quarta-feira, 13 de abril de 2011

FRATERNIDADE E NATUREZA


Por Denis Lerrer Rosenfield

Com grande alarde, a CNBB lançou um documento intitulado Fraternidade e a Vida no Planeta como orientação da Campanha da Fraternidade de 2011. Tratando-se de um documento teológico-político, sua preocupação central consiste em influir no atual debate sobre as relações entre civilização moderna e meio ambiente. Mais especificamente, seu objetivo reside em participar diretamente da discussão atual sobre a revisão do Código Florestal. Não estamos diante de uma preocupação religiosa politicamente neutra, mas que obedece a diretrizes contempladas nas pastorais da Igreja, nos ditos movimentos sociais e na doutrina da Teologia da Libertação.

Em manifestações, aliás, muito sensatas, de alguns altos dignitários da Igreja, aparece uma preocupação muito genuína com a preservação ambiental, sem ranços ideológicos. Cuidados relativos à coleta seletiva de lixo, contra os desperdícios de água, a poluição de rios e do ar e o uso abusivo de agrotóxicos, por exemplo, entram nessa linha de conduta.

Essa é, no entanto, a apresentação pública, em muito distinta do que consta no documento, eivado de ranços contra o capitalismo, a propriedade privada, o lucro e o agronegócio. Convém, preliminarmente, ressaltar que foi graças ao capitalismo e ao agronegócio que a sociedade atual veio a produzir abundantemente alimentos em escala planetária e a baixo custo. Nunca tantos comeram e jamais foram tão boas as condições de vida.

Os países que aboliram a propriedade privada e 'produziram' sem o lucro foram os que sucumbiram à miséria. A URSS abandonou à morte milhões de seus cidadãos por falta de comida e pela desorganização completa da agricultura. A China de Mao seguiu o mesmo caminho, com camponeses morrendo de fome nas estradas. Os admiradores atuais de Cuba, muitos dos quais compartilham os pressupostos da Teologia da Libertação, nada têm a dizer de um partido que nem consegue produzir alimentos para a sua população. Outro representante do 'socialismo', Hugo Chávez, está conduzindo seu país à bancarrota, também com a desorganização completa da agricultura e da pecuária.

Se tivéssemos de caracterizar a ideologia do documento o qualificaríamos como uma mistura de ludismo e marxismo. Ludismo porque corresponde a uma corrente política e ideológica inglesa do século 19 que recusava toda e qualquer modernização do processo produtivo, no caso, industrial, pela destruição de máquinas, cuja inovação não era aceita. Marxismo porque adota as categorias dessa corrente ideológica, propugnando uma via anticapitalista, que não estaria mais orientada pelas relações de mercado alicerçadas no lucro e nos contratos. Desta última resgata também a ideia socialista, que ganha uma nova denominação, a de uma sociedade 'solidária', não consumista, não capitalista, apoiada na 'vida', e não na ganância. Mudou de denominação por conveniências retóricas.

Assim, a CNBB postula que os alimentos produzidos para o mercado, sob a forma de 'commodities', sejam caracterizados como produtos de um mercado voltado para o 'lucro', que não visa à 'disponibilização de alimentos para todas as pessoas'. Prossegue em suas diatribes criticando um mercado 'dominado por poucas empresas que monopolizam o mercado internacional, impondo preços segundo suas conveniências'. Mas é obrigada a reconhecer que esse processo, baseado em 'distorções', 'se reflete nos preços relativamente baixos dos alimentos'. Ou seja, na verdade, é o mercado que produz alimentos abundantes e a baixos preços, o que contradiz sua tese de que a escassez seria a resultante desse processo.

O documento retoma a tese do MST e da Comissão Pastoral da Terra de que o agronegócio termina prejudicando e excluindo a agricultura familiar. Ao contrário, porém, o fato é que o excedente da agricultura familiar é vendido no mercado e em alguns setores, como fumo, aves e suínos, há toda uma rede de relações entre o agronegócio e a agricultura familiar, denominada 'sistema integrado de produção'. Na verdade, a CNBB adota a postura dos assentamentos da reforma agrária, identificando-os com a agricultura familiar, o que é um equívoco, pois eles não possuem títulos de propriedade, não se voltam para o mercado e estão apoiados na economia de subsistência, a qual, aliás, nem conseguem atingir. Vivem de subsídios governamentais como o Bolsa-Família, o que significa dizer: à custa do contribuinte.

Todo o setor da agropecuária e do agronegócio em geral é tido como praticante de 'crimes ambientais', como se esse fosse o seu costume. Evidentemente, a prática agrícola, como ocorre em qualquer lugar do mundo, transforma a natureza, tendo em vista a produção de alimentos. Se assim não fosse, a humanidade morreria de fome. Há uma clara confusão entre desmatar por desmatar, sem nenhuma preocupação agropecuária, e a atividade propriamente agrícola, que também conserva a natureza. Agricultura e natureza marcham de mãos dadas. Se não for assim, ambas acabam perdendo. O agricultor ou a empresa que não conserva a natureza dá um tiro no próprio pé.

A CNBB apoia-se numa concepção religiosa segundo a qual tudo o que existe na natureza é resultado da criação divina, que, enquanto tal, deve ser preservada. Trata-se de 'cultivar' a 'criação'. O ambientalismo estaria, nesse sentido, fundado numa cosmovisão religiosa. Eis por que é defendida a ideia de que os comportamentos que contrariam essa cosmovisão devem ser 'corrigidos', por serem 'pecaminosos', por atentarem precisamente contra a 'criação divina'. Ou seja, a Igreja assume a política dos que sabem o que é o 'correto' comportamento humano, devendo adotar medidas que o implementem. A correção do comportamento humano seria empreendida pela 'tirania dos bons', dos 'virtuosos'. Isso significa que todo aquele que advoga pela atualização do Código Florestal seria pecador.
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28 de março de 2011

7 comentários:

Jussara Lopes disse...

Estou chocada. Jamais imaginei que, na Igreja Católica, houvesse um segmento pró-capitalismo e pró-desigualdades sociais. É por causa desse tipo de pregação que nossa sociedade é tão passiva...

João SOJ disse...

rs rsrs..
Prezada Jussara,

A Igreja não é Capitalista e muito menos Socialista.
Estou chocado é porque há na Igreja pessoas que confundem materialismo com fé. Infelizmente é o fruto da terrível TL. Deveria estudar a Doutrina Social da Igreja e rever seus pré-conceitos.

E a propósito, a verdadeira Ecologia é a Ecologia Humana como se referira nosse querido Papa em menção à mesma campanha da fraternidade aos bispos do Brasil. Leia aqui:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/pont-messages/2011/documents/hf_ben-xvi_mes_20110216_fraternita-2011_po.html

Grande abraço, em Crito.

Laura C. de Maçedo disse...

Querida

João Paulo II não era a favor do Comuno-socialismo e muito menos era a favor do capitalismo neo-liberal.

Este Blog esta de parabéns por não se colocar nem ao lado de um nem ao lado de outro.

A posiçõa da Igreja é ser a fvor da lei-natural onde quer que ela se mostre respeitada.

Parabéns ao blog, aqui me encontrei como catolica.

Anônimo disse...

Chamar a TL de terrível não seria ir contra os ensinamentos de Cristo? Concordo em partes com a Jussara.

Fala Senhor disse...

"Chamar a TL de terrível não seria ir contra os ensinamentos de Cristo?"

Uma corrente que se aproveita dos pobres como massa de manobra para fazer seu discurso ideológico... Não deve ser nada terrível.

Distorce as palavras do próprio Cristo e incute nos ouvinte como se este fosse um mero "revolucionário", ala Che guevara... Ah... Nada terrível.

Que acaba, por essência de ensinamentosnegando a transcendência Divina dos sacramentos ... ah.. nada terrível...]

Por visar apenas materialismo e vendo o Céu como um "paraíso socialista" aqui na terra... Nada terrível...

Por provocar apenas badernas e revoltas sem caridade, a exemplo do falso movimento"sem terras", por tirar pe. de sua função de cuidar de almas para fazê-los candidatos políticos (E que muitos envolvem em corrupção, a exemplo em algumas cidades aqui em Minas)
Nada terrível...

"Distorções liturgicas com o sincretismo deslavado, apoio a organizações abortistas, rebeldia de muitos escritores que se dizem 'cristãos' e apenas copiam teses socialistas colocando as pessoas contra a Igreja"... Nada terrível...

Se a TL não é terrível... O que é então?

Rafael R. disse...

"Chamar a TL de terrível não seria ir contra os ensinamentos de Cristo?"



Primeiramente, meu caro, de qual Cristo estamos aqui falando?

Do Cristo histórico que deixou claro que seu Reino não é deste mundo, realizou milagres, condenou por palavras e obras o materialismo e confiou a Pedro o governo de sua Igreja, ou do "cristo" da TL, concebido como um agitador social, visto que na mesma o texto bíblico, sobretudo os evangelhos, praticamente se resumem a um projeto de revolução socialista?

Como diria o nada saudoso Leornardo Boff "não queremos teologia no marxismo, mas marxismo na teologia", assim que outro fim a TL de inspiração Marxista tem senão a destrandentalização da fé católica,a imergindo num materialismo idiota e lhe usurpando o que mais lhe é valioso ? Sim, essa TL de inspiração marxista tem basicamente esse fruto, como nos recorda o Rev. P.e Paulo Ricardo, e outros eminentes teólogos.Sim, essa TL presente majoritariamente na América Latina, a que fora condenada pelo Cardeal Ratzinger, pelo Papa João Paulo II e pelo atual Vigário de Cristo na Terra,Bento XVI.

Esteja atento ao magistério da Igreja, que nos propôe não a TL de Boff ou de Gutierrez, mas sim a Doutrina Social da Igreja.

Se para você, o Cristo vivo e verdadeiro, não é o presente na Igreja Romana, então termino aqui meu parecer, visto que o pressuposto comum, que atua qual território- no qual devemos estar ainda que para nos combater-, você nega.

Viva Cristo Rei!

Jean disse...

Como tem gente ceg aneste mundo.Só de defender a TL já é loucura, se a CF veio da TL então deve mesmo é ta errada só de ta ligada à TL.