarei indubitavelmente, de paz e deixarei os outros tranquilos».


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Primeira parte aqui.



MARIA SEMPRE!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SÃO BERNARDO E OS TEMPLÁRIOS - (I)


"Combinavam as funções do monge com as do guerreiro."


"O trabalho sob o título «Em louvor da Nova Milícia», é dirigido aos «Soldados do Templo» e a Hugo, seu chefe. Consta de treze capítulos além de um curto prefácio.


O capítulo de abertura expõe as vantagens desfrutadas pelos soldados da «nova milícia», que havia surgido na própria terra consagrada pela vida e sofrimentos do Redentor, com a missão de banir os filhos das trevas onde Ele outrora banira o seu soberano.

Aqueles cavaleiros de Cristo combinavam as funções do monge com as do guerreiro, eram igualmente peritos na utilização das armas materiais e espirituais, mantinham guerra permanente contra os inimigos visíveis e invisíveis, eram invulneráveis a todos excepto a si próprios, pois não receavam ferimento algum além do pecado, caminhavam para a batalha com a certeza infalível da vitória - vitória se vencessem o adversário, vitória mais gloriosa se tombassem na peleja.

São Bernardo pregando as cruzadas
«Providos de armas de toda a espécie, não receiam o homem nem o demônio. A própria morte, longe de ser temida, é o objectivo do seu desejo. Na verdade, o que poderá causar qualquer alarme àquele, quer na vida quer na morte, para quem 'viver é Cristo e morrer lucro' (FiL, 1, 21)? Fiel e gostosamente viverá por Cristo; no entanto, preferiria 'ser dissolvido e estar com Cristo, coisa bastante melhor' (ibid., 23). Avante, pois, soldados de Cristo, e com corações intrépidos, ponde em fuga os inimigos da sua cruz, confiantes em que 'nem a morte nem a vida vos poderão separar da caridade de Deus que existe em Jesus Cristo' (Rom., 8, 39). Em todos os perigos repeti para convosco as palavras de São Paulo: ‘Tanto se vivermos como se morrermos somos do Senhor' (Rom., 14, 8). Oh, como será glorioso o vosso regresso se vencerdes na luta! Quão abençoado o vosso martírio, se tombardes no campo de batalha! Alegre-te, intrépido guerreiro, se víveres e conquistares no Senhor. Porém, bastante maior motivo terás para alegrar-te, se uma morte de mártir te unir ao teu Senhor. A tua vida será, sem dúvida, fecunda em bem e plena de glória, mas a morte santa é algo muito mais precioso. Porque, apesar de serem abençoados aqueles que morrem com o Senhor (Apoc, 14, 13), quão grande não será a santidade dos que morrem por Deus? Indubitavelmente, 'é preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos' (Sal. 115, 15), independentemente do lugar onde ocorra, tanto no leito como em combate; mas, morrer em combate é a forma mais preciosa de morte, por mais gloriosa. Oh vida segura do soldado cristão onde a consciência nada tem a recear! Oh vida segura do campeão da cruz para quem a morte não contém horrores, mas é antes desejada por ele com ardor e bem-vinda alegria! Oh milícia de Cristo, verdadeiramente leal e santa, livre do duplo perigo a que estão expostos os beligerantes quando Deus não é a causa da sua luta! Aquele que combate por algum interesse temporal possui frequentemente motivo para temer que, ao matar o corpo do seu inimigo, imole a sua própria alma, ou que sejam destruídos o seu corpo e alma; visto que, no entender de um cristão, a derrota e o triunfo dependem não dos acidentes da guerra, mas do sentir do coração. Se a guerra for justa, o resultado não pode ser mau, tal como nunca será bom se ela for injusta, quer na sua origem como na sua finalidade. Aquele que, numa peleja injusta, ao tentar matar, é morto, perece como um assassino; mas se sobreviver e abater o seu inimigo, vive como um assassino. Todavia, é terrível ser um assassino quer na vida ou na morte, na derrota ou na vitória. Desditosa considero essa vitória na qual, embora vencedor do adversário, se é vencido pelo demônio, e constitui presunção proclamar que se conquistou um homem».

"Cordeiros na paz e leões na guerra."
Nos três capítulos seguintes, o santo traça uma comparação entre os cavaleiros mundanos e «Quem afirmará que é ilegal para um cristão recorrer à espada, quando o precursor do Salvador não proibiu aos soldados o uso de armas, mas lhes recomendou simplesmente que se contentassem com o seu soldo? (Luc. 3, 14)» Aqui o santo opõe-se a Orígenes e Tertuliano que entenderam a guerra e a profissão das armas proibidas pelos cristãos. «Portanto, que se desembainhem ambas as espadas, a espiritual e a material, e sejam brandidas na face do inimigo 'até que se abatam todos os perigos que se ergueram contra a sabedoria de Deus' (1, Cor., 9, 4, 5), que é a fé cristã, 'para que nunca digam as nações: onde está agora o teu Deus' (Sal. 114, 2)?... Não que os pagãos devam ser imolados, se por qualquer outro meio puderem ser impedidos de perseguir e oprimir os fiéis. Mas é preferível que sejam destruídos, do que 'a vara dos pecadores caia sobre os justos' de forma 'a que os justos não estendam as suas mãos para a iniquidade' (Sal. 124, 3)». O autor prossegue, enumerando as virtudes dos templários: as suas vidas irrepreensíveis, a obediência, a simplicidade e pobreza, a sobriedade, a devoção pelo trabalho, o respeito e estima mútuos, a aversão por jogos e desportos, a discrição no falar e desprezo pelos murmúrios, a coragem indômita que nunca descansa para atacar o inimigo, a brandura e fúria marciais que os tornavam cordeiros na paz e leões na guerra.
os templários, em desfavor dos primeiros, evidentemente. O cavaleiro mundano possui maior interesse pela exibição do que pela utilidade do seu equipamento; assemelha-se mais a uma dama garrida do que a um militar ansiando pela guerra. Aliás, as pelejas nas quais estes cavaleiros seculares costumam participar têm por origem vinganças, vanglórias ou conquistas de territórios; porém, morrer ou ser morto em semelhantes refregas é igualmente perigoso para as almas. Ao contrário, os soldados de Cristo sentem-se tão seguros se se mantêm de pé como se tombam nas lutas pelo seu Salvador, pois não representa pecado mas antes
mérito e glória provocar ou sofrer a morte por Cristo.

Seguem-se nove capítulos, versando cada um os objetivos ou lugares mais sagrados na Palestina: o templo, Belém, Nazaré, o Monte Olivete e o vale de Josafá, o Jordão, o Calvário, o Santo Sepulcro, Bethfage e Betânia. São, na verdade, nove belas meditações, repletas dos pensamentos que deviam ocupar os espíritos dos templários ao contemplares os diferentes cenários consagrados pelo labor e sofrimentos do Redentor.

Estas palavras do eminente abade retumbaram através da cristandade, atraindo súbita fama a Hugo de Payens e seus companheiros. Bravo Hugo! A vossa longa e dolorosa provação acha-se no seu termo. A ameaça da extinção está removida da vossa instituição.

Doravante a vossa dificuldade consistirá em conseguir albergar todos os voluntários ansiosos provenientes dos mais afastados recantos da terra cristã. Os vossos cavaleiros brancos tornar-se-ão (...) terror dos sarracenos e o seu estandarte será o mais venerado da Europa. Durante dois séculos sustentarão o choque das Guerras Santas, repelindo com coragem desesperada e com risco de 20.000 dos seus, a onda crescente do islamismo que ameaçou, ano após ano, romper os seus laços e varrer irresistivelmente a Europa. E então, ser-lhes-á concedida a dura recompensa da prisão quando o seu principal crime for a posse de riquezas e o principal acusador um monarca cobiçoso."


Fonte:
LUDDY, Ailbe J. Bernardo de Claraval. Lisboa: Editorial Aster, 1953, p.168-171.

Continua aqui.

MARIA SEMPRE!

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

SER PAI - IR ALÉM DO NATURALISMO


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Ser pai é, sobretudo, um Dom!
 Logo, é uma dádiva que os homens que se casam não devem evitar

Por João S. de O. Junior *


Conforme calendário civil, no segundo domingo de Agosto comemora-se o dia dos Pais, data trazida para o Brasil com fins publicitários [1]. Na liturgia da Igreja, nesse mesmo mês, recorda-se de modo especial o tema vocações. Coincidências à parte, foi conveniente reservar um dia do ano para lembrar daquele que, junto à mãe, gera e cuida da prole. 



A realidade do casal gerar um ser humano, sangue do seu sangue, é como cultivar um outro "eu" para se perpetuar nesta vida pelas gerações, assim concordam os poetas e os iletrados, os cristãos e os pagãos. Convicção esta que aumenta com a experiência paterna concretizada. 


Podemos afirmar que a geração e o cuidado para com os filhos está na Lei Natural física (para os seres irracionais também) e Lei Natural moral [2], no caso dessa última, posta por Deus no coração dos seres humanos para consecução de suas finalidades [3]. Logo, de modo geral, a paternidade e muitas de suas implicações são inatas ao homem. 

Até aqui, nada de novo. Mas, meus irmãos, atenção! Eis este mundo marcado pelo pecado original. E não pense que nos referiremos aos maus pais, àqueles que prestarão contas no dia do Juízo pelos "órfãos de pais vivos", não. Se a paternidade é algo natural e bom, chamaremos atenção para o Naturalismo, tão presente e maléfico em nosso tempo.

Como corrente filosófica desde o séc. XIX, complementar a outras como o Materialismo e o Positivismo, “(...) a corrente Naturalista sustenta que a natureza é formada pela totalidade das realidades físicas existentes e, por conseguinte, é o princípio único e absoluto do real. Para o naturalismo filosófico, todo o real é natural e vice-versa. Não existe outra realidade que não a natureza. (...)” [4]

O Naturalismo é um sistema filosófico que destaca
a natureza como sendo o primeiro princípio da realidade
Esse conceito é perceptível com a realidade paterna contemporânea, não? Um pai que faz de sua função apenas dar o alimento e sustento corporal aos seus filhos, ou mesmo uma "educação" unicamente voltada para este mundo material, está sendo naturalista. Por mais que tenha afeto verdadeiro pela prole, o pai que não enxergar um propósito maior como tal, a não ser advindo da natureza humana, é naturalista. Percebam: mesmo que não falte amor aos filhos, os pais que, na prática, não vislumbram a transcendência daqueles, dotados de corpo e alma espiritual e imortal, estão sendo naturalistas. E, por isso, não estão sendo bons pais, de fato.

Isto vos escandaliza? Como católicos não podemos permitir que os ditames de filosofias vãs prevaleçam. Devemos, sim, propagar a sã doutrina que, embasada na Revelação Divina, nos dá outra perspectiva, mesmo na paternidade. Ser pai é, sobretudo, um Dom! Logo, é uma dádiva que os homens que se casam não devem evitar. É a graça de uma participação especial na obra do Criador[5], é para povoar o Céu! E isto, meus irmãos, é a excelência de nosso chamado.

Os sacerdotes são nossos pais espirituais
Não por acaso, o sacerdote católico, que transmite a Vida da Graça aos Fiéis através dos Sacramentos, é chamado de padre (termo latino que significa "Pai"). Os grandes propagadores de nossa Fé nos primeiros séculos da Igreja, pelo testemunho e defesa contra as heresias, são denominados Pais da Igreja. E, com sentido carinhoso em termo grego (papai), o Vigário de Cristo na Terra é o... Papa! [6] 

Se hoje, para muitos, o fato de ser pai se resume em "pagar pensão", na doutrina católica, a principal Missão deles se dará pela Educação dos filhos. E esta começa por iniciá-los e ajudá-los a dar os primeiros passos da Fé, fazê-los conhecer a sã doutrina[7], crida, professada e que seja vivida exemplarmente. [8] 

Para concluir o que afirmamos, o Catecismo de São Pio X, sucintamente, explana sete deveres dos pais para com os filhos: 

"Os pais têm o dever de amar, cuidar e alimentar seus filhos, de prover à sua educação religiosa e civil, de dar-lhes o bom exemplo, de afastá-los das ocasiões de pecado, de corrigi-los nas suas faltas, e de auxiliá-los a abraçar o estado para o qual são chamados por Deus." [9] 

Num Mundo naturalista, materialista, relativista, cada vez mais moralmente liberal, onde até parte da hierarquia e membros de nossa Madre Igreja se "contaminam", é de questionar se mesmo os ditos "católicos praticantes" estão observando estes deveres em destaque. Diante da crise, o maior ato heroico de um pai, além de se salvar, e como condição para tal, será trabalhar pela salvação eterna de seus filhos.

MARIA SEMPRE!


    * O autor é o atual Presidente da SSVM. 
Aqui no batismo de João Henrique, seu filho

Notas e Referências:


[2] - Bettencourt, Dom Estevão. "Lei Natural: o que é? Existe mesmo?", revista Pergunte e Responderemos, disponível em: http://www.pr.gonet.biz/index-read.php?num=565

[3] - Fedeli, Dr. Orlando. " Os três princípios da Lei Natural", artigo disponível em: http://www.montfort.org.br/bra/cartas/doutrina/20040821155008/

[4] - Vide: "Conceito de Naturalismo", disponível em: http://conceito.de/naturalismo.

[5] Catecismo da Igreja Católica, 1982, Da ordenação da família a fecundidade, parágrafo 1652.

[6] - Artigo "Qual é a origem da Palavra 'Papa', disponível em: http://pt.aleteia.org/2014/01/22/qual-e-a-origem-da-palavra-papa/

[7] - Vide Catecismo de São Pio X, questão 6.

[8] - Catecismo da Igreja Católica, 1982, Parágrados 2225-2226.

[9] - Catecismo de São Pio X, questão 403.