sábado, 21 de janeiro de 2012

A FORÇA DE VONTADE



Por Jaime Balmes

Para realizarmos as coisas boas que desejamos para a nossa vida, mais do que “ter vontade de...”, é preciso “usar a vontade para...”. A energia que todos temos, e que é maior do que parece à primeira vista, pode ser toda ela empregada a nosso favor: basta querer de verdade.

O texto abaixo foi escrito por Jaime Balmes (1810-1848), jovem e brilhante filósofo espanhol, notável também por sua atividade jornalística e política. É um trecho do seu pequeno e denso livro El Criterio (1845), sua obra mais conhecida, na qual expõe uma série de considerações, simples, claras e certeiras, sobre o Pensamento e sobre a vida prática, que merecem ser sempre levadas em consideração.

A FORÇA DA VONTADE

Quase sempre há no homem uma grande soma de forças que ele deixa inativas. O conhecer-se acertadamente é um maravilhoso segredo para fazer muitas e grandes coisas. Ficamos impressionados diante de certos trabalhos realizados pela necessidade. Em situações de necessidade, o homem transforma-se e muda, por assim dizer, de natureza. A inteligência se engrandece, adquire uma penetração, uma lucidez e uma precisão maravilhosas; o coração se dilata, nada assombra a sua audácia; até o corpo adquire mais vigor. E por quê? Criaram-se por ventura novas faculdades no homem? Não, mas as faculdades que dormiam foram despertadas. Onde tudo era repouso, tudo se tornou movimento, tudo convergiu para um fim determinado. Aguilhoada pelo perigo, a vontade se desenvolve em sua irresistível potência; ordena imperiosamente a todas as faculdades que concorram para a ação comum; presta-lhe sua energia e sua decisão. Espanta-se o homem ao sentir-se inteiramente mudado; o que apenas ousaria imaginar, o impossível de ontem, torna-se o fato realizado do presente.

O que praticamos nas circunstâncias extremas e sob o império da necessidade nos deixa ver o que podemos no curso ordinário da vida. Para obter, é mister querer; mas querer com vontade decidida, resoluta, inconcussa; com vontade que caminha para o fim sem desanimar com os obstáculos ou fadigas. Mas às vezes parece-nos ter vontade, quando só temos veleidades. Quereríamos, mas não queremos. Quereríamos, se não fora preciso romper com nossa preguiça, afrontar certos perigos, vencer certas dificuldades. Escasseando de energia a nossa vontade, molemente desenvolveremos nossas faculdades e cairemos desfalecidos a meio do caminho.

A FIRMEZA DA VONTADE

Querer com firmeza! Esta firmeza assegura o sucesso nas empresas difíceis; por meio dela nos dominamos a nós mesmos, condição indispensável para dominar as coisas. Há dois homens em cada homem: um, inteligente, ativo, elevado, nobre em seus pensamentos e em seus desejos, submetido às leis da razão, cheio de ousadia e generosidade; outro inteligente, sem arrojo, sem expediente, não se atrevendo a levantar nem a cabeça nem o coração acima do pó da terra, envolvido inteiramente nos instintos e nos interesses materiais. O último é um ser de sensações e de gozos; nem lembrança de ontem, nem previsão de amanhã; para ele, a hora presente, o gozo presente é que constituem a felicidade; tudo o mais é nada. Em contrapartida, o primeiro instrui-se com as lições do passado, sabe ler no futuro, há para ele outros interesses que os de momento; não circunscreve em tão estreito círculo o que se chama a vida, a aspiração da alma imortal. Sabe que o homem é uma criatura formada à imagem de Deus; levanta o pensamento e o coração para o céu; conhece a sua dignidade; compenetra-se da nobreza da sua origem e de seus destinos, paira acima da região dos sentidos. Que direi ainda? Ao gozo prefere o dever.

Nenhum progresso sólido e permanente é possível se não favorecemos a parte nobre da alma, sujeitando-lhe o homem inferior. O que se domina a si mesmo, facilmente domina as circunstâncias. Uma vontade firme e perseverante, além de outras qualidades, liga ou subjuga as vontades mais fracas, e lhes impõe naturalmente e sem esforço a sua superioridade.

A obstinação é um defeito gravíssimo, pois que fecha nossos ouvidos aos conselhos; porque, a despeito de toda a consideração de prudência ou de justiça, nos encadeia a nossos sentimentos, pensamentos e resoluções: planta vivaz cuja raiz é o orgulho. Entretanto, os perigos da obstinação são talvez menores que os da inconstância: se a obstinação nos cega concentrando nossas faculdades em um só ponto, às vezes em um erro, a inconstância enfraquece estas faculdades, ora deixando-as ociosas, ora aplicando-as, com mobilidade sem repouso, a mil diversos objetos. A inconstância torna-nos incapazes de terminar qualquer empresa; colhe o fruto antes da maturidade, recua diante dos mais insignificantes obstáculos: uma leve fadiga, um leve perigo a amedronta; deixa-nos à mercê de todas as paixões, de todo o sucesso, de todo o homem que possa ter interesse em nos dominar; finalmente fecha os ouvidos aos conselhos da justiça, da razão e do dever.

Quereis adquirir vontade perseverante e firme e premunir-vos contra a inconstância? Formai convicções firmes, traçai-vos um sistema de vida, e nada confieis ao acaso do que lho puderdes subtrair. Os sucessos, as circunstâncias, a vossa previdência de curto alcance não raro vos obrigarão a modificar os planos que houverdes concebido; não importa: não deve esse ser motivo para de novo os não formar; isto não vos autoriza a vos entregardes cegamente ao curso das coisas e a caminhar à ventura. Pois não nos foi dada a razão como guia e apoio?

Traçar de antemão uma linha de atuação e só agir depois de maduras reflexões, é proceder com notável superioridade sobre os que se conduzem ao acaso. O homem que se guiar por estes princípios, ouso afirmá-lo, levará incontestável vantagem sobre os que se portem de outro modo. Se estes são seus auxiliares, naturalmente os porá debaixo de suas ordens, e se verá constituído seu chefe sem que eles o pensem nem ele próprio o pretenda; se são seus adversários ou inimigos, os desbaratará, ainda que com menos recursos.

Consciência reta e tranqüila, vontade firme, plano bem concebido, eis os meios para levar a bom termo as empresas difíceis. Isto pede-nos alguns sacrifícios, concordo; supõe trabalho interior, enérgico e perseverante, pois que é mister começar por se vencer a si próprio; mas, assim na ordem intelectual e moral, como na física, nas coisas do tempo, como nas da eternidade, só merece e obtém a coroa o que sabe na luta afrontar as fadigas e os perigos.

Fonte: O Critério, Editora Anchieta, São Paulo, 1948.
Tradução: Arlindo Viega dos Santos.

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Virgo Dei Genitrix, ora pro nobis!

sábado, 10 de dezembro de 2011

SÉC. XVII E XVIII: ALGO DE FILOSOFIA...




Por Fr. R.G. dos Santos 


Os dois séculos estão inseridos na “órbita” do período “moderno”. Assim sendo, já apresentam características que marcam um rompimento com pontos essências da Tradição que vinha se erguendo, por assim dizer, desde a antiguidade e que tomou vigor na Idade Média.

Desse modo, cumpre abordar de início os pontos comuns que, em ambos os séculos, marcam a “distinção modelar” com o período anterior e em seguida abordar um pouco das peculiaridades inerentes a cada um.

Em primeiro lugar, nos dois séculos a noção de sujeito é enfatizada, embora de modos distintos. Tal acento é uma conseqüência lógica do antropocentrismo do período moderno, pois nele o homem é o artífice de princípios universais e o grande mentor das descobertas científicas.
Thomas Hobbes

Seguindo-se ao antropocentrismo, engendrado pela ênfase no sujeito, tem-se agora também (e em ambos os séculos) o acento na razão no processo de conhecimento. No século XVII ela se dá na busca dos princípios universais que expliquem todo o cosmos. No século XVIII ela se mostra como “fiel escudeira” do progresso científico.

Tem-se também um enfoque na noção de movimento. Tal concepção é percebida na ênfase que se dá à atividade secular, ao trabalho, ao avanço da ciência. A mecânica é tratada aqui. Tem-se, por exemplo, o princípio da inércia.

Em ambos ainda a ênfase no objeto na perspectiva do ser é obscura, porquanto fogem afinal das considerações aristotélicas da realidade e das leituras feitas pelos medievais a respeito das mesmas. Por isso, não causa espanto ser Santo Tomás rejeitado com desdém por quase todos os pensadores modernos de ambos os séculos, visto que o mesmo se destaca pelas feições aristotélicas de seu sistema.

Neles percebe-se o gradual declínio da influencia religiosa no modo de ser, de viver e pensar. A razão e a ciência se encarregam gradualmente de dar o sentido da vida humana. Perde-se em muito a noção de teleologia, de finalidade, de sentido da vida. A ênfase agora é sempre na imanência, no tempo, no século, mesmo na perspectiva religiosa (pseudo-reforma, calvinismo...).

John Locke
Mesmo com esse pano de fundo comum que erigimos acima, é importante ressaltar também as diferenças notadas entre os dois séculos, sobretudo na perspectiva filosófica. No século XVII temos o método racionalista em voga. Trabalha-se à base de princípios gerais que expliquem todas as coisas. Tem-se, portanto a dedução como destaque. Aqui figuras como as de Descartes, Espinosa e Leibniz, dentre outros, são lapidares.

No século XVIII a ênfase é na experiência como serva da ciência. Tem-se, portanto o empirismo, com o acento no espírito de investigação e de análise. Destaca-se a indução, com o partir da consideração de fenômenos particulares para só a posteriori se aludir a questões universais. Hoobes e Locke são destaques, embora ainda se enfatizem a figura de Newton e de Descartes (embora não sejam de tal século).

São estas, portanto, as considerações (incipientes) a serem feitas acerca das aproximações e distinções entre os dois séculos indicados no título.

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Virgo Mariae, sedes sapientiae, ora pro nobis!



sábado, 3 de dezembro de 2011

RATZINGER E O MISSAL DE PAULO VI


O então Cardeal Ratzinger



O segundo grande acontecimento no início de meus anos de Ratisbona foi a publicação do missal de Paulo VI, com a interdição quase completa do missal anterior, depois de uma fase de transição de cerca de seis meses. O fato de que, depois de um período de experiências que não raro haviam desfigurado profundamente a liturgia, se voltasse a ter um texto litúrgico obrigatório, devia ser saudado como algo de certamente positivo. Mas fiquei pasmo com a interdição do missal antigo, uma vez que nunca ocorrera algo parecido em toda a história da liturgia.

Deu-se a impressão de que isso fosse completamente normal. O missal anterior fora realizado por Pio V em 1570, dando seqüência ao Concílio de Trento; era, pois, normal que, depois de quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo missal. Mas a verdade histórica é outra. Pio V limitara-se a mandar reelaborar o missal romano então em uso, como no decurso vivo da história sempre ocorrera ao longo de todos os séculos. Não diferentemente dele, também muitos dos seus sucessores haviam novamente reelaborado esse missal, sem nunca contrapor um missal a outro. Sempre se tratou de um processo contínuo de crescimento e de purificação, em que, porém, a continuidade jamais era destruída. 



O então Cardeal Ratzinger celebrando o Rito Tridentino na FSSP 

Não existe um missal de Pio V que tenha sido criado por ele. Existe só a reelaboração por ele ordenada, como fase de um longo processo de crescimento histórico. O novo, depois do Concílio de Trento, tinha outra natureza: a irrupção da reforma protestante ocorrera sobretudo sob a forma de "reformas" litúrgicas. Não havia simplesmente uma Igreja católica e uma Igreja protestante uma ao lado da outra; a divisão da Igreja deu-se quase imperceptivelmente e teve a sua manifestação mais visível e historicamente mais incisiva na mudança da liturgia, que, por sua vez, foi muito diversificada no plano local, tanto que as fronteiras entre o que ainda era católico e o que  não mais o era, muitas vezes eram muito difíceis de definir. Nessa situação de confusão, possibilitada pela falta de uma norma litúrgica unitária e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, o Papa decidiu que o Missale Romanum, o texto litúrgico da cidade de Roma, uma vez que seguramente católico, devia ser introduzido em todos os lugares onde não se pudesse reivindicar uma liturgia que datasse de pelo menos duzentos anos antes. Onde isto ocorria, podia-se conservar a liturgia precedente, dado que o seu caráter católico podia ser considerado certo. Não se pode de fato, pois, falar de um interdito em relação aos missais anteriores e até aquele momento regularmente aprovados. Agora, ao contrário, a promulgação da interdição do missal que se desenvolvera ao longo dos séculos, desde o tempo dos sacramentais da antiga Igreja, implicou uma ruptura na história da liturgia, cujas conseqüências só podiam ser trágicas.

Como já ocorrera muitas vezes antes, era totalmente razoável e estava plenamente em linha com as disposições do Concílio que se chegasse a uma revisão do missal, sobretudo em consideração da introdução das línguas nacionais. Mas naquele momento ocorreu algo mais: fez-se em pedaços o edifício antigo e se costruiu um outro, ainda que com o material de que era feito o edifício antigo e utilizando também os projetos anteriores. Não há nenhuma dúvida de que esse novo missal continha em muitas das suas partes autênticas melhorias e um real enriquecimento, mas o fato de que ele tenha sido apresentado como um edifício novo, contraposto ao que se formara ao longo da história, que se proibisse este último e se fizesse de certo modo a liturgia aparecer não mais como um processo vital, mas como um produto de erudição especializada e de competência jurídica, trouxe-nos danos extremamente graves. 



A chamada "missa afro" 

 Foi assim, de fato, que se desenvolveu a impressão de que a liturgia seja "feita", que não seja algo que existe antes de nós, algo de " dado", mas que dependa das nossas decisões. Segue-se daí, por conseguinte, que não se reconheça esta capacidade decisional só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas, em definitivo, cada "comunidade" queira fazer sua própria liturgia. Mas quando a liturgia se torna algo que cada um faz por si mesmo, ela não nos dá mais aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida.


Virgo Mariae, ora pro nobis!

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Cardeal Ratzinger, A Minha Vida.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O AVANÇO DOS INIMIGOS

 
Rev.  pe. Paulo Ricardo de Azevedo

“Há um grupo que se apossou da “classe falante” e não nos dá direito de falar e expressar nossas opiniões.” (Pe. Paulo Ricardo)

“A sociedade está em crise porque os líderes morais (...) estão calados. Alguém tem de pagar o preço de falar. Mesmo sabendo que, ao falar, a pessoa vai sofrer o martírio dos tempos modernos”. (Pe. Paulo Ricardo)

Nascido em novembro de 1967, o Padre Paulo Ricardo foi ordenado em 1992, pelo Beato João Paulo II. É bacharel em Teologia e mestre em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Membro do Conselho Internacional de Catequese, nomeado pela Santa Sé, pertence à Arquidiocese de Cuiabá (Mato Grosso). É autor de diversos livros e apresentador de programa televisivo.

Segue abaixo parte de uma entrevista concedida por ele ao Jornal de Londrina (JL):

JL: Há uma guerra cultural em curso no Brasil de hoje, à semelhança do conflito que Peter Kreeft identificou na sociedade norte-americana?

Padre Paulo Ricardo: Existe uma guerra cultural incipiente no país. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, a esquerda brasileira conseguiu a hegemonia da mídia. Em todos os âmbitos. Qualquer um que seja oposição só tem um espaço de militância atualmente, que é a internet. Basicamente esse é o espaço que nos concedem – ainda.

A esquerda diz que a revolução só pode ser alcançada se houver um período que a precede, chamado de acumulação de forças. Nós estamos no período de acumulação de forças. Ainda não existe guerra de fato. Guerra supõe exército dos dois lados. O que existe é um exército que invadiu e ocupou o país. Nós temos uma ocupação hegemônica da esquerda. Mas a geração está sendo formada.

O P.e Paulo e alguns formadores do seminário Mater Eclessiae.
Bento XVI, nesse sentido, foi o homem da Providência para a Igreja e para o Brasil. É preciso recomendar que o cardeal Joseph Ratzinger foi o homem que condenou a Teologia da Libertação. Antes, quando se citava o cardeal Ratzinger, tudo quanto era bispo e padre aqui no Brasil dizia que isso era uma “visão radical”. Hoje em dia, cita-se Bento XVI e todos têm que ficar calados, porque não podem dizer que o papa é radical. O papa nos deu carta-branca. Está servindo como escudo para que a gente possa agir.

Dentro do meu ministério, eu sempre tenho como diretriz lutar as lutas que o papa está lutando. De tal forma que o bom católico veja que eu não estou seguindo uma ideologia; eu estou seguindo a fé da Igreja de 2000 anos. A hegemonia esquerdista no Brasil é tal que a pessoa que pretende ser católica se sente um peixe fora d’água. A oposição ao pensamento do papa é tão grande que a maior parte dos jovens se sentiria fora da Igreja. A esquerda católica nos acusa – a nós que somos fiéis a Bento XVI – de estarmos fora da Igreja. Mas já que o papa está ao nosso lado e nós estamos ao lado do papa, eles não podem mais dizer isso.

JL: O senhor sempre diz que no Brasil tenta-se impor uma minoridade social aos católicos. Em que consiste esse processo?

Padre Paulo Ricardo: É a chamada ideologia do Estado laico. Segundo essa ideologia, qualquer pessoa que tenha uma visão religiosa do mundo deve guardá-la para sua vida privada. Para os defensores dessa ideologia, a religiosidade não tem espaço público, não tem cidadania. Uso essa expressão – minoridade – para dizer que nós somos cidadãos brasileiros como os menores de idade. Mas nem todos os nossos direitos são reconhecidos. Os menores de idade não podem votar, não podem dirigir carro, têm direitos e responsabilidades limitadas. 

Há um grupo que se apossou da “classe falante” e não nos dá direito de falar e expressar nossas opiniões – porque nós somos religiosos. O fato é o seguinte: o ateísmo é uma atitude tão religiosa quanto o catolicismo, pois vê o mundo a partir de um prisma religioso, a não-existência de Deus. Não existe alguém indiferente ao problema religioso. Se você varre do espaço público qualquer manifestação religiosa, não está colocando o Estado nas mãos de uma visão religiosamente isenta; você está impondo uma religião que se chama materialismo ateísta. Os ateus não são cidadãos de primeira categoria e nós não somos cidadãos de segunda categoria. Eles são tão cidadãos quanto nós; têm o direito de ser ateus. (sic.) Só que, numa democracia, quem dá o tônus do ambiente cultural é a maioria. A maioria esmagadora da população brasileira é extremamente religiosa. Portanto, nós não temos por que ficar amordaçados por uma minoria de ateus militantes.

(O negrito é nosso) 


Retirado do Blog: O Candango Conservador 

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Regina sacratissimi Rosarii, ora pro nobis!


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

APORIA DE MÊNON: Querela entre Platão e Aristóteles

Platão e Aristóteles



Por: R. G. Santos

INTRODUÇÃO

O texto que se segue tem como objetivo principal instaurar uma compreensão a respeito da relação entre Platão e Aristóteles na perspectiva do conhecimento. Buscaremos compreender o como se dá tal “diálogo” entre os dois filósofos no tocante à compreensão e solução da aporia de Mênon. Ao final perceberemos a solução original dada pelo Estagirita (Aristóteles) que rompe com a noção de conhecimento como “anamnese”, oriunda de Platão.

APORIA DE MÊNON

Muitas das querelas filosóficas desembocam no que se convencionou chamar “aporia”. Esta, nos dizeres de Hegenberg e Silva (2005, p. 34), nos remete a “(...) qualquer dificuldade ou enigma teorético”.

Grande arauto de “querelas” e de “dificuldades” filosóficas fora Platão. Em seus diálogos é lugar comum um ou mais problemas a serem detectados. Dos mais importantes tem-se aquele enunciado no diálogo Mênon.

Ali o fundador da Academia, discutindo questões relativas ao conhecimento, propõe o seguinte: como podemos estabelecer investigação daquilo de que não se tem conhecimento prévio? Em outros termos, para quê investigar acerca do que já se tem conhecimento?

Eis a questão, eis a dificuldade! O conhecimento pode ser adquirido? Pode ser apreendido? Platão concede ao problema uma solução sui generis: Nossa alma, em sentido próprio, não conhece, mas sim rememora. Afinal, a mesma já possuiria conhecimento próprio por ter contemplado toda a realidade em um suposto “Mundo das Idéias”.

Portanto, é-nos necessário – segundo Platão- somente rememorá-lo, por meio do processo chamado “anamnese”. É nesse sentido que se lê no Mênon: “O procurar e o aprender são, no seu total, uma rememoração” (81 d 4).

SOLUÇÃO ARISTOTÉLICA

Aristóteles, discípulo de Platão, vai deter-se de modo especial nessa questão posta no Mênon. Filósofo da “imanência” e “empírico”, forjará uma solução radical da aporia platônica, que ele começa por questionar já no livro I dos Segundos Analíticos¹.

No livro II a questão já é posta diretamente: Nós podemos adquirir o conhecimento dos Primeiros Princípios, ou eles já se encontram em nós, e não sabemos que o possuímos? Em outros termos, podemos assumir ou não a solução proposta por Platão?

O Estagirita começa por não aceitar a solução Platônica. Pontua que a busca do conhecimento deve dar-se na mediação dos sentidos (Santo Tomás de Aquino encontrará aqui vasto horizonte para suas reflexões...). Eles são possíveis aos seres animados, grosso modo, e, sobretudo, aos homens. Aristóteles diz a esse respeito que:

Aristóteles

“É manifesto que não é possível nem que as possuamos, nem que elas nos sejam instiladas na medida em que não temos conhecimento e não possuímos nenhuma disposição. Ora, é necessário então dispor de alguma capacidade, mas não uma capacidade tal, que, pela exatidão, fosse mais valorosa do que essas habilitações. E isso, ao menos, manifestamente encontra-se em todos os animais. Pois eles possuem uma capacidade discriminativa inata. à qual se chama sensação. E, havendo sensação neles, em alguns dos animais se instila assentamento do que foi percebido, mas em outros não se instila. Assim, para todos os animais em que não se instila - não há conhecimento fora do sentir; ao passo que, nos animais em que se instila, é possível, na medida em que sentem, reter (o conhecimento) ainda na alma”² (99b30-41).


A partir das sensações forma-se a experiência que é retida na alma pela faculdade da memória. Por meio da recordação múltipla das impressões de dados objetos semelhantes forma-se o universal³.

Acerca do universal, Aristóteles vai dizer que o mesmo não é alcançável por virtude de uma rememoração, por já se encontrar previamente disponível na alma
 (aporia platônica no Mênon). Tais noções surgem em nós “a partir da sensação”que advêm do contato com os particulares.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estas são, portanto, as reflexões que julgamos mister fazer na presente questão. Vimos que a solução platônica é superada pela proposta aristotélica de um acesso ao conhecimento na mediação da sensação. Tal conhecimento é adquirido e não preexistente no sujeito.

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NOTAS:

1 Cf. 71 a 30

2 Negrito nosso

3 Cf. 100 a 3-6  

REFERÊNCIAS :

ARISTÓTELES. Segundos Analíticos. Trad. Lucas Angioni. Cadernos de Tradução n. 4. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2002.

HEGENBERG, Leonidas, SILVA, Mariluze Ferreira de Andrade. Novo dicionário de lógica. Rio de Janeiro: Pós-Moderno, 2005.

PLATÃO. Mênon. Trad. Maura Iglésias. 3ª Ed. São Paulo: Loyola, 2005.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

LAICISMO: Marsílio de Pádua e Ockham

Marsílio de Pádua
Guilherme de Ockham



Por R. G. Santos

INTRODUÇÃO

Ao estudarmos a filosofia medieval constatamos ser a mesma um mosaico de concepções. Em outros termos, muitos são os pressupostos forjados nesse período para o entendimento da vida social.

Dentro desta perspectiva, destacam-se dois pensadores que, cada um a seu modo, elaboraram reflexões cujas conseqüências rompem radicalmente com o modelo de pensamento político vigente. São eles Guilherme de Ockhan e Marsílio de Pádua.

Nesse sentido, o objetivo do texto é, sobretudo, compreender o modo como cada um deles rompe com uma idéia política amparada na noção de cristandade rumo ao chamado laicismo.

Ao fim e ao cabo, perceber-se-á o vigor da radicalidade de nossos autores ao pensarem a realidade política destituída de influências eclesiásticas e religiosas.


MARSÍLIO DE PÁDUA

Nossa primeira consideração se deterá no pensamento de Marsílio de Pádua. Nesse italiano se tem um espírito imbuído pela crítica e pelas distinções, sobretudo, em matéria política. Separará a razão da fé, influenciará posteriormente muitos arautos da modernidade e desta será, em certo sentido, um claro prelúdio.

Marsílio de Pádua
Em Marsílio se encontra um acento positivo do homem. Esse, aqui entendido, é capaz de, por si, praticar atos concretos: tanto na esfera individual como na política. É aqui que encontramos o ponto nevrálgico de sua concepção política: a cidade pode se auto-sustentar. Pode forjar mecanismos capazes de fomentar o viver, e o viver bem.

Em outros termos, cada cidadão, tanto na esfera individual da vida como na grupal ou coletiva, pode criar mecanismos de vida feliz e mais: sem uma intervenção, mesmo tácita, da Igreja.

Já há aqui um redimensionamento da influência política da religião: ela se torna uma peça a mais no “quebra–cabeças” da construção citadina. Tem sua vigência e seu valor na medida em que incute nos homens valores e virtudes que os façam melhores. Isso redundará em benefícios para a sociedade.

Eis a contribuição da religião, entendida em acentos claramente funcionais. Seu discurso e sua alçada remetem única e propriamente ao além. Assuntos relativos à lei e ao Estado não se encontram na esfera de sua influência.

Como conseqüência disso que apontamos, tem-se a valorização do povo e de sua soberania, além do próprio Estado.


GUILHERME DE OCKHAM

Seguindo os delineamentos traçados outrora por Marsílio, temos a reflexão de Guilherme de Ockham. Franciscano “radical”, também aventa idéias inovadoras para seu tempo: em matérias filosóficas, políticas e eclesiásticas numa perspectiva “crítico-contestatória”.

Guilherme de Ockham
Nosso autor proporá o divórcio- segundo ele necessário- entre a razão e a fé. Ambas, de acordo com nosso ilustre frade, podem “render melhor” se forem concebidas em seus respectivos âmbitos.

Acompanhando esse primeiro divórcio, tem-se também um simultâneo rompimento entre a alçada civil e a eclesiástico-religiosa. Percebendo que o modelo de cristandade redundaria concretamente em ingerências e confusões (sobretudo por parte da autoridade religiosa), propõe a separação das esferas supracitadas. As coisas da fé são as coisas da fé. As coisas da política são as da política. Em termos bíblicos, “dar a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”.

Percebe-se aqui que o poder temporal torna-se autônomo e soberano em seus domínios e competências. O governante tem suas prerrogativas de governo dadas diretamente por Deus, não necessitando da chancela do representante maior da Igreja, o papa.

Sobre o pontífice, Ockham irá tecer algumas considerações polêmicas.Não obstante o intento que persegue ao reduzir a amplitude de sua influência na sociedade, Ockham acaba por mitigar suas prerrogativas intra muros eclesiae (dentro dos muros da Igreja). Isso se dá, sobretudo, quando propõe a democracia na escolha do sucessor de Pedro, dando uma valorização maior do povo cristão em tal processo.

O enredo da crítica ao papado, dessa maneira, seria o combate à ênfase excessiva no próprio alcance dos atributos papais. É aqui que se entende a crítica à “plenitude do poder”. Nem na sociedade temporal, nem na eclesiástico-espiritual o poder exercido pelo papa se dá de modo correto.

CONCLUSÃO

Diante de tudo o que pontuamos, podemos definir uma conseqüência quase que evidente: a Igreja, e por tabela o papa, devem perder gradualmente sua influência na sociedade. Mais: quando a perspectiva cristã deixa de dar o tom nas instituições e até de moldá-las, dá-se largas ao laicismo: esse modus vivendi que relativiza, por assim dizer, a relevância do discurso religioso como definidor mor dos rumos do caminhar sócio-político.

São estas, portanto, as considerações que julgamos mister fazer a respeito desses autores, que ainda no medievo preparam o surgimento da modernidade.

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OBRAS CONSULTADAS


OCKHAM, Guilherme. Obras Políticas. Trad. José Antônio C.R. Souza. Porto Alegre: EDIPUCRS/USF, 1999. 

PÁDUA, Marsílio de. O defensor da paz. Trad. José Antônio C.R.Souza. Petrópolis: Vozes, 1995.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

“A CORRUPÇÃO PRECISA DE VOCÊ!”





Por: Prof. Pedro M. da Cruz

Essa é Boa! Os senhores se lembram das vassouras¹ que foram colocadas na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional, como ato simbólico de um certo Movimento²? Pois é, parte delas foram FURTADAS!(risos, risos e mais risos, para não chorar, claro!) Meu Deus, em que mundo estamos...

Só para recordar: simbolizando o combate à corrupção, 594 vassouras ( número correspondente ao total de deputados e senadores) foram fincadas, no dia 27 de setembro deste ano, no gramado da Esplanada, em Brasília. Ora, na tarde do dia 28, organizadores do protesto levaram a maioria das vassouras para serem distribuídas aos parlamentares. Até aí, tudo bem!O que, porém, mais chamou a atenção foi o fato de mais ou menos cinqüenta delas, que haviam ficado no gramado, terem sido levadas por “Deus sabe quem!”. Quanta degradação!

Percebamos que, se atos de corrupção existem na Política nacional, é devido ao fato de antes mesmo já haverem sido gestados numa sociedade onde a ilegalidade é vista por muitos como parte integrante da paisagem natural. Millôr Fernandes, por exemplo, em um de seus conhecidos cartuns, fez interessante ironia com referência a essa triste realidade. Escreveu: “Jovem, cumpra seu dever: a corrupção precisa de você!”

Que a coisa já esteja largada, não é novidade para ninguém. Vemos pelo Brasil desde Políticos usando dinheiro público para manter funcionários particulares³, até desembargadores afastados pelo CNJ sob acusação de desvio de verbas de Tribunal de Justiça para financiar obra da Maçonaria. Razão tinha a Corregedora Eliana Calmon, que a respeito da Magistratura afirmara haver “bandidos atrás das togas.”...

Alguns parlamentares saíram  para pegar as suas vassouras.

Terminemos este artigo com uma questão “maldosa” levantada por alguém: “Mas, quem roubou as vassouras, afinal de contas? Creio que tenham sido os políticos... para limparem a política nacional, óbvio!".


Maria Santíssima, rogai por nós!


NOTAS:
1 Folha de São Paulo. Poder, A12. Quinta-Feira, 29 de setembro de 2011.
2 O Objetivo do ato, que ocorreu em praia do Rio de janeiro na semana passada, era pedir ações contra a corrupção.
3 Por exemplo, entre outros, o Senador Alfredo Nascimento do PR; Pedro Novais do PMDB-MA(que gastou parte do dinheiro até mesmo em festinha particular num Motel, apesar da Idade); e Arnaldo Jardim do PPS.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ATENÇÃO! UMA COISA IMPRESSIONANTE!

Atual catedral de Belo Horizonte

“Até vocês vão me abandonar?” (Jo. 6,67)

“O ladrão vem para roubar, matar e destruir” (Jo.10,10)
 
Por Prof. Pedro Maria da Cruz 

Norte do Paraná. O Pe. Francisco Adami está desolado, “depenaram” sua Igreja. A porta de entrada é mera formalidade na capela de São Jorge, zona rural de Cambira. É mais fácil entrar pelas laterais, uma vez que as paredes de Peroba foram roubadas.

Foi-se o tempo em que ainda respeitavam a Casa de Deus...

Além da porta de entrada sobraram o telhado, as janelas e algumas paredes secundárias. “Aquilo foi uma coisa incrível!” afirmou o Padre Adami, 72 anos.

Detalhe: até então, o presbítero não sabia o quão valioso era o material com que fora construída a Capela. Assustado, levantou uma interrogação: “Quem é que vai cuidar para que não venham mais ladrões?” 1

Projeto da nova catedral de Belo Horizonte
Esse fato nos remete à atual situação em que se encontra a Igreja pós-conciliar...

“Roubaram” nossos confessionários. “Roubaram” nossas imagens. “Roubaram” nossos atos de piedade e, até mesmo, um rito multissecular, a Missa de São Pio V.

Desfiguraram nossa música. Quem ainda ouve Polifonia Sacra ou Canto Gregoriano? O barulho em nossas celebrações mais remetem a cultos neo-pentecostais que à sublimidade da Corte Celeste.

“Depenaram” nossos padres... agora, alguns deles chegaram ao cúmulo de usarem Shorts e Camiseta no atendimento paroquial.

Olhem a arquitetura de nossos templos! Muitas capelas serviriam de meros galpões ou salas de conferências para o MST.

E haveria tantas coisas para citar...

O fato, é que muitos sacerdotes não reconhecem o valor de todo o patrimônio da Igreja. Por isso, em sua ignorância, deixam desprotegidos riquíssimos tesouros da tradição cristã; sendo assim, não é de se estranhar que venham ladrões e roubem nossos bens.

A pergunta do sacerdote não deveria ser “Quem vai cuidar para que não venham mais ladrões?”, mas, sim “Como cuidarei...”. Lembremos de nossa responsabilidade individual. É obrigação de todo batizado a defesa do patrimônio eclesiástico, seja material ou espiritual.

Por fim, façamos uma última constatação: Enquanto homens se perdem numa “vidinha egoísta”, os malvados saqueiam a Casa de Deus; e, na tentativa de reformá-la, outros colocam nos lugares vazios um sem número de materiais indevidos.

No lugar da Oração Tradicional alguns colocaram sons desconexos, batizando-os de “oração em línguas”. Ora, já que poucos rezavam muito e muitos desses poucos rezavam mal, o melhor foi inventar uma pseudo-oração angélica acessível a todos. Generalizou-se verdadeira “anarquia pneumática” (Cardeal Ratzinger).

No lugar da penumbra mística tão fecunda em nossas Igrejas tradicionais, instalaram holofotes. Agora, padres sobem no presbitério ao som de marchinhas e aplausos entusiásticos de uma assembléia que não sabe recitar os dez mandamentos. Mas, sabe dançar! E, como tem dançado...

Baterias, Guitarras e Baixos ocuparam o lugar dos órgãos... Sobriedade não agrada mais às novas gerações tão acostumadas a boates e baladas noturnas. Os velhos que se acostumem... liturgia é festa! Cristo Ressuscitou! Talvez, por isso tenham tirado, inclusive, os crucifixos das Igrejas... Afinal, já tiraram até mesmo de lugares públicos! É o inocente laicismo realizando seus objetivos mais secretos e difusos...

Catedral de Nossa Senhora da boa viagem- Belo Horizonte
No lugar dos confessionários, colocaram salas de bate-papo. Claro! Confissão é conversa entre amigos! Além do mais, as salas de bate-papo da internet têm “bombado”. Isso é um sinal dos tempos!(Sim, mas de que tempos!)

E no lugar dos Padres? Leigos, claro! É o “mea culpa” da Igreja por tanta centralização Hierárquica. No mais, todo mundo é sacerdote! O catolicismo mudou! Viva os novos tempos! Viva a nova Igreja! Limpemo-nos do último lodo que nos prende ao passado: talvez ele seja o papado...

No lugar de Roma, a CNBB.

E, no lugar de Deus? O Homem!

Não há mais nada para citarmos... Agora, diga-nos, caro leitor, o que se pode concluir dessa triste situação? Que esse artigo, apesar de sua informalidade, nos sirva para reflexão.

Maria Santíssima, rogai por nós! 

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1- Folha de São Paulo, Cotidiano C4, 21 de Agosto/2011.