sexta-feira, 2 de março de 2012

O SACERDOTE QUE DUVIDAVA


Era uma vez um sacerdote. Mas esse sacerdote duvidava: duvidava de que Cristo fosse o Filho de Deus, duvidava da sua Ressurreição, duvidava de que estivesse realmente presente na Eucaristia, duvidava de que a ele, sacerdote, pudesse ser conferido o poder de transformar pelas palavras da consagração o pão e o vinho no corpo e no Sangue de Cristo. Duvidava até da existência de Deus. Essa dúvida era para ele um tormento contínuo. Às vezes, invadia-o por inteiro, e a sua vida parecia-lhe um sem-sentido e o seu ministério, uma mentira. Outras vezes, abrandava um pouco, deixando-lhe o terrível remorso de ter consentido.
Ele sabia, é certo, que não era nem o primeiro nem o único a ter dúvidas. Lembrava-se de que um Mestre em teologia tinha ido, certo dia, confiar as suas ao bispo de Paris. O santo rei Luís de França contara essa história ao senescal da Champagne, o senhor de Joinville, que a tinha posto por escrito no seu livro. O bispo Guillaume, depois de se ter certificado de que o Mestre em teologia lutava com todas as suas forças contra essas dúvidas e que não desejava por nada neste mundo abandonar-se a elas, tinha-lhe dito:
-Sabeis muito bem, Mestre, que o rei da França está em guerra com o rei da Inglaterra, e que a praça forte mais exposta e mais próxima da frente de batalha é o castelo de La Rochelle, no Poitou. Se o rei vos tivesse confiado a guarda de La Rochelle e a mim a do castelo de Montlhéry, bem em paz no coração da França, a qual de nós dois, no fim da guerra, deveria ele mais reconhecimento por ter guardado o seu castelo?
- A mim, que teria defendido La Rochelle.
-Pois Deus-concluiu o bispo- agradece-vos muito mais que lhe permaneçais fiel do que a mim, que fui poupado a toda dúvida. O vosso coração é La Rochelle, e o meu Montlhéry.
O sacerdote pensava com frequência nesse exemplo, mas não lhe dava muito consolo.Também ele lutava contra a dúvida, também ele não teria, por nada neste mundo, cedido à incredulidade. Mas podia submergir a qualquer momento. Podia perder La Rochelle. E que reconhecimento esperar, para que continuar a lutar, se já não cria na existência do “rei da França”?
O seu maior sofrimento era ter de celebrar a Santa Missa todos os dias. Sentia-se indigno. Sabia que quem come a carne de Cristo e bebe o seu sangue indignamente come e bebe a sua própria condenação  (cfr. 1 Cor 11, 27). E ele, que consagrava o pão e o vinho, que confeccionava o Corpo e o Sangue de Cristo antes de comê-lo e de bebê-lo, antes de distribuí-lo aos seus irmãos, em que condenação não incorria!
E se a dúvida fosse fundada? Para que então essa mascarada, essa palhaçada, dia após dia? Nesse caso, indigno não seria o sacerdote nele, mas o homem, que se enganava a si mesmo e enganava os outros, que pregava aquilo que sabia ser falso, que prometia uma salvação ilusória, que consentia em viver cercado do respeito que se prestava a um estado que ele mesmo já não respeitava.
Certa manhã, como na véspera, e na antevéspera, e no dia anterior, como todas as manhãs, subia angustiado os degraus do altar. As únicas palavras de toda a Missa que lhe saíam do fundo do coração, as únicas que podia pronunciar sem mentir- assim lhe parecia-, acabava de dizê-las; eram os versículos do salmo que o oficiante recita antes de subir ao altar, para se preparar para o ofício divino:
- Quare me repulisti, et quare tristes incedo... “ Por que me rejeitaste, meu Deus, e por que ando triste sob a opressão do inimigo...? Por que está tristes, ó minha alma? E por que me inquietas?”
Mas parecia-lhe estar mentindo já o final dessas orações : “Subirei ao altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude”.E, ao traçar sobre si mesmo o sinal da cruz, não cria naquilo que o ajudante proclamava: “A nossa salvação está no nome do Senhor...”. ¹
Naquele dia, à medida que a Missa avançava, mais se convencia a cada instante de que jánãpo era habitado pela dúvida, mas pela certeza de não crer mais. No entanto, essa certeza não lhe trazia paz alguma, antes o dilacerava, fazendo-o sofrer como por um amor traído. Agora, tinha de pronunciar as vãs palavras da consagração sobre esse pão e esse vinho, que depois disso- tinha a certeza- continuariam a ser pão e vinho, e nada mais:
-Accipite et manducate ex eo omnes: hoc est enim corpus meum, “tomai e comei todos vós, este é o meu corpo”.
E elevou a hóstia para apresenta-la à adoração dos fiéis, fixando os olhos com angústia nesse círculo de farinha branca e dura.
Soaram os três toques da sineta, seguidos do seu repique. Os assistentes baixaram a cabeça. Como prevê a liturgia, adorou a hóstia com uma genuflexão e preparava para depô-la na patena e tomar o cálice, quando percebeu de repente que ela sangrava. Sangrava de verdade. Era sangue o que corria sobre a toalha do altar, havia sangue nos seus dedos, sentia-os úmidos. Subiram-lhe lágrimas aos olhos, a voz se lhe embargava. No entanto, conseguiu de alguma forma chegar até o fim da missa, sustentado por essa Presença mais certa do que a de todos os objetos que o cercavam.
Como fizera outrora o mestre parisiense, foi falar com o bispo. Confessou-lhe tudo. A hóstia que sangrava tinha o libertado da sua dúvida, mas apenas para mergulhá-lo numa angústia ainda maior por causa do seu pecado. Esse sinal do Céu marcava a sua condenação, abatia a imprudência sacrílega do sacerdote que tinha profanado em pensamento o Corpo do Senhor, que tinha ousado consagrar as espécies sacramentais e ajoelhar-se diante da hóstia sem reconhecer nela mais do que um pedaço de pão.
O bispo reconfortou-o. O Senhor desejava tanto a sua salvação que chegara ao ponto de favorecê-lo com um sinal miraculoso para arrancá-lo à sua dúvida.
-Mas- objetou o sacerdote- Cristo ressuscitado disse a São Tomé: Porque me viste, crês. Felizes os que não viram e creram ( Jo 19,29).Não estive à altura dessa felicidade, dessa benção. Tive de ver para crer.
-É verdade- respondeu-lhe o bispo-. Mas qual é a fé que não dá lugar a dúvidas? Não duvidar não é crer, é saber, como quem viu.
- Mas uma dúvida como a minha, uma fraqueza tão grande!
- E quem tem força para crer? Nós só podemos esperar fielmente, na dúvida, que nos seja dada essa força. Não foi isso o que fizestes? Não pensais que é necessário muito amor para, mergulhado na dúvida, oferecer-se á fé mesmo antes de crer? Para isso, é necessário o amor mais violento e mais ansioso, como o amor que se experimenta por uma criança doente; conheceis bem esse pai que ouviu da boca de cristo que a fé era necessária para a cura do seu filho e que exclamou...
E o bispo interrompeu-se para deixar que o sacerdote citasse por si mesmo o Evangelho de São Marcos ( Mc 9, 24) e fizesse seu o grito daquele pai angustiado:
-Senhor, eu creio, mas ajuda a minha incredulidade!   
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Virgo Mariae, sedes sapientiae, ora pro nobis!


Referência:
O jogral de Nossa Senhora- contos cristãos da idade média. Quadrante. 2001.

Um comentário:

COGITARE VITAE ET AMORE disse...

"Não duvidar não é crer, é saber, como quem viu."
Excelente história e reflexão.