terça-feira, 29 de julho de 2014

SOBRE O PRECIOSÍSSIMO SANGUE...


 “Dar-te-ei o meu sangue gota a gota...”
 Cristo à 
Beata Alexandrina de Balasar (1904-1955)

“Meu sangue é verdadeira bebida.” [1]


Prof. Pedro Maria da Cruz


A Igreja Católica exulta no Espírito! Veste-se de festa, transborda de alegria! Ela guarda em seu coração o maior de todos os tesouros; a pérola mais valiosa do universo; a causa de toda satisfação e contentamento; a verdadeira fonte da felicidade: O Santíssimo Sacramento! 

Na Eucaristia possuímos qual presente de amor, o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; Sua alma e divindade verdadeiramente presentes nos altares do mundo inteiro. 

Sim; cada Sacrário, desde o mais suntuoso de alguma magnífica Catedral, até o mais humilde, cada um deles esconde a presença real e sacramentada do Deus único e verdadeiro, criador de todas as coisas; daquele que habita numa luz inacessível, cheio de glória e majestade. Ali, Ele se encontra realmente presente, se bem que velado por detrás das aparências do pão e do vinho transubstanciados, como afirma o Aquinate. 

Santo Tomás, o Aquinate (1225 -1274)
Precisaríamos de infinitas páginas para cantar as glórias da Eucaristia. Entretanto, nem mesmo o gênio de todos os poetas do mundo, bastaria para dizer um mínimo da grandeza desse mistério. Perante ele os anjos se calam... a exemplo da Virgem Maria, todas as criaturas celestes se põem a adorar. Maximum miraculum Christi, afirmara Santo Tomás, o maior milagre do Cristo que se dá como regalo nas Santas Missas do mundo inteiro. Divino banquete de amor! 

Tratamos até este momento do Santíssimo Sacramento em sua generalidade. Todavia, olhemos agora um ponto específico, cheio de luz e suavidade; uma parte do todo pouco apreciada pela maioria dos cristãos: o Divino Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por que teve Nosso Senhor o cuidado de deixar-nos seu Divino Sangue em especifico? Não bastava a presença gloriosa de sua Carne Sacrossanta? Vemos que aqui se esconde um mistério; e talvez possamos nos aventurar um mínimo que seja na luz desse fogo de amor que abrasa nossa inteligência. 

É claro que, sendo o Filho de Deus sapientíssimo e onipotente, poderia ter encontrado mil formas de estar conosco neste mundo; porém, entregando-nos não somente Sua Carne, mas também Seu Sangue Redentor deu-nos a Si mesmo por inteiro. Não negou coisa alguma em sua entrega de amor. Exemplo este a ser seguido por seus discípulos, como já fizera Nossa Senhora: entrega total no cumprimento da vontade divina. 

Ademais, quem negaria que os apaixonados amam a presença em sua fisicidade? Que é a saudade senão certa “permanência” fantasmagórica e lancinante na ausência? Cristo amava demais os homens para não estar fisicamente entre eles. Não bastava a ele ter se consumido na cruz. Ele desejou ser consumido todos os dias na Eucaristia. E ser consumido tão somente em sua carne não era ser consumido em sua totalidade. Portanto, entregou-se em Sua alma e divindade, em Sua carne e em Seu sangue. Loucura de amor! Não pense caro leitor que estamos sozinhos nessa afirmação. Segundo um dos maiores oradores do Brasil no século XVII, Padre Antônio Vieira, o Santíssimo Sacramento era, da parte de Cristo, exatamente o que asseveramos: um contínuo remédio trazido por Ele para curar a dor de Sua ausência.[2]

Grande orador, Pe. Vieira (1608-1697)
Miremos ainda outro aspecto... não é verdade que membros, de facto, de uma mesma família possuem o mesmo sangue? Ora, é vontade do Pai Celeste fazer-nos participes de Sua vida divina[3]; membros de Sua família[4]; por isso, afirma o mesmo Padre Vieira em outro sermão realizado em 1662: Cristo deu-nos Seu sangue para nos enobrecer; com efeito, “depois que comungamos somos sangue de Deus”.[5]

Aqui o motivo, dentre tantos - muitos desses escondidos em Deus - de Nosso Senhor haver deixado entre nós o Seu Divino Sangue. Observemos que é grande sua insistência para com a necessidade de termos acesso a ele. Basta-nos recordar a gravidade de Suas palavras no Evangelho: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no ultimo dia” [6].Ou seja, foi da vontade de Deus relacionar nossa eterna salvação ao Divino Sangue Redentor. É o que repetimos piedosamente na Ladainha do Preciosíssimo Sangue: Sanguis Christi, pignus vitae aeternae, Salva nos, “Sangue de Cristo, penhor de vida eterna, salvai-nos!.” [7]

Concluamos com a seguinte interrogação: Por que a possibilidade de nossa salvação está ligada à realidade do precioso sangue de Cristo? Esse é um ultimo aspecto que podemos abordar aqui com muitos frutos. 

A Bíblia Sagrada, toda ela fundada na inspiração divina, é clara e objetiva no que tange ao tema de nossa reflexão: “Se andamos na luz, assim como Deus mesmo está na luz [...] o sangue de Jesus, Seu filho, nos purifica de todo pecado.” [8] Sim, porque, como afirma a mesma Palavra de Deus: “A menos que se derrame sangue não há perdão.” [9] Palavras duras para nós, pouco afeitos ao ritualismo oriental; entretanto,carregadas de profunda significação poética e espiritual... Com efeito, no Primeiro Testamento, a prática ritual adotada pelos judeus exigia a oferta do sangue de animais, símbolo da vida, para, dessa forma, alcançar o perdão de Javé, ofendido pelo pecado, símbolo da morte. É na atmosfera do binômio “Morte-Vida” que encontramos a bela e profunda significação do “Sangue” no contexto bíblico. 

Para S. Paulo, o sangue no antigo testamento
 simbolizava o sangue de Cristo
Nesse sentido, relata o autor sagrado: “Tampouco o pacto anterior foi inaugurado sem sangue; pois, quando o mandamento foi anunciado por Moisés ao povo, ele tomou o sangue de novilhos e bodes [...] e aspergiu o próprio livro e todo o povo dizendo: ‘Este é o sangue do pacto que Deus preceituou para vós.’” [10] Ou seja, um pacto de “Vida” para vencer a escravidão da “Morte” e purificar os corações dos seres humanos, lavando-os da sujeira do pecado com o sangue... Aqui, é claro, não há somente uma mera poesia para agradar leitores sentimentalistas, mas sim uma realidade objetiva de salvação determinada por Deus em sua infinita sabedoria que prefigura a realidade neo-testamentária,[11] o que explica a radicalidade do Texto sagrado ao afirmar sem rodeios: “Mostrar-se-á severa a punição daqueles que tiverem pisado o Filho de Deus e considerado de pouco valor o Sangue do pacto com que foi purificado.” [12]

Peçamos a Nossa Senhora, ela que doou ao seu Divino Filho o sangue da Redenção, para que nos ensine a valorizar com as devidas disposições de espírito o tesouro depositado nos cálices do mundo inteiro. Quem sabe se não ouviremos também no recôndito de nossas almas, aquelas palavras ditas por Nosso Senhor à Beata Alexandrina de Balasar (1904-1955): “Dar-te-ei o meu sangue gota a gota...”. 


MARIA SEMPRE! 


Nota: texto lançado pelo autor em boletim mensal  - Ano 13- nº 140 - Julho 2014. Catedral  Basílica menor de Curitiba. 

REFERÊNCIAS:

[1] Cf. Jo. 6,55
[2] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Sermão do Mandato; 1650. Vol. VIII. Erechim: ELDELBRA, 1998
[3] Cf. Efe.1,5-6
[4] Cf. Efe. 2,19
[5] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões. Sermão do S.S. Sacramento. Vol. VIII. Erechim: ELDELBRA, 1998
[6] Cf. Jo. 6,54-56
[7] SSVM. Livro de Devoções. N. 28
[8] Cf. I Jo.1,7
[9] Cf. Heb. 9,22
[10] Cf.Heb. 9,19-20
[11] Cf. Efe.1,7
[12] Cf. Heb.10, 29

Nenhum comentário: