terça-feira, 5 de abril de 2011

“O VATICANO II: Uma história jamais escrita” ( completo )


A respeito do livro com o título em epígrafe, o autor, Prof. Roberto de Mattei, vice-presidente do Centro Nacional de Pesquisas da Itália e catedrático da Universidade Européia de Roma, concedeu substanciosa entrevista exclusiva a Catolicismo. Na obra, ele descreve com cores vivas e minúcias densas de significado o confronto entre a ala progressista e a ala conservadora — com a vitória da primeira — bem como as profundas e graves conseqüências do Concílio Vaticano II para a vida da Igreja e da sociedade, que se projetam até os dias de hoje.
Catolicismo — Obrigado professor por conceder esta entrevista. Sabemos que o Sr. está muito ocupado devido à polêmica que surgiu com a publicação de seu último livro O Vaticano II: Uma história jamais escrita.
Prof. de Mattei

“Foram de muita utilidade as cartas de D. Helder e os relatórios do Dr. Murillo, que descrevem os contatos do Prof. Plinio e sua equipe no Concílio”.
Prof. de MatteiDe fato, esse livro tem suscitado amplo debate, no qual intervieram apologetas de renome aqui na Itália, provavelmente pouco conhecidos no Brasil, como Francesco Agnoli, Mario Palmaro, Alessandro Gnocchi, Corrado Gnerre, os quais se têm expresso em favor das teses que sustento. Enquanto Alberto Melloni, o atual líder da progressista e muito conhecida Escola de Bolonha, assim como outros intelectuais moderados como Andrea Tornielli, o vaticanista do quotidiano “Il Giornale”, assumiram uma posição contrária. Aliás, antes mesmo da tradução de meu livro para outras línguas, ele já está alcançando repercussão em muitos outros países, devido à reprodução em sites e blogs católicos de artigos que se ocupam dele, como um recente post do conhecido vaticanista Sandro Magister.
Catolicismo — E o público brasileiro vai poder beneficiar-se de sua leitura?
Prof. de Mattei — Creio que sim. Mas vai depender das negociações de minha editora, a Lindau, de Torino, com casas editoras de língua portuguesa. Uma das vantagens para o editor em português consistirá em que parte da documentação já está no idioma português.

Catolicismo — Justamente, o Sr. Andrea Tornielli, em sua recensão, admirou-se pelo fato de que há toda uma história “brasileira” do Vaticano II.
Prof. de Mattei — A bibliografia sobre o Concílio Vaticano II é super-abundante. Mas uma das principais fontes, para entender tudo o que sucedeu a latere da assembléia conciliar, influindo sobre ela, são os testemunhos dos participantes e dos espectadores, em particular os diários, as correspondências, as memórias. Nesse sentido, foram para mim de muita utilidade as cartas de D. Helder Câmara, recentemente publicadas, assim como os relatórios do Dr. Murillo Maranhão Galliez, que descrevem os contatos que mantiveram o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e sua equipe de 14 colaboradores, na primeira fase do Concílio.
Tais contatos contribuíram possantemente para a constituição do Piccolo Comitato de Padres conciliares de orientação antiprogressista, que depois ampliou-se no Coetus Internationalis Patrum e teve grande importância nos debates. E, inegavelmente, as almas do Coetus foram D. Geraldo de Proença Sigaud e D. Antonio de Castro Mayer, enquanto D. Marcel Lefebvre assumiu apenas o papel de figura de proa.


Todos os historiadores concordam em que D. Helder foi um dos principais orquestradores da ala progressista durante o Concílio

“D. Helder exercia a função de “eminência parda” do que ele chamava o “sagrado complô”. Além disso, organizava reuniões com teólogos progressistas”


Catolicismo — Pode-se falar, então, de um embate entre D. Helder, de um lado, e de D. Sigaud e D. Mayer do outro?
Prof. de Mattei — Todos os historiadores concordam em que D. Helder — o qual, por sinal, nunca tomou a palavra na aula conciliar — foi um dos principais orquestadores da ala progressista. Porque foi ele que, graças a sua posição de vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, conseguiu arrastar os bispos latino-americanos, em geral bastante conservadores, para uma aliança com as conferências episcopais progressistas da Europa central (França, Alemanha, Bélgica e Holanda).
D. Helder era muito chegado ao Cardeal Suenens, ao qual se referia em suas cartas com o nome-código de “padre Miguel”, e que ele considerava “o chefe mundial do progressismo”. Os dois encontravam-se todos os dias e dividiam o trabalho entre si: Suenens na aula conciliar (ele era um dos quatro Moderadores, além de membro da Comissão de coordenação) e D. Helder atuava nos corredores, onde exercia a função de “eminência parda” do que ele chamava o “sagrado complô”. Além disso, organizava conferências e reuniões na Domus Mariae, a casa religiosa onde residiam os bispos brasileiros, convidando teólogos progressistas como Hans Küng. O sacerdote belga altermundialista François Houtard (que, aliás, confessou recentemente ter abusado sexualmente de um sobrinho...) diz numa carta ao Pe. Oscar Beozzo (cujo livro sobre a Igreja do Brasil no Concílio traz informações preciosas) que a Domus Mariae acabou funcionando “como lugar de reunião e quartel geral” do Ecumênico, a articulação progressista de conferências episcopais dos cinco continentes para influenciar a marcha do Concílio.

Catolicismo — Então, o embate em que se empenharam bispos brasileiros, acabou envolvendo o conjunto dos Padres conciliares?
Prof. de Mattei — O Concílio não durou três meses, como havia calculado ingenuamente João XXIII, nem se desenvolveu na atmosfera de feliz consenso que ele imaginara, mas foi ocasião de entrechoques dramáticos. Se nos limitássemos a fazer uma história “oficial” dele, baseada no resultado das votações, dever-se-ia negar a existência de uma luta interna entre posições opostas, visto que os documentos conciliares foram aprovados por maiorias esmagadoras. Mas, na realidade, nenhum Concílio registrou mais tensões e conflitos entre grupos opostos do que o Vaticano II.
Sem negar essa evidência, os historiadores apresentam o Vaticano II como o choque entre uma “maioria” progressista e uma “minoria” conservadora, derrotada. Na realidade, o confronto foi entre duas minorias que, já em 1963, Mons. Gérard Philips — (professor de dogmática na Faculdade de Teologia da Universidade de Lovaina e secretário adjunto da Comissão teológica do Concílio — descrevia como duas “tendências” opostas da filosofia e teologia do século XX. Na opinião de Philips, uma estava mais preocupada em permanecer fiel aos enunciados tradicionais, e a outra mais atenta à difusão da mensagem evangélica junto ao homem contemporâneo. Para essa segunda tendência (cujos máximos expoentes — Chenu, Congar, de Lubac, etc. — tinham sido repetidamente censurados e condenados por Pio XII), o Concílio representava uma oportunidade extraordinária, porque a natureza dos debates permitia que ambas as posições se apresentassem num plano de paridade ideológica, cujo resultado ficava confiado às regras do jogo parlamentar.

Catolicismo — Mas, se o resultado das votações foi esmagadoramente favorável a essa tendência progressista, por que o Sr. afirma que o embate se deu entre duas minorias?
Prof. de Mattei — No Concílio, criaram-se grupos, definidos pela mídia como uma direita, uma esquerda e um centro. O uso dessa terminologia, ainda que imprópria, não deve surpreender e pode ser aceito por comodidade. Um dos maiores historiadores dos Concílios, o teólogo alemão Karl Joseph von Hefele, relata que, no ano 325, no Concílio de Nicéia, os bispos de doutrina ortodoxa formavam, com Santo Atanásio e seus seguidores, a direita. Ario e seus partidários, que negavam a divindade de Cristo, representavam a esquerda; enquanto o centro-esquerda era ocupado por Eusébio de Nicomédia e o centro-direita por Eusébio de Cesaréia. A posição verdadeira e autenticamente católica não era o tal centro dos dois Eusébios, que formavam uma “terceira posição” entre a ortodoxia e a heresia; mas era a encarnada pela direita de Santo Atanásio, acusado por seus adversários de extremismo e fanatismo. Foi, então, Santo Atanásio — autor do Símbolo da Fé que ainda hoje professamos — quem traçou a História da Igreja nos séculos futuros.






Alguns momentos do Concílio apresentaram analogias com lances 
ocorridos nos Estados Gerais, e suas conseqüências durante a Revolução Francesa 

“Os historiadores apresentam o CV II como o choque entre “maioria” progressista e “minoria” conservadora. Mas o confronto foi entre duas minorias”

Catolicismo — E o Sr. afirma que sucedeu algo similar no Vaticano II?
Prof. de Mattei — No interior da aula conciliar, entre as duas minorias, a conservadora e a progressista, oscilava, como acontece sempre, a massa daqueles que resistiam em tomar partido. Qual era a posição desse centro majoritário? Não é possível saber pelos discursos na aula conciliar, nem pelas apresentações nas comissões, porque apenas uma minoria usou da palavra. Mas pode-se conhecer pelas sugestões e propostas de tema de discussão que, na preparação do Concílio, o episcopado mundial, os superiores religiosos e as universidades católicas enviaram ao Vaticano, em resposta a uma consulta proposta por João XXIII.
A maioria das respostas não pede uma mudança radical, mas sim novas definições doutrinárias — a definição do dogma de Mediação Universal de Maria ou da Realeza de Cristo, por exemplo — e a condenação dos erros doutrinários que grassavam entre os fiéis (notadamente do comunismo).
Pode-se fazer uma analogia entre os vota (nome latino dessas sugestões) dos Padres conciliares e os famosos cahiers de doléances redigidos na França, com vistas aos Estados Gerais de 1789. Antes da Revolução Francesa, nenhum cahier de doléances propunha subverter as bases do Antigo Regime, mas apenas uma moderada reforma das instituições, a supressão de alguns impostos, etc. Mas, de modo inesperado, os Estados Gerais desfecharam na queda da monarquia.
Analogamente, o Concílio não atendeu aos pedidos que emergiam dos vota, mas secundou as reivindicações da minoria progressista que, desde o começo, conseguiu colocar-se à testa da assembléia e orientar suas decisões.

Catolicismo — E como conseguiram essa liderança?
Prof. de Mattei — Também aqui repete-se o que aconteceu na Revolução Francesa: os dias decisivos foram os primeiros, nos quais a legalidade foi quebrada. Em Versalhes, isso aconteceu no dia 17 de junho de 1789, quando os Estados Gerais transformaram-se em Assembléia Constituinte. Em Roma, o dia decisivo foi o 13 de outubro de 1962, apenas dois dias após a inauguração, quando, a pedido do Cardeal Liénart, a eleição dos membros das comissões conciliares foi suspensa, para que as conferências episcopais apresentassem os candidatos. A partir desse momento, elas entraram como grupos organizados na dinâmica conciliar.
Mas, detrás das conferências episcopais havia outros grupos organizados de bispos e teólogos, como o tal Ecumênico já mencionado, que formaram um partido abertamente anti-romano, porque via na Cúria pontifícia e na teologia ensinada nas universidades romanas os inimigos a serem abatidos.
A rede de relações desse setor progressista, que pré-existia ao Concílio, era forte, ramificada, e incluia, além das cúpulas das conferências episcopais, algumas ordens religiosas de “vanguarda” e grupos linguísticos. Incluía sobretudo laboratórios ideológicos, como os de Cuernavaca, no México, de Bolonha, na Itália, e de Lovaina, na Bélgica.

Catolicismo — Mas, do lado conservador, não havia algo parecido?
Prof. de Mattei — Nem um pouco! Os bispos e teólogos fiéis a Roma reagiram muito tardiamente e sem a habilidade estratégica de seus adversários. Segundo uma pesquisadora americana, Melissa Wilde, a minoria progressista prevaleceu graças a sua melhor estratégia e organização.

Catolicismo — Mas o que estava em jogo era atrair para seu lado a maioria centrista...

Prof. de Mattei — Segundo essa mesma pesquisadora, o clima que caracterizou as primeiras fases do debate conciliar foi uma “efervescência coletiva”. Trata-se de uma expressão cunhada pelo sociólogo Durkheim para caraterizar o estado das pessoas quando crêem ter sido transportadas para um mundo completamente diverso daquele que elas têm diante dos olhos. É um estado eufórico de “entusiasmo religioso” bem conhecido dos historiadores. As cartas de Dom Helder oferecem um exemplo típico desse clima de auto-exaltação que é atribuído, de modo simplista, à ação do “Espírito Santo”. Foi já na primeira sessão que o “espírito do Concílio” passou a ser uma das principais motivações dos Padres conciliares e a base de grande número de propostas.

Capa da obra do Prof. de Mattei

“A minoria progressista conseguiu não tanto mudar a doutrina da Igreja, mas substituir sua imagem hierárquica pela imagem de uma assembléia democrática”

Catolicismo — Houve algum episódio particular que tivesse sido marcado por esse ambiente de euforia revolucionária?
Prof. de Mattei — Sim. Por exemplo, na sessão de 30 de outubro de 1962, durante o debate sobre a Liturgia, tomou a palavra o Cardeal Ottaviani, que era detestado pelos progressistasNova Teologia. No calor de seu discurso, ele passou dos dez minutos regulamentares e o cardeal Alfrink, que presidia a sessão, tocou a campainha; Ottaviani, que era idoso e um pouco surdo, continuou a falar. Alfrink deu, então, ordem para cortar abruptamente o microfone. Parte da assembléia aplaudiu calorosamente a humilhação infligida a um dos principais colaboradores do Papa João XXIII! Dom Helder viu aflorar, nesse aplauso, o “espírito do Concílio”... por ser o prefeito do Santo Ofício e, como tal, o responsável pela condenação dos escritos de alguns corifeus da
Outro caso ocorreu durante a fase que os progressistas denominaram “a semana preta”, na terceira sessão, em 1964. O ambiente estava acalorado, porque Paulo VI havia imposto uma “Nota Explicativa Prévia” ao texto sobre a colegialidade, que limitava o alcance do mesmo, e tinha irritado profundamente os progressistas, que desejavam transformar a Igreja numa espécie de república parlamentar. Dois dias depois da leitura dessa “Nota Prévia”, foi anunciado que, a pedido dos conservadores e para respeitar o regulamento, o esquema sobre a liberdade religiosa, que tinha sofrido muitas modificações, não iria ser votado senão na sessão do ano seguinte. Desencadeou-se, então, uma reação furiosa. Na basílica de São Pedro muitos Padres conciliares abandonaram seus lugares para reunir-se e discutir em pequenos conciliábulos. O correspondente do diário parisiense “Le Monde”, Henri Fesquet, escreveu que se ouvia bispos exclamar: “Fomos traídos!” Um americano, referindo-se aos conservadores (ou talvez aos Moderadores!), deixou escapar um dos piores insultos da língua inglesa: “Bastardos!” Os jornais aludiram à “revolta” dos bispos americanos. Pouco depois, na mesma “congregação” (assim eram chamadas as sessões plenárias diárias, na basílica), tomou a palavra Dom De Smedt, um progressista notório, que era o relator do esquema sobre a liberdade religiosa. Quando afirmou que “a Igreja deve ser livre dos poderes políticos” — propunha, na realidade, uma renúncia ao ideal de Cristandade — ouviu-se um aplauso frenético. Dois Moderadores, na mesa da presidência, uniram-se aos aplausos! O ambiente no fim da sessão assemelhava-se à conclusão de um comício político.

Catolicismo — Num tal clima de exaltação era, de fato, mais fácil para a minoria progressista extremada obter da maioria mole tudo o que desejava.
Prof. de Mattei — Não, o jogo era mais subtil. As reivindicações da ala “jacobina” (para exprimir-me em termos da Revolução Francesa) foram rejeitadas pela oposição da minoria conservadora que, aos poucos, foi-se organizando. Os documentos não corresponderam às expectativas dos progressistas mais audazes e foi graças a compromissos obtidos in extremis que é possível ao Papa hoje dizer que os documentos devem ser lidos à luz da Tradição.
Mas a imagem que o mundo formava da Igreja mudou radicalmente. Quando, no dia 12 de outubro de 1963, D. Franiæ, bispo croata de Split, propôs que, no esquema De Ecclesia, ao novo título de Igreja “peregrina” fosse acrescentada a denominação tradicional de “militante”, sua proposta foi rejeitada. A imagem que a Igreja deveria oferecer de si mesma ao mundo não era aquela da luta, da condenação, da controvérsia, mas do diálogo, da paz, da colaboração ecumênica e fraterna com todos os homens. A minoria progressista conseguiu não tanto mudar a doutrina da Igreja, mas substituir a imagem sacral e hierárquica da Esposa de Cristo pela imagem de uma assembléia democrática, aberta às novidades e inserida na História.
O cardeal húngaro Josef Mindszenty, preferiu ser excluído, desprezado, perseguido, do que renunciar à proclamação da verdade, ao combate às falsas doutrinas como era o caso da doutrina comunista

“Historiador não é hagiógrafo. É do ponto de vista histórico que eu exponho juízos sobre Pio XII, João XXIII, Paulo VI e isso não deveria escandalizar ninguém”


Catolicismo — Mas a Igreja, de fato, está inserida na História...

Prof. de Mattei — Não há dúvida. Mas de uma maneira inteiramente diferente daquela que os Padres conciliares progressistas a entendiam, num clima psicológico de otimismo, e mesmo de euforia, que vigorava no início dos anos 60.
Três ícones brilhavam então no firmamento internacional, encarnando esse clima de otimismo; Nikita Krushev, primeiro ministro da União Soviética; Ângelo Roncalli que, desde 1958, era o Papa João XXIII; e desde 1961 John F. Kennedy, primeiro presidente católico dos Estados Unidos.
Em abril desse mesmo ano, o astronauta soviético Gagarin realizou o primeiro vôo no espaço, sugerindo a abertura de nova época de triunfo da ciência. Embora já em agosto de 1961, tivesse sido iniciada a construção do Muro de Berlim...
A influência que o comunismo exercia sobre o mundo, mais do que política e militar, era cultural e psicológica. O marxismo dominava nos ambientes acadêmicos e na mídia, os quais veiculavam conceitos típicos dessa filosofia materialista e evolucionista, como “senso da História”, “curso dos tempos”, “libertação e repressão”. Tratava-se de uma visão dialética, que se exprimia nas novas “palavras-talismã” (a expressão, por sinal, é de Plinio Corrêa de Oliveira) lançadas pela propaganda comunista: diálogo, “coexistência pacífica”, “desenvolvimento” e “emancipação” dos povos. A ideologia subjacente era a do progresso, entendido como marcha irreversível e ascensional da humanidade para atingir uma “felicidade” social apresentada como a transposição do paraíso celeste para a Terra.


Catolicismo — E qual era a posição da Igreja nesse contexto?
Prof. de Mattei — No curso de sua história, a Igreja havia se dirigido ao mundo com a linguagem dos confessores destemidos, dos doutores inflexíveis, dos mártires intransigentes no testemunho da fé, das virgens imaculadas na sua fidelidade ao desponsório com Cristo. Esses homens e mulheres haviam preferido ser excluídos, desprezados, perseguidos, condenados à morte, do que renunciar à proclamação da verdade, ao combate às falsas doutrinas. Era a via indicada por confessores da fé como o Cardeal Stepinac, eliminado pelos comunistas croatas nas vésperas do Concílio, e o cardeal húngaro Josef Mindszenty, exilado desde 1956 na embaixada americana em Budapest.
Mas a cultura progressista que acabo de descrever exercia seu fascínio sobre alguns homens da Igreja, convictos de que era necessário mudar a atitude de confronto com o mundo: renunciar aos anátemas e à condenação dos erros para colher o que o mundo apresentava de positivo. Era a tese defendida por Frei Yves Congar, dominicano francês, depois nomeado cardeal, que exerceu grande influência no Concílio. Ele afirmava que não existiam “germes ativos nos quais não haja também micróbios”; ou seja, erros nos quais não haja verdades. E como matar os micróbios significaria matar também os germes vivos, seria necessário, segundo ele, deixar prosperar uns e outros. A condenação dos erros por parte da Igreja, desde as heresias medievais até o Modernismo, havia extinguido os aspectos positivos neles presentes e teria sido melhor deixá-los viver e difundir-se. Congar propunha, então, mudar a Igreja internamente, por meio de “uma reforma sem cisma”. “Não é preciso fazer uma outra Igreja”, explicava, “é necessário fazer uma Igreja diferente”. Tal plano de modificar a Igreja a partir de seu interior era o antigo sonho, irrealizado, dos modernistas.
Entre os que acolhiam as teses de Congar havia um grupo de Padres conciliares da Europa central, entre os quais se destacava o Primaz da Bélgica, o jovem cardeal Léo-Joseph Suenens. Seis meses antes do início do Concílio, João XXIII pediu-lhe para preparar uma nota sobre o rumo que o Concílio deveria seguir. Suenens reuniu então um grupo de cardeais, no próprio Colégio Belga de Roma, a fim de discutir um plano e uma estratégia para o próximo Concílio. Participaram da reunião, entre outros, três prelados que iriam desempenhar papel decisivo: o cardeal Döpfner, arcebispo de Munique, o cardeal Liénart, arcebispo de Lille, e o cardeal Montini, arcebispo de Milão e futuro Papa Paulo VI. No documento que foi redigido com base nessa reunião, o cardeal Suenens lançava a palavra de ordem do “Concílio pastoral”, que foi adotada como linha estratégica por João XXIII.

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 Fonte: Revista Catolicismo : http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/A7DED917-3048-313C-2E21AA93BB411573/mes/Mar%C3%A7o2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Cardeais afirmam que abusos litúrgicos enfraquecem a Fé

     Um enfraquecimento da fé em Deus, um aumento do egoísmo e uma queda no número de pessoas indo à Missa pode ser causado pelos abusos litúrgicos ou a Missas que não são reverentes, afirmaram dois Cardeais e um consultor do Vaticano.

O Cardeal Burke e o Cardeal espanhol Antonio Canizares Llovera, prefeito da Congregação para o Culto Divino e os Sacramentos, estiveram ontem no lançamento de um livro em Roma.
O livro, publicado somente em italiano, foi escrito pelo Pe. Nicola Bux, o qual serve como consultor para as Congregações da Doutrina da Fé e para a Causa dos Santos e ao Ofício encarregado das liturgias papais.
A tradução do título do livro do Pe. Bux seria “Como ir à Missa e não perder a sua fé”.

O Cardeal americano Raymond Burke, chefe da suprema corte do Vaticano, asseverou: “Se nós errarmos pensando que somos o centro da liturgia, a Missa há de levar à perda da fé”.   O Cardeal Burke disse àqueles reunidos para a apresentação do Pe. Bux que “os abusos litúrgicos levam a sérios danos à fé dos Católicos”. Infelizmente, afirmou ele, sacerdotes e bispos demais tratam as violações às normas litúrgicas como algo que não é importante quando, com efeito, são “sérios abusos”.

O Cardeal Cañizares disse que embora o título do livro seja provocativo,
demonstra um pensamento do qual ele compartilha. “Participar da Eucaristia pode enfraquecer ou nos fazer perder a fé se não entrarmos nela apropriadamente” e se a liturgia não é celebrada de acordo com as normas da Igreja. “Isto é verdadeiro tanto em relação à forma Ordinária quanto à Extraordinária do único Rito Romano”, disse o Cardeal. O Cardeal Cañizares afirmou que uma época em que tantas pessoas estão vivendo como se Deus não existisse, elas têm necessidade de uma verdadeira celebração eucarística para lembrá-las de que tão somente Deus deve ser adorado e que o verdadeiro sentido na vida humana vem somente do fato de que Jesus deu sua vida para salvar o mundo.

Pe. Bux disse que grande número de católicos modernos pensa que a Missa é algo que o sacerdote e o povo fazem juntos quando, na verdade, é algo que somente Jesus faz. “Se você vai à Missa em um local e depois vai à Missa em outro, você não encontrará a mesma Missa. Isto significa que esta não é a Missa da Igreja Católica, à qual as pessoas têm direito, mas é somente a Missa deste ou daquele padre”, disse ele.

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Fonte: Cindy Wooden no Catholic Herald.co.uk
Tradução Montfort

quinta-feira, 24 de março de 2011

“VASSULA RYDEN”: EXCOMUNGADA!

     

Vasiliki Paraskevis Pentaki, a “Vassula Ryden”, muito conhecida e laureada em círculos da Renovação Carismática (RCC) e recomendada por muitos padres carismáticos, fora agora excomungada pela Igreja Cismática Ortodoxa. Per si, a situação de Vassula, como cismática, era obstante para os Católicos. Agora, os próprios cismáticos Ortodoxos a consideram um verdadeiro perigo, juntamente com sua organização chamada de “Verdadeira Vida em Deus”.
Conforme o Patriarcado Ortodoxo, a atual condição dela, priva Vassula de toda comunhão eclesiástica – que já era inaceitável em meios católicos – também nas Igrejas Cismáticas visando afastar suas ilusões o quanto possível para preservar a piedade.
O motivo dessa excomunhão leva em conta que seus ensinamentos se baseiam levianamente em diálogos de Vassula com Cristo, causando escândalos entre as pessoas de piedade.
A excomunhão não foi lançada somente em Vassula, como também em todos os “adeptos” que de forma arbitrária aderiram os seus ensinamentos, pessoas as quais ela conquistou com sua nefasta confusão espiritual:
  “Neste espírito, e para a benéfica proteção dos piedosos ortodoxos da perigosa confusão espiritual, daqueles que não conhecem bem as questões subjacentes ao risco de ilusão, rejeita, a partir da Madre Igreja, Vasiliki Paraskevis Pentaki – Ryden, amplamente conhecida como “Vassula”, e sua organização fundada sob o título “A Verdadeira Vida em Deus”, que de forma precipitada e leviana propõe ensinamentos baseados no suposto “diálogo dela diretamente com o Fundador da Igreja, Jesus Cristo Nosso Senhor”, seus seguidores e os partidários do movimento “A Verdadeira Vida em Deus “, que não só se desviam de forma arbitrária  do ensinamento dado por Deus à Igreja, mas também escandalizam a razão dos piedosos crentes ortodoxos.
Por isso, afirmamos aos proponentes dessas inovações inaceitáveis e os adeptos que pretendem mantê-las, que, doravante, não são mais admitidos à comunhão eclesiástica, não só para o envolvimento no trabalho pastoral da Santa Metrópolis, mas também proibidos de comunicar os seus novos ensinamentos, a fim de evitar as sanções adequadas sob os Cânones Santos.” (Patriarcado de Constantinopla, Chefe da Secretaria do Santo e Sagrado Sínodo, 16/03/2011)

N.B.: Trad. Montfort

segunda-feira, 21 de março de 2011

SÃO JOSÉ, NOSSO PATRONO



Por Prof. Pedro M. da Cruz



     São José é um modelo sublime dos defensores de Nosso Senhor. Aquele que desejar tornar-se paladino do Corpo Místico deverá ter no esposo de Maria Santíssima a fonte de seus anseios, o alimento de suas pretensões. Se o fizer não falhará nesta santa empreitada.
O que escrevi?! “Esposo de Maria Santíssima”! Que graça! Que honra indizível! Quisera poder expressar em palavras louvores devidos por tal dignidade, porém, não o posso. Acredito que nem mesmo os anjos poderão jamais fazê-lo devidamente.
Portanto, para honrar a São José, tentando condensar numa frase esplendores incalculáveis, basta repetirmos o imponderável: “Salve, esposo de Maria!” Então, os anjos se “comoverão”, e, ele, no silêncio adorador de sua alma, explodirá em louvores por tal dádiva.
     Realmente, que esposa! Rainha dos céus, Rainha da terra, e, para abafarmos todas as outras dignidades: Mãe de Jesus Cristo, o Deus encarnado! É glória demais para simples criaturas! Uma, é Mãe do próprio Deus, o outro, esposo desta mesma Theotokos. Estamos perante realidades que transcendem a simples especulação humana; só Deus poderá elevar-nos à contemplação devida de tais mistérios.
Imaginem os senhores se pudéssemos observar, um segundo que fosse, a santa convivência deste casal! Os olhares, os sorrisos, as palavras... Enfim, todo e qualquer movimento, desde um simples bocejo, até um ósculo esponsal, este, puro e angélico; que magnífico seria! Suplicaríamos a Deus, entre lágrimas e gemidos, que nos deixasse ali por toda a eternidade.
Então, São José, porte ereto, viril, fitar-nos-ia com candura, a nós, discípulos de seu filho. Maria Santíssima se alegraria ao ver, a pesar de tanta miséria humana, o acanhado reconhecimento, por nossa parte, da grandeza de seu esposo. E, por fim, nos apresentaria o Divino Infante. Oh, Deus! Calemo-nos aqui.
Que poderia ser dito perante aquela criança extraordinária?Nada. Deus é para ser adorado.
Senhores, terminemos assim nossa reflexão: Calados.
Calados pela grandeza do menino.
Calados pela grandeza de sua Mãe.
Calados pela grandeza de São José, esposo de Maria Santíssima. E, nem falamos de sua paternidade...

São José, esposo de Maria, rogai por nós!

quarta-feira, 9 de março de 2011

SÓCRATES E JESUS CRISTO



Transcendência da revelação cristã
     “Nossa doutrina revela-se a superior a qualquer doutrina humana, porque temos o Logos inteiro em Cristo”... Tudo o que os filósofos e legisladores exprimiram e descobriram de certo devem-no ao que encontraram e contemplaram parcialmente no Logos. Contudo, não tendo conhecido a totalidade do Logos, que é Cristo, muitas vezes eles mesmos contradisseram-se. Os que viveram antes de Cristo, e procuraram contemplar as coisas e transmiti-las segundo o logos humano, foram postos na prisão como ímpios e sacrílegos. Sócrates, que se aplicou a isso com maior ardor que ninguém, viu caírem sobre ele às mesmas acusações dirigidas a nós. Dizia-se que introduzia divindades novas e não acreditava nos deuses reconhecidos na cidade. Expulsando dela Homero e ou outros poetas, que ele ensinava os homens a se desviar das falsas divindades... e os exortava a descobrir o Deus que ignoravam, por meio da busca da razão (logos). “Encontrar o Pai e artífice do universo não é fácil, dizia, e para quem o encontrou revelá-lo a todos não é prudente”. Foi o que fez nosso Cristo (ou seja, revelá-lo a todos) por seu próprio poder. Porque ninguém acreditou em Sócrates a ponto de morrer por sua doutrina, mas Cristo, que Sócrates conheceu parcialmente – ele era de fato o Logos presente em tudo... -, foi acreditado não somente pelos filósofos e letrados, mas pelos artesãos e pelos piores ignorantes, que desprezaram a opinião, o temor e a morte, pois ele é o Poder inexprimível do Pai, e não uma produção do logos humano.
      Não é que os ensinamentos de Platão sejam estranhos a Cristo, mas não são semelhantes em tudo, bem como os dos outros, estóicos, poetas e escritores. Cada um deles, na verdade, quando via parcialmente aquilo do Logos divino disseminado (no mundo) se assemelhava a si, falou, sim; porem, contradizendo-se sobre coisas essenciais, mostram que não possuem uma ciência superior, nem um saber irrefutável... Pois uma coisa é a semente e a imitação (da verdade), dada segundo a capacidade (humana), e outra, o próprio objeto do qual há participação e imitação (a saber: a verdade que é Cristo) por graça ( divina).

Fonte: Apologia II, 10 e 13. Retirado do livro: Os padres da Igreja, de Jacques Liébaert, pág,52. Ed. Loyola.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

BÍBLIA: CATÓLICA x PROTESTANTE



“Declaro a todos os que lerem as palavras deste livro (...) se alguém dele retirar qualquer parte, Deus lhe retirará a sua parte da Árvore da Vida e da Cidade Santa.” (Apoc. 22,19).



Por Prof. Pedro M. da Cruz

 
     Muitas vezes os Católicos são surpreendidos por pessoas que atacam, sem dó nem piedade”, sua Igreja duas vezes milenar. Uma das críticas mais correntes é o fato de a Bíblia católica possuir mais livros que a bíblia de uso protestante. Dizem que o catolicismo teria inventado sete livros a mais e, portanto, deturpado a Sagrada Escritura. Vemos aí como é grande a ignorância nos tempos hodiernos.

      Possa a Santíssima Virgem Maria alcançar de Deus toda sorte de bênçãos para nossos leitores, a fim de que se transformem em ardorosos defensores da única Igreja verdadeira.


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Os Livros Deuterocanônicos do Antigo Testamento

“1 – Há livros cuja INSPIRAÇÃO NUNCA foi seriamente contestada; e que por esse motivo SEMPRE figuraram no CÂNON. Chamam-se PROTOCANÔNICOS.

Outros, cuja inspiração foi posta em DÚVIDA por ALGUMAS igrejas PARTICULARES e cuja aceitação UNIVERSAL, por causa dessas controvérsias, foi mais TARDIA, chamam-se DEUTEROCANÔNICOS.”

Livros DEUTEROCANÔNICOS do Antigo Testamento:

1º - TOBIAS
2º - JUDITE
3º - SABEDORIA
4º - ECLESIÁSTICO
5º - BARUQUE
6° - I   MACABEUS
7° - II MACABEUS
8º - Fragmentos de ESTER
9° - Fragmentos de DANIEL.

“Todos esses livros, os protestantes excluíram de suas bíblias.

Três séculos antes de Cristo, em Alexandria, SETENTA E DOIS SÁBIOS vertiam para o grego a S. Escritura. É a TRADUÇÃO DOS SETENTA, chamada também tradução de alexandria. Essa versão que incluía tanto os protocanônicos como TODOS os deuterocanônicos, sem estabelecer, entre uns e outros, diferença alguma, era USADA por TODOS os judeus de língua GREGA que moravam em Alexandria, Ásia Menor, Grécia, Itália e mesmo em JERUSALÉM nas comunidades judaicas de língua grega.

Os judeus da DIÁSPORA recebiam a direção religiosa dos seus correligionários PALESTINENSES.  Se, pois, eles consideraram os deuterocanônicos como inspirados, chegando até a traduzi-los para o grego, é porque esses livros eram PRIMITIVAMENTE ACEITOS NA PALESTINA.

3 – Essa mesma Bíblia dos SETENTA era usada por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, o que significa que os Apóstolos aceitavam a AUTORIDADE dessa versão e, por conseguinte, a ORIGEM DIVINA DOS DEUTEROCANÔNICOS.

É ainda a tradução dos SETENTA que Cristo e os escritores sagrados do Novo Testamento, assim como os demais apóstolos, CITAM do Antigo Testamento. Das 350 citações do Antigo Testamento que encontramos no Novo, 300 (TREZENTAS) são tiradas DIRETAMENTE da BÍBLIA DOS SETENTA. Os Apóstolos, portanto, aceitavam a AUTORIDADE dessa tradução dos SETENTA.

4 - Se a Igreja, pois, aceita esses livros, rejeitados pelos protestantes, é baseada na autoridade dos APÓSTOLOS que também os aceitavam. Esses Apóstolos aos quais Cristo disse: ‘Quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita, a mim me rejeita’, e que no PENTECOSTES receberam o ESPÍRITO SANTO, estavam em condições de saber se essa Sagrada Escritura que usavam ERA OU NÃO INSPIRADA PELO ESPIRITO SANTO, do qual ‘estavam todos cheios’. Se aceitavam os SETE LIVROS, e também os fragmentos de Ester e Daniel, como parte integrante da Bíblia, era bem porque tais livros e fragmentos pertenciam de fato à Sagrada Escritura.

5 – Mais. Todas as bíblias usadas pelos discípulos imediatos dos apóstolos continham também TODOS ESSES LIVROS. E os primeiros cristãos, cuja grande maioria vinha do paganismo ou das comunidades judaicas gregas, e que ignoravam a língua hebraica, USAVAM A MESMA BÍBLIA QUE OS APÓSTOLOS.  Ora, se os Apóstolos não tivessem por INSPIRADOS os livros deuterocanônicos, DEVERIAM AVISAR aos neófitos. O que não fizeram. A conclusão é legítima: OS PRÓPRIOS APÓSTOLOS TINHAM OS DEUTEROCANÔNICOS POR LIVROS DIVINOS.

E tal CRENÇA não podia ser FALSA, pois tratavam-se de livros ‘REGULADORES DA NOSSA FÉ’, para cujo discernimento fundara Cristo a IGREJA e aos Apóstolos dera a INFALIBILIDADE, aqui posta toda em jogo...

Ora, a Igreja Católica, que é também APOSTÓLICA, deve, a exemplo dos apóstolos, aceitar esses livros deuterocanônicos.

A inspiração divina desses mesmos livros é reconhecida também pela Igreja Ortodoxa e pelas igrejas cristãs do Oriente.

6 – A Bíblia dos SETENTA, usada por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, bem como pelos discípulos imediatos dos apóstolos e pelos neófitos, era também usada pelos cristãos dos primeiros séculos e pelos sábios: os Stos. Padres e os Escritores eclesiásticos.

Protocanônicos e deuterocanônicos são citados como tendo igual valor (...). Que os cristãos desses recuados tempos estivessem acostumadíssimos com a leitura dos "7 livros", hoje cortados pelas bíblias não católicas, sobejamente provam as pinturas das CATACUMBAS, onde os artistas cristãos representavam cenas tiradas igualmente dos protocanônicos como dos deuterocanônicos (...), enquanto que até o século V não encontramos cena alguma tirada dos APÓCRIFOS.

7 - Somente no século IV notam-se algumas hesitações entre alguns PADRES. A grande maioria deles, porém, e dos escritores eclesiásticos, permanece favorável aos deuterocanônicos. Que a Sta. Igreja sempre os teve TODOS  por inspirados, bastem-nos os seguintes documentos PONTIFÍCIOS da época:”

1) O Concílio Romano - ano 382;

2) O Concílio de Hipona - ano 393;

3) O 3º Concílio de Cartago – ano 397;

4) A Carta de Inocêncio I – ano 405 (Endereçada a Sto. Exupério de Tolosa);

5) O 4º Concílio de Cartago – ano 419;

6) O Decreto de Gelasiano – ano 492.

Por fim, podemos citar: o Concílio florentino ocorrido em 1441, o de Trento em 1546 e, finalmente, os dois últimos concílios ocorridos no Vaticano.

“Todos esses Concílios da Igreja afirmam e definem solenemente a inspiração divina e a canonicidade dos 73 livros...”.

“8 – As hesitações de alguns PADRES contra o ensino tradicional da Igreja, no tocante à nossa questão, têm sua explicação. Uma parte dos judeus da PALESTINA  atribuía aos deuterocanônicos um valor inferior aos protocanônicos; enquanto que os judeus da DIÁSPORA (fora da Palestina), de Alexandria, Antioquia etc. tinham-nos por inspirados. As hesitações dos Padres OCIDENTAIS provêm todas de SÃO JERÔNIMO, que, indo morar na PALESTINA, deixa-se influenciar pelos judeus PALESTINENSES. Essa influência, dado o inconfundível destaque do grande Doutor na Igreja, tem o seu eco no Ocidente...

Não nos esqueçamos, também, de que nas controvérsias com os judeus os Padres alexandrinos não podiam usar os deuterocanônicos, por serem rejeitados por aqueles...
Finalmente a MULTIPLICIDADE DOS APÓCRIFOS  aumentou ainda mais as desconfianças contra os deuterocanônicos.

Conclusão óbvia: Rejeitar os DEUTEROCANÔNICOS é mutilar a Palavra de Deus escrita: a Sta. Bíblia.”

(P.S.: Como se pode perceber o texto é antigo e se ressente das particularidades do autor, porém o conteúdo poderá ajudar a muitos.)

Referência bibliográfica:

STRABELLI, Pedro. A Santa Bíblia ante as mil seitas protestantes. São Paulo: Esclarecimentos aos Católicos, 1958. 177 pg.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

DO HUMILDE SENTIR DE SI MESMO

Humildade e simplicidade na busca ordenada do saber

Todo homem tem desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem se despreza e não se compraz em humanos louvores. Se eu soubesse quanto há no mundo, porém me faltasse a caridade, de que me serviria isso perante Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?

1. Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Os letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas palavras não satisfazem à alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.

2. Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado, se com isso não viveres mais santamente. Não te desvaneças, pois, com qualquer arte ou conhecimento que recebeste. Se te parece que sabes e entendes bem muitas coisas, lembra-te que é muito mais o que ignoras. Não te presumas de alta sabedoria (Rom 11,20); antes, confessa a tua ignorância. Como tu queres a alguém te preferir, quando se acham muitos mais doutos

do que tu e mais versados na lei? Se queres saber e aprender coisa útil, deseja ser desconhecido e tido por nada.

3. Não há melhor e mais útil estudo que se conhecer perfeitamente e desprezar-se a si mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, prova é de grande sabedoria e perfeição. Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo.

MARIA SEMPRE!

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Fonte: Imitação de Cristo - Tomás de Kempis - Cap. 2

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

INQUISIÇÃO: Mito e realidade histórica

     A verdade é bem diferente da ficção que se divulga sobre a Inquisição. Há necessidade de analisá-la com serenidade, com base na ciência histórica e dentro do contexto da época de sua existência.               
Prof. Dr. Roman Konik, da Polônia
O Prof. Dr. Roman Konik, nascido em 1968, além de publicista e comentarista de fatos quotidianos de seu país, é doutor em filosofia, professor adjunto da cátedra de estética na Faculdade de Filosofia da Universidade de Wroclaw (Polônia). É autor do livro Em Defesa da Santa Inquisição. A obra suscitou muita polêmica, e apesar do boicote sofrido por parte de livrarias — devido à legenda negra que se criou em torno do tema, apontando os inquisidores como “carniceiros”, torturadores, etc. –– despertou bastante interesse, já tendo sido vendidos mais de 35 mil exemplares. Com a polêmica, o jovem professor vem sendo convidado para conferências em diversas cidades de seu país, a fim de expor sua visão objetiva e bem documentada sobre o assunto, oposta aos mitos criados por certa literatura liberal contra o Tribunal do Santo Ofício.
Na entrevista concedida ao Sr. Leonardo Przybysz, nosso correspondente em Cracóvia (Polônia), comprova-se como os fatos — alicerçados na realidade histórica, e que se tornaram patentes mediante rigorosas pesquisas — diferem inteiramente das fantasias criadas e das detrações anti-Inquisição, embora não se negue que tenha havido certos abusos cometidos por alguns poucos inquisidores.
* * *
Catolicismo — Em seu livro Em defesa da Santa Inquisição, o Sr. explica que a Inquisição não era a responsável pela execução das penas de morte, mas sim os tribunais leigos. Não será esse ponto de vista semelhante às opiniões de alguns historiadores judeus, que dizem não ter sido o Sinédrio o responsável pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o Tribunal Romano?

São Pio V antevendo a batalha de Lepanto. 
Antes de ser Papa ele foi inquisidor-mor na Itália.
   
Prof. Konik — Sempre que tocamos no assunto do funcionamento da Inquisição, precisamos considerá-la sob o prisma da época em que ela atuou. Na Idade Média, a Religião constituía a garantia e o fator de coesão do Estado. Sempre que tentamos delimitar o Direito civil e o eclesiástico, encontramos dificuldades. Os leitores das crônicas de Gall Anonim (monge beneditino que escreveu a história da Polônia desde o início até o século XII; não se conhece seu nome; alguns dizem que vinha da Gália, daí o nome Gall Anônimo) muitas vezes fazem a pergunta: quebrar os dentes publicamente com um pedaço de pau, devido à quebra ostensiva do jejum, constituía uma pena civil ou eclesiástica? Na verdade, era uma pena civil à qual a Igreja se opunha.
Na Idade Média, os problemas criminais, civis e religiosos se interpenetravam. Lendo os autos dos processos inquisitoriais, mais de uma vez encontramos bandidos comuns que, surpreendidos pela polícia no ato de violação, de roubo, de assalto à mão armada, rapidamente inventavam uma motivação religiosa para explicar o seu procedimento. Por quê? Simplesmente para cair na esfera da justiça da Inquisição e não da justiça civil ou temporal. Pois a justiça inquisitorial garantia pelo menos uma investigação, em vez da pena de fogueira imediata, a qual — como a pena de morte ou o decepamento da mão — não foi absolutamente invenção dos inquisidores.
Lembremo-nos de que nesse período histórico aplicava-se a pena de morte até pela falsificação de dinheiro ou pela ofensa à majestade real. Analogamente aceitava-se o fato de que a ofensa dirigida a alguém superior ao rei, ou seja, a Deus, só poderia ser punida da mesma forma. Os hereges pertinazes, mais freqüentemente os heresiarcas (isto é, os autores de heresias) e que se recusavam a abandonar o erro eram tratados como rebelados comuns. Isso se compreende, considerando-se que a atuação de herejes como os cátaros destruía a ordem social. Eles não aceitavam o funcionamento da sociedade civil e eclesiástica, incitavam à renúncia da medicina e à completa abstinência sexual, inclusive no casamento, ou ao ritual chamado endura (morte voluntária pela extenuação do organismo, ou morte pela fome). Promoviam o aborto, acreditando ser melhor uma criança não nascer neste "vale de lagrimas", e ir assim diretamente para o Céu. Grupos de hereges revoltosos atraíam os pobres para suas fileiras, sob a promessa de que, roubando aos ricos, contribuíam para criar uma igreja nova, na qual as chances seriam iguais para todos. Isso não era uma contravenção estritamente religiosa, razão pela qual muitas vezes, após o julgamento e definição do grau de heresia, os rebeldes eram entregues ao braço civil para que se procedesse ao devido processo penal que dizia respeito a questões criminais: roubo ou violação. Freqüentemente acabava em pena de morte, mas a responsabilidade dos inquisidores em relação ao direito era igual à de cada cidadão. Uma situação equivalente, hoje em dia, consistiria em a Igreja concluir de acordo com o Direito Canônico um processo de sacerdote por crime de pedofilia, e em seguida entregar o caso à Procuradoria para que concluísse a investigação e aplicasse a devida pena.
A maior parte das heresias nascidas na Idade Média atingia sobretudo a justiça civil. Vale a pena lembrar que o tribunal inquisitorial, entregando o herege à autoridade civil, incluía uma carta recomendando prudência na decisão.

Catolicismo — Também em seu livro o Sr. aponta a criação de um quadro negativo da Inquisição através de livros (sobretudo O Nome da Rosa, de Umberto Eco), pinturas, filmes ou exposições. Realmente, muitos artistas que retrataram a Inquisição (por exemplo, Goya) não viveram na época de sua existência. Pode-se pois perguntar se é fidedigno o que apresentaram. O Sr. conhece artistas que viveram no tempo da Inquisição atuante, que a mostraram de modo fiel?
 
São Pedro de Verona, inquisidor-mártir 
morto por ódio à fé por hereges
Prof. Konik — Na mente do homem de hoje, há uma idéia comum que considera o inquisidor como um velho monge encapuzado com inclinações sádicas, inflamado do desejo de autoridade. O melhor exemplo disso é a figura de Bernard Gui, inquisidor de Toledo, descrito pelo conhecido medievalista italiano Umberto Eco em seu livro O Nome da Rosa. Pior ainda é a imagem apresentada no filme realizado com base em tal obra. Bernard Gui, como figura histórica real, foi inquisidor de Toledo e durante 16 anos exerceu esse cargo. Julgou 913 pessoas, das quais apenas 42 ele entregou ao tribunal civil como perigosos rebeldes (reincidentes, pedófilos, criminosos), o que não significava absolutamente pena de morte para eles. Em muitos casos Gui indicava tratar-se de doença psíquica, suspeição de heresia, desistindo de interrogatórios. Segundo a visão preconceituosa dos protestantes, é certo que essas pessoas iriam para a fogueira, ao contrário da verdade histórica.
É importante registrar que escritores protestantes, pouco simpáticos à Inquisição, começaram a escrever a história dela de maneira desfavorável, apresentando-a deformada. Também nas expressões artísticas das épocas posteriores à medieval verificou-se um reflexo dessa visão caricatural. Mas basta analisar o mundo artístico medieval para observar quadros que apresentam São Domingos convertendo os hereges, São Bernardo de Claraval discutindo com eles, ou então pinturas de inquisidores-mártires morrendo nas mãos de hereges — por exemplo, o martírio de São Pedro de Verona; ou de São Pedro de Arbués, assassinado na catedral de Saragoça (Vide seção Vidas de Santos).
Exemplo de ódio radical contra a Igreja e da manipulação a que me referi é um quadro no Museu Nacional de Budapeste, apresentando uma sala de torturas, intitulado no catálogo “Inquisição”. Só depois de muitos protestos de historiadores, mostrando que o quadro apresentava cena de tortura num tribunal civil, é que o título foi mudado para “Sala de torturas”.
Lembremo-nos de que foram as descrições caricaturais de Diderot, Voltaire e até Dostoiewski que formaram na mente do homem de hoje a visão da Inquisição como um espectro. Os historiadores poloneses também não ficaram atrás dos historiadores “progressistas”. Deparando diariamente com essa visão distorcida da Inquisição, o homem comum é inclinado a aceitá-la como verdadeira.

Catolicismo — O Sr. diz que os inquisidores eram pessoas simpáticas, esclarecidas. Mas tanto ouvimos falar deturpadamente sobre as inimagináveis e sádicas torturas...
 
São Domingos manda queimar
 livros de hereges albigenses
 
Prof. Konik — Se isso fosse verdade, então por que tantos malfeitores esforçavam-se em demonstrar que suas infrações eram de natureza religiosa, para que dependessem de juízes-inquisidores? Certamente não era porque gostassem de ser torturados... Lembremo-nos de que nesse tempo os tribunais civis em geral aplicavam torturas como forma, por exemplo, de um acréscimo de castigo, que precedia a morte. Já nos tribunais inquisitoriais as torturas, quando aplicadas, o eram somente com o objetivo de obter informações muito importantes. Na legislação medieval a aplicação de torturas era geral, mas os tribunais inquisitoriais as adotaram de forma muito abrandada. Proibiam torturar mulheres grávidas, crianças ou pessoas idosas. Para aquela época, isso era considerado inovador, pois nos tribunais civis tais pessoas não eram excluídas da possibilidade de serem torturadas. Era proibido também torturar duas vezes a mesma pessoa. A aplicação de torturas devia ser decidida por aclamação de todos os juízes — como também do defensor do réu — e com a aprovação do bispo local e de um consultor independente. Ressalto que as torturas aplicadas pela Inquisição eram raras. Na França, onde se efetuava a luta contra a seita dos albigenses, durante 200 anos só três vezes decidiu-se aplicá-la. A tortura mais freqüente era privar o condenado de alimentação, ficando ele totalmente isolado. Os tribunais da Inquisição foram os primeiros a garantir a defesa ex-ofício e o que hoje é praticado: a prisão domiciliar e a liberdade mediante caução. As informações obtidas através de torturas não podiam ser consideradas como prova e deviam ser confirmadas num período posterior de 24 horas.
Os inquisidores eram recrutados sobretudo entre os melhores religiosos, de alta formação e de fama ilibada. A idade mínima era 40 anos, devido à experiência de vida, e tendo em vista precaver-se contra decisões apressadas, próprias da juventude. Os inquisidores não podiam usar arma. Eram pessoas normais do povo, freqüentemente viajantes, intelectuais curiosos de conhecer o mundo. A autoridade do inquisidor era geral na sociedade. Após o assassinato de Pedro de Verona, um dos mais conhecidos inquisidores, a multidão bradou: santo súbito. Este fato está em clara contradição com a idéia que as pessoas hoje fazem sobre os representantes dessa “profissão”.
Também a carta dos bispos do Sínodo de Toledo causa surpresa, pedindo aos inquisidores que sejam moderados nos jogos e não fiquem até tardias horas nas praças.

Catolicismo — Será que a comparação que o Sr. faz em seu livro, das seitas heréticas com grupos comunistas, não constitui analogia um tanto exagerada?
Dr. Roman Konik autografando seu livro Em Defesa da Santa Inquisição

Prof. Konik — Mas, de fato, não foi isso (ou seja, medidas de caráter comunista) que fizeram os irmãos dulcianianos (seita medieval, muito esquerdista, liderada por Dulcian, que atuou sobretudo na Itália), os quais lutaram para introduzir a comunidade de bens, e assim privar a todos da propriedade privada? Lembremo-nos de que a atuação dos hereges não era apenas na linha da persuasão, mas freqüentemente obrigavam as pessoas ricas a “distribuírem aos necessitados” seus bens; os quais, como sempre acontece nessas situações, eram imediatamente defraudados. A semelhança também existe na esfera da propaganda: tanto a esquerda moderna como os hereges de outrora empenhavam-se em introduzir a “justiça social”, utilizando chefes carismáticos para enganar a população. É digno de nota que os movimentos heréticos nunca tentaram arregimentar membros da classe intelectual, procurando sempre apoio nas classes mais baixas, de pouca instrução. A semelhança entre os hereges medievais e a esquerda moderna é notória também pelo fato de que ambos os movimentos dirigem-se às pessoas numa linguagem que elas querem ouvir. Nas homilias dos hereges cátaros, nunca aparece o elemento de responsabilidade pessoal. Não está presente o Juízo Final, o Purgatório não existe, mas somente o Céu, e este é destinado a todos. Como no socialismo: a visão da vida na Terra sem que se assumam responsabilidades foi, é e será sempre algo que atrai.

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Fonte: Revista Catolicismo, Setembro de 2006