quarta-feira, 1 de junho de 2011

"Cardeal kurt Koch: "Bento XVI bem sabe..."



Apresentamos abaixo os principais excertos da conferência pronunciada pelo Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos,  no congresso Summorum Pontificum, em Roma, no último sábado, publicados no Osservatore Romano. Na mesma conferência, acrescenta Messa in Latino, o Cardeal se referiu jocosamente à mudança de posicionamento dos altares no pós-concílio: “Não ocorre que ninguém jamais tenha lamentado o fato de um motorista de ônibus olhar para a estrada e dar as costas aos passageiros!”.
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Do antigo rito, uma ponte para o Ecumenismo.

“Uma esperança para toda a Igreja” é o título do III congresso sobre o motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI que ocorreu hoje, sábado, 14 de maio, junto à Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino, do qual participaram, entre outros, o Cardeal Antônio Cañizares Llovera, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, o Cardeal Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e o Secretário da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”.



Cardeal Kurt Koch no Congresso Summorum Pontificum de 2011. Foto: Messa in Latino.
“A reforma da Liturgia não pode ser uma revolução. Essa deve tentar colher o verdadeiro sentido e a estrutura fundamental dos ritos transmitidos pela Tradição e, valorizando prudentemente o que já está presente, devendo-o desenvolver  ulteriormente de maneira orgânica, indo ao encontro das exigências pastorais de uma liturgia vital”. Com estas palavras iluminadoras, o grande liturgista Josef Andreas Jungmann comentou o artigo 23 da constituição sobre a sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II, onde são indicados os ideais que “devem servir de critério para toda reforma litúrgica”e sobre os quais Jungmann disse: “São os mesmos que foram seguidos por todos aqueles que com acuidade pediram a renovação litúrgica”. Diversamente, o liturgista Emil Lengeling afirmou que a constituição do Concílio ensinou o “fim da idade media na Liturgia e operou uma revolução copernicana na compreensão e na práxis litúrgica”.
Eis aqui mencionadas as duas faces interpretativas e opostas, que constituem o ponto crucial da controvérsia desenvolvida em torno da Liturgia depois do Concílio Vaticano II: a reforma Litúrgica pós-conciliar deve ser tomada como “re-forma” no sentido de um retorno à forma originária e, portanto, como ulterior fase ao interior de um desenvolvimento orgânico da Liturgia, ou esta reforma vai entendida como uma ruptura com toda a tradição católica e mesmo a ruptura mais evidente que o Concílio tenha realizado, ou seja, como a criação de uma nova forma?
O fato que os padres conciliares entendessem a reforma somente no sentido da primeira afirmação foi mostrado profundamente por Alcuin Reid. Todavia, em amplos círculos no interior da Igreja Católica se impôs cada vez mais a segunda impostação, que vê na reforma litúrgica uma ruptura radical com a Tradição e quer mesmo promovê-la. Este desenvolvimento conduziu, na compreensão e na prática litúrgica, a novos dualismos.
É certo que o Motu próprio poderá dar passos avante no ecumenismo somente se as duas formas do único Rito Romano, nele mencionado, ou seja, a forma ordinária de 1970 e a extraordinária de 1962, não forem consideradas como uma antítese, mas como um mútuo enriquecimento.  Porque o problema ecumênico se encerra nesta questão hermenêutica fundamental.
Um primeiro dualismo afirma que antes do Concílio a Santa Missa era entendida sobretudo como sacrifício e que depois do Concílio ela foi redescoberta como ceia comum. No passado naturalmente se falou da Eucaristia como de um “sacrifício da Missa”. Hoje, porém, este aspecto não somente é menos conhecido, mas foi até mesmo deixado de lado ou simplesmente esquecido.
Nenhuma dimensão do mistério eucarístico se tornou tanto contestada depois do Concílio Vaticano II quanto a definição da Eucaristia como sacrifício, seja como sacrifício de Jesus Cristo, seja como sacrifício da Igreja, ao ponto que este conteúdo fundamental da fé católica acabe completamente no esquecimento. Contra tal dualismo, o  Catecismo da Igreja Católica mantém unido o que é indivisível: “A Missa é ao mesmo tempo e inseparavelmente o memorial do sacrifício no qual se perpetua o sacrifício da Cruz, e o sagrado banquete da comunhão no Corpo e Sangue do Senhor”.
Um ulterior dualismo em torno do qual tende a polarizar-se a visão de uma liturgia pré-conciliar e de uma pós-conciliar sustenta que, antes do Concílio, era somente o sacerdote o sujeito da liturgia, enquanto que depois do Concílio, a assembléia foi elevada ao papel de honra de sujeito da celebração litúrgica. É certo e indiscutível que, no curso da história, o papel originário de todos os fiéis como co-sujeitos da liturgia foi pouco a pouco diminuindo e que o ofício divino comunitário da Igreja Primitiva, no sentido de uma liturgia que via partícipe a inteira comunidade tenha assumido sempre mais o caráter de uma missa privada do clero. A existência de uma continuidade de fundo entre a liturgia antiga e a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II transparece da ampla e profunda visão da Constituição Litúrgica, segundo a qual o culto público e integral é exercitado “pelo Corpo Místico de Jesus Cristo, isto é, pela Cabeça e membros” e toda celebração litúrgica deve portanto ser considerada como “obra de Cristo Sacerdote e do seu corpo, que é a Igreja”. O Catecismo acrescenta depois: “alguns fiéis são ordenados mediante o sacramento da Ordem para representar Cristo como Cabeça do Corpo”.
À luz do primado cristológico deveria ser evidente que a liturgia cristã encontra o seu sentido mais profundo na glorificação e na adoração do Deus Trino e, portanto, na santificação dos homens. Também esta dimensão fundamental da liturgia se tronou vítima de um ulterior dualismo no Período pós-conciliar, ou seja, foi sempre mais absorvida pelo conceito de participação. Aqui se trata, porém, de uma falsa contraposição. Nós podemos e devemos comer o alimento eucarístico também com os olhos e penetrar assim no mistério eucarístico, a fim de que ele depois se revele plenamente no comer o Corpo do Senhor e beber seu Sangue. Mesmo Santo Agostinho gostava de sublinhar que ninguém deve comer “desta Carne” se antes não a adorou: “Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoravit”.
Entre a liturgia antiga e a reforma pós-conciliar não há ruptura radical, mas uma continuidade de fundo. Somente sob essa luz é possível compreender o Motu próprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI. O Santo Padre não entende a história litúrgica como uma série de rupturas, mas como um processo orgânico de crescimento, de maturação e auto-purificação no qual, naturalmente, se podem verificar desenvolvimentos e progressos sem que continuidade e identidade sejam destruídas. Para o Papa, portanto, não pode haver uma contraposição entre a liturgia de 1962 e a liturgia reformada pós-conciliar. Em contraste com esta clara visão de desenvolvimento orgânico,  a reforma conciliar é considerada em amplos círculos da Igreja Católica como uma ruptura com a tradição e uma nova criação; essa gerou uma controvérsia sobre a liturgia que, vivida emocionalmente, continua ainda hoje a fazer-se ouvir. Com o motu próprio Summorum Pontificum, Papa Bento XVI quis contribuir à resolução de tal disputa e à reconciliação no interior da Igreja. O motu proprio promove, de fato, se assim se pode dizer, um “ecumenismo intra-católico”. Mas isto pressupõe que a antiga liturgia antiga seja entendida também como uma “ponte-ecumênica”. De fato, se o ecumenismo intra-católico falha, a controvérsia católica sobre a liturgia se estenderá também ao ecumenismo e a liturgia antiga não poderá desenvolver a sua função ecumênica de construir pontes.
Mesmo que o motu proprio queira favorecer a paz intra-eclesial, não seria justo vê-lo somente como uma concessão aos católicos que propendem à liturgia antiga, como a Fraternidade Sacerdotal São Pedro ou os seguidores do Arcebispo Marcel Lefebvre. O Papa Bento XVI está convicto que a forma extraordinária do rito romano seja um patrimônio precioso que não deve ser relegado ao passado, mas que deve ser acessível também no presente como no futuro,como sublinhou na carta que acompanhou o motu proprio: “Isto que para as gerações anteriores era sagrado, também para nós permanece sagrado, e não pode ser repentinamente totalmente proibido ou, mesmo, julgado como danoso. Nos faz bem a todos conservar as riquezas que cresceram na fé e da oração da Igreja, e lhes dar o justo lugar”.
Isto revela claramente qual é a intenção que anima o motu próprio. O Papa retém que hoje é indispensável um novo movimento litúrgico, que no passado ele definiu como uma “reforma da reforma” da liturgia. O Santo Padre, de fato, é do parecer que a reforma litúrgica pós-conciliar tenha trazido muitos frutos positivos, mas que também os desenvolvimentos litúrgicos do pós-Concílio apresentem também muitas zonas de sombra, devidas em grande parte ao fato que: “o conceito de mistério pascal do Concílio não foi suficientemente mantido presente”: “Se parou em demasia em muitos aspectos puramente práticos, correndo o risco de perder de vista o essencial”. Eis porque é licito perguntar-se, de modo crítico, se na reforma litúrgica pós-conciliar foram verdadeiramente realizados todos os desejos dos padres conciliares, ou se, sob diversos aspectos, as afirmações fundamentais da constituição sobre a sagrada liturgia permaneceram não cumpridas ou mesmo se, nos desenvolvimentos litúrgicos do pós-Concílio se tenha ido intencionalmente além de tais afirmações. Que seja não só legítimo mas também apropriado fazer uma distinção entre a constituição sobre a sagrada liturgia, a reforma litúrgica pós-conciliar e os sucessivos desenvolvimentos litúrgicos é provado pelo fato que os próprios Teólogos que se empenharam no movimento litúrgico ou que tinham participado nos trabalhos do Concílio se tornaram logo sérios críticos dos desenvolvimentos litúrgicos pós-conciliares.
A partir daqui transparece também o sentido mais profundo da reforma da reforma iniciada pelo Papa Bento XVI com o motu próprio: assim como o Concílio Vaticano II foi precedido por um movimento litúrgico, cujos frutos maduros foram levados para o seio da constituição sobre a sagrada liturgia, também hoje há necessidade de um novo movimento litúrgico, que se proponha como objetivo, o de fazer frutificar o verdadeiro patrimônio do Concílio Vaticano II na atual situação da Igreja, consolidando ao mesmo tempo, os fundamentos teológicos da liturgia. Para fazer isto é necessário não somente a revitalização do primado cristológico, da dimensão cósmica e do caráter latrêutico da liturgia, mas também, e sobretudo, a redescoberta do significado basilar do mistério pascal na celebração da liturgia cristã.
Deste novo movimento litúrgico, o motu proprio constitui somente o início. Bento XVI, de fato, bem sabe que, a longo termo, não podemos permanecer numa coexistência entre a forma ordinária e a forma extraordinária do rito romano, mas que a Igreja terá novamente necessidade no futuro de um rito comum. Todavia, porque uma nova reforma litúrgica não pode ser decidida sobre uma mesa de escritório, mas requer um processo de crescimento e de purificação, o Papa para o momento sublinha sobretudo que as duas formas do uso do rito romano podem e devem se enriquecer mutuamente. Ele indica também como: “Na celebração da missa segundo o missal de Paulo VI poderá manifestar-se, de maneira mais forte do que o é agora, aquela sacralidade que atrai muitos ao antigo uso. A garantia mais segura que o missal de Paulo VI possa unir as comunidades paroquiais e seja por eles amado consiste no celebrar com grande reverência em conformidade com as prescrições, o que torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste missal”.
Aqueles que, ao contrário, refutam o postulado de um novo movimento litúrgico e vêem no motu próprio um passo atrás com respeito ao Vaticano II, verossimilmente entendem a reforma litúrgica pós-conciliar como um ponto de chegada, que deve ser defendido com todas as forças, segundo o rígido conservadorismo de muitos progressistas. Esses não somente não consideram os desenvolvimentos históricos da liturgia como um processo orgânico de crescimento e de maturação, mas rejeitam também a hermenêutica da reforma solicitada por Bento XVI para a interpretação do Concílio Vaticano II. Preferem, de fato, sustentar a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, considerada inadequada pelo Papa, aplicando-a, sobretudo, ao campo da liturgia e do ecumenismo. Também o decreto sobre o ecumenismo tem, de fato, assinalado um novo início nas relações entre a Igreja Católica, as Igrejas e as Comunidades eclesiais não católicas. Mas nem mesmo esta nova reviravolta ecumênica comportou uma ruptura com a tradição, como mostra o simples fato que não seria nunca possível se no período pré-conciliar não fossem já presentes, no seu estado embrionário, também no interior da Igreja Católica.
Aflora, assim, a real importância ecumênica do motu próprio Summorum Pontificum. Posto que Bento XVI não aplicou simplesmente a hermenêutica da reforma somente à liturgia, mas solicitou esta hermenêutica, em primeiro lugar, justamente, para a constituição conciliar sobre a sagrada liturgia. É precisamente neste campo que aparecem com clareza os dois diversos tipos de hermenêutica que podem ser seguidos: a hermenêutica da reforma, que toma consciência de desenvolvimentos e progressos, mas que vê uma continuidade de fundo com a tradição; ou a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, que contrapõe liturgia e portanto também a Igreja, pré-conciliar e a liturgia e a Igreja pós-conciliar e rescinde o ligame com a tradição. É justamente aqui que reside a questão fundamental para o futuro da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, para a credibilidade do seu ecumenismo. Também neste sentido o motu proprio Summorum Pontificum se revela importante em nível ecumênico verdadeiramente sólido, somente se ele é, antes de tudo, percebido e recebido como “uma esperança para toda a Igreja”.
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Kurt Koch
Tradução: Pe. Samuel Pereira Viana, a quem agradecemos a gentileza.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

ROCK IN RIO: “QUE BUSCAIS?”


“(...) tu me amas mais do que estes?” (Jo. 21,15)


Por Prof. Pedro M. da Cruz

Certo jornal notificou o “corre-corre” de grande massa da juventude por um “lugarzinho ao sol” durante o Rock in Rio que está para acontecer.
Pouco antes havia lido sobre as incoerências paquistanesas.
O sangue heróico que corre numa África pró-democracia.
Lances diplomáticos de potências atuais.
A insegurança ocidental pelo avanço gigantesco da economia chinesa...
Entre muitas outras coisas que tanto falam à alma católica.
Pensei: “Talvez o som frenético das baterias e guitarras me fizesse um pouco mais insensível a tanta dor...” Entretanto,  palavras do Evangelho gritaram  à minha consciência:
“Cruz”
“Cálice”
“Compaixão”...
Ato contínuo, outros pensamentos vieram entreter o meu interior. Com o olhar perdido no jardim à minha frente, comecei a divagar...
“Tradicional local de eventos foi alugado pela Igreja Católica. Motivo? Ali será exposto o Santíssimo Sacramento para adoração pública entre os dias 23 de Setembro e 2 de Outubro.
Devido à imensa procura, as autoridades eclesiásticas julgaram por bem a venda de ingressos; deste modo, acreditam, conseguirão evitar uma aglomeração insuportável.
Uma multidão de jovens – aqui, caro leitor, meus olhos encheram-se de lágrimas e senti apertado o meu coração – passou a madrugada em um dos locais de vendas para a compra de ingressos. A fila chegou a meio quilômetro de extensão. Já estão esgotadas as entradas para os dias 23 e 24 de Setembro e a perspectiva é de que todos os ingressos acabem até a próxima sexta-feira. As vendas pela internet duraram apenas 40 horas.
 A partir de hoje, a compra de ingressos só ocorrerá na Cúria Diocesana.  Dezesseis mil pessoas foram computadas na  tarde de ontem em apenas uma das filas.

Virgem Maria, rogai por nós!

terça-feira, 3 de maio de 2011

O SOL NASCENTE

Nascer do Sol - Registrado nas altas serras da Cidade de Montes Claros/MG. Por Renato Cesar

Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, 
que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente. Lc 1,78


Por Renato Cesar

     Como fotógrafo, diante do espetáculo que a natureza nos proporciona todos os dias, e que muitas vezes passa-se desapercebido, não poderia deixar de registrar o sol nascente,. criatura esta, comparada com a pessoa de Cristo Bendito, criatura mais amada por São Francisco, justamente pelo seu esplendor, maestria e força monumental capaz de cobrir toda a terra, onde se enfatiza ainda o quão maior  é seu Criador e Senhor. Um espetáculo como esse, visto das altas serras de nossa Cidade mineira, Montes Claros, alimenta nosso desejo pelo belo, pelo verdadeiro, pelo justo, pelo soberano Senhor.
     Como São Francisco louvemos  a Deus, maestro e verdadeiro artista, que tão grandes obras fez em nosso favor:

Cântico do Irmão Sol

Altíssimo, onipotente e bom Senhor, a ti subam os louvores, a glória e a honra e todas as bênçãos!
A ti somente, Altíssimo, eles são devidos, e nenhum homem é sequer digno de dizer teu nome.

Louvado sejas, Senhor meu, junto com todas tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que é o dia e nos dá a luz em teu nome
.
Pois ele é belo e radioso com grande esplendor, e é teu símbolo, Altíssimo
.
Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã lua e as estrelas, as quais formaste claras, preciosas e belas.

Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão vento, e pelo ar, pelas nuvens e o céu claro, e por todos os tempos, pelos quais dás às tuas criaturas sustento.

Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão fogo, por cujo meio a noite alumias, ele que é formoso e alegre e robusto e forte.

Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã, nossa mãe, a terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas.

Louvado sejas, Senhor meu, por aqueles que perdoam por amor a ti e suportam enfermidades e atribulações.

Benditos aqueles que sustentam a paz, pois serão por ti, Altíssimo, coroados.

Louvado sejas, Senhor meu, por nossa irmã, a morte corpórea, da qual nenhum homem vivo pode fugir
.
Pobres dos que morrem em pecado mortal! e benditos quem a morte encontrar conformes à tua santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal
.
Louvai todos vós e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe graças, e o servi com grande humildade!
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Fonte: Assis, Francisco de. Canticum Fratris Solis vel Laudes Creaturarum. Portal dos Capuchinhos de São Paulo, Brasil

 

terça-feira, 26 de abril de 2011

A VIDA ETERNA




Por João Soares Jr.

As pessoas não deveriam morrer, nunca. Esta vida aqui na terra poderia ser eterna e saudades é um sentimento que não deveria existir, pois a presença vital de quem gostamos jamais deveria nos deixar_ desabafo íntimo.
A dor moral de perca é sempre maior do que imaginamos. Mesmo racionalmente sabendo de nossa vulnerabilidade, não há nada pior nesta vida. Sim, o pior da Vida é a morte. Quem nunca sofreu a perca de um ente querido? Quem não teme perder um ente querido? O espaço que um ser humano preenche neste mundo é único e insubstituível e, às vezes, só próximos dele podemos notar. Pena, mais ainda, quando o perdermos e fica tão notável aquela constatação por causa do vazio que ficou onde uma pessoa preenchia. A nossa humanidade barra neste drama, paradigma, limitação. Mistério? Seja o que for, há um ditado popular que diz que "há jeito pra tudo menos pra morte". Verdade, em partes.
Nossa sede de transcendência tem muitos motivos de existir, desde aquela inquietação da graça divina no homem a qual se referia Santo Agostinho: "Tu nos fizeste para ti [Senhor] e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em ti", a uma simples constatação lógica de que algo bom demais como a Vida inteligente neste planeta não fora obra do "acaso". Mas, poucas coisas nos instigam tanto à transcendência quanto a morte, ou, a vida após a morte. Diversas religiões ou filosofias têm suas maneiras próprias de dar uma resposta a este mistério, não entraremos no mérito delas, porém, apenas no cristianismo este drama fora, de fato, vencido. Cristo, mesmo sendo Deus, quisera passar pela condição humana, não escapara da morte, e que morte (a mais dramática de todos os tempos). E quando os seus ainda choravam a perca, o triunfo, Cristo Ressuscitou ao terceiro dia, num corpo glorioso! Vencera a morte.
Um piedoso sacerdote, Pe. Henrique, capelão do Carmelo em Montes Claros-MG, dissera em homilia na sexta feira da paixão que "O dia mais importante de nossa vida é o dia de nossa morte", palavras muito felizes. Para o Cristão, a morte é o começo para a Vida definitiva ou para o julgamento (Jo5,29). Não há nada mais esperado do que ir ao encontro de quem se ama. E a quem mais se deve amar? A Deus. O dia mais importante da vida é o dia da morte porque vamos ao encontro do Senhor, felizes os que estiverem preparados para se encontrar com Ele, face a face. Felizes também quem souber amar aqui aos seus enquanto estiverem presentes.

"Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro" (Fl 1,21). "Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos" (2Tm 1,11).

A data em que começo a escrever este texto é 23 de abril, sábado de aleluia de 2011, hoje me solidarizo em profundas condolências com uma família de amigos que ha dois dias perdera repentinamente duas entes queridas. Sábado de aleluia é conhecido também como o dia de espera, a espera da Ressurreição de Cristo que se celebra no Domingo. Percebe-se que nesta vida aqui na terra vivemos como num "constante sábado de aleluia", a espera de nos encontrarmos um dia com nossos entes que tanto amamos e que se foram desta para outra bem melhor. Mas na certeza da Ressurreição, pois o Cristo ressuscitou, como primícias dos que adormeceram (1Cor15,23-26) e nos abriu as portas para a Vida eterna. Aleluia.



FELIZ PÁSCOA!


quarta-feira, 20 de abril de 2011

A PAIXÃO CORPORAL DE JESUS





Por Dr.Pierre Barbet

Escrevi esta meditação na festa da Circuncisão de 1940. Se ainda existe uma lenda firmemente ancorada no espírito humano, essa é a da dureza do coração dos cirurgiões; o exercício, não é verdade? Amortece as sensações e este costume reforçado pela necessidade de um mal por um bem, nos coloca em um estado de serena insensibilidade. Isto é falso! Se nos enrijecemos contra a emoção que não deve nem aparecer, nem ainda, quando interior, entravar o ato cirúrgico (como o boxeador que, instintivamente, contra o epigastro, quando espera um sou), a compaixão nos fica sempre viva e até se refina com a idade. Quando já alguém esteve inclinado durante anos sobre o sofrimento de outrem e quando já experimentou por si mesmo, está certamente mais perto da indiferença, porque conhece melhor a dor, porque conhece melhor a causa e os efeitos.
Assim pois, um cirurgião que já tenha meditado sobre os sofrimentos da Paixão, que já lhe tenha analisado os tempos e as circunstâncias fisiológicas, que já se tenha aplicado a reconstituir metodicamente todas as etapas desse martírio de uma noite e de um dia, poderá melhor que o pregador mais eloqüente, melhor que o mais santo dos ascetas (deixando de lado os que disso tiveram diretas visões, e esses se aniquilavam com elas), compadecer, i. é, padecer com os sofrimentos de Cristo. E vos posso assegurar que é penosíssimo. Quanto a mim, cheguei ao ponto de nem sequer ousar pensar neles. É fraqueza, sem dúvida alguma, mas creio que será necessário ter uma virtude heróica ou nada compreender de tudo isto, que se deve ser um santo ou um inconsciente par fazer uma Via-Sacra. Eu, não posso mais fazê-la.
E foi, no entanto, justamente esta Via-Sacra que me pediram para escrever; apesar de tudo não quero recusar-me porque estou seguro de que isto deverá fazer bem a muitos. O bone et dulcissime Jesus, ó bom e dulcíssimo Jesus, socorrei-me! Vós, que os suportastes, fazei que eu saiba explicar bem esses vossos sofrimentos. Talvez esforçando-me por me conservar objetivo, opondo à emoção minha “insensibilidade” cirúrgica, talvez possa chegar ao fim. Se me encontrares a solução antes do fim, meu bom amigo leitor, segue meu exemplo se pejo; é que tudo compreendeste. Segue-me pois: teremos por guias os Livros Sagrados e o Santo Sudário, cuja autenticidade me foi demonstrada por estudo científico.
A Paixão, na verdade, começou no dia de Natal, pois que Jesus em sua onisciência, soube sempre, sempre viu e quis os sofrimentos que aguardavam sua Humanidade. O primeiro sangue derramado por nós foi o da Circuncisão, oito dias após o Natal. Bem se pode imaginar o que será para um homem a previsão exata de seu martírio.
No entanto, é no Getsêmani que vai começar a holocausto. Jesus, tendo feito os seus comerem sua carne e beberem o seu sangue, os conduz noite a dentro para o Jardim da Oliveiras, como de costume. Deixa-os se acomodarem perto da entrada, conduz um pouco além seus três íntimos, afasta-se à distância de uma pedrada, para se preparar orando. Sabe que sua hora está chegando. Ele próprio enviara o traidor de Karioth: quod facis, fac citius (o que vais fazer, faze-o logo, João 13, 27). Tem pressa de terminar o que quer fazer. Mas, como revestira Ele, ao se incarnar, esta forma de escravo que é a nossa humanidade, revolta-se esta, e dá-se toda a tragédia de uma luta entre sua Vontade e a natureza: “Coepit pavere taederet - Começou a ter pavor e a angustiar-se” Marcos. 14, 33.
Contém esta taça, que deve beber, duas amarguras: a primeira é o ter que assumir os pecados dos homens, Ele, o Justo, para resgatar seus irmãos e é, sem dúvida, o mais duro: uma prova que não podemos imaginar, porque os mais santos, dentre nós, são precisamente os que mais sentem sua própria indignidade e sua infâmia. Talvez possamos compreender melhor a previsão, a pregustação das torturas físicas, que já experimenta Ele, por pensamentos; no entanto, não temos experimentado senão o arrepio retrospectivo de sofrimentos passados. É qualquer coisa de indizível. “Pater, si vis, tranfer calicem istum a me; verumtamen, non mea voluntas, sed tua fiat – Pai, se queres, afasta de mim este cálice, no entanto, que não se faça a minha vontade mas a tua!” (Lc. 22, 42. É sua humanidade que fala... e que se submete, porque tua Divindade sabe o que quer, desde toda a eternidade; o Homem está num beco sem saída. Seus três fiéis adormeceram “prae tristitia – de tristeza” Lc. 22, 45), diz São Lucas. Pobres homens!
A luta é simplesmente espantosa; um anjo vem reconfortá-lo ao mesmo tempo, parece receber sua aceitação. “Et factus in agonia, prolixius orabes. Et factus est sudor ejus sicut guttae sanguinis decurrentis in terram. – E se encontrando em agonia, orava com mais instância. E seu suor tornou-se como coágulos de sangue caindo pelo chão”.(Lc. 22, 44). É suor de sangue que alguns exegetas racionalistas, farejando algum milagre, tacharam de simbólico. É curioso verificar quantas asneiras esses materialistas modernos são capazes de dizer em matéria científica. Notemos que o único evangelista que relata o fato é um médico. E nosso venerado confrade Lucas, “medicus caríssimus” como o chama São Paulo em sua carta aos Colossenses, o faz com a precisão e concisão de um clínico. A hematidrose é fenômeno raro, mas bem descrito. Aparece segundo o Dr. Le Bec “em condições completamente especiais: uma grande debilidade física, acompanhada de um abalo moral, seguido de profunda emoção de grande medo” (“Le Supplice de La Croix”. Paris, 1925, loc cid.) (et coepit pavere er taedere). O medo, o terror e o abalo moral estão aqui, no auge. É o que Lucas exprime por “agonia” que em grego significa luta, ansiedade, angústia. E o suor tornou-se como coágulos de sangue caindo por terra. Para que explicar o fenômeno? Uma vasodilatação intensa de capilares subcutâneos que se rompem em contacto com os fundos-de-saco de milhões de glândulas sudoríparas. O sangue se mistura ao suor e se coagula na pele após a exsudação. É esta mistura de suor e de coágulos que se reúne e escorre por todo o corpo em quantidade suficiente para cair por terra. Notai que essa hemorragia microscópica se produz em toda a pele, que fica portanto atingida e prejudicada em seu conjunto e, de algum modo, dolorida, e mais sensível para todos os golpes futuros. Mas, passemos adiante.
Eis Judas e os esbirros do Sinédrio, armados com espadas e paus, trazem também lanternas e cordas. Lá está, igualmente, a coorte dos soldados do Templo, comandada por seu tribuno. Bem que se havia tomado precaução de alertar os Romanos e coorte da fortaleza Antônia. Sua vez de atuar só viria mais tarde, quando os Judeus, depois de pronunciada sua sentença, a fizeram homologar pelo Procurador. Jesus se adianta, uma sua palavra é suficiente para derrubar seus agressores, derradeira manifestação de seu poder, antes que se abandone á Vontade Divina. O ardoroso Pedro aproveitou da ocasião para decepar a orelha de Malcos e, último milagre, Jesus sarou-a.
Mas o bando ululante de refez, prendeu o Messias, arrastou-o sem delicadeza alguma, bem o podemos conjecturar, deixando fugir os comparsas. É o abandono, pelo menos aparente. Sabe Jesus muito bem que Pedro e João o seguem “a longe - de longe” (Mc. 15, 54; Jo. 19, 15) e que Marcos não escaparia à prisão a não ser fugindo nu, deixando nas mãos dos guardas, o “sindon” com que estava envolvido.
Mas, ei-los agora diante de Caifás e do Sinédrio. É noite avançada, não se pode tratar senão de uma instrução preliminar. Jesus recusa responder: sua doutrina, pregara-a abertamente. Caifás está desorientado, furioso, e um de seus guardas traduzindo este despeito, aplica um grande tapa no rosto réu: “sic respondes pontifici? – É assim que respondes ao Pontífice?” Jo. 18, 22.
Isto nada vale com processo. É necessário aguardar a manhã para ouvirem as testemunhas. Jesus é arrastado para fora da sala. No pátio vê Pedro que acabara de o renegar por três vezes, e com um olhar o perdoa. Arrastaram-no então para algum dos compartimentos inferiores (destinados ao pessoal de serviço e guardas) e ali a canalha dos esbirros vai entregar-se de coração alegre a tirar sua desforra contra esse falso profeta (devidamente amarrado) que, há pouquinho, os lançara por terra por desconhecido sortilégio. Enchem-no de bofetadas e de socos, escarram-lhe no rosto e, uma vez que também não mais poderiam dormir, aproveitariam para uma diversãozinha. Eis que colocaram um véu sobre sua cabeça, e cada um, ali irá dar seu golpe; os tapas reboaram   (e estes brutos têm a mão pesada!): “Profetiza, diz-nos, ó Cristo, quem te bateu”. Seu corpo está completamente dolorido, a cabeça soa como um sino; sobrevêm vertigens... cala-se. Com uma única palavra poderia aniquilá-los ”et non aperuit os suum – e não abriu a boca” (Isaías. 3, 7). Essa gentalha acaba por se fatigar e Jesus espera.
De manhã cedo, segunda audiência, lamentável desfilada de falsas testemunhas que nada provam. É necessário que Ele se condene a si próprio afirmando sua filiação divina, e aquêle vil histrião, Caifás, proclama-o blasfemo rasgando as vestes. Oh! Não vos preocupeis com o prejuízo das roupas, pois estes bons judeus, prudentes e pouco inclinados a despesas, têm um rasgão preparado de antamão e ligeiramente costurado que pode servir grande número de vezes. Não falta agora senão obter de Roma a condenação capital cuja alçada nos países sob seu protetorado ficava reservada aos romanos.
Jesus já cansado de fadiga e completamente moído pelos golpes, vai ser arrastado ao outro extremo de Jerusalém, á cidade alta, à fortaleza Antônia, espécie de cidadela, de onde a majestade romana assegura a ordem nessa cidade, demasiadamente inclinada á efervescência. A glória de Roma está representada por um infeliz funcionário, simples cidadão romano da classe dos cavaleiros, muito feliz por exercer este comando, que, no entanto era bem difícil por se tratar de um povo fanático, hostil e hipócrita. Pilatos é muito cioso no referente a suas atribuições, mas se sente agora acuado entre as ordens imperativas da metrópole e as ameaças insinuadas por estes judeus que tantas vezes têm mostrado estar em boas graças junto ao Imperador. Em resumo, um pobre coitado. Só tem uma religião, se é que tem uma, a do Divus Caesar (O Divino Imperador). É o produto medíocre da civilização bárbara, da cultura materialista. Mas como querer-lhe mal? Ele é o que o fizeram ser, a vida de um homem tem para ele pouca importância, sobretudo, se este não for cidadão romano. Não lhe ensinaram a compaixão e só conhece um dever: manter a ordem. (Em Roma, pensam que isto é fácil!). Todos estes judeus bulhentos, mentirosos e supersticiosos, com todos seus tabus e sua mania de se lavar por um nada, seu servilismo, insolência e aquelas pérfidas denúncias ao Ministério contra um Administrador colonial que faz tudo o que pode, tudo isto o desgosta. Despreza-os... E os teme.
Jesus, pelo contrário, (e no entanto, em que estado, aparecia diante dele, coberto de equimoses e escarros!), Jesus se lhe impunha e lhe era simpático. Irá fazer tudo o que pode para arrancá-lo ás garras daqueles energúmenos “et quaerebat dimittere illum – e esforçava-se por libertá-lo”, Jo. 19, 12 – Jesus é Galileu, enviemo-lo áquele patife que é Herodes que brinca com carriças e se julga uma delas. – Mas, Jesus despreza essa raposa e não lhe responde uma única palavra. Ei-lo novamente de volta com a turba que vocifera e aqueles insuportáveis fariseus que gritam em um tom superagudo agitando suas barbichas. – “Odiosos parlamentares! Que fiquem fora, uma vez que se julgam manchados só por entrar em um pretório romano”.
Pôncio interroga este homem que o interessa. Jesus não o despreza. Tem compaixão de sua ignorância invencível, responde-lhe com doçura e até tenta instruí-lo. – “Ah! Pensa ele, se fosse apenas essa canalha que ulula do lado de fora, uma boa sortida da coorte faria rapidamente “cum glodio” (a poder de espada) calar os mais barulhentos. Não faz muito tempo que fiz massacrar no Templo alguns galileus um tanto excitados. Sim... mas estes sinedritas sonsos já começam a insinuar que não sou amigo de Cesar e com isto não se brinca! E depois mehercle! (por Hércules!) que significam todas estas histórias de Rei dos Judeus, de Filho de Deus e de Messias?” – Se Pilatos tivesse lido as Escrituras, talvez fosse um outro Nicodemos, porque também Nicodemos é um frouxo; mas é a covardia que vai romper as barreiras. – “Este homem é, sem dúvida, um justo: fá-lo-ei flagelar (oh, lógica romana!) talvez cheguem então a conceder esses brutos alguma piedade”.
Mas eu também sou um covarde, pois se me atardo a defender esse Quirites lamentável, não é senão para retardar minha dor. “Tunc ergo apprehendit Pilatus jesum et flagellavit. – Então tomou Pilatos a Jesus e o fez flagelar” (Jo. 19, 1).
Os soldados da guarda levam Jesus para o átrio do pretório e chamam a rebate toda coorte; as distrações são raras neste país de ocupação. No entanto, várias vezes manifestara o Senhor especial simpatia para com os militares. Como admirou a confiança e a humildade daquele centurião e sua solicitude para com o servo que recebeu o benefício da cura em atenção ao centurião. (Nada me tirará a convicção de que se tratava da ordenança desse centurião da guarda do Calvário que, por primeiro, proclamará sua Divindade. A coorte parece tomada de um delírio coletivo, o que Pilatos não previra. Ali estava Satanás para lhes alimentar o ódio.
Mas, basta. Basta de discursos, pancadas somente; tratemos de ir até o fim. Despem-no e o amarram completamente nu a uma coluna do átrio. Os braços esticados para cima e os punhos amarrados no alto da coluna.
 A flagelação se faz com correias múltiplas, nas quais vão fixados, a alguma distância de extremidade livre, duas balas de chumbo ou ossinhos. (É pelo menos a este gênero de flagelo que correspondem os estigmas do santo Sudário). A lei hebraica fixara o número de golpes em 39. Mas os carrascos são legionários desregrados, e irão até o limite da síncope. Com efeito os vestígios no Santo Sudário são enumeráveis e a maioria nas costas, pois a frente do corpo estava encostada à coluna. Podem ser vistos nas espáduas, costas, rins e também no peito. As chicotadas vão ás coxas e barrigas-das-pernas; e ali, a extremidade das correias, além das balas do chumbo, contorna o membro e vem marcar seu sulco até a face anterior das pernas.
Os carrascos são dois, um de cada lado, de estatura diferente como se pode deduzir pela orintaçãos dos vestígios na Mortalha. Batem com golpes redobrados, com grande afinco. Aos primeiros golpes as correias deixam longos riscos azuis de equimoso subcutânea. Lembrai-vos que a pele já está sensibilizada, dolorida pelos milhões de pequenas hemorragias intradérmicas do suor de sangue. As balas de chumbo marcam mais. Em seguida a pele, infiltrada de sangue jorra, pedaços se destacam e ficam pendentes. Toda a face posterior não é outra coisa senão um superfície vermelha sobre a qual se destacam grandes vergões jaspeados: e, aqui e ali, em toda a parte as chagas mais profundas da balas de chumbo. São aquelas chagas em forma de halteres (as duas balas com as correias entre elas) que se imprimam no Sudário.
A cada golpe o corpo estremece com um sobressalto doloroso. Mas não abre a boca e este mutismo redobra a raiva satânica de seus carrascos. Já não é mais a fria execução de uma ordem judiciária, é um desencadeamento de demônios. O sangue escorre das espáduas até o chão ficando as grandes lajes logo cobertas dele, e quando se levantam as azorragues, se espalha em chuva até as vermelhas clâmides dos espectadores. Mas, cedo as forças do supliciado começam a desfalecer, um suor frio inunda sua fronte, a cabeça lhe gira com sensações de vertigem e náuseas, calafrios lhe passam ao longo da espinha. Suas pernas se dobram sob seu peso e, se não estivesse ligado no alto pelos punhos, teria caído naquele lago de sangue. – “Seu número está completo, se bem que não o tenham contado. Mas afinal de contas não se recebeu a ordem de o matar sob  azorrague. Deixemo-lo se refazer, ainda poderemos divertir-nos”.
- “Ah! este grande pateta tem a pretensão de ser rei, como se o pudesse ser sob as águias romanas, e ainda rei dos Judeus, o cúmulo do ridículo! Tem aborrecimentos com seus vassalos; quanto a isto não importa, seremos nós seus fiéis. Depressa um manto, um cetro”. - Fazem-no assentar sobre uma base de coluna (não é muito sólida a majestade!). Uma velha clâmide de legionários sobre as espáduas despidas conferir-lhe-á púrpura real, um grande caniço na mão direita, e estaria tudo pronto assim, se não faltasse ainda uma coroa, algo de original! Esta coroa, que nenhum outro crucificado usou, serviria para fazer reconhecê-lo até dezenove séculos depois. A um canto, um feixe daqueles arbustos que abundam nas capoeiras dos arredores da cidade. É flexível e tem compridos espinhos, muito mais compridos, mais agudos e mais duros que os da acácia. Começaram a tecer com precaução (ui! Como isto pica) uma espécie de fundo de cesta, que lhe aplicam sobre o crânio. Arrematam-lhe as bordas com uma faixa de juncos torcidos com que encerram a cabeça entre a nuca e a testa.
Os espinhos penetram no couro cabeludo e faz sangrar. (Nós os cirurgiões bem sabemos quanto um couro cabeludo sangra). Logo o crânio fica todo pegajoso de tantos coágulos, compridos filetes de sangue começam a escorrer pela testa por sob a faixa de juncos, ensopam os cabelos emaranhados e enchem a barba.
Começou a comédia da adoração. Cada um por sua vez vem dobrar o joelho diante dele com espantosa careta seguida de um grande bofetão: “Salve, rei dos judeus!”. Mas, Ele, nada responde. Seu pobre rosto abatido e pálido continua imóvel. Mas não é tão engraçado! Exasperados, os fiéis vassalos lhe escarram no rosto. “Não sabes segurar o cetro, toma”. E, pan, um grande golpe no chapéu de espinhos que se enterra um pouco mais e uma chuva de insultos. Não me lembro mais, seria de um dos legionários, ou teria Ele recebido de um dos do sinédrio? Mas vejo agora que uma forte paulada aplicada obliquamente, deixou na face direita uma horrível chaga contusa, e que seu grande nariz semita, tão nobre, ficou deformado por uma fratura da aresta cartilaginosa. Corre o sangue de Suas narinas pelo bigode. É demais, meu Deus!
Mas eis que volta Pilatos, bastante inquieto pelo prisioneiro: - “Que terão feito dele esses brutos? Ai! Preparam-no bastante bem. Se os judeus não ficarem contentes!... – Vai mostrar-lhes o prisioneiro, do balcão do pretório, em seus novos trajes reais, bastante espantado ele próprio por sentir alguma compaixão por esse farrapo humano. Mas não levara em conta o ódio: “Tolle crucifige! – Tira-o, crucifica-o (Jo. 19, 15). Ah! Que demônios. E, para ele, o argumento mais terrível: Ele se fez rei, se absolveres, não é amigo de César”. Então o covarde se entregou e lavou as mãos. No entanto, como mais tarde escreveria Sto. Agostinho, “não foste tu, Pilatos, que o mataste, mas sim os judeus, com suas afiadas línguas, e em comparação com eles tu és muito mais inocente” (Tr. Super Psalmos, Ps. 63).
Arrancaram-lhe a clâmide que já estava colada a todas seus feridas. Torna o sangue a correr. Tem Ele um grande calafrio. Fazem-no vestir de novo suas próprias roupas que logo se tingem de vermelho. A cruz está pronta. Ele mesmo coloca o lenho sobre seu ombro direito. Por que milagre de energia pode Ele ainda continuar de pé sob este fardo? Não é, na verdade toda a cruz, mas somente o grande travessão horizontal, o patibulum, que deve Ele carregar até o Gólgota, mas este mesmo pesa ainda cerca de 50 quilos. O braço vertical, o stipes, já estava plantado no Calvário.
 Começa a marcha, pés descalços, pelas ruas de solo escabroso, semeadas de pedregulhos. Preocupados, puxam os soldados pelas cordas que ligam, sem saber se conseguirá chegar Ele até o fim. Dois ladrões o seguem, com o mesmo equipamento. O percurso não é, felizmente, muito comprido, cerca de 600 metros, a colina do Calvário está apenas do lado de fora da porta de Efraim. Mas em compensação o trajeto é muito acidentado, ainda dentro dos muros. Jesus, penosamente, coloca um pé diante do outro, e com freqüência cai. Cai sobre joelhos, que em pouco tempo não são outra coisa senão uma só chaga. Os soldados da escolta o reerguem, sem muito brutalizar, pois percebem agora que poderá morrer no caminho.
Continua o travessão, em equilíbrio, sobre suas espáduas, a mortificá-las com suas asperosidades e parecem querer nelas penetrar à força. Bem sei o que significa isto: já transportei outrora no 5º de engenharia, dormentes de estrada de ferro, bem cepilhados e conheço esta sensação de penetração em uma espádua firme e sã. Mas, no caso de Jesus, o ombro estava coberto de chagas que se reabriam, se alargavam e se aprofundavam a cada passo. Está Ele esgotado em sua Túnica inconsútil, enorme mancha de sangue vai sempre aumentando e se estende até pelas costas. Cai ainda e desta vez completamente ao comprido, o travessão se lhe escapa e lhe esfola as costas. Conseguirá reerguer-se? Felizmente cruza por ali um homem, de regresso dos campos que estivera cultivando. Simão de Cirene, que, com seus filhos Alexandre e Rufo, será bem cedo um bom cristão. Os soldados o requisitam para carregar o travessão, não o pediria o bom homem, mas como fará bem! Apenas falta agora subir a ladeira do Gólgota e, penosamente, chega ao alto. Jesus cai, e se prostra no solo e a crucifixão começa.
Oh! Não é coisa tão complicada; os carrascos conhecem muito bem seu ofício. É necessário primeiro despi-lo. Quanto às roupas externas, é ainda relativamente fácil. Mas quando chega a vez da túnica, intimamente colada a suas chagas, por assim dizer a todo seu corpo, temos algo de terrível, este despojamento é simplesmente atroz. Já tiraste alguma vez um primeiro curativo colocado sobre grande chaga contusa e sobre ela ressequido? Ou experimentaste talvez sobre vós mesmo esta prova que, às vezes, necessita a anestesia geral? Se sim, podereis então saber do que se trata. Cada fio de lã está colado à superfície despida, e cada um que é retirado dá a sensação de arrancar uma das inumeráveis terminações nervosas deixadas a descoberto na chaga. Estes milhares de choques dolorosos se adicionam e se multiplicam, aumentando cada um para o seguinte a sensibilidade do sistema nervoso. Ora, não se trata aqui de lesão local, mas de quase que toda a superfície do corpo, e sobretudo daquelas lamentáveis costas. Os carrascos apressados fazem as coisas apressadamente. Talvez seja melhor assim, mas como aquela dor pungente e atroz não acarreta a síncope? É porque do princípio ao fim domina Ele toda sua paixão e a dirige.
O sangue escorre de novo. Deitam-no de costas. Será que lhe deixaram a pequena faixa que o pudor dos judeus conservara nos supliciados? Confesso que não o saberia dizer: tem isto, aliás, tão pouca importância; em todo o caso, na mortalha, ficará nu. As chagas das costas, das coxas e das panturrilhas se incrustam de poeira e de cascalho miúdo. Colocaram-no ao pé do “stipes”, com as espáduas deitadas sobre o “patibulum”. Os carrascos tomam as medidas. Um golpe inicial para preparar os buracos dos cravos, e a horrível operação começa.
Um ajudante estica os braços, com a palma da mão voltada para cima; o carrasco toma o cravo, um comprido cravo pontudo e quadrado, que perto da grande cabeça, tem 8 (oito) mm de largura, e assenta-lhe a ponta pela experiência. Uma única marretada, e o cravo já está fixado na madeira onde mais algumas outras acabarão de fixá-lo sólida e definitivamente.
Jesus não gritou, mas seu rosto se contraiu horrivelmente. E, sobretudo, vi ao mesmo tempo, seu polegar, com um movimento imperioso e violento colocar-se em oposição, na palma : o nervo mediano fora atingido. Mas então, pressinto o que experimentou Ele: uma dor inenarrável, o fulgurante que se espalhou por seus dedos, subiu como uma língua de fogo até a espádua e prorrompeu no cérebro. Bem sabemos que a dor mais insuportável que um homem possa experimentar é a do ferimento de um dos grandes troncos nervosos. Quase sempre acarreta a síncope, o que é uma felicidade. No entanto, Jesus não quis perder a consciência. Se ainda o nervo tivesse sido inteiramente decepado! Mas qual nada, sei-o por experiência, fica apenas parcialmente destruído; a chaga desse tronco nervoso continua em contacto com o cravo, e, logo em seguida, quando o corpo for suspenso ficará o nervo fortemente distendido como uma corda de violino em seu cavalete. Vibrará ele a cada abalo e a cada movimento, renovando a horrível dor. – Jesus experimentará isto, ainda durante três horas.
O outro braço foi puxado pelo ajudante; os mesmos gestos de então se repetem e as mesmas dores. Mas, desta vez, consideremo-lo bem. Ele sabe pela experiência o que o aguarda. Está agora fixado sobre o patíbulo, ao qual ficam bem encostadas as duas espáduas e os dois braços. Já tem forma de cruz; como Ele é grande!
-“Vamos, de pé”. O carrasco e seu ajudante empenham as extremidades do patíbulo e erguem o condenado, fazendo-o sentar-se, primeiro, e depois fazendo ficar de pé para, em seguida, o obrigarem a recuar até o poste, mas o fazem aos safanões que repercutem nas duas mãos cravadas (oh! Seus nervos medianos!). Com um grande esforço, de braços erguidos, pois o “stipes” não é muito alto, rapidamente, pois é bem pesado, engancham habilmente o patíbulo no alto do “stipes”, onde mais alguns pregos fixam o “titulus” escrito nas três línguas, hebraico, grego e latim.
O corpo, apoiando-se sobre os braços que se alongam obliquamente, se abaixou um pouco. As espáduas, feridas pelos açoites e pelo transporte da cruz, roçaram dolorosamente a madeira áspera. A nuca, que dominava o patíbulo, nele bateu ao passar, para se deter no alto da estaca. As agudas pontas do grande chapéu de espinhos dilaceraram o crânio mais profundamente ainda. Sua pobre cabeça pende agora para frente, porque a espessura de sua coroa impede de repousar sobre a madeira, e, cada vez que a ergue, renova as picadas.
O corpo, pendente, não está sustentado senão pelos cravos plantados nos dois carpos (oh! Os medianos!). Assim poderia sustentar-se sem mais nada. O corpo não se desloca para a frente. Mas a regra é de fixar os pés. Para isto não há necessidade de consola, basta dobrar um pouco os joelhos e estender os pés com a sola sobre a madeira do “stipes”. Uma vez que é inútil, para que dar trabalho a um carpinteiro? Não seria, sem dúvida, para aliviar o sofrimento do crucificado. O pé esquerdo está de cheio sobre a cruz. Com uma única martelada o cravo se enterra plenamente pelo meio (entre o 2º e o 3º metatarsiano). O ajudante dobra também o outro joelho e o carrasco, levando o pé esquerdo para cima do direito, que o ajudante sustenta de cheio sobre a madeira, com uma segunda martelada, perfura este outro pé na mesma região. Tudo isso se faz facilmente e, em seguida, com grandes e firmes golpes finca o cravo no lenho. Agora, obrigado, meu Deus, nada mais senão uma dor bem banal, mas o suplício apenas começa. Com dois homens, o trabalho não deve ter durado muito mais do que dois minutos, e as chagas estão sangrando muito pouco. Passam então a se ocupar dos dois ladrões e, em breve os três cadafalsos ficaram prontos e guarnecidos diante da cidade deicida.
Não escutemos todos esses judeus triunfantes que insultam seus sofrimentos. Ele já perdoou porque não sabem o que fazem. O corpo de Jesus primeiro decaiu. Após tantas torturas, para um corpo esgotado, esta imobilidade parece quase que um repouso, coincidindo com uma baixa de sua resistência vital.  Mas Ele tem sede. Oh! Não o dissera ainda: antes de se deitar sobre o pelourinho, recusara a poção analgésica, vinho misturado com mirra e com fel que lhe prepararam as caridosas mulheres de Jerusalém. Ele quer o sofrimento inteiro, e sabe que dominará. Tem sede. Sim “Adhoesit língua mea faucibus meis- aderiu minha língua a meu palato” (Ps. 21, 6). Nada comera nem bebera desde a véspera de tarde. Já é meio-dia. O suor do Getsmani, todas as fadigas durante a noite, a considerável hemorragia do pretório com todas as outras, inclusive este pouco sangue que agora corre pelas Suas chagas, tudo isso lhe subtrai boa parte de sua massa sangüínea. Tem sede. Suas feições estão abatidas, a fisionomia lívida está sulcada de sangue que se coagula por toda parte. A boca está entreaberta e o lábio inferior já começou a pender! Um pouco de saliva escorre, pela barba, misturada ao sangue proveniente do nariz contundido. A garganta está seca e abrasada, nem mais consegue deglutir. Tem sede. Neste rosto tumefacto, todo sangrento e deformado, como poderíamos reconhecer o mais belo dos filhos dos homens? “Vermis sum et non homo – Sou um verme e não homem” (Ps. 21, 6). Esse rosto seria hediondo se nele não se visse, apesar de tudo, resplandecer a majestade serena do Deus que quer salvar seus irmãos. Tem sede. Daqui a pouco o dirá para cumprir as escrituras. E um grande idiota de soldado disfarçando a própria compaixão sob zombarias embebe uma esponja de “posca” acidulada (acetum, dizem os Evangelhos) e lhe apresentará na extremidade do dardo. Será que vai beber pelo menos um gota? Já se disse que o fato de beber determina, entre estes pobres supliciados, uma síncope mortal. Como após ter recebido a esponja, poderá Ele então falar ainda duas ou três vezes? Não, não, Ele morrerá à sua hora. Tem sede.
E isto apenas começara. Mas ao cabo de uns poucos instantes, produz-se um fenômeno estranho. Os músculos dos braços se enrijeciam espontâneamente, por uma contração que se irá acentuando cada vez mais; os deltóides, os bíceps estão entesados e salientes, os dedos se crispam. Cãibras!tetania, quando as cãibras se generalizam, e eis que ela apareceu. Os músculos do ventre se enrijecem como ondas congeladas, depois os intercostais, em seguida os músculos do pescoço e os músculos respiratórios. A respiração tornou-se pouco, pouco mais curta, superficial. As costelas já elevadas pela tração dos braços, ainda mais se sobrelevam; o epigástrio se cava e também o mesmo acontece com as covas das clavículas. O ar penetra sibilando, mas quase não sai mais. Respira só no alto, inspira um pouco e não mais consegue expirar. Tem sede de ar. (Parece um asmático em plena crise). O rosto pálido pouco a pouco fica corado, vermelho, passa ao violeta púrpura e em seguida ao azul. É a asfixia. Os pulmões fartos de ar não conseguem esvaziar-se. A testa se cobre de suor, os olhos fora das órbitas se reviram. Que dor atroz deve martelar seu crânio! Vai morrer. Tanto melhor! Já não sofreu então Ele bastante? Quem ainda não sentiu, pouco ou muito esta dor progressiva a aguda em uma barriga de perna, entre duas costelas, um pouco por toda a parte? É necessário deixar tudo para distender e alongar o músculo contraído. Mas olhemos! Eis agora, nas coxas e pernas, as mesmas saliências monstruosas, rígidas, e os dedos dos pés que se crispam também. Ir-se-ia um ferido tomado pelo tétano, presa a estas terríveis crises, que não pode mais esquecer. É o que chamamos a
Mas, não, sua hora ainda não chegou. Nem a sede, nem a hemorragia, nem a asfixia, nem a dor terão poder sobre Deus Salvador e embora morra com estes sintomas, não morrerá verdadeiramente a não ser porque o quis, “habens in potestate ponere animam suam et recipere eam – tendo o poder de depor sua vida e de retomá-la”. (Sto. Agostinho, Trat. sobre os Salmos, Salmo 63, ad vers. 3). E será por isto que Ele ressucitará. Aleluia!
Que estará agora acontecendo? Lentamente, com um esforço sobre-humano, tomou ponto de apoio sobre o cravo dos pés, sim! sobre as duas chagas. Os tornozelos e os joelhos, pouco a pouco, se estendem e o corpo, a arrancões, se ergue, aliviando assim a tração dos braços (tração que era de mais de 90 quilos para cada mão). Então, eis que o fenômeno diminui por si mesmo, a tetania regride, os músculos se distendem, pelo menos os do peito. A respiração torna-se mais ampla e mais profunda, os pulmões se desenfartam e, dentro de pouco, o rosto retoma sua palidez anterior.
Por que todo este esforço? É que nos quer falar: “Pater dimitte illes – Meu Pai, perdoa-os” Lc. 23, 34. Oh, sim, que nos perdoe a nós que somos seus carrascos. Mas, ao cabo de um instante, seu corpo começa a descer de novo... e a tetania vai começar. Cada vez que falar (foram-nos conservados pelo menos sete dessas frases) e cada vez que quiser respirar, lhe será necessário reerguer-se, para poder tomar hálito, mantendo-se de pé sobre o cravo dos pés. E cada movimento retine em suas mãos em dores inenarráveis (oh, seus nervos medianos!). É a asfixia periódica do infeliz que fosse estrangulado por alguém que lhe permite retomar o fôlego antes de morrer, para o tornar a sufocar, várias vezes. Não poderá Ele escapar a essa asfixia e não ser por um momento, ao preço de sofrimentos atrozes e por um ato voluntário. E isso vai durar três horas. Mas, morrerei então, meu Deus!
Ali estarei eu ao pé da cruz, com sua Mãe e João e as santas mulheres que o serviam. O centurião, um pouco à parte, observa com uma atenção já agora respeitosa. Entre duas asfixias se ergue Jesus e fala: “Filho, eis tua Mãe”. Oh, sim querida Mamãe, que desde esse dia nos adotaste! Pouco depois o ladrão consegue que lhe abram o paraíso. Mas quando então morrereis vós, Senhor?
Bem o sei, a Ressurreição Pascal vos espera e vosso corpo não apodrecerá como os nossos. Está escrito: “Non dabis sanctum tuum videre corruptionem – Não permitirás teu Santo experimentar a corrupção” (Sl. 15, 10). Mas, meu pobre Jesus (perdoai o cirurgião), todas as vossas chagas estão infectadas e, pelo menos, essas se corromperão em pouco tempo. Vejo distintamente ressumar uma linfa amarelada e transparente que se reúne nos pontos inclinados em uma crosta amarelada. Nas mais antigas já se vão formando falsas membranas, que segregam um pus seroso. Está também escrito: “Putruerunt et corruptae sunt cicatrices meae – Minhas chagas se infeccionam e supuraram”, (Sl. 37, 5).
Um exame de moscas terríveis, grandes moscas de cor verde e azul, como se costumam ver nos matadouros de carneiros, turbilhonam em volta de seu corpo; e bruscamente se abatem sobre uma ou outra de suas chagas, para sugar-lhe a serosidade e ali depositar seus ovos. Elas se encarniçam sobre o rosto; impossível repeli-las. Por felicidade, depois de algum tempo, o céu se obscurece, o sol se esconde, faz de repente muito frio e estas filhas de Belzebu abandonam pouco a pouco o terreno.
Lentamente se passaram três horas. Enfim! Jesus luta sempre. De vez em quando, se ergue. Todas as dores, a sede, as cãibras, a asfixia e as vibrações de seus dois nervos medianos não conseguiram arrancar-lhe um único gemido. Mas, se seus amigos lá estão, seu Pai, (e esta será a última provação, seu Pai parece tê-lo abandonado. “Eli, Eli lamma sabachtani?   – Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste?” (Mt. 27, 46); (Mc. 16, 34; Salmo 21, 1).
Agora, sabe que se vai. Brada: “consummatum est – Está terminado” (Jo. 19, 30). A taça está agora vazia, terminara sua missão. Depois, erguendo-se de novo e como que para nos fazer compreender que morria por Sua própria e espontânea vontade “iterum chamans voce magna – exclamando de novo com voz potente”. (Mt. 21, 50): “Meu Pai, diz Ele, em Vossas mãos deposito minha alma” – (Lc. 23, 46), (habens in potestateponere animam suam). Morreu quando quis. E que não mais me falem de teorias filosóficas!
Laudato si Missignore per sora nostra morte corporale” – “Louvado sejais Senhor pela nossa irmã a morte corporal!” (Cântico das criaturas São Francisco de Assis). Ó, sim, Senhor, sede louvado, por vos terdes dignado morrer. Porque já não mais vos podíamos acompanhar. Agora está tudo bem. Em um último suspiro, lentamente vossa cabeça se inclinou pendente em direção a mim, direita diante de vós, vosso queixo sobre o esterno. Vejo agora bem de frente vossa fisionomia distinta, serena de novo, que apesar de tantos horrendos estigmas ilumina a majestade muito doce do Deus que sempre ali está. Prostro-me de joelhos diante de vós, beijando vossos pés perfurados, de onde o sangue corre ainda, indo se coagular nas extremidades. A rigidez cadavérica vos invadiu brutalmente, de vós se apoderou a rigidez como de cervo cansado pela carreira. Vossas pernas estão duras como o aço... e escaldantes. Que temperatura inaudita vos causou esta tetania?
A terra tremeu, que me importa? E o sol se eclipsou. José foi requisitar vosso corpo a Pilatos, que não o recusará. Odeia esses judeus que o forçaram a vos assassinar. Aquele letreiro que ainda está por sobre vossa cabeça, proclama bem alto seu rancor: “Jesus, Rei dos judeus”, e crucificado como um escravo! Eis que parte o centurião para fazer seu relatório, depois de vos ter proclamado verdadeiro filho de Deus. Logo que voltar José com a autorização, vos faremos descer, o que, uma vez despregados os pés, não será tão difícil. José e Nicodemos desengancharão o travessão do “stipes”. João, vosso bem amado vos levará pelos pés, dois outros, como um pano enrolado em forma de corda, vos sustentaremos as costas. A mortalha já está pronta, sobre uma pedra ali pertinho, defronte ao sepulcro, e lá, com mais comodidade despregaremos vossas mãos. Mas, quem vem lá?
Ah sim, os judeus; devem ter pedido a Pilatos que limpasse a colina desses cadafalsos que ofendem a vista e manchariam a festa de amanhã. Raça de víboras, que filtrais o mosquito e engolis o camelo! Soldados quebram com fortes golpes, dados com barras de ferro as coxas dos ladrões. Ficam agora lamentavelmente pendurados e como não mais poderão erguer-se sobre as pernas, a tetania e a asfixia acabarão com eles bem cedo.
Mas isso não será necessário para vós! “Os non comminuetis ex eo – Não lhe quebrareis nenhum de seus ossos” (Jo. 19, 36); Êxodo, 12, 46; Num. 9, 12. Deixai-nos pois em paz, não vedes que Ele já está morto? – Sem dúvida dizem eles. Mas que idéia teve um deles? Como um gesto trágico e preciso erguer a haste da lança e, com um único golpe oblíquo, mergulhando-a profundamente pelo lado direito. Oh! Por quê? “E logo, da chaga saíram sangue e água”. (Jo. 20, 34). João bem que viu e eu também, e não saberíamos mentir: uma grande golfada de sangue líquido e negro, que jorrou sobre o soldado a agora corre lentamente pelo peito, ali se coagulando em camadas sucessivas. Mas, simultaneamente, muito mais visível nos bordos do fluxo, correu um líquido claro e límpido como água. Vejamos, a chaga está abaixo e por fora do mamilo (5º espaço), o golpe foi oblíquo. É, portanto, o sangue da aurícula direita, e a água provêm do pericárdio. Mas então, meu pobre Jesus, vosso coração estava comprimido por esse líquido e tínheis também, além de tudo o mais, esta dor angustiosa e cruel do coração apertado num torno!
Não tinha sido bastante o que víramos? Foi então para que o soubéssemos que este homem cometeu sua estranha agressão? Talvez também os judeus receassem que não estivésseis morto, mas apenas desfalecido; vossa ressurreição pedia este testemunho. Obrigado, meu soldado, obrigado, Longinos, morrerás um dia como mártir cristão.
E agora leitor, agradeçamos a Deus, que me deu forma de escrever tudo isto até o fim, não sem lágrimas! Todas estas dores espantosas que acabamos de viver, Ele, durante toda a vida, já previra, premeditara e quisera em Seu amor, para resgatar nossas faltas. “Oblatus est quia ipse voluit – Foi entregue porque Ele próprio o quis”. (Isaias. 53, 7). Dirigiu toda sua Paixão sem evitar uma única tortura, aceitando suas conseqüências fisiológicas, mas sem ser dominado por elas. Morreu quando, como e porque quis.
Jesus está em agonia até o fim dos tempos. É justo, é bom sofrer com Ele e, quando nos envia a dor, agradecer-lha, e associá-la à sua. É necessário a nós, como escreve São Paulo, completar o que falta á Paixão de Cristo, e, como Maria, sua Mãe aceitar alegremente, fraternalmente nossa Compaixão.
      Ó Jesus, que não tivestes compaixão de Vós mesmo, que sois Deus, tende piedade de mim que sou pecador!

Laus Christo


FONTE:
Livro: A paixão de Jesus Cristo segundo o cirurgião
Título original em francês: La Passion de N. S. Jésus Christ Selon Le Chirurgien

Edições Loyola
São Paulo 1996

Autor: Pierre Barbet - Cirurgião do Hospital Saint Joseph de Paris

REIMPRIMATUR: Belo Horizonte, 3 de fevereiro de 1965 - João, Arcebispo Coadjutor

Tradução: Cônego José Alberto de Castro Pinto

Impresso nos Estados Unidos do Brasil


quarta-feira, 13 de abril de 2011

FRATERNIDADE E NATUREZA


Por Denis Lerrer Rosenfield

Com grande alarde, a CNBB lançou um documento intitulado Fraternidade e a Vida no Planeta como orientação da Campanha da Fraternidade de 2011. Tratando-se de um documento teológico-político, sua preocupação central consiste em influir no atual debate sobre as relações entre civilização moderna e meio ambiente. Mais especificamente, seu objetivo reside em participar diretamente da discussão atual sobre a revisão do Código Florestal. Não estamos diante de uma preocupação religiosa politicamente neutra, mas que obedece a diretrizes contempladas nas pastorais da Igreja, nos ditos movimentos sociais e na doutrina da Teologia da Libertação.

Em manifestações, aliás, muito sensatas, de alguns altos dignitários da Igreja, aparece uma preocupação muito genuína com a preservação ambiental, sem ranços ideológicos. Cuidados relativos à coleta seletiva de lixo, contra os desperdícios de água, a poluição de rios e do ar e o uso abusivo de agrotóxicos, por exemplo, entram nessa linha de conduta.

Essa é, no entanto, a apresentação pública, em muito distinta do que consta no documento, eivado de ranços contra o capitalismo, a propriedade privada, o lucro e o agronegócio. Convém, preliminarmente, ressaltar que foi graças ao capitalismo e ao agronegócio que a sociedade atual veio a produzir abundantemente alimentos em escala planetária e a baixo custo. Nunca tantos comeram e jamais foram tão boas as condições de vida.

Os países que aboliram a propriedade privada e 'produziram' sem o lucro foram os que sucumbiram à miséria. A URSS abandonou à morte milhões de seus cidadãos por falta de comida e pela desorganização completa da agricultura. A China de Mao seguiu o mesmo caminho, com camponeses morrendo de fome nas estradas. Os admiradores atuais de Cuba, muitos dos quais compartilham os pressupostos da Teologia da Libertação, nada têm a dizer de um partido que nem consegue produzir alimentos para a sua população. Outro representante do 'socialismo', Hugo Chávez, está conduzindo seu país à bancarrota, também com a desorganização completa da agricultura e da pecuária.

Se tivéssemos de caracterizar a ideologia do documento o qualificaríamos como uma mistura de ludismo e marxismo. Ludismo porque corresponde a uma corrente política e ideológica inglesa do século 19 que recusava toda e qualquer modernização do processo produtivo, no caso, industrial, pela destruição de máquinas, cuja inovação não era aceita. Marxismo porque adota as categorias dessa corrente ideológica, propugnando uma via anticapitalista, que não estaria mais orientada pelas relações de mercado alicerçadas no lucro e nos contratos. Desta última resgata também a ideia socialista, que ganha uma nova denominação, a de uma sociedade 'solidária', não consumista, não capitalista, apoiada na 'vida', e não na ganância. Mudou de denominação por conveniências retóricas.

Assim, a CNBB postula que os alimentos produzidos para o mercado, sob a forma de 'commodities', sejam caracterizados como produtos de um mercado voltado para o 'lucro', que não visa à 'disponibilização de alimentos para todas as pessoas'. Prossegue em suas diatribes criticando um mercado 'dominado por poucas empresas que monopolizam o mercado internacional, impondo preços segundo suas conveniências'. Mas é obrigada a reconhecer que esse processo, baseado em 'distorções', 'se reflete nos preços relativamente baixos dos alimentos'. Ou seja, na verdade, é o mercado que produz alimentos abundantes e a baixos preços, o que contradiz sua tese de que a escassez seria a resultante desse processo.

O documento retoma a tese do MST e da Comissão Pastoral da Terra de que o agronegócio termina prejudicando e excluindo a agricultura familiar. Ao contrário, porém, o fato é que o excedente da agricultura familiar é vendido no mercado e em alguns setores, como fumo, aves e suínos, há toda uma rede de relações entre o agronegócio e a agricultura familiar, denominada 'sistema integrado de produção'. Na verdade, a CNBB adota a postura dos assentamentos da reforma agrária, identificando-os com a agricultura familiar, o que é um equívoco, pois eles não possuem títulos de propriedade, não se voltam para o mercado e estão apoiados na economia de subsistência, a qual, aliás, nem conseguem atingir. Vivem de subsídios governamentais como o Bolsa-Família, o que significa dizer: à custa do contribuinte.

Todo o setor da agropecuária e do agronegócio em geral é tido como praticante de 'crimes ambientais', como se esse fosse o seu costume. Evidentemente, a prática agrícola, como ocorre em qualquer lugar do mundo, transforma a natureza, tendo em vista a produção de alimentos. Se assim não fosse, a humanidade morreria de fome. Há uma clara confusão entre desmatar por desmatar, sem nenhuma preocupação agropecuária, e a atividade propriamente agrícola, que também conserva a natureza. Agricultura e natureza marcham de mãos dadas. Se não for assim, ambas acabam perdendo. O agricultor ou a empresa que não conserva a natureza dá um tiro no próprio pé.

A CNBB apoia-se numa concepção religiosa segundo a qual tudo o que existe na natureza é resultado da criação divina, que, enquanto tal, deve ser preservada. Trata-se de 'cultivar' a 'criação'. O ambientalismo estaria, nesse sentido, fundado numa cosmovisão religiosa. Eis por que é defendida a ideia de que os comportamentos que contrariam essa cosmovisão devem ser 'corrigidos', por serem 'pecaminosos', por atentarem precisamente contra a 'criação divina'. Ou seja, a Igreja assume a política dos que sabem o que é o 'correto' comportamento humano, devendo adotar medidas que o implementem. A correção do comportamento humano seria empreendida pela 'tirania dos bons', dos 'virtuosos'. Isso significa que todo aquele que advoga pela atualização do Código Florestal seria pecador.
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28 de março de 2011